sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A História como Ciência

Para os gregos, a história não se referia necessariamente ao passado, sendo antes uma lista ou descrição sistemática de fatos. Para Aristóteles, a história era o estudo de fenômenos particulares, enquanto a poesia relacionava-se ao geral, cujo conteúdo era mais filosófico e exemplar do que o daquela. Durante a Idade Média, a história permaneceu ligada às crônicas e a uma concepção teológica muitas vezes deformada em seus relatos pela distorção e pela lenda. O conceito científico começou a avançar durante o Renascimento, quando os humanistas adotaram uma visão mais ampla e desvinculada da teologia ao interpretar os textos clássicos. No século XVII empregaram-se algumas ciências auxiliares que possibilitaram os primeiros esboços de uma "ciência" histórica em sentido moderno. Em 1681 com De re diplomatica (Sobre a diplomacia), Jean Mabillon proporcionou um instrumental crítico para depurar e interpretar as fontes.

Alguns pensadores desse século, no entanto, não consideravam a história uma ciência. Essa era a opinião de dois dos mais relevantes, Francis Bacon e René Descartes, embora em outro sentido tenham dado uma excelente contribuição, pois assentaram as bases filosóficas da idéia do progresso contínuo da humanidade, que teve tanta influência no pensamento do século XIX. Bacon dava pouca importância à precisão histórica, mas realizou uma divisão útil da história em civil e natural, e a relacionou com a memória. Descartes chegou a duvidar de que a história fosse um ramo do conhecimento.

Até o século XVIII não se pode falar de uma concepção científica da história. Jean Le Rond d'Alembert adotou na Encyclopédie a classificação de Bacon, que relacionou os conhecimentos humanos com as faculdades da memória (história), da razão (filosofia) e da imaginação (poesia), e dividiu a história em sagrada, civil e natural. A idéia do progresso humano foi a raiz do conceito de história como ciência social. Em Scienza nuova (1725), o filósofo Giambattista Vico desenvolveu mais extensamente a idéia do nascimento, crescimento e decadência dos povos, procurando indagar as causas do processo. Para isso foi mais influente a contribuição do barão de Montesquieu em Considérations sur les causes de la grandeur des romains et de leur décadence (1734; Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência). As causas do desenvolvimento deviam ser buscadas na moral e em aspectos mais objetivos, como as instituições, a política etc., sendo o acaso um elemento acelerador de processos evolutivos iniciados anteriormente por causas gerais e profundas.

Em History of the Decline and Fall of the Roman Empire (1776-1788; História da decadência e queda do Império Romano), o britânico Edward Gibbon expôs a teoria do progresso contínuo da civilização e foi um pioneiro ao utilizar em seu estudo de modo racional a enorme quantidade de dados acumulada pelos estudiosos anteriores. Durante o século XVIII, a história não esteve muito vinculada à área universitária, exceto em alguns locais, como a cidade alemã de Gotinger. Só no século seguinte a história transformou-se em disciplina acadêmica, a princípio na Prússia e posteriormente em outras partes da Alemanha. Ao longo do século passou a ser universalmente aceita como ciência e começou a ser escrita por historiadores profissionais.

Além disso, a revolução industrial oferecera aos historiadores a possibilidade de observar um fenômeno de mudança social e econômica sem precedentes que possibilitou a confirmação de muitos postulados da teoria do progresso humano. Em 1837 Adolphe Blanqui descreveu o processo da revolução industrial e destacou as relações entre a sociedade e a economia, antecipando as conclusões de Marx.

Fonte : www.estudantedefilosofia.com.br

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