sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A Abordagem marxista nos estudos sobre os movimentos sociais

Maria da Glória Gohn

Profa Titular Faculdade de Educação-UNICAMP

1- Características Gerais: Abordagem Clássica e a Neo-Marxista

A análise dos movimentos sociais sob o prisma do marxismo refere-se a processos de lutas sociais voltadas para a transformação das condições existentes na realidade social, de carências econômicas e/ou opressão sociopolítica e cultural. Não se trata do estudo das revoluções em si, também tratado por Marx e alguns marxistas, mas do processo de luta histórica das classes e camadas sociais em situação de subordinação. As revoluções são pontos deste processo, quando há ruptura da "ordem" dominante, quebra da hegemonia do poder das elites e confrontação das forças sociopolíticas em luta, ofensivas ou defensivas.

O paradigma marxista aplicado à análise dos movimentos sociais têm sido visto, de uma forma generalizada, erroneamente, como sinônimo de análise do movimento operário Na realidade esta posição desconhece as análises feitas sobre os movimentos sociais não operários, tais como os reivindicatórios de bens e melhorias coletivas, principalmente de equipamentos públicos, realizadas nos anos 70 e 80. Outra distorção freqüente é a generalização do paradigma marxista em uma só teoria desconhecendo as abordagens ortodoxas das não - ortodoxas, mesmo no estudo da classe operária. Assim, ignora-se que as análises feitas sobre a classe operária, pela corrente dos historiadores marxistas ingleses, fizeram uma releitura do marxismo ortodoxo, deslocando o eixo das determinações exclusivamente econômicas para outros campos da vida social, como o cultural. Embora estes estudos mantenham as categorias básicas marxistas, eles representam uma releitura da ala do marxismo clássico, tradicional, tido como ortodoxo.

Sabemos que o paradigma marxista clássico tem duas grandes correntes. Uma ligada ao jovem Marx e a seus estudos sobre a consciência, a alienação e a ideologia etc. e criou uma tradição histórica humanista que teve continuidade nos trabalhos de Rosa de Luxemburg, Gramsci, Lukács e na Escola de Frankfurt, após a Segunda Guerra Mundial. Será esta leitura do marxismo que alimentará as análises contemporâneas feitas sobre os movimentos sociais. A outra corrente decorre dos trabalhos de Marx já "maduro", após 1850, com os estudos sobre o desenvolvimento do capital, onde os conceitos básicos serão formação social, forças produtivas, relações de produção, superestrutura, ideologia, determinação em última instância, mais valia etc. Esta última corrente privilegia os fatores econômicos, macro-estruturais da sociedade. O conflito entre capital e trabalho gera a luta de classes, principal motor da História. A classe operária industrial têm primazia no processo de luta social e o movimento operário desempenha o papel de vanguarda nas transformações sociais. Ele, junto com o partido político e com intelectuais orgânicos à classe operária teriam uma missão história: transformar a sociedade das desigualdades sociais em uma outra, sem opressão ou oprimidos. O privilégio dado à classe operária se explicaria pelo papel que ela ocupa no processo de produção - arena central do processo de conflito social - e pelas contradições sociais do próprio sistema capitalista naquele processo. A classe operária seria o agente principal de um novo devir histórico por ser a negação de seu oponente básico: a burguesia.

Manuel Castells, Jean Lojkine, Claus Offe, Laclau e a corrente dos historiadores liderada por Hobsbawm E.P. Thompson e G. Rudé e outros, constituíram a corrente contemporânea de estudo sobre os movimentos sociais na Europa também denominado neomarxista. Tratam-se de estudos que significaram uma releitura do marxismo ortodoxo. A abordagem dos fatores políticos tem centralidade e a política passou a ser enfocada do ponto de vista de uma cultura política, resultante das inovações democráticas, relacionadas com as experiências dos movimentos sociais, e tem um papel tão relevante quanto a economia, no desenvolvimento dos processos sociais históricos. Duas grandes referências fundamentaram esta releitura. A teoria da alienação desenvolvida por Lukács (1960) e pela escola de Frankfurt e a teoria de Gramsci sobre a hegemonia.A primeira aborda a alienação "em termos dominação dos sujeitos por forças alheias que impedem o pleno desenvolvimento de suas capacidades humanas e a emancipação como a libertação das garras destas forças alheias, sejam elas "forças da natureza" ou advindas da organização da sociedade"( Assies, 1990: 24).

Entretanto, devemos reconhecer que o marxismo, aplicado ao estudo dos movimentos sociais operários e não-operários, não é apenas uma teoria explicativa mas é também uma teoria aos próprios movimentos. Por isto muitas vezes suas análises se assemelham a um guia de ação porque elas estão voltadas não apenas ao entendimento analítico dos problemas envolvidos mas elas estão refletindo a prática que se tornará práxis histórica.

As teorias marxistas sobre os movimentos sociais não abandonaram a problemática das classes sociais. Ela é utilizada no que diz respeito à origem dos participantes, aos interesses do movimento, assim como ao programa ideológico que fundamenta suas ações. Na abordagem clássica marxista os aspectos organizacionais do movimento interessavam à medida que era um dos fatores geradores de consciência social, mas nas análises dos movimentos em si eles quase não apareciam e este é um dos pontos de crítica do paradigma americano aos marxistas, bastante centrado na análise institucional das organizações. O que é destacado nos estudos marxistas contemporâneos é que os movimentos não surgem espontaneamente. São organizações existentes, atuando junto a bases sociais mobilizadas por problemas decorrentes de seus interesses cotidianos, como cidadãos, consumidores, ou como cidadãos usuários de bens e serviços públicos, que geram os movimentos sociais. Eles não existem a priori, tornam-se movimentos pelas ações práticas dos homens na história. Organização e consciência serão fatores chaves para explicar o seu desenrolar. A questão da existência de uma lógica no processo de desenvolvimento histórico é um consenso dentro do approach marxista. Isto significa que a realidade necessita de ferramentas da racionalidade científica para ser entendida, ela contém outras explicações que sua aparência imediata não revela. Através da objetividade pode-se ter acesso à forma e aos modos de como os fatos, fenômenos e acontecimentos em geral da realidade realmente ocorrem e porque eles são desta forma e se apresentam de outra. O debate gira em torno da determinação ou não desta lógica, da hierarquia ou não dos setores que compõem as relações sociais dos homens entre si e com a natureza.

Assies (1990) destaca que elementos como socialização, processo educativo, interação social, autoconsciência, não-consciência, identidade coletiva e individual baseadas em fatores de gênero, preferencias sexuais, etnicidade etc permaneceram fora das principais correntes marxistas de análise e reflexão. O processo político e seus níveis de autonomia também não foi um ponto central naquelas análises. Por isso, os temas que serão destacados pela maioria dos estudiosos marxistas dos movimentos sociais tem um ponto de partida nas questões estruturais, de forma a ter uma base para o entendimento dos conflitos sociais.

Scott (1990) afirma que os movimentos sociais tardaram a parecer nas abordagens marxistas, ortodoxas ou neomarxistas porque nas primeiras os movimentos da classe eram vistos como "o paradigma" e para as segundas haveria uma subordinação de outros tipos de movimentos aos movimentos de classe. Scott cita Castells (1978) quando este analisou a ideologia dos ambientalistas como apolítica. Movimentos que não eram de classe seriam visto até mesmo com uma certa hostilidade.

Este trabalho contém três partes. A primeira aborda as matrizes clássicas marxistas que embasaram as correntes teóricas contemporâneas sobre os movimentos sociais. Inicia-se pelo próprio Marx, tomando aspectos de sua obra (1976) que remetem à problemática dos movimentos sociais e constituem o acervo de seu legado para a análise sobre os movimentos. O mesmo procedimento será utilizado para os outros clássicos do marxismo, selecionados dentro dos objetivos deste trabalho, a saber: Lenin, Rosa de Luxemburg, Trotsky, Mao Tsé-Tung e Antonio Gramsci. Não entraremos na polêmica de suas divergências ou polêmicas e correntes políticas que geraram entre si. Apenas resumiremos pontos nas obras que tratam dos movimentos ou serviram de fundamentos a teorias sobre eles.

A Segunda parte aborda os estudos realizados pelos historiadores europeus, especialmente ingleses, nos trabalhos de Hobsbawm, E.P.Thompson e G.Rudé. O trabalho concluí-se, numa terceira parte, com uma visão geral sobre o uso da abordagem marxista nos movimentos sociais latino-americanos.

http://www.unicamp.br/cemarx/

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