terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sou marxista , não materialista


Falando em linguagem simples, apenas para esclarecer algo, muitos entendem que o defensor do marxismo, necessariamente tem que ser ateu, principalmente os historiadores. Haja vista, que um dos principais fundamentos do marxismo é o materialismo histórico (doutrina do marxismo que afirma que o modo de produção da vida material condiciona o conjunto de todos os processos da vida social, política e espiritual). No entanto, não é bem assim, apesar de entender que o modo de produção é determinante no processo de evolução das sociedades, pois tudo gira em torno da economia, principalmente no mundo atual. Se a economia do país vai mal os demais setores também serão afetados, o que gera instabilidade e crises de toda ordem. Quais foram as principais causas das guerras ao longo de toda a História da humanidade? Não é difícil responder. A maioria das guerras tem suas origens em disputas econômicas(territórios, matérias-primas e mercados de consumos). Você vale pelo que tem e pelo que come. A maioria dos indivíduos na sociedade continuam sendo vítimas de uma ideologia dominante, que nos faz submisso as suas leis, que são regras de mercados, onde se compra e vende.

Marx ao elaborar o método dialético, conseguiu provar cientificamente através da História e da Filosofia, que a história da sociedade é um processo antagônico, onde forças se confrontam, senhores e escravos, nobres e servos, patrão e empregado, e assim por diante. Isso tem origem com o surgimento da propriedade privada, pois aqueles que a detêm, conseqüentemente, obterar também o poder político e o domínio sobre os demais. Numa relação que se estabelece, onde quem tem o poder econômico manda, quem não tem obedece. Nesse aspecto nada mudou e as idéias de Marx continuam em voga. Então qual a grande falha de Marx? Eis a questão!!! Eu entendo que o grande equivoco de Marx foi tentar aplicar a dialética na relação entre Deus e o homem, criador e criatura. Talvez ele tenha entendido que o corpo é inimigo da alma. No entanto é a alma que dar vida ao corpo, portanto o espiritual é superior ao material em todos os aspectos. As relações entre Deus e os homens não são injustas e nem tão pouco desiguais, apesar de Deus ser o senhor de tudo e de todos.

A relação entre os homens entre si é que são injustas e perversas, e Deus não pode ser culpado por isso, como afirmara Marx, ao confundir a imagem do Deus criador com a postura e o propósito da religião cristã naquela época. Onde católicos e protestantes estavam a serviço das classes dominantes e do Imperialismo, a pretexto de "evangelizar" e levar o “progresso” para os “bárbaros” (africanos e asiáticos) que desconheciam a civilização ocidental cristã.

Portanto, assim como Marx estava errado ao negar a existência Deus em sua plenitude ao considerá-lo como produto do imaginário social e cultural nas diversas sociedades. Da mesma forma, os cristãos que afirmam que aqueles que combatem as injustiças e as desigualdades sociais e sonham em construir uma sociedade sobretudo justa e humana estejam contra Deus. É um absurdo!!! Não???

Josias Faustino

domingo, 16 de dezembro de 2007

Uma análise da historiografia guarabirense



Texto e análise : Josias Faustino


GUARABIRA: Democracia, urbanismo e repressão 1945/1965

Por José Octávio de Arruda Mello

O ponto de partida desta importante obra da historiografia municipalista contemporânea de Guarabira é situar a cidade de forma introdutória nos anos 30, relacionando o impulso comercial e a conseqüente urbanização do período ao surgimento de importantes lideranças políticas.

A partir de duas frentes políticas, uma delas lideradas por Antônio Galdino Guedes, e outra pelo major Ozório de Aquino, chefe local dessa corrente, em 1945. Dentro da nascente UDN, a posição osoriana não seria predominante, oscilando muito no âmbito da política estadual. Pelo lado oposto, o Dr Galdino Guedes não era um potentado. Perfazendo carreira junto ao aparelho do Estado. Ante a redemocratização de 1945, a principal liderança de Guarabira não sairia das fileiras do guedismo, mas dos aquinos. Filho de Ozório de Aquino, e preparado pelo mesmo para sucedê-lo, Osmar de Aquino, prefeito nomeado de 19 de agosto a 2 de dezembro de 1940, recorreu á oratória e advocacia, sobretudo criminal, de júris populares, para consolidar-se. Sua carreira se processaria mais junto ao povo miúdo, que da burguesia ou proprietários desta. O pós 1945 é marcado pela supremacia da UDN, que em razão do prestígio de Ozório Aquino, novamente prefeito nomeado. Neste momento surge também importantes lideranças políticas, a exemplo de Dr. Pimentel Filho pelo PSD e de Silvio Porto pela UDN do grupo ozoriano. Sem perder de vista os consagrados nomes de Sabiniano Maia e Augusto de Almeida. Segue-se a isso o embate político dos anos 50 e 60, onde se revela desde cedo as convicções esquerdizantes de Osmar de Aquino, e neste contexto merece destaque a figura do comunista “Chico do Baita”, que se engajou no movimento de esquerda. A partir daí o autor trabalha os acontecimentos políticos, desde a política local, a esfera estadual e federal. Situando-os dentro do período de redemocratização do país, extravasando estes limites chegando aos tempos da Ditadura Militar, onde novas lideranças se destacara, quando surgiram os dois novos partidos por imposição do regime militar: a ARENA e o MDB, aí o circulo se fechou “Guarabira : Democracia urbanismo e repressão”.

Conforme o prefácio de Zenóbio Toscano, o historiador José Octávio procura recompor o universo da História política, a partir de sua principal liderança, buscando alcançar a totalidade do universo sobre que se detém. Para José Octávio, tratava-se de recompor o universo abrangido por essas lideranças, partindo delas mas sem ficar nelas. Daí a idéia de fusão da democracia com a cultura, onde vai se dar justamente nos primeiros tempo da urbanização do município. Portanto, a obra se situa em torno de Osmar, analisando os seus momentos de glórias e de crises. Essa metodologia otaviana de análise historiográfica, a partir das grandes lideranças, somente poderia significar a entronização de Osmar de Aquino, candidato a deputado federal, prefeito e deputado estadual em diversos pleitos. Como ilustre membro do grupo José Honório Rodrigues, sendo, portanto um revisionista da historiografia paraibana, o mesmo não fica preso a esta liderança e na sua “trama política” consegue englobar em sua totalidade outros nomes dos quais merecem destaque Sabiniano Maia e Augusto de Almeida, este último prefeito de Guarabira por duas vezes, em 1951 e 1959, o farmacêutico Augusto de Almeida é considerado, ao lado de Sabiniano Maia, o principal renovador do aspecto urbanístico da cidade.


Itinerário Histórico de Guarabira

Por Moacir Camelo de Melo

Uma das mais recentes edições da historiografia guarabirense, enfática pelo seu caráter positivista na narração dos fatos. Cronológica desde o início até o final, faz uma menção progressiva desde os primórdios da colonização, formação territorial, colonização e povoação do espaço rural e urbano, criação da vila e da cidade. A partir do surgimento da cidade e conseqüente poder político municipal, surge as primeiras lideranças políticas, as nomeações dos prefeitos, os futuros embates políticos e disputas eleitorais dos diversos momentos da história política. Para efeito didático, considero a mais importante obra da historiografia contemporânea/ positivista do Município de Guarabira, haja vista, a seqüência lógica e cronológica dos fatos. Fica evidente na obra a preocupação do autor em “resgatar o passado glorioso” ou seja, despertar o adormecido. Isto se desenrola na ordenação dos prefeitos, nos conchavos políticos das oligarquias, nas obras públicas as mais diversas, em fim toda a trajetória e evolução política de guarabira, sem deixar de mencionar a preocupação do autor a situar a evolução política e econômica da cidade dentro do contexto regional das demais cidades.

Memórias do futebol guarabirense

Vicente Barbosa

Acredito que o autor teve a intenção de fazer uma obra bibliográfica bastante diferenciada do sentido formal da historiografia tradicional, ensejando documentar a memória do nosso futebol elaborando uma espécie de “memorial”. É bem verdade que às vezes os conceitos de história e memória se confundem apesar de serem termos diferenciados, eu, porém considero que ambos se complementam. Na apresentação do livro, o mesmo expressa a intenção de “fazer história” talvez diferente. Não deixando se levar pela rigidez dos fatos, nem tão pouco pela cronologia estática, ao contrário o que marca é a leveza dos seus textos, dando uma semântica poética aos fatos. Nos primeiros capítulos destaca os principais nomes do nosso futebol,construindo uma biografia dos ilustres abnegados do futebol local, associando cada um dos nomes a um momento histórico do futebol guarabirense. Dentre os principais destacamos: Almeida Egito e os primeiros tempos da prática de futebol, que neste momento era jogado no centro da cidade; Zé Pereira importante comandante do G.E.C. desde os primeiros momentos adentrando pelos anos 40 e 50; Araújo Medeiros e a era da modernização do futebol; Cleonaldo Toscano e os melhoramentos do estádio Silvio Porto, e por ai vai a dissertação de nomes e craques revelando passo a passo a história do futebol.no Município.


Guarabira através dos tempos

Por Cleodon Coelho

Com certeza a mais densa e importante obra da historiografia guarabirense, “Guarabira através dos tempos” tem sido à base de estudo para a fomentação de outras obras historiográficas. Uma obra rica em documentos, fatos e temas do cotidiano. A religiosidade do povo fica marcado nos primeiro tempos da história. A construção da primeira capela pelo padre João Milanês, a fundação da paróquia, as reformas da Igreja, as ordenações e festas religiosas, destacando o cotidiano dos primeiros momentos da Festa de Nossa Senhora da Luz. O aterro e as primeiras melhorias no centro da cidade por diversos objetivando facilitar a locomoção dos pedestres que viessem dos distritos e de outras regiões. Há uma preocupação também com os movimentos populares, tendo como exemplo a revolta do Quebra Quilos em Guarabira, a enchente que assolou o nosso município. Sem dúvida o trabalho historiográfico mais abrangente, pois não somente narra a história de vidas ilustres, mas também a vida de um povo, constituindo assim uma relíquia da história política e cultural do povo guarabirense.

Comentário final

Diante das dificuldades ainda hoje encontradas, não somente pelos historiadores, mas qualquer pessoa que se obstine a escrever história, apesar disso, reconheço que a historiografia guarabirense evoluiu nos últimos anos. Num primeiro momento, tivemos as importantes obras de Antônio Galdino Guedes, Sabiniano Maia e Cleodon Coelho. Este último merece destaque pela abrangência do trabalho, não somente pela riqueza de documentos registrados, mas também pela grandeza e visão de historiador que teve ao incluir em sua obra “Guarabira através dos tempos” aspectos do cotidiano religioso, social e político de nossa cidade. Um trabalho que além das vidas ilustres destacadas, consegue envolver também outros fatos e temas que contribuíram significativamente com a evolução do povo no Município. Tivemos ainda importantes registros que foram deixados pelo Dr. Pimentel e também pelo Mons. Emiliano de Cristo. Num segundo momento, segue-se a imprescindível obra “Guarabira: democracia, urbanismo e repressão” onde o autor consegue perceber que a partir dos anos 30 o impulso comercial e econômico, vivenciado pela cidade, reafirmou sua posição como pólo regional, contribuiu significativamente para o surgimento de novas lideranças políticas. A cidade tornou-se atrativa para muitos que vieram aportar nela. Ai onde ocorreu a fusão da democracia com a cultura, tudo isso num contexto de redemocratização nos pais. O crescimento populacional, a melhoria nos serviços públicos e a urbanização da cidade, tornara realidade, e os debates no campo político se ampliara. Outra importante obra da historiografia contemporânea que merece destaque é o “Itinerário Histórico de Guarabira” de Camelo, a mesma tem sido bastante apreciada pelos estudantes, haja vista, ser uma obra completa.. Segue-se a isso os novos temas trabalhados por outros historiadores, a exemplo de Barbosa que em seu trabalho “memórias do futebol guarabirense” consegue resgatar a história do futebol. Acrescentamos ainda a “História das eleições municipais de Guarabira”(Aedson Cunha) e “Casa Osório de Aquino: História de um Parlamento”(Vicente Barbosa), obras que consolidam a historiografia política de Guarabira. E recentemente destacam-se, as seguintes obras: “o teatro guarabirense – 70 anos de história” e “a História dos cabarés”. pois surge como inovação historiográfica, justamente por considerar outras temáticas e novas abordagens, estando assim em plena sintonia com as inovações da historiografia brasileira no momento atual. Lamento apenas a falta de um trabalho que mostre a evolução econômica e social do município, em tempos não muito distante, Guarabira tinha uma economia agrícola diversificada. Aqui se produzia açafrão, algodão, agave, castanha e tantos outros produtos que a credenciava como pólo exportador dos mesmos. Nos anos 80 e começo dos anos 90, vivenciou um “surto industrial” hoje parece estagnado. Todas estas questões merecem um estudo melhor por parte dos historiadores.

Referências Bibliográficas

MELLO, José Octávio de Arruda. Guarabira: democracia, urbanismo e repressão 1945/65. João Pessoa: União CIA. 1997.

COELHO, Cleodon. Guarabira através dos tempos. Guarabira. Nordeste. 1975.

SILVA, Vicente Barbosa da, Memórias do futebol guarabirense. Guarabira. 1998.

MELLO, Moacir Camelo de, Itinerário Histórico de Guarabira. João Pessoa. 1999.

O efeito-Foucault na historiografia brasileira


MARGARETH RAGO
Professora do Departamentode História do IFCH-UNICAMP

(Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 7(1-2): 67-82, outubro de 1995)

RESUMO: O artigo investiga as transformações nas concepções do que é história e, portanto, nas formas de estudá-la, após as proposições conceituais elaboradas por Foucault. A mudança do foco da análise dos fatos e eventos para as bases epistemológicas das formas de discurso que os conceberam enquanto tais, fará com que o historiador busque compreender os campos de relações de força nos quais se constituem os jogos de poder, e não mais se deter em uma suposta verdade documental.

UNITERMOS: história, hístoria documental, história nova, descontinuidade, subjetivação.


Pensar diferentemente a História

Foucault revoluciona a História. Com esta frase polêmica e instigante, Veyne chamou a atenção dos historiadores para um movimento conceitual em curso desde os anos sessenta e para o qual ainda não havíamos tido olhares muito favoráveis (cf. Veyne, 1982). Éramos, assim, atingidos por vários lados: de um lado, este historiador-filósofo questionava uma rápida apropriação daquilo que, em Foucault, podia servir diretamente à produção historiográfica recente, a exemplo do conceito de poder disciplinar, excelente para pensarem-se as formas da dominação no cotidiano da vida social; de outro, forçava-nos a refletir sobre a abrangência do pensamento daquele filósofo, pensamento que excedia em muito nossas desatentas miradas.

Foi assim que, partindo de uma irrecusável apreciação de Vigiar e punir, trabalho histórico por excelência, publicado em 1976, caminhamos, nós historiadores, em busca da produção anterior de Foucault, em especial da História da loucura, de As palavras e as coisas e de A arqueologia do saber, [início da pág. 68] procurando entender o que nos havia passado tão despercebido e que, no entanto, levara uma autoridade da historiografia francesa a elevar, em alto e bom tom, sua importância (cf. Foucault, 1977, 1978, 1981 e 1986a).

Indubitavelmente presos a um sistema de pensamento que nos havia organizado tão adequadamente o mundo, ao longo das décadas de 60 e 70, localizando de um lado, as classes sociais e os seus conflitos nas inúmeras formas assumidas pelas relações sócio-econômicas, vigentes no modo de produção dominante no interior de nossa formação social; e de outro, munindo-nos com as intrincadas tarefas teóricas da “síntese das múltiplas determinações”, havíamos esquecido de ler, no próprio Marx, que o passado pesa e oprime “como um pesadelo o cérebro dos vivos” e que, sobretudo enquanto historiadores, deveríamos compreender o momento do acerto de contas e “alegremente” despedirmo-nos do passado (Marx, 1974, p. 335; 1977a, p. 5).

De uma certa maneira, quanto mais a modernidade desmanchava no ar tudo o que estava mais ou menos sólido, tanto mais nos agarrávamos à necessidade de organizar o passado, arrumando todos os eventos e os seus detalhes na totalidade enriquecida, embora pré-estabelecida. Trata(va)-se então, para o historiador, de compreender o passado, recuperando sua necessidade interna, recontando ordenadamente os fatos numa temporalidade seqüencial ou dialética, que facilitaria para todos a compreensão do presente e a visualização de futuros possíveis.

O desconcerto provocado por Foucault veio por vários lados. Canguilhem chamou a atenção para o impacto provocado pelo surgimento da História da loucura, em 1960, quando nos meios acadêmicos franceses havia espaço para, quando muito, se pensar uma História da Razão, da Psiquiatria. Mas, da loucura? Teria ela uma história? (cf. Canguilhem,1986, p. 37-40). Ademais, este filósofo irreverente, que aliás nem era historiador, cometera outro sacrilégio, outra irreverência, ao ir buscar no final do século 18, onde todos celebravam a conquista da liberdade e dos ideais democráticos durante a Revolução Francesa, nada menos do que a invenção da prisão e das modernas tecnologias da dominação. Enquanto todos os olhares convergiam para a centralidade da temática da Revolução, Foucault deslocava o foco para as margens e detonava com a exposição dos avessos. A prisão nascia, assim, não de um progresso em nossa humanização, ao deixarmos a barbárie do suplício, mas muito pelo contrário, como resultado de uma sofisticação nas formas da dominação e do exercício da violência.

Afinal, o que queria aquele filósofo que anunciava que “a história dos historiadores” erroneamente havia-se preocupado em compreender o passado, e que na verdade tratava-se de “cortar” e não de compreender?

“É preciso despedaçar o que permitia o jogo consolante dos reconhecimentos”, dizia ele. “Saber, mesmo na ordem histórica, não significa ‘reencontrar’ e sobretudo não significa ‘reencontrar-nos’. A história será ‘efetiva’ na medida em que ela [início da pág. 69] reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos instintos; multiplicará nosso corpo e o oporá a si mesmo. (...) É que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar” (Foucault, 1979, p. 27).

Que possibilidades restavam para os historiadores quando o passado passava a se reduzir a discursos, os documentos a monumentos, a temporalidade se dissolvia e os objetos históricos tradicionais já não se sustentavam com tanta obviedade quanto antes? E o que fazer com os sujeitos, com as classes sociais e principalmente com a classe operária, aliás, responsável pelo conflituado mas seguro curso da história em direção ao prometido “reino da liberdade”, ou com os sujeitos históricos que, nos anos 80, comprometiam-se com a luta pelos direitos de cidadania, como os negros, as mulheres, os homossexuais? Como ficava, então, a tarefa do historiador, comprometido, sobretudo desde os anos 60, com as tarefas da revolução e com a revelação da missão histórica do proletariado, ou na década de 80, envolvido com as lutas pela redemocratização do país e pela construção das identidades sociais?

Para aumentar nosso espanto, aqui no Brasil, um filósofo e, em seguida, um psiquiatra publicavam dois excelentes trabalhos de História sobre o período colonial, trazendo à tona muitas histórias das quais mal tínhamos ouvido falar. Refiro-me ao pioneiro Danação da norma, de Roberto Machado e outros e ao estudo de Jurandir Freire Costa, Ordem médica e norma familiar, respectivamente publicados em 1978 e 1979. Sem sombra de dúvida, estes trabalhos provocaram nos historiadores um sentimento misto de estranhamento pela enorme novidade teórica da análise, e de perplexidade, pois afinal haviam sido produzidos fora da comunidade dos historiadores.

Em suma, de um minuto para o outro, todas as nossas frágeis, desgastadas, mas reconfortantes seguranças haviam sido radicalmente abaladas por uma teoria que deslocava o intelectual dos seus espaços e funções orgânicas, questionando radicalmente seus próprios instrumentos de trabalho e modos de operação. O efeito de tão avassaladora crítica provocou reações diferenciadas: de um lado, levou alguns a se refugiarem na garantia da existência da “realidade objetiva” e na atuação transformadora dos sujeitos históricos, buscando respaldo na revitalização do marxismo, em curso no período. Lembremos que, nesse momento, E. P. Thompson estourava nas paradas de sucesso historiográfico, abrindo novas perspectivas para a “história social”, traduzido e difundido por todo o mundo (cf. Thompson, 1987e; Decca, 1981). Outros procuraram, mais ou menos timidamente, acercarem-se das concepções de Foucault, tentando entender de onde vinham e para onde apontavam. Confusamente mesclavam as discussões sobre a positividade do poder com a realidade das classes sociais e a constituição dos sujeitos históricos1.

De qualquer maneira, de um lado ou de outro, os historiadores não puderam passar incólumes ao “furacão Foucault” e, assim como até mesmo [início da pág. 70] os anti-marxistas tiveram em algum momento de suas vidas de incorporar conceitos como classes sociais, infra-estrutura sócio-econômica e relações sociais de produção, os historiadores anti-foucaultianos não puderam prescindir das noções de discurso, poder disciplinar, genealogia e sobretudo da contundente crítica à idéia da transparência da linguagem. Além do mais, crescia, também nesse meio, através de caminhos diferenciados, a redescoberta do simbólico, do subjetivo, do cultural, nas análises históricas, cada vez mais próximas da Antropologia Histórica. Já desde o final dos anos 60, e reagindo de certo modo à influência de Fernand Braudel, a Nouvelle Histoire retomava a história das mentalidades e das sensibilidades na trilha aberta por March Bloch e Lucien Febvre e revitalizada por Philippe Ariès com a História social da criança e da família, de 1960. Como propunha Jacques Le Goff, invertia o caminho indo do “porão ao sótão”, isto é, privilegiando a superestrutura cultural em relação à base econômica (cf. Ariès, 1981; Le Goff, 1990). Cada vez mais, as discussões sobre o aspecto interpretativo da história passavam a ocupar o horizonte dos historiadores.

É bom lembrar que Foucault não se pretendeu historiador, embora poucos tenham demonstrado um sentido histórico tão forte quanto ele. Afinal, muito antes do sucesso da “história cultural”, o filósofo insistia na idéia nietzscheana de que “tudo é histórico”, e portanto de que nada do que é humano deve escapar ao campo de visão e de expressão do historiador. Além do mais, se não podemos afirmar que objetos como loucura, prisão, instituições disciplinares, corpo e sexualidade ganharam visibilidade histórica apenas a partir de seus trabalhos, não há como negar a importância de um autor que, em pleno apogeu da classe operária, dos temas da Revolução e da Social History, de filiação marxista, deslocava o foco para as “minorias”, para as margens e para os Annales. Pensemos nos inúmeros desdobramentos das produções acadêmicas suscitadas desde então em função das problematizações foucaultianas, não apenas no Brasil. Fundamentalmente, Foucault projetou luz sobre campos até então ignorados pela historiografia – seja por serem considerados como “perfumarias” remetendo à superfície da superestrutura, seja simplesmente por nem sequer serem percebidos como capazes de serem historicizados – e criou expressões capazes de traduzí-los e pensá-los. É verdade que muitos destes campos e temas históricos também foram projetados por outras correntes históricas, a exemplo do conceito de cotidiano, mas não há como negar a importância que ganharam a partir dos procedimentos teóricos e metodológicos praticados por ele, a exemplo da noção da positividade do poder.

O próprio Foucault se filiou aos Annales e, apesar das diferenças em relação a vários procedimentos desta escola, defendeu uma história-problema, ou seja, um trabalho de pesquisa histórica que servisse para iluminar e responder a uma problematização colocada pelo historiador, e que desenharia no percurso aberto o próprio objeto da investigação (cf. Foucault, 1986a, Introdução). É conhecido seu debate com o historiador Jacques Léonard, em [início da pág. 71] que distinguia dois modos de se fazer a História: o primeiro, o modo dos “historiadores”, consistia em atribuir-se um objeto e tentar resolver sucessivamente os problemas que este colocava; o segundo, o que ele preferia, partia de um problema e procurava determinar a partir dele o âmbito do objeto que seria necessário percorrer para resolvê-lo (Perrot (org.), 1978).

Além disso, prestando uma homenagem a esta consagrada escola histórica, Foucault defendia, na Introdução de A arqueologia do saber, uma postura historiográfica preocupada não mais em revelar e explicar o real, mas em desconstruí-lo enquanto discurso.

“Ora, por uma mutação que não data de hoje, mas que, sem dúvida, ainda não se concluiu, a história mudou sua posição acerca do documento: ela considera sua tarefa primordial, não interpretá-lo, não determinar se diz a verdade nem qual é seu valor expressivo, mas sim trabalhá-lo no interior e elaborá-lo: ela o organiza, recorta, distribui, ordena e reparte em níveis, estabelece séries, distingue o que é pertinente do que não é, identifica elementos, define unidades, descreve relações” (Foucault, 1986a, p. 7).

Os objetos históricos assim como os sujeitos emergiam aqui como efeitos das construções discursivas, ao invés de serem tomados como pontos de partida para a explicação das prática sociais. A determinação avançava sobre as possibilidades da ação e afastava-se assim de uma concepção humanista e antropológica dinamizada pela busca da Revolução.

Na verdade, se voltarmos a este livro tão definitivo e radical em suas proposições, encontraremos o esclarecimento do próprio autor acerca de sua posição e de suas relações com a renomada Escola dos Annales e com a Nova História. Aí Foucault apresenta uma avaliação das conseqüências provocadas para a História pelas mudanças epistemológicas promovidas por esta vertente historiográfica, que retomaremos no decorrer deste texto.

Por enquanto, gostaria de lembrar que a Escola dos Annales nasce em 1929, como uma reação à história triunfalista e événementielle, das guerras e batalhas, privilegiadamente política e cronológica da Escola Metódica, que, segundo Marc Bloch e Lucien Febvre, não percebia o acontecimento na multiplicidade dos tempos históricos, nem como dimensão superficial de um iceberg profundo. As posições radicais desses historiadores já se havia manifestado na Revue de synthèse historique, onde colaboraram, e que fora lançada em 1900, por Henri Berr, o qual, aliás, não era historiador, mas filósofo e professor de literatura. Inspirado por Durkheim, Berr defendia uma história-síntese, capaz de trabalhar cientificamente com todas as dimensões da realidade, do econômico às mentalidades. Assim, inicialmente inspirados pela sociologia durkheimiana e, em seguida, pelos primeiros estudos estruturalistas de Ferdinand Saussure sobre a língua e os trabalhos de Lévy-Strauss sobre as relações sociais e a estrutura social, os historiadores do grupo dos Annales se [início da pág. 72] preocuparam com as estruturas e os diferentes ritmos e temporalidades dos fenômenos históricos, privilegiando as longas permanências mentais, sociais, geográficas, etc., que Braudel identificaria posteriormente como la longue durée, ou seja, a longa duração, em detrimento das mudanças sociais2.

A partir destas breves colocações, seríamos tentados a identificá-los ou então a aproximá-los ao marxismo. É bom notar, portanto, que se de um lado não podemos identificá-lo com este sistema de pensamento ou reconhecer em suas análise a teoria marxista da sociedade, de outro devemos destacar a grande receptividade que vários historiadores do grupo e da Nova História manifestaram em relação a Marx. Se não podemos definir os Annales e a Nova História como marxistas, também não podemos taxá-los de anti-marxistas, esquecendo que vários historiadores, a exemplo de Pierre Vilar e Michel Vovelle, preocuparam-se em declarar suas adesões teóricas e políticas e discutir as implicações teóricas de tais incorporações.Retornando a Foucault, não há dúvida de que, para os historiadores, seu maior impacto advém da maneira pela qual interroga a história mais do que dos temas que focaliza. Embora os historiadores tenham visto em Foucault o historiador das instituições disciplinares ou da “sociedade carcerária” e aí cobrarem a voz dos vencidos, o que Veyne destaca como a revolução epistemológica por ele realizada vai muito além. Seduzidos pelas instigantes posições formuladas pelo grupo de historiadores ingleses e americanos ligados à Social History, os historiadores ficaram perplexos com um tipo de pensamento que se recusava a partir dos sujeitos e da sociedade para construir sua interpretação histórica e que, aliás, colocava sua própria existência em dúvida. Tratava-se, pois, de uma nova maneira de problematizar a História, de pensar o evento e as categorias através das quais se constrói o discurso do historiador. Não uma discussão sobre a narrativa propriamente dita, mas sobre as bases epistemológicas de produção da narrativa enquanto conhecimento histórico. Ao invés de partir da famosa estrutura social, representada enquanto “realidade objetiva” tanto para os marxistas quanto para os não-marxistas, para explicar as práticas políticas, econômicas, sociais, sexuais, artísticas de determinados grupos sociais, propunha-se, então, pensar como haviam sido instituídas culturalmente as referências paradigmáticas da modernidade em relação ao próprio social, à posição dos sujeitos, ao poder e às formas de produção do conhecimento.

Veyne chamou nossa atenção para a “revolução” produzida pelo filósofo na historiografia: especialmente desde o marxismo, aprendêramos a enxergar a História como práxis e como consciência. Inúmeras vezes repetimos os ensinamentos de Marx de que “os homens fazem a história, mas não a fazem como querem, e sim nas condições herdadas pelo passado”. Aliás, para a geração 68, a principal motivação para o estudo da História estava centrada no desejo de transformação social, numa emocionada aposta na Revolução. A história confundia-se então com ação revolucionária.

Ora, Foucault questionou este pressuposto e afirmou que a História [início da pág. 73] não é mais do que um discurso, discurso este que também precisava ser psicanalisado e “descrito em sua dispersão”. Este filósofo desorganizava, assim, não apenas o passado, que imaginávamos pronto para ser detectado e trazido à tona, graças às ferramentas do materialismo histórico e dialético, como a própria tarefa do historiador, que repentinamente se flagrou capturado em insidiosas armadilhas. Veyne mostrou, nesta direção, que a história é uma forma cultural, através da qual os homens na contemporaneidade se relacionam com seus eventos e com o passado. Uma forma de conhecimento, uma escrita e não ação.

Assim, caberia ao historiador construir a trama correspondente ao acontecimento. No caso de um acontecimento da moda, que nos situasse nesse campo; se um evento político, seria necessário nos apresentar governantes e súditos. O que seria importante destacar no passado dependeria da construção da trama, da mesma forma que as causas atribuídas na origem do evento se definiriam em função da construção desta mesma trama. Portanto, os eventos históricos não existem como dados naturais, bem articulados entre si, obedientes às leis históricas e esperando para serem revelados pelo historiador bem munido. Um evento só ganha historicidade na trama em que o historiador concatená-lo, e esta operação só poderá ser feita através de conceitos também eles históricos.

Ora, repentinamente, o chão dos historiadores desabou, pois já não contávamos nem com um passado organizado, esperando para ser “desvelado”, nem com objetos prontos, cujas formas poderiam ser reconhecidas ao longo do tempo, nem com sujeitos determinados, nem tampouco com o fio da continuidade que nos permitia pensar de uma maneira mais sofisticada em termos de processos históricos e sociais. E, ao invés de partirmos em busca da síntese e da totalidade, deveríamos aprender a desamarrar o pacote e mostrar como fora constituído, efetuando a “descrição da dispersão”.

Parece-me que esta proposta, recentemente identificada por uma historiadora norte-americana como A história cultural de Michel Foucault, não foi bem aceita por uma quantidade razoável de historiadores brasileiros, nem se promoveram debates que pudessem esclarecer os mais preocupados com a definição de posições em relação a estes chamados (cf. O’Brien, 1992). Numa atitude muito mais defensiva, poucos historiadores preferiram manter “Foucault vivo”, negando-se a “esquecer Foucault” (cf. Tronca, 1986; Baudrillhard, 1984).

Como ficamos, então, onze anos depois de sua morte? Proponho que retomemos brevemente algumas das principais questões colocadas à historiografia pela profunda crítica à modernidade presente em Foucault. Valeria lembrar ainda com Habermas, que a destruição das relações dialógicas não se encontra apenas nas formas de individualização instauradas na modernidade, mas no próprio modo de operação nas ciências humanas, onde o olhar do pesquisador se confunde com o olhar do panóptico, transformando os sujeitos em objetos isolados, dessubjetivizando-o3.

[início da pág. 74]

A produção do conhecimento histórico

A crítica foucaultiana da ciência e da noção de verdade atingiu radicalmente a própria produção do conhecimento histórico, produção esta assentada em convicções fundamentalmente humanistas. Esta questão pode ser melhor esclarecida, se destacarmos alguns momentos estratégicos de sua problematização: a crítica ao essencialismo, a desnaturalização do objeto, o privilegiamento do descontínuo e a proposta de história genealógica.

1. a crítica ao essencialismo

Já sabemos que Foucault questiona o conceito de verdade com que operamos e, portanto, a própria ciência se verá visada como discurso objetivo sobre o real. Ele questionará fundamentalmente nossa representação da produção do conhecimento e da verdade, desacreditando a idéia que temos sobre a revelação da coisa através do conceito. Entendemos, na maioria das vezes, que a produção do conhecimento se faz por uma suposta coincidência entre o conceito e a coisa, entre a interpretação e o fato, como um “desvendamento” do “ideológico”, na linguagem marxista, ou como uma retirada dos véus da ilusão sobre a realidade objetiva. Em outras palavras, conhecer significava encontrar a essência da época, do passado, da coisa, ultrapassando os enganosos véus da aparência para alcançar o “concreto pensado” e realizar a “síntese das múltiplas determinações” 4.

Para o historiador, conhecer seria revelar o objeto, atravessar a espessura dos discursos para encontrar o que permaneceria silenciosamente aquém dele, chegar às coisas, “interpretar o discurso para fazer através dele uma história do referente”(Foucault, p. 8 , 1986a). O discurso, portanto, não é aqui pensado como signo, elemento significante que remeteria a conteúdos ou a representações, como se fosse “expressão do real”.

Numa referência a Nietzsche, Foucault afirmará que as coisas estão na superfície, e que atrás de uma máscara há outra máscara e não essências. Nesse sentido, o filósofo propõe um deslocamento fundamental para o procedimento histórico, propondo que se parta das práticas para os objetos e não o inverso, como fazíamos. Não mais partir do objeto sexualidade, por exemplo, para mostrar através de que formas havia se manifestado e diferenciado ao longo da História, mas chegar ao objeto a partir do estudo das práticas e perceber como e quando a sexualidade havia emergido como tema, como discurso e como preocupação histórica. Em outras palavras, o ponto de partida se torna agora terminal. E nossa tarefa seria então desconstruí-lo, revelando as imbricadas teias de sua constituição e naturalização.

2. o caleidoscópio

Trabalhar com produções culturais e não com objetos naturais na perspectiva foucaultiana significou repensar radicalmente os procedimentos historiográficos, já que se tratava não mais de buscar as formas de manifestação [início da pág. 75] de um fenômeno ao longo da história, de partir do objeto ou do sujeito plenamente constituído, para ver como havia se manifestado em diferentes formações sociais. A questão que se colocava agora era a de perceber de que maneira as práticas discursivas e as não-discursivas, as redes de poder constituem determinadas configurações culturais e históricas que resultam na produção de determinados objetos e de determinadas figuras sociais. Uma forma caleidoscópica, alertava Veyne, ao contrário da conhecida seqüência temporal:

“Tal é o sentido da negação dos objetos naturais: não há, através do tempo, evolução ou modificação de um mesmo objeto que brotasse sempre no mesmo lugar. Caleidoscópio e não viveiro de plantas. (...) Como diria Deleuze, as árvores não existem: só existem rizomas” (Veyne, 1982, p. 172).

Na História da loucura, tratava-se, portanto, de perceber através de que práticas institucionais e aparelhos de conhecimento a loucura fora objetivada como doença, passando a fazer parte de determinado regime de verdade e falsidade, e se constituíra como “objeto” para o pensamento, a ponto de se tornar “evidente” que a loucura é uma enfermidade. Em Vigiar e punir, perguntava-se como determinadas práticas discursivas e não-discursivas, técnicas de poder e regimes de verdade constituíram o objeto “prisão” como modo privilegiado de castigo e punição. Como fora possível, pergunta ele, em 20 anos, a passagem do suplício para a prisão como forma punitiva privilegiada?

Enfim, estávamos acostumados a trabalhar considerando que a unidade dos discursos está fundada na existência do objeto-realidade objetivo, que estaria pronto esperando por uma consciência para ser libertado. Nesse sentido, trata-se de traçar a história a partir das objetivações pelas quais determinadas coisas começam a ser tomadas como objeto para o pensamento e passam a fazer parte do objetivamente dado, como configurações naturais. O acontecimento, então, não está dado como fato, mas emerge num campo de forças, assumindo determinadas configurações. É preciso, pois, desnaturalizar o evento, explicará Veyne.

3. o privilegiamento do descontínuo

Foucault chama a atenção para as metáforas biológicas que organizam o discurso histórico, através das quais fazíamos velhas perguntas ao passado e dávamos explicações antigas, mais preocupados em construir linhas de continuidade entre os fatos, articulando-os à custa de aplainamentos forçados. Nem interpretar os fatos, nem estabelecer uma cadeia evolutiva entre eles, e muito menos atribuir todas essas nossas operações a uma necessidade interna dos fatos históricos.

“Em nossos dias”, explica ele na Arqueologia do saber, “a a História é o que transforma os documentos em monumentos e que desdobra, onde se decifravam rastros deixados pelos homens, onde se tentava [início da pág. 76] reconhecer em profundidade o que tinham sido, uma massa de elementos que deverão ser isolados, agrupados, tornados pertinentes, inter-relacionados, organizados em conjuntos” ( Foucault, 1986a, p. 8).

Isto provocou uma mudança do estatuto teórico da noção e descontinuidade. O que a história tradicional tratava de apagar e reduzir a fim de estabelecer as continuidades, isto é, “os obstáculos”, passa agora a ser um conceito operativo, fazendo parte da análise histórica. Diz ele,

“a descontinuidade era o estigma da dispersão temporal que o historiador se encarregava de suprimir da história. Ela se tornou, agora, um dos elementos fundamentais da análise histórica, onde aparece com um triplo papel” (Foucault, 1986a, p. 10),

isto é, constitui uma operação deliberada do historiador; é o resultado de sua descrição; é o conceito que o trabalho não deixa de especificar. Portanto, o historiador deverá constituir séries e definir que tipos de relações será conveniente estabelecer entre elas,

“que sistema vertical podem formar; qual é, de umas às outras, o jogo das correlações e das dominâncias; de que efeito podem ser as defasagens, as temporalidades diferentes, as diversas permanências; em que conjuntos certos elementos podem figurar simultaneamente; em resumo, não somente séries, mas que ‘séries de séries’ - ou, em outros termos, que quadros - é possível constituir.” (Foucault, 1986a, p. 12)

Uma história geral, então, ao contrário de uma história total. A descrição das dispersões, ao invés da totalização fundada na consciência do sujeito.

“Uma descrição global cinge todos os fenômenos em torno de um centro único - princípio, significação, espírito, visão de mundo, forma de conjunto; uma história geral desdobraria, ao contrário, o espaço de uma dispersão.” (Foucault, 1986a, p. 12)

4. a história genealógica

A concepção de história que se encontra em Foucault coloca-se a partir de uma profunda crítica à concepção herdada do sujeito: crítica ao subjetivismo próprio da teoria clássica do conhecimento, em que o Sujeito é colocado como condição do saber; crítica à filosofia política, já que a política não é entendida em termos de “vontades individuais e soberania”; crítica à vinculação tradicional entre condutas dos sujeitos em suas vidas diárias e as grandes estruturas políticas e sociais.

Nesse sentido, Foucault proporá outras questões à história, operando com a idéia de objetivação, isto é, da constituição de domínios de objetos; e de subjetivação, isto é, dos modos através dos quais os indivíduos se produzem [início da pág. 77] e são produzidos numa determinada cultura, através de determinadas práticas e discursos, enquanto subjetividades. Afinal, é ele quem explica numa entrevista que sua questão central não era o poder, nem o saber, mas a produção do sujeito, sua sujeição e posteriormente as formas de subjetivação por ele encontradas. Para dar conta da constituição do sujeito enquanto objeto e enquanto sujeito na cultura ocidental, estuda o poder e as disciplinas, a produção da verdade e os saberes; as práticas de si e as formas de subjetivação.

Propondo-se a realizar uma “ontologia histórica de nós mesmos”, Foucault destituiu o sujeito do lugar privilegiado de fundamento constituinte, que ocupava na cultura ocidental, passando a problematizá-lo como objeto a ser constituído. Na 1ª conferência de A verdade e as formas jurídicas, ele afirmava:

“Faz dois ou três séculos que a filosofia ocidental postulava, implícita ou explicitamente, o sujeito como fundamento, como núcleo central de todo conhecimento, como aquele em que não apenas se revelava a liberdade, mas que podia fazer emergir a verdade. (...)
Atualmente, quando se faz história - história das idéias, do conhecimento ou simplesmente história - atemo-nos a esse sujeito de conhecimento e da representação, como ponto de origem a partir do qual é possível o conhecimento e a verdade aparece. Seria interessante que tentássemos ver como se produz, através da história, a constituição de um sujeito que não está dado de antemão, que não é aquilo a partir do que a verdade se dá na história, mas de um sujeito que se constituiu no interior mesmo desta e que, a cada instante, é fundado e refundado por ela. (...) Isto é, em minha opinião, o que deve ser levado a cabo: a constituição histórica de um sujeito de conhecimento através de um discurso tomado como um conjunto de estratégias que formam parte das práticas sociais”
(Foucault, 1986b, p. 16).

A história será, então, pensada como um campo de relações de força, do qual o historiador tentará apreender o diagrama, percebendo como se constituem jogos de poder. Daí, uma nova concepção de poder e das relações que se estabelecem entre poder e saber. Não mais o poder jurídico, em sua face visível e repressiva, mas o poder positivo, invisível, molecular, atuando em todos os pontos do social, constituindo redes de relações das quais ninguém escapa. Não mais um saber neutro, a ciência, que diria a verdade, mas um conjunto de enunciados que entram no jogo do verdadeiro e do falso.

A inquietação dos historiadores certamente aumentou diante de todas estas colocações, sobretudo aqueles que, filiados à tradição marxista, sentiram-se desalojados em sua missão central e nobre. A história genealógica se [início da pág. 78] diferencia das “história dos historiadores”, isto é, de uma forma de procedimento histórico atravessada pela referência hegeliana, que procurava recuperar o que os documentos diziam, como se um passado deles emanasse e pedisse para ser revelado. Abandonam-se, portanto, as idéias de necessidade, finalidade e totalização. A tarefa do historiador já não será encontrar a finalidade de todo processo histórico, sua necessidade objetiva inscrita em leis que organizariam a ordem natural do mundo, realizando uma operação de totalização, construindo uma história global. Como lembra Chartier, “História nova contra ‘história filosófica’, os Annales contra Hegel” (Chartier, 1990, p. 75). Trabalhar então os documentos enquanto monumentos significará recusar a crença na transparência da linguagem e a antiga certeza de encontrar através dos textos o passado tal e qual.

A nova história se propõe como tarefa fundamental não interpretar os documentos, extraindo uma suposta veracidade intrínseca a eles, mas “trabalhá-los desde o interior, elaborá-los”, como será afirmado em A arqueologia do saber.

Para Roger Chartier, um dos nomes que se destacam na historiografia contemporânea, os estudos históricos se desenvolveram nas últimas décadas a tal ponto que de uma certa maneira incorporaram e ultrapassaram esta proposta foucaultiana, a exemplo da microstoria na Itália, do antropological mode of history dos americanos, e do retorno do acontecimento entre os franceses. Segundo ele, passou-se, nas discussões historiográficas francesas recentes, da concepção de que a tarefa do historiador era explicar o passado para a consideração dos modos narrativos através dos quais o fenômeno histórico ganha visibilidade. Em suas palavras:

“Daí uma mudança paralela da própria definição da explicação histórica, entendida como o processo de identificação e de reconhecimento dos modos e formas do discurso posto em prática pelo relato, e já não como explicação do acontecimento passado” (Chartier 1990, p. 84).

Já Hayden White, centrando-se na importância do estudo da interpretação sobre o da explicação, e refletindo sobre as tarefas do historiador no mundo contemporâneo, afirma:

“O historiador não presta nenhum bom serviço quando elabora uma continuidade especiosa entre o mundo atual e o mundo que o antecedeu. Ao contrário, precisamos de uma história que nos eduque para a descontinuidade de um modo como nunca se fez; pois a descontinuidade, a ruptura e o caos são o nosso destino” (White, 1994, p. 63).

A volta ao sujeito?

Por último gostaria de tecer alguns comentários sobre as últimas [início da pág. 79] ressonâncias do pensamento de Foucault na produção historiográfica brasileira. Depois de haver provocado acirradas disputas entre os ardentes defensores da “voz dos vencidos”, preocupados com o silenciamento da luta de classes nos trabalhos historiográficos, e os adeptos do filósofo, para quem os sujeitos são pontos de chegada e não pontos de partida, propõe-se um novo acontecimento teórico: a emergência da questão da subjetivação e da ética (cf. Foucault, 1984, 1985).

De uma certa maneira, Foucault respondia aos seus críticos para os quais havia dado demasiada ênfase aos modos da sujeição na constituição dos sujeitos, deixando, como os Annales anteriormente, os indivíduos aprisionados, sem possibilidade de ação e, fundamentalmente, de resistência e mudança. O filósofo voltava-se para o sujeito, apontando para as possibilidades de construção de novas formas de subjetivação, a exemplo das que haviam vigorado no mundo grego. A questão da autonomia individual era retomada por Foucault, após ter apresentado nos trabalhos anteriores as formas da sujeição, como ele mesmo explicou, através das práticas disciplinarizantes e das redes discursivas.

Alguns trabalhos foram produzidos a partir da abertura desta nova trilha, dos quais destaco três teses de doutoramento apresentadas nos anos 90: Os prazeres da noite. Prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo (1990); Do trabalhador indisciplinado ao homem prescindível, e O engenho anti-moderno. A invenção do nordeste e outras artes (cf. Rago, 1991; Caponi, 1992; Albuquerque, 1993).

Ao contrário dos estudos que buscavam privilegiadamente as relações de poder constitutivas da vida social no mundo urbano, recortando o tema da disciplinarização e higienização do mundo industrial, incorporou-se nestes estudos a noção de subjetivação, tentando encontrar as formas através das quais os próprios sujeitos participaram de sua construção enquanto sujeitos morais - prostitutas no primeiro caso, trabalhadores urbanos no segundo, nordestinos no terceiro - aceitando, recusando, incorporando, apropriando-se diferenciadamente das linguagens existentes num determinado momento histórico para construírem suas identidades pessoais, sociais e sexuais.

No primeiro estudo, para além da constituição da própria noção de prostituição pelo discurso médico e jurídico e pelas práticas disciplinarizantes que instituíram o submundo nos limites da cidade, procurei pesquisar como as próprias prostitutas se constituíram enquanto sujeitos morais, incorporando, redefinindo, experimentando uma ou várias definições dos amores ilícitos. Menos uma história social da prostituição que procurasse dar conta do cotidiano das meretrizes em São Paulo, nas primeiras décadas do século XX, do que um estudo sobre a construção de nossa moderna referência sobre as “sexualidades insubmissas” e as práticas da comercialização sexual do corpo feminino.

O segundo estudo, produzido por Sandra Caponi, uma filósofa, sobre o pensamento de Michel Foucault, destina um capítulo ao que ela denomina de “Estéticas da resistência”. Tomando A formação da classe operária inglesa, de [início da pág. 80] E. P. Thompson e A noite dos proletários. Arquivos do Sonho Operário, de Jacques Rancière, como fontes primárias, a autora nos mostra, a partir das discussões foucaultianas sobre a “estetização da existência” e as “técnicas de si” no mundo grego, os espaços de autonomia abertos pelos trabalhadores ingleses nos inícios do século XIX. Preocupados em “embelezar essas vidas condenadas a existir na escuridão da fábrica”, reinventavam o cotidiano e procuravam “esculpirem-se a si mesmos como obras de arte”, educando-se, debatendo os textos que alguns liam para o restante do grupo nas noites de folga, ou nos fins de semana, elaborando uma outra cultura, definindo seus próprios códigos morais e suas formas de atuação política, questionando a nova ordem burguesa que então se constituía (cf. Caponi, 1992, p. 235).

Durval de Albuquerque, que já discutira a questão da invenção do NE em outro trabalho, aprofunda aqui sua análise trabalhando com a emergência da região Nordeste a partir de múltiplas práticas discursivas. Em sua leitura, os regionalistas tanto quanto os modernistas pretenderam instituir o lugar da história em oposição a uma outra região do país, outrora inexistente no mapa – o NE – designado como lugar da ausência da História. No imaginário que então se constitui, este mundo rural tradicional, quente e abafado, marcado por ritmos lentos e pesados, lugar das “vidas secas”, da sensualidade forte de mulheres como Gabriela, de movimentos sociais “pré-políticos” como o cangaço, centro da Casa Grande e Senzala, não teria condições mínimas de possibilidade da produção de cidadãos suficientemente racionais para merecerem espaço privilegiado na decisão ou condução dos rumos da Nação.

Finalmente, gostaria de destacar nesse mesmo campo de problematizações, a novidade teórica trazida pelo feminismo contemporâneo: a categoria do gênero, conceitualizada principalmente por uma historiadora que também vinha da história social, Joan Wallasch Scott (1988). Através desta categoria, as intelectuais feministas têm procurado pensar a constituição dos sujeitos sexuais num movimento relacional e complexo, rompendo com uma lógica identitária que, incapaz de perceber e trabalhar as diferenças, aprisionava as mulheres num gueto conceitual. Deixa-se progressivamente de lado o “estudo das mulheres”, considerando-se que esta identidade não é biologicamente fundada, mas social e culturalmente construída, e que portanto deve ser pensada em relação ao gênero masculino, também ele social e culturalmente construído, assim como considerando-se as múltiplas relações que se estabelecem na vida social.

Os estudos do gênero vêm certamente ganhando um espaço de destaque nas universidades e nos núcleos de pesquisa, apontando para a necessidade da desconstrução de nossas referências paradigmáticas sobre a feminilidade e a masculinidade, num mundo que certamente aprendeu com Foucault que as essências e as identidades naturais são uma ficção e não uma realidade empírica e que, como cantou o poeta, “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”.

Recebido para publicação em maio/1995


Rago, Margareth. The effect-Foucault in Brazilian historiography. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 7(1-2): 67-82, october 1995.

ABSTRACT: The article analyses the transformations in the concepts of what is history and, thus, in the forms of studying it after Foucault formulated his conceptual propositions. The change of the analysis’ focus from facts and events to the epistemological bases of the discourse forms that conceived them will make it possible for the historian to comprehend the fields of power-relations in which power-games constitute themselves without detaining in a supposed documentary truth.

UNITERMS: history, documentary history, new history, descontinuity, subjectivity.


Notas:

1 Para uma balanço sobre a produção his-toriográfica brasileira de inspiração fou-caultiana, veja-se Rago (1993, p. 22-32). [volta para o texto]

2 Sobre a história dos Annales e da Nova História, vejam-se Dosse (1992) e Burke (1993). [volta para o texto]

3Le regard objecti-vant et examinateur, ce regard qui décom-pose analytiquement, qui contrôle et perce tout, acquiert pour ces établissements une force structu-rante; c’est le regard du sujet rationnel qui a perdu tout contact simplement intuitif avec son environne-ment, qui a rompu tous les ponts avec la compréhension, et pour qui, dans son isolement monologi-que, les autres sujets ne sont accessibles que dans la position d’objets perçus à tra-vers une observation passive. Ce regard, dans le panoptique conçu par Bentham, est pour ainsi dire architectoniquement figé”(Habermas, 1986, p. 76). [volta para o texto]

4 “O concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações, logo unidade da diversidade. É por isso que ele é para o pensamento um processo de síntese, um resultado e não um ponto de partida, apesar de ser o verdadeiro ponto de partida e portanto igualmente o ponto de partida da observação imediata e da representação” (Marx, 1977, p. 218). [volta para o texto]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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História e Antropologia: uma aproximação profícua


Euges Lima

Nas últimas décadas do século passado, sobretudo nos anos 70 e 80 a historiografia passou por um processo, que podemos chamar de renovação. Na verdade, esse momento na produção historiográfica ficou conhecido como: “viragem antropológica”. É sobre essa relação entre História e Antropologia, essa aproximação entre estas duas áreas do conhecimento - e que para alguns já é denominada de História antropológica - que pretendemos discutir e analisar dentro das possibilidades e limitações deste pequeno texto. A nossa proposta é tão-somente refletir sobre e a partir de uma bibliografia de qualidade, que trata desse assunto e então, evidentemente tirarmos algumas conclusões.

Dentre as ciências sociais, podemos afirmar que a História é uma das que mais evoluíram nas últimas décadas e essa evolução se deu, sem dúvida nenhuma, por conta do caráter interdisciplinar imprimido pela produção historiográfica contemporânea. Os horizontes dos historiadores se expandiram, novas temáticas, novos objetos e novos métodos foram adotados pelos historiadores, quer dizer, pelos historiadores culturais, tudo isso graças à aproximação da História com a Antropologia.

Mas essa perspectiva cultural é realmente tão nova assim? Será que essa abordagem nasce com a escola dos Annales ou, melhor dizendo, com o movimento dos Annales? Não, já nos séculos XVIII e XIX, historiadores como Legrand d’Aussy e Michelet se ocupam do campo desprezado pela história factual, dos acontecimentos, ou seja, se preocupam em estudar uma história social dos costumes dos franceses, das mentalidades; uma história com uma abordagem cultural, mais estrutural que factual. Em 1782, Legrand d’Aussy, por exemplo, já demonstra a sua insatisfação com o tipo de história que se vinha fazendo até então, uma história essencialmente política e voltada para os grandes acontecimentos, assim como, para os feitos dos reis, generais etc.

Vejamos então, como Legrand d’Aussy já nos séc. XVIII em sua História da vida privada dos franceses (3 vol.) faz severas críticas a esse tipo de história - factual - que era predominante na época:

Obrigado, pelos grandes acontecimentos que deve contar, a estudar o que não se oferece a ele com certa importância, ele só admite na cena os reis, os ministros, os generais de exército e toda aquela classe de homens famosos cujos talentos ou erros, esforços ou intrigas produziram a infelicidade ou a prosperidade do Estado. No entanto, o burguês em sua cidade, o camponês em sua choupana, o gentil-homem em seu castelo, o francês, enfim, no meio de seus trabalhos, de seus prazeres, no seio de sua família e de seus filhos, eis o que não nos pode representar.

Para o historiador cultural contemporâneo dos séculos XX e XXI, essa perspectiva histórica que insere os chamados grupos subalternos na história, que percebe na cultura de uma sociedade um objeto histórico, parece algo muito pertinente e até certo ponto natural. Como disse André Burguière (LE GOFF, 1993, p.125), poderíamos muito bem pensar que essa citação acima que expressa sobre as insuficiências do historiador, fosse de um Lucien Febvre ou até mesmo de um Jacques Le Goff ou ainda de um George Duby. No entanto, trata-se de um olhar etnológico no séc. XVIII, que torna Legrand um historiador além do seu tempo, em que para ele a história é “uma mistura constante de comportamentos herdados (portanto de permanências) e de fenômenos de adaptação ou de invenção”.

Um outro precursor do que hoje conhecemos como nova história cultural é Michelet. No séc. XIX, em meio a uma história positivista norteada por uma metodologia inspirada nos moldes das ciências experimentais, onde o elemento básico era o fato histórico, ou seja, o acontecimento; Michelet surge como um historiador que busca outros modelos de explicação da sociedade, uma história da moda alimentar, da sensibilidade, do comportamento das elites francesas no século XVIII, das mentalidades, enfim, uma história etnológica. Nesse sentido, assevera Jacques Le Goff (1993, p.22): "Lucien Febvre ontem, um Fernand Brudel hoje, que primeiro viram em Michelet o pai da história nova, da história total que quer abarcar o passado em toda a sua totalidade, desde a cultura material até às mentalidades".

Como vimos nesse breve histórico das origens da nova história cultural, Marc Bloch e Lucien Febvre tiveram em quem se inspirar e são eles que em fins dos anos 20, na França, vão fundar a revista dos Annales, como uma forma de demonstrar toda a sua insatisfação com relação à história política, permeada por análises pobres e concepções redutoras e centralizadoras, que reduziam o campo histórico ao domínio da vida pública. É a partir daí que esses historiadores vão resgatar, ou melhor dizendo: reaproximar a Etnologia da História, contribuindo sobejamente para evolução do conhecimento histórico contemporâneo.

Comumente a chamada escola dos Annales é dividida em três gerações, a primeira representada por Lucien Febvre e Marc Bloch - seus fundadores - a segunda notadamente representada pela liderança de Fernand Braudel e por fim a terceira, integrada entre outros, por Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie.

É a partir dessa terceira geração que a dimensão antropológica vai se fazer mais presente na historiografia contemporânea. Surgida em fins da década de 70 como uma reação à história quantitativa(1) predominante na geração anterior, esse movimento - viragem antropológica - "pode ser descrito, com mais exatidão, como uma mudança em direção à Antropologia cultural ou 'simbólica' " (BURKE, 1997, p.94). Os historiadores dos anos 70 e 80, vão estabelecer um diálogo mais intenso e profícuo com a Antropologia, vários antropólogos como Pierre Bourdieu, Michel de Certeau, Erving Goffman e Victor Turner vão influenciar os trabalhos desses historiadores. As idéias que migraram da chamada "nova antropologia simbólica" para história, foram adotadas, adaptadas e utilizadas para construir uma história mais antropológica.

A inserção de novas temáticas, assim como, uma apreensão do simbólico por parte do historiador, tem sido pontos fundamentais nesse novo saber e fazer histórico. Temas como o medo, o corpo, a morte, a loucura, o clima, a feminilidade etc., têm sido objetos de estudo desse novo historiador, o que na perspectiva da história tradicional era algo praticamente impensável. Todos estes aspectos da vida humana passam a ter uma nova dimensão, ou seja, a perspectiva cultural. Nesse sentido assinala Burke (1996, p.11):

O que era previamente considerado imutável é agora encarado como uma 'construção cultural', sujeita a variações, tanto no tempo como no espaço [...]. A base filosófica da nova história é a idéia de que a realidade é social ou culturalmente constituída. O compartilhar dessa idéia, ou sua suposição, por muitos historiadores sociais e antropólogos sociais ajuda a explicar a recente convergência entre essas duas disciplinas.

Um outro ponto que os novos historiadores e antropólogos culturais parecem convergir é com relação à questão do simbólico. O diálogo da História com a Antropologia se dá muito em torno da apreensão do simbólico. Como no dizer de Geovanni Levi: "O historiador não está simplesmente preocupado com a interpretação dos significados, mas antes em definir as ambigüidades do mundo simbólico" (ARANHA, 1997, p.49).

Historiadores como Carlo Ginzburg e Robert Darnton em seus trabalhos, buscam uma aproximação vantajosa com a Antropologia, sobretudo com uma “antropologia estrutural simbólica”. Só para citar alguns: História Noturna: decifrando o sabá, de Ginzburg. O grande massacre dos gatos e Outros Episódios da História Cultural Francesa, de Darnton.

É importante ressaltar que esse diálogo com a Antropologia não quer dizer que o historiador perca sua identidade, mas tão-somente utilize a disciplina vizinha para resolver questões que os métodos da História não possuem, como, por exemplo, valorizar o que os antropólogos chamam de “a visão do nativo”, para a partir daí entender os significados implícitos na sua visão de mundo, assim como, a busca por formas simbólicas análogas em sociedades diferente no tempo e no espaço etc. Portanto, ao historiador cabe agir de forma interdisciplinar, sem, contudo, perder de vista sua perspectiva histórica e resolver historicamente aquilo em que a Antropologia não pode avançar, ou seja, analisar a história a partir de uma visão antropológica sim, porém, a partir de uma adesão crítica.


Notas

(1) O tipo de história predominante no movimento dos Annales de 1950 – 1970, onde dava ênfase aos dados estatísticos, como: gráficos e tabelas.


Referências

ARANHA, Gervácio Batista. A nova história, seus temas e métodos: um diálogo com a Antropologia. Revista Raízes. Nº 14, 1997, p. 45-81.

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______. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997.

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DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourett: mídia, cultura e debates. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente.
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LE GOFF, Jacques et al.
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RAZÃO E UTOPIA: THOMPSON E A HISTÓRIA


Ricardo Gaspar Müller

O entendimento da pesquisa histórica como parte de um projeto político vem sofrendo muitas transformações. Conforme observa Emília Viotti, os campos temáticos mais tradicionais da história têm sido substituídos por estudos culturais, eleitos discurso privilegiado de seus acadêmicos, de “esquerda” ou não. Esse quadro se associa, direta ou indiretamente, à assim chamada “condição pós-moderna (incluídas aí as linhas pós-modernas, pós-estruturalistas e neopragmatistas), com sua rejeição às grandes narrativas, sua compreensão da realidade como fragmentos desconexos, sua redução da história a um conjunto de estilos de narrativa e seu efeito desintegrador sobre o sujeito - “condição” que também tem se revelado conveniente habitat para tendências intelectuais neoconservadoras.

Esta pesquisa se articula ao contexto desses debates. A conjuntura dos anos de 1990 opera como sua referência e “provocação” inicial. Fomos motivados pela “crise” da história social e do trabalho e nos preocupamos com os impactos sobre ela do chamado linguistic turn e sua negação ontológica dos sujeitos sociais e históricos. Frente às significativas mudanças ocorridas nas últimas décadas no mundo do trabalho e ao conseqüente realinhamento das fronteiras tradicionais entre as classes sociais, acompanhamos a discussão sobre a perda da centralidade das categorias de trabalho e de classe, a “saída de cena da classe”, ou “The Retreat from Class”, conforme definição de Ellen M. Wood. Observamos as clivagens existentes na sociedade serem definidas pelo patamar da ideologia ou, mais precisamente, do “discurso”, e a conquista da hegemonia (a do discurso, por certo) ser vista como determinante na luta dos trabalhadores na sociedade contemporânea.

Assim, ao mesmo tempo em que serve a setores acadêmicos conservadores, a explicação, ora discursiva ora cultural, vem se configurando como resposta adequada às dificuldades analíticas encontradas pela história social. Não sem resistências, porém. Segundo Emília Viotti, é esse o contexto em que se formam algumas das novas tendências na historiografia. Entre elas, chamamos a atenção para as de viés culturalista, como as discursivas, com raízes sólidas no pós-estruturalismo.

Na mesma linha de raciocínio, Ellen M. Wood adverte que as novas propostas teóricas, do revisionismo histórico ao pós-modernismo cultural, fraturam o mundo e reduzem-no a formas discursivas ou à contingência de um processo de significações múltiplas e sem referentes. Seu efeito é devastador, porque desmobiliza o pensamento, a crítica e a prática política. É nesse sentido, aponta Gregory Kealey, que as premissas do pós-estruturalismo (as que invalidam a história ou nem sequer reconhecem a possibilidade da história) colocam contradições para a prática da disciplina histórica que, mais do que a negação da história da classe trabalhadora, significam um ataque à própria história, et pour cause.

É nesse contexto que um resgate do sentido de história para E. P. Thompson e de sua “lógica histórica”, assim como de sua trajetória intelectual e política, adquire relevância nos dias de hoje. Pode-se afirmar que Edward Palmer Thompson (1924-1993) foi um dos mais importantes historiadores marxistas britânicos do século XX. Seu engajamento ao socialismo testemunhou não apenas um vigoroso envolvimento prático, por mais de cinqüenta anos, mas também um compromisso de vida com vistas a revigorar o marxismo, em particular o britânico, como movimento teórico. Fazendo-se um recorte meramente analítico de sua obra, percebem-se dois aspectos, no entanto, indissociáveis. Em termos teóricos, sua contribuição pode ser avaliada por seu empenho em redefinir uma análise da luta de classe que fosse mais apropriada para a compreensão da história da classe trabalhadora britânica. Em termos práticos, Thompson foi um defensor incansável de vários movimentos sociais que, de seu ponto de vista, representavam diferentes tendências contemporâneas de conflito de classe. Ao relacionar e integrar os elementos teóricos e práticos, ofereceu uma visão ampla do desenvolvimento das formas da política radical na Grã-Bretanha, desde os primórdios do capitalismo, assim como desenhou uma trajetória de história política, cujas informações deveriam servir de orientação para as estratégias de campanhas e movimentos sociais de seu tempo.

Sua interpretação do materialismo histórico afirma três categorias básicas: a luta de classe como protesto, a experiência da classe trabalhadora e a idéia de moral. Thompson, crítico rigoroso quanto à validade de teorias que questionava, envolveu-se em duras polêmicas no mundo acadêmico. A obra thompsoniana reafirma alguns pressupostos do socialismo, mediante sua avaliação das aspirações da classe trabalhadora, definidas como defesa de sua humanidade e de um projeto coletivo. Essa abordagem priorizava a noção de “humano” na sociedade, compreendida como um movimento histórico relacionado a um ideal democrático. Como Thompson afirma: “(...) i.e., a sociedade socialista iria revolucionar as relações humanas, substituindo o respeito à propriedade pelo respeito ao homem e a sociedade de consumo pelo bem comum”. O objetivo geral de sua iniciativa era o de substituir o “homem econômico” representativo da sociedade capitalista (mas também o do modelo de economia controlada e planejada, instalado pelo comunismo soviético) pelo “homem socialista”. A obra de E. P. Thompson é o eixo principal da tese. Com destaque para The Making of the English Working Class, The Poverty of Theory e Customs in Common, pode-se afirmar que sua obra efetiva uma mediação basilar entre as tendências teóricas e políticas da história do trabalho e as questões hoje debatidas, como classe enquanto categoria de análise e o problema da relação entre realidade (a ontologia - o out there, como coloca Thompson) e discurso (a reificação da linguagem e a influência do linguistic turn na história). Além disso, ao mesmo tempo em que é representativo da historiografia britânica de tradição marxista, ele estabelece uma inflexão nessa tradição, ao rever seus conceitos mais importantes (como classe e consciência de classe) e procurar precisá-los (contra os “assaltos” do stalinismo e do estruturalismo, por exemplo).

Há ainda outro aspecto que justifica a escolha da obra de Thompson como eixo de nossa pesquisa: a presença de E. P. Thompson, ainda hoje, é tão importante quanto incômoda, como é possível se perceber pelas várias e muitas vezes antagônicas interpretações de sua obra.

Mas, se as múltiplas leituras de Thompson nos motivaram ao longo da pesquisa, também fomos instigados por sua obra e sua trajetória política e intelectual, as quais conferem unidade às questões apresentadas, direcionam o eixo da investigação e estabelecem a idéia de mediação proposta. Com isso em vista, procuramos realizar uma reavaliação de parte da obra de E. P. Thompson, destacando a centralidade de seus conceitos de classe e luta de classe como categorias de análise e, ao mesmo tempo, como vetores de um sentido de história para sua obra. Assim, procuramos sistematizar e discutir tópicos relacionados à sua prática e a seu pensamento como teórico e político de filiação marxista. Ademais, foi nosso propósito indicar os debates teóricos em que se envolveu e resumir os seus temas prioritários: as questões relacionadas a seus conceitos de humanismo socialista e de protesto como luta; sua crítica ao marxismo de Louis Althusser e sua total oposição à penetração do estruturalismo no marxismo britânico; suas reivindicações de alternativas à diplomacia da Guerra Fria; sua defesa da razão e da liberdade.[iii][3]

A exposição dos resultados da pesquisa foi feita na seguinte ordem:

No primeiro capitulo, “Pesquisa Histórica, Historiografia Britânica e Linguistic Turn”, apresentamos as linhas gerais dos debates travados no campo da história social sobre o papel da linguagem na formação dos significados e das identidades sociais, em decorrência da adoção dos princípios pós-modernos e os do linguistic turn no campo da história social, sobretudo na historiografia inglesa. Procuramos examinar a relação entre a problemática do discurso e o processo histórico e destacamos os efeitos desse confronto sobre categorias como real e classe.

No segundo, “E. P. Thompson e a Formação do Comunismo Britânico Libertário”, acompanhamos as principais iniciativas do Grupo de Historiadores do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB) e de Thompson; a trajetória de Thompson e seus companheiros no grupo, e no partido, até os eventos de 1956 e sua saída do partido; apresentamos, em linhas gerais, a formação do grupo da ‘new left’, a organização dos periódicos Reasoner, New Reasoner e New Left Review, a formação de movimentos alternativos (como a CND, Campaign for Nuclear Disarmament), as primeiras cisões e dissidências dentro da ‘new left’ e sua relação com as correntes do humanismo socialista e as divisões dentro do marxismo. Procuramos mostrar como Thompson é marcado pela herança dos românticos, pela influência de William Morris, pela premissa e defesa do humanismo socialista, assim como pela utopia. Ou seja, há um princípio presente em sua vida: a defesa da razão em nome da utopia.

No terceiro capítulo, “A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa na Perspectiva do ‘Agir Humano’”, realizamos um resumo dos eixos mais importantes de The Making of the English Working Class e do método de Thompson, com vistas a avaliar a relação entre seus conceitos e sua exposição. Assim, percorremos os principais temas do livro, como a reabilitação das idéias românticas e de sua importância para formar um “espírito de radicalismo”; a discussão dos movimentos milenaristas; a relação entre o contexto histórico e as condições de formação de classe e a possibilidade de transformação revolucionária; a idéia de uma “contra-revolução inglesa”, associada à própria formação do Estado e às repercussões da Revolução Francesa e às Guerras Napoleônicas; a importância das tendências religiosas (como o metodismo) e suas contradições, bem como o significado de uma intelligentsia - intelectuais, como jornalistas e escritores - para a formação e consolidação do “espírito radical” em um processo revolucionário. Por fim, avaliamos algumas manifestações, favoráveis e contrárias a Thompson, uma vez que sua abordagem sobre o “agir humano”, experiência e consciência de classe, provocou inúmeras e diferentes reações. Procuramos, sempre que possível, relacionar o texto de The Making... a passagens de Customs in Common.

No quarto capítulo, “A Reafirmação do Materialismo Histórico”, apresentamos um resumo das principais idéias de The Poverty of Theory, a crítica de Thompson a Althusser e, sobretudo, à sua influência sobre parte da esquerda inglesa. Acompanhamos a fundamentação de seus argumentos, suas discussões políticas no campo do marxismo, suas críticas a Marx e a O Capital e, principalmente, destacamos a importância de sua proposta de “lógica histórica”. Resumimos também os momentos mais importantes do “debate de Oxford”, quando, na última noite de um seminário promovido pelo Grupo “History Workshop” e pelo Ruskin College em dezembro de 1979, seu livro (The Poverty...) foi questionado por Stuart Hall e Richard Johnson, com uma significativa réplica por parte de Thompson.

No último capitulo, “Liberdade Política e Desarmamento Nuclear”, estudamos o envolvimento político de Thompson nos movimentos pacifistas, no que chamamos de “lutas de libertação” e de “détente a partir de baixo”, sua participação e liderança em campanhas contra as injunções da guerra fria e pelo desarmamento nuclear, especialmente nas campanhas da CND e END. Nessa luta Thompson produziu ensaios polêmicos, como os sobre a ameaça de “exterminismo”, uma categoria de análise proposta por Thompson em 1980 para apreender a realidade da corrida armamentista no contexto da guerra fria. Também são desse período seus manifestos “Protest to Survive” e “Beyond the Cold War”, dos quais expomos as principais linhas e que procuramos relacionar à polêmica da idéia de “exterminismo”.

Nas “Considerações Finais” destacamos a forte atualidade das questões subjacentes ao temor de Thompson, tal como explicitado no capítulo quinto, o que expressa a importância da relação entre teoria e prática para Thompson e traduz sua própria luta entre razão e utopia. A nosso ver, sua luta talvez indique a necessidade e o sentido de relembrar sua obra, de modo a, mais uma vez, repensar os caminhos e descaminhos da luta de classe na sociedade contemporânea e, ao mesmo tempo, as bases de uma nova “agenda” para a história social.