domingo, 16 de dezembro de 2007

Entre o tradicional e o moderno: o público e o privado

Texto : Josias Faustino

Tradicionalmente o termo privado sempre esteve universalmente inseparável do público. Segundo George Duby o conceito de privado só adquiriu consistência no século XIX, havendo a partir de então uma distinção entre o público e o privado. Em primeiro momento nos países de industrialização clássica, chegando ao Brasil com o advento da urbanização e da modernização. O ímpeto modernizador que se manifesta a partir da urbanização vai aos poucos revelando e delimitando os espaços entre o público e o privado.

Em tempos coloniais jamais se definiram as fronteiras entre o público e o privado, isto se reconhece visivelmente na obra de Capistrano de Abreu, onde o privado inexiste ou ambos os espaços se confundem formando um todo social. Em Casa-grande e Senzala de Gilberto Freire já se percebe uma preocupação do mesmo em delimitar e destacar ambos os aspectos; adentrando ao lar, a família e a sensualidade feminina, citando, por exemplo, receitas da cozinha, temas estes raramente citados ou desconsiderados pela Historiografia tradicional.

Com o surgimento das várias tendências da “nova História” a história da vida privada torna-se um espaço privilegiado de discussão e apreciação de vários historiadores modernos. A partir de então destacaremos alguns trabalhos historiográficos, a começar pela obra História da Vida Privada no Brasil, em especial o volume três sob a coordenação de Nicolau Sevcenko, que contou com apoio de sete outros autores paulistas. O objetivo deste trabalho é estabelecer uma relação entre o singular e o global tratando dos diversos aspectos da cotidianidade e privacidade das diferentes camadas sociais no âmbito do processo de urbanização e modernização do país. Considerando os novos hábitos familiares, a decoração da casa, o dia a dia no lar até as questões mais intimas. Não somente observando as contradições e os novos costumes da sociedade da época, mas também criando um vasto percurso nessa nova forma de fazer história, partindo do particular ao global, sem perder de vista os pormenores, criando uma nova abordagem histórica onde o privado e o público representam espaços diferentes, definindo fronteiras entre os mesmo, porém reconhecendo a interligação dos fatos que acontecem no lar , no trabalho, na rua, no lazer , enfim em todos os momentos da vida social, estabelecendo uma nova expectativa para o individual e o particular, algo antes desconsiderado.

O livro “Trabalho lar e Botequim” de Sidney Chalhoub é uma obra que revela muito bem, a vida dos trabalhadores e das pessoas de um modo geral nas primeiras décadas do século XX no Rio de janeiro, onde imigrantes recém chegados de outros países se mesclavam entre negros e mulatos pelas ruas da cidade, mostrando os antagonismos que surgiram na disputa por trabalho e de espaço para a sua sobrevivência.

Outra obra de referência excepcional que merece destaque: “Do cabaré a o lar” de Margareth Rago, que retrata muito bem o cotidiano dos trabalhadores nas fábricas nos primeiros tempo da industrialização, a resistência operária, os jornais anarquistas, as condições de trabalho nas fábricas, o dia a dia das mulheres no lar e na rua.

O historiador do cotidiano tem como preocupação restaurar as tramas de vida que estavam encobertos ou jogados no esquecimento. No decorrer dos tempos o público e o privado têm sido tratado de forma distinta apesar dos mesmos serem construídos num mesmo espaço e tempo e estando sujeitos a mudanças constantes, portanto, não devem ser considerados de maneira universal e estável.

Nenhum comentário: