sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A Historiografia Antiga e a Historiografia Moderna




Carlos Augusto Ribeiro Machado
Mestrando pela USP / Fapesp

Definir o estatuto que os historiadores antigos, gregos e romanos, têm entre os historiadores da antiguidade coloca uma série de problemas. Isso pode ser observado através de uma simples comparação: um especialista da História francesa até pode tomar a obra de Michelet como fonte para o estudo do pensamento político no século XIX (por exemplo), mas dificilmente o definiria desta forma se estivesse pretendendo estudar um evento como a Revolução de 1789. Para quem deseja estudar as relações entre o Senado e os imperadores romanos no século I d.C., no entanto, a obra de Tácito forçosamente servirá de fonte. No caso, não apenas para estudar a ideologia senatorial (grupo do qual o historiador romano fazia parte), mas também para obter informações factuais, em si: se um determinado imperador visitou determinada província, se algum senador fez algum discurso, entre muitos outros usos.

Os historiadores da antiguidade, portanto, dependem de seus “colegas” antigos em um nível extremo. Assim, não é de se estranhar que controvérsias a respeito do caráter “científico” da História, ou dos limites da objetividade do historiador, sejam encaradas com extremo desconforto nesta área. Uma vez que assumimos que o relato do historiador não pode ser “verdadeiro”, no sentido de narrar o acontecido como ele realmente aconteceu, tomar as Histórias de Tácito como fonte para estudar o objeto de sua narrativa passa a ser bastante problemático. Não é por acaso, portanto, que nos últimos anos obras e artigos com títulos sobre “a retórica na historiografia clássica” ou “a história como texto” tenham proliferado entre os classicistas1.

A premissa básica que existe entre estes estudos é a de que, sendo a História um gênero literário, sua escrita é presidida por cânones retóricos, mais do que pelas informações que o historiador pode coletar. Para um autor como Alan Woodman, portanto, Tácito é uma boa fonte para o estudo da ideologia senatorial, mas não para o período ou os eventos que ele pretende descrever. Para esse autor, o fato de o historiador romano fazer, em sua obra, descrições de batalhas segundo fórmulas repetitivas, por exemplo, seria uma amostra de sua estratégia retórica. Além disso, o valor dado por Tácito às digressões e descrições (onde mais uma vez fórmulas clássicas são repetidas) deixa claro que, para ele, escrever História seria uma atividade primariamente literária2.

É claro que esta perspectiva representa um grande avanço para nosso conhecimento sobre a historiografia antiga. Afinal de contas, por mais generosos que tenham sido os historiadores gregos e romanos na elaboração de “discursos sobre o método” (mesmo um não historiador, como Cícero, registrou suas opiniões sobre o que seria a História bem feita), é sempre interessante ver como se dava a prática historiográfica. No entanto, tal observação, aliada ao fato de que a quase totalidade dos historiadores antigos eram membros das classes dominantes3 - e por isso diretamente interessados no objeto de seu relato -, leva-nos a um inevitável beco sem saída: como estudar o passado se as fontes de que dispomos não são adequadas?

Para colocar essa questão de uma forma mais concreta, podemos tomar como exemplo a análise da História Augusta (HA). Essa obra, uma coletânea de biografias de imperadores, co-regentes e usurpadores dos séculos II e III d.C., coloca uma série de problemas pertinentes aos nossos objetivos. Em primeiro lugar, pela forma como os manuscritos se apresentam: as biografias são atribuídas a autores diferentes, sendo seis no total (seria, assim, a primeira obra coletiva da historiografia clássica). Mais do que isso: dedicatórias e passagens dos textos indicam que as biografias teriam sido escritas entre os reinados de Diocleciano (fim do século III) e de Constantino (início do IV d.C.). A obra também é pródiga na citação de documentos inéditos e de escritores obscuros, indicando o interesse de seus autores em comprovar a veracidade daquilo que afirmam.

Desde o final do século XIX, no entanto, esse quadro tem sido completamente revisto. Em 1889, com a publicação de uma série de artigos sobre a autoria e a datação da HA, Herman Dessau chamou a atenção para os diversos anacronismos contidos nas biografias. Continham, observou, nomes e alusões que indicavam uma origem posterior à pretendida. Mais do que isso, Dessau mosrou que a obra possuía contatos e relações de dependência com textos posteriores, de meados do século IV. Sua conclusão foi que a obra deveria ter sido composta por volta de 390 d.C. por um único autor, e não pelos seis que eram nomeados. A partir daí, teve início uma violenta controvérsia seu respeito desta obra, sendo propostas diversas soluçõs para o problema da autoria e datação4 .

As posições deste autor são tidas atualmente como consensuais, o que no entanto significa reconhecer que a obra é uma grande fraude. Essa é, aliás, a posição do maior especialista no assunto neste século, Ronald Syme, para quem as biografias seriam um mero pastiche, um puzzle literário. Os historiadores da antiguidade, que antes tinham na HA uma fonte de imensa importância para o estudo dos séculos II e III , passaram a ter de lidar com alternativas pouco agradáveis: ou reconhecem que não existem fontes propícias para o estudo deste período e deixam de estudá-lo ou usam estas biografias como fonte a despeito dos problemas que ela impõe.

Acreditamos que a solução pode estar em um meio termo: analisando como algumas biografias foram compostas podemos encontrar elementos para responder a algumas das questões com que estamos lidando aqui. Para isso, escolhemos as biografias de Marco Aurélio e Cômodo, pai e filho, imperadores que reinaram na segunda metade do século II, por se tratar de um período para o qual dispomos de outras fontes literárias. Especialmente as obras de Dião Cássio e Herodiano são úteis, por serem autores reconhecidamente utilizados como fonte pela HA. O que se observa, aí, é que os relatos destes autores são seguidos de perto, chegando por vezes a ser copiados. Isso não impede o autor da HA de manipular as informações de que dispõe: omitindo fatos, enfatizando alguns aspectos e inventando documentos, exagera uma oposição entre as duas biografias que, apesar de também existir nos outros textos, não é tão importante.

A confecção das biografias imperiais, o uso das informações disponíveis parece se conformar à idéia de que existem bons e maus imperadores, e de que estes devem ter seu caráter mostrado da maneira mais clara e evidente. É possível observar, inclusive, que a própria seleção das informações utilizadas é presidida pela definição destes “tipos” de imperador. Isso, aliado a uma grande valorização do Senado como instituição política permite advogar um forte conteúdo ideológico para essa obra. Seu autor, portanto, prefere usar os relatos dos historiadores que viveram no período que ele descreve como ponto de partida para suas invenções, mais do que para citar detalhes reveladores. Por outro lado, a fonte que temos em mão não é produto da livre imaginação de um escritor; na verdade, existe uma matéria prima a partir da qual ele deve trabalhar.

Podemos ver como isso funcionava a partir de uma observação feita por Umberto Eco: escrever um romance é um “fato cosmológico”5 , ou seja, o escritor é obrigado a criar, dentro de certos limites da plausibilidade, todo um mundo, com pessoas, lugares, relações e idéias. De certa forma, o autor da HA também realiza um “fato cosmológico”, mas a partir de determinadas regras próprias ao gênero no qual sua obra se insere. O que conta para o historiador antigo não é apenas (e nem principalmente) a plausibilidade do mundo que ele recria (e não cria, como o romancista), mas a verocidade dos fatos sobre os quais ele o faz, seguindo a partir daí os limites do que é verossímil. O leitor da obra, como o leitor de um romance, é obrigado a completar determinadas informações com o que já sabe, mas ao contrário deste último o leitor da História usa seu conhecimento também para julgar o que está lendo.

Na Roma antiga, não faltavam meios de preservação e transmissão de informações sobre o passado: monumentos com inscrições e relevos, cultos, tradições orais e até outros historiadores. Os historiadores não tinham o monopólio da informação sobre o passado, e podiam por isso ser contestados e questionados. Nesse sentido, podemos considerar a HA um caso limite da inventividade e do compromisso dos historiadores antigos com sua própria imaginação. Nela, apesar de até a autoria e a datação serem forjados, o autor é obrigado a se curvar perante a existência de outras evidências históricas, quando elas existiam. É nessa perspectiva que os historiadores da antiguidade devem adotar os historiadores antigos como fonte. A História, na antiguidade, não era um subproduto da retórica, por mais que os historiadores a valorizassem: seu compromisso com a verdade era um produto não só de uma tradição intelectual, como também da expectativa de seus leitores. Eram esses leitores que a criticavam e recusavam, ou a elogiavam e preservavam, distribuindo cópias aos seus amigos.

Uma obra como a HA, ou como os Anais de Tácito, assim, pode ser de imensa importância para nós, historiadores. Desde que tomadas as devidas precauções, pode ser usada para estudar tanto o grupo em meio ao qual foi produzida quanto o período que descreve. O historiador pode respirar aliviado: as guerras pérsicas, a guerra do Peloponeso, a instituição do Principado e a crise do século III ainda podem ser estudados através de Heródoto, Tucídides, Tácito e da HA. O que se requer, como aliás é o caso com qualquer documento, é cautela.

Obs. Devido às limitações de espaço, tivemos de resumir alguns dos argumentos apresentados em nossa dissertação de mestrado, Imperadores Imaginários: Política e Biografia na História Augusta, São Paulo, 1998, orientada pelo Prof.Dr. Norberto Guarinello.
1 Cf., por exemplo, de A.Woodman, Rhetoric in Classical Historiography, London: Croom Helm, 1988 e de Averil Cameron, History as Text, London: Routledge, 1993.
2 Woodman, Op.Cit., p.190.
3 Talvez a grande exceção seja Luciano de Samósata, que apesar de não ter deixado nenhuma obra histórica, deixou um importante tratado de cunho polêmico, intitulado “Como se escreve a História”.
4 O resumo mais recente destas controvérsias pode ser encontrado na “Introduction Générale” de André Chastagnol à sua edição da Histoire Auguste, Paris: Robert Laffont/Bouquins, 1994, pp. VII-CLXXXII.
5 Cf. Pós-Escrito a O Nome da Rosa (trad.port.), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p.20, e ainda, Seis Passeios pelos Bosques da Ficção (trad.port.), São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Esta é uma iniciativa de alunos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é um espaço público onde todas as colaborações políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.


Um comentário:

José Manuel disse...

Excelente texto sobre a História Augusta. Confirmou a minha convicção de que a Cronologia Oficial tem de ser reformulada. Tenho aprofundadado estudo sobre esta matéria que gostaria de partilhar com vocês. Aguardo resposta.