quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Historiografia e perspectiva: o objecto da História


A história não tem outra alternativa senão seguir a tendência de especialização de qualquer disciplina científica. O conhecimento de toda a realidade é epistemológicamente impossível, ainda que o esforço de conhecimento transversal, humanístico, de todas as partes da história, seja exigível a quem verdadeiramente queira ter uma visão correcta do passado.

A História, portanto, deve segmentar-se, não apenas porque a perspectiva do historiador esteja contaminada com subjectividade e ideologia, mas porque ele deve optar, necessariamente, por um ponto de vista, do mesmo modo que um cientista: se quiser observar o seu objecto, deve optar por usar um telescópio ou um microscópio (ou, de forma menos grosseira, que tipo de lente irá aplicar). Com o ponto de vista determina-se a selecção da parte da realidade histórica que se toma como objecto, e que, sem dúvida, dará tanto a informação sobre o objecto estudado como sobre as motivações de um historiador que o estuda. Essa visão preferencial pode ser consciente ou inconsciente, assumida com maior ou menor cinismo pelo historiador, e é diferente para cada época, para cada nacionalidade, religião, classe social ou âmbito no qual o historiador pretenda situar-se.

A inevitável perda que supõe a segmentação, compensa-se pela confiança em que outros historiadores farão outras selecções, sempre parciais, que devem complementar-se. A pretensão de conseguir uma perspectiva holística, como o pretende a História total ou a História das Civilizações, não substitui a necessidade de todas e cada uma das perspectivas parciais como as que se tratam a seguir:

Recortes temporais

Os recortes temporais vão desde as periodizações clássicas (Pré-história, História, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna ou Idade Contemporânea), até às histórias por séculos, reinados, e outras. A periodização clássica (ver a sua justificação em Divisão do tempo histórico) é discutível, tanto pela necessidade de períodos de transição e de solapamentos, como por não representar períodos coincidentes para todos os países do mundo (razão pela qual foi acusada de eurocêntrica).

A Escola dos Annales foi uma das origens da fixação da memória dos feitos históricos em muitas culturas (veja-se em seu verbete próprio e mais abaixo em Historiografia de Roma). As crónicas (que em seu nome já indicam a intenção do recorte temporal) são usadas como reflexo dos acontecimentos notáveis de um período, habitualmente um reinado (veja-se no verbete próprio e mais abaixo em Historiografía da Idade Média e Historiografia espanhola medieval e moderna). A arcontologia seria a limitação do registro histórico à lista de nomes que ocupavam determinados cargos de importância ordenados cronologicamente. De fato, a mesma cronologia, disciplina auxiliar da história, nasce em muitas civilizações, associada ao cômputo do tempo passado que se fixa na memória escrita pelos nomes dos magistrados, como ocorria em Roma, onde era mais comum citar um ano por ser o dos cônsules tais ou quais. No Egipto, a localização do tempo se fazia pelos faraós e dinastias. É muito significativo que nas culturas não históricas, que não fixam mediante a escrita a memória do seu passado, é muito frequente que não se mantenha a duração concreta do tempo passado mais do que uns poucos anos, que podem ser inclusive menos do que os que dura uma vida humana[7]. Tudo o que ocorre fora dele é referido como faz muito tempo”, ou como no tempo dos antepassados, que passa a ser um tempo mítico, ahistórico.

O tratamento cronológico é o mais utilizado pela maioria dos historiadores, pois é o que corresponde à narrativa convencional, e o que permite ligar as causas passadas com os efeitos no presente ou no futuro. No entanto, ele é usado de várias maneiras: por exemplo, o historiador deve sempre optar por um tratamento síncrono ou diacrónico do seu estudo dos factos, ainda que muitas vezes se façam os dois.

  • o tratamento diacrónico estuda a evolução temporal de um fato, por exemplo, a formação da classe operária na Inglaterra ao longo dos séculos XVIII e XIX.
  • o tratamento síncrono, concentra-se nas diferenças que o fato histórico estudado tem ao mesmo tempo, mas em diferentes níveis, por exemplo: compara a situação da classe trabalhadora na França e na Inglaterra, na conjuntura da revolução de 1848 (ambos os exemplos foram referidos a partir de Edward Palmer Thompson.

Períodos ou momentos especialmente atraentes para os historiadores acabam convertendo-se, pela intensidade do debate e do volume de produção em verdadeiras especialidades, tais como a história da Guerra Civil Espanhola, a história da Revolução Francesa a da Independência dos Estados Unidos da América, ou a da Revolução Soviética, por exemplo.

Também devem ser consideradas as diferentes concepções de tempo histórico, que, de acordo com Fernand Braudel vão da longa duração ao evento pontual, passando pela conjuntura.

Recortes metodológicos: as fontes não escritas


No caso do período pré-histórico, a diferença radical entre fontes e método (assim como a divisão burocrática das cátedras universitárias) fazem com que seja uma ciência muito distante daquela feita pelos historiadores, sobretudo quando tais fontes e métodos se prolongam, dando primazia à utilização das fontes arqueológicas e ao estudo da cultura material em períodos para os quais já existam fontes escritas, falando-se então não da Pré-história, mas sim propriamente da Arqueologia com as suas próprias periodizações (Arqueologia clássica, Arqueologia Medieval e mesmo Arqueologia Industrial). Uma diferença menor pode ser encontrada com o uso de fontes orais, no que é chamado de História Oral. Não obstante, há que recordar o que foi dito (ver acima recortes temporais) acerca da primazia das fontes escritas e o que estas determinam à ciência historiográfica e à própria consciência da história em seu protagonista, que é toda a humanidade.

Recortes espaciais

São exemplos de recortes espaciais a História continental, a História nacional e a História regional. O papel da história nacional na definição das próprias nações é inegável (para a Espanha, por exemplo, desde as Crónicas medievais até à História do Padre Mariana; veja-se ainda nacionalismo). Também como exemplo, veja-se em História da História) como os historiadores se agrupam distintamente por nacionalidade, por época ou por tendência.

A Geografia dispõe de conceitos não tão potentes porém não menos arbitrários, que têm permitido edificar o prestigioso ramo da Geografia regional. A História local é, sem dúvida, a de mais fácil justificação e de validade universal, sempre que supere o nível da simples erudição (que ao menos sempre servirá como fonte primária para obras de maior ambição explicativa).

Recortes temáticos

São os que dão lugar a uma história sectorial, presente na historiografia desde a antiguidade, como ocorre com a:

Uma das formas de se perguntar qual é o objecto da História é através da escolha do que é que merece ser mantido na memória, quais são os factos memoráveis. São todos, ou são apenas aqueles que o historiador considera transcendentais? Na lista acima, temos algumas respostas que cada um pode dar.

Algumas destas denominações encerram não uma simples divisão, mas sim visões metodológicas opostas ou divergentes, que se têm multiplicado nos últimos cinquenta anos. A história é hoje mais plural do que nunca, dividida em uma multiplicidade de especialidades tão fragmentada que muitos dos seus ramos não se comunicam entre si, sem ter sujeito e objecto comuns:

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