domingo, 16 de dezembro de 2007

CAMINHOS DA HISTÓRIA

CAMINHOS DA HISTÓRIA . . .


Segundo Peter Burke, a história está fragmentada no que diz respeito as suas áreas de atuação. Como, por exemplo, a história econômica que encontra-se independente da história social. O autor ainda diz que muitos historiadores econômicos, sociais, culturais e políticos compõe, portanto, estas transformações.

"Atualmente, a verdadeira identidade da história econômica está ameaçada por uma proposta de controle de um empreendimento jovem, mas ambicioso: a história do meio ambiente, as vezes conhecida como eco -- história." Pg. 08

Diante das constantes transformações de um universo que se expande cada vez mais, há, segundo Peter, uma necessidade de orientação. É nesta dimensão que ele nos chama atenção para a Nova História. Evidentemente que pretendemos tratar destas inúmeras transformações da história de forma superficial, entretanto, com muita seriedade e transparência. Este é o desafio deste humilde artigo.

A historia nova nasceu na França com estudos, "novos problemas", "novas abordagens" e "novos objetos" estes estudos contaram com a colaboração maciça de Jacques Le Goff. Entretanto, a Esta Escola dos Annales que está associada a revista dos Annales intitulada originalmente de: Annales, économies, societés, civilisations, contribuiu e muito para este movimento, falaremos um pouco mais este acontecimento adiante. Evidente que para esta nova história atingir sua existência mais completa sofreu influências de grandes pensadores como Conte, Durkein, dentre outros.

Descrever o que significa história nova, é admitidamente, em concordância com o autor, uma tarefa árdua. Burke então, resolve relatar esta dimensão começando pelo que não é a história nova, segundo ele, da mesma forma que os teólogos medievais quando na ocasião da tentativa de definir Deus.

Para isto, afirma Peter Burke, é interessante enumerar seis pontos para tratar do contraste existente entre a antiga e nova história. E nós iremos apresentar, de forma sucinta, o teor destes pontos:

1) de acordo com o autor, a tradição histórica sempre preocupou-se com uma história nacional ou internacional, jamais tratando do regional. Outro fenômeno fica por conta da consideração insistente da política como formadora da história, como disse Sir John Seeley, Catedrático de História em Cabridge: " História é a política passada: política é a história do presente". Deste aspecto, podemos dizer que a história tradicional marginalizou muitos aspectos das atividades humanas, pois para a nova história, toda atividade humana é portadora duma história, é desta idéia que a escola dos annales atribuíram a expressão "história total".


2) Os historiadores tradicionais preocupam-se em relatar uma história factual, excessivamente preocupada com os acontecimentos. Diferentemente, ocorre com a nova história, para esta não é suficiente saber os acontecimentos e sim, saber de toda estrutura que permeia as transformações, considerando diversos personagens que precisam ser analisados. O brilhante historiador Fernand Braudel contribui para a importância destas estruturas em sua obra O Mediterrâneo, valorizando as mudanças econômicas e sociais ocorridas a longo prazo (longa duração).


3) Outro ponto refere-se quanto ao tratamento, promovido pela história tradicional da história vista por cima, ou seja, valorizando figuras ilustres como generais, estadistas, etc. muitos historiadores desconsideram a história de personagens comuns, esquecendo-se que estes também constróem a história. Já com a nova história considera tanto a história de cima como também a vista de baixo, considerando opiniões de gente comum, por exemplo, a história das mentalidades.


4) Neste quarto ponto, Burke fala sobre a "reunião" de fontes utilizadas pela corrente tradicional, são as fontes oficiais, registros oficiais, portanto, uma história oficial, considerando apenas estas como evidências seguras para história, trabalhando também com dados quantitativos que, segundo o autor, teve seu auge nos anos 50 e 60. Por outro lado, a história nova esclarece que há muitas outras evidências que podem contribuir para história como as fontes visuais e orais. a história nova considera a história antes de sua escrita, ou seja, além dos documentos. Este período para os tradicionais é chamado como Pré -- história.


5) Aqui, nos referimos do poder da história em realizar indagações a um determinado fato ocorrido em um determinado período da história. O paradigma tradicional procura uma verdade, ou uma versão exata. Com a história nova, existe o tratamento que considera a representação de verdades, de versões que se aproximam, que se distanciam, ou não da verdade absoluta que para esta categoria não existe.


6) Por último, o autor cita a posição do paradigma tradicional que considera a História objetiva, capaz de relatar os fatos, segundo uma frase de Ranke, "como eles realmente ocorreram". Entretanto, para a história nova, existe um relativismo cultural que está presente nas atividades humanas e sobretudo, na própria escrita da história. Não considerando ou ouvindo apenas uma só voz.


"Uma maneira de descrever as realizações do grupo dos annales é dizer que eles mostraram que a história econômica, social e cultural pode atingir exatamente os padrões profissionais estabelecidos por Ranke para história política." Pg. 16


Quanto é nova a nova história?

O descontentamento com o paradigma tradicional, segundo o autor, remonta há alguns períodos da história. Admite-se que com a Escola dos Annales, houve a contribuição e muito para divulgar sua posição. Em 1919 Marc Bloch e Lucien Febvre representaram a primeira fase desta divulgação com o Annales. Depois foi a vez de Fernand Braudel. Mas Peter cita também, voltando um pouco no tempo, cerca de 50 anos antes do nascimento de Cristo, mencionando o historiador grego Políbio que denunciou, na ocasião, o que para ele era um método retórico, método este aplicado por seus companheiros. O que o autor deixa claro é que já haviam profissionais que consideravam ou tratavam a história de forma ao tradicional, entretanto, não havia o confronto destes profissionais com a escrita da história de forma expressiva e direta naquela época.

Já nos tempos contemporâneos, os profissionais não tomam a mesma postura, ótimo para quem está de acordo com a nova história, este novo olhar estrutural.

Bem, Peter Burke nos apresentou algumas transformações contidas na escrita da história que sãos conseqüências do comportamento de diferentes historiadores com diferentes valores atribuídos a pesquisa histórica, ou seja, diferentes olhares.

Adam Schaff é um dos geniosos teóricos da história. A partir de agora vamos relatar algumas posições deste competente autor a respeito da necessidade, também segundo ele, de reescrever a história continuamente.

Adam Schaff sempre creditou ao homem em movimento no tempo, como fator decisivo para a consideração da história como ciência. O papel ativo do homem evidencia a necessidade do historiador recomeçar seu trabalho continuamente.

" ... o conhecimento histórico é um processo infinito ..."

Schaff aponta algumas teses de estudiosos quanto a possível explicação desta necessidade de reinterpretar a história continuamente. Apresentamos portanto, de forma resumida, duas concepções:

1) a reinterpretação da história é função das necessidades variáveis do presente.

2) a reinterpretação da história é função dos efeitos dos acontecimentos do passado emergindo no presente. Pg. 270

De acordo como autor, a primeira explicação está baseada no presentistmo, que para ele quando levado ao extremo proporciona à negação da história como ciência.

Vejamos a posição de John Dewey, defensor da construção histórica baseada na seletividade dos fatos, e que a escrita da história ocorre, segundo ele, a partir das posições do presente.

"não há outros materiais acessíveis para a elaboração dos princípios diretores e das hipóteses além daqueles que nos fornece a contemporaneidade histórica. Quando a cultura muda, as concepções dominantes em uma dada cultura mudam igualmente. Surgem então necessariamente novos pontos de vista que servem para a apreensão, a apreciação e a coordenação dos dados. Nesse momento reescreve-se a história. " Pg. 271

mas em quais momentos a história passa a necessitar de reinterpretações? Adam concorda com a brilhante e sensata posição de Carl Becker quando este diz que os períodos de estabilidade, propícios ao sentimento de satisfação do presente, favorecem igualmente o consenso social quanto à imagem tradicional do passado; pelo contrário, nos períodos de crise e de oposição, quando a estabilidade é abalada, os homens descontentes com o presente são inclinados a estar também descontentes com o passado; a história é então submetida a uma reinterpretação na perspectiva dos problemas e das dificuldades do presente.

A segunda explicação

Schaff cita o exemplo de Marx que diz que quanto mais nos afastarmos do passado melhor poderemos compreendê-lo. Neste contexto, podemos visualizar novos detalhes, novos pontos de vista, ou seja, novas interpretações que se transformam ao longo do tempo histórico. O autor diz ainda que a história contemporânea é mais difícil de ser escrita, talvez porque não damos a devida atenção as conseqüências ou que ignoramos posições de alguns teóricos.

Sidney Hook diz que somente com a realização do futuro poderemos compreender o passado. Vejamos a concepção de M. J. Dhont, similar a Hook, porém, formulada de maneira diferente:

" ... O historiador nunca vê os fatos como os contemporâneos os viram. Vê-los desenrolarem-se como um profeta infalível: o que com efeito separa totalmente o historiador de não importa que categoria de contemporâneo dos fartos que relata, é que o historiador conhece sempre o futuro. Isto tira-lhe completamente a possibilidade de ver os acontecimentos com os olhos de um contemporâneo ... O que decorre desta observação, é que o historiador escreve sempre a história em função do ponto de chegada da evolução. Será levado por isso a considerar como importante os acontecimentos na direção desse ponto de chegada, acontecimentos que, na maioria dos casos, não marcaram de modo algum os contemporâneos. " Pg. 275

Karl Heussi conclui:

" As grandezas passadas que não consideramos talvez como particularmente importantes, podem, em um tempo que é para nós o futuro, produzir em circunstâncias definidas efeitos importantes. Deste ponto de vista, o passado não é qualquer coisa fria, petrificada, mas uma coisa viva que muda e se desenvolve sem cessar." Pg. 276

H. H. Randall diz:

" ... Não se pode compreender plenamente a história acontecida senão à luz de todos os seus efeitos realizados e reconhecidos. O "significado" de qualquer fato histórico consiste no significado que ele possui ainda, na sua ação nos efeitos que dele resultam." Pg. 276/277


Schaff conclue: a história não é uma imagem acabada, e sim um processo que interpreta verdades fragmentadas, cumulativas, parciais, não absolutas. A objetividade desta verdade está confirmada, segundo as mutações que delineiam das constantes variabilidades da escrita da história, desta, portanto, na história.

A História é mesmo fascinante, trabalhando com a cronologia do tempo, convivendo com as transformações dos fatos e acontecimentos, reinterpretando-se conforme as constantes atividades realizadas por homens que, na minha opinião, de forma esclarecedora, promovem mudanças no tempo histórico, pois estes mesmos homens fazem parte da história que é, sobretudo, uma ciência.

Referência bibliográfica:

BURKE, Peter (Org), A Escrita da História: novas perspectivas, Tradução: Magda Lopes, Unesp -- 1992, SP.

SCHAFF, Adam, História e Verdade, Tradução: Maria Paula Duarte, Martins Fontes, 1995, SP.


Artigo escrito por:

CRISTIANO RODRIGO CATARIN
E-mail: catarin@estadao.com.br

Santo André, 16 março de 2004

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