domingo, 16 de dezembro de 2007

A História Cultural de Carlo Ginzburg

Jacqueline Hermann
Professora de História Moderna da UFRJ

“Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos [...] e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses formam os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os outros, anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento...”

Essas poucas frases resumem o núcleo das idéias defendidas por Domenico Scandela, o moleiro conhecido como Menocchio, diante dos inquisidores italianos, em 1584. Nascido em Montereale, pequena aldeia do Friuli, foi denunciado ao Santo Ofício pelo pároco dom Odorico Vorai, antigo desafeto que o acusava de pronunciar palavras “heréticas e totalmente ímpias”. Crítico do clero, da Igreja e da opressão contra os pobres, Menocchio foi descoberto por acaso quase quatro séculos depois. A análise cuidadosa de seu processo deu origem ao clássico O queijo e os vermes, livro publicado em 1976 e editado no Brasil 10 anos depois.1

A história de Menocchio não é, no entanto, apenas um relato insólito e extraordinário de algum personagem bizarro, embora ele seja também peculiar. Na lente de Ginzburg, e dando curso a reflexões que se iniciaram antes desse trabalho, a análise do estranho caso de um moleiro perdido nos campos de uma Itália em luta contra o avanço protestante deu corpo a uma profunda reflexão sobre a escrita da história, suas dificuldades, desafios e possibilidades.

Ainda nos anos de 1960, quando pesquisava processos de bruxaria entre os séculos XVI e XVII, Ginzburg deparou-se com um conjunto de documentos sobre os benandanti, ou os andarilhos do bem, defensores das colheitas contra bruxos e feiticeiros. A análise do ritual de fertilidade seguido por esses camponeses, resultou no livro I benadanti2, publicado originalmente em1966, e que revelou um núcleo de crenças populares ainda muito identificadas a resquícios de uma cultura oral, pagã e popular de longa duração, mas que paulatinamente foram assimilados à feitiçaria. Ginzburg estaria analisando a essa altura, e segundo suas próprias palavras “a mentalidade de uma sociedade camponesa” e suas conclusões apontavam para um processo de aculturação dos benandanti, na medida em que, entre 1580 e 1650 estes passaram de uma atitude de defesa da autenticidade de suas crenças para uma aceitação gradativa da acusação de feitiçaria perpetrada pelos inquisidores.

Durante o trabalho sobre os benandanti, Ginzburg encontrou o processo de Menocchio e, dez anos depois, era publicada a história do moleiro friulano. Entre os dois livros, no entanto, um longo percurso teórico-metodológico alterou substancialmente as idéias de Ginzburg acerca das relações entre as classes subalternas e dominantes, ou, para falarmos dos processos inquisitoriais estudados, entre inquisidores e populares camponeses acusados de feitiçaria. Se no caso dos benandanti a assimilação das acusações parecia refletir sem muita dificuldade a dominação de uma “mentalidade” vitoriosa, no caso de Menocchio as certezas deram lugar a uma flexibilidade maior e à necessidade de reformulações nas peças de um delicado quebra-cabeças.

Já no Prefácio de O queijo e os vermes o autor deixa clara a recusa do conceito de mentalidade, exatamente pelo que mais havia valorizado na trajetória dos andarilhos do bem: o caráter interclassista e de longa duração das crenças populares, tomadas sempre no que tinham de aparentemente imóvel, inconsciente, irracional. Para Ginzburg, as idéias de Menocchio não podiam ser diluídas e ocultadas no que pudessem ter de original, e mesmo admitindo que sua decifração completa e definitiva jamais poderá ser alcançada, optou pelo termo “cultura” em sua acepção antropológica: conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas num certo período histórico. Aliou, assim, ao estudo de práticas e crenças populares o conceito de classes para reencontrar, renovado, o conflito social banido das mentalités.

Mas além desse passo, nada pequeno, diga-se de passagem, Ginzburg defrontou-se ainda com o desafio de resgatar, ou reinventar, no terreno da cultura, as diferentes maneiras de enfrentamento entre cultura dominante e subalterna. Admitidos os dois níveis, e afastada a possibilidade de uma assimilação direta da cultura dominante pelos populares, Ginzburg encontrou em Mikhail Bakthin a inspiração para a formulação do conceito de circularidade cultural. Na obra L'ouvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance3, publicada na França em 1970, Bakthin procurou compreender a presença de termos chulos, grosseiros e obscenos na obra de Rabelais, um literato e médico francês que freqüentava a corte, e encontrou na convivência de Rabelais com o mundo da praça pública a explicação para a presença de aspectos populares em sua obra. Sem entrar no mérito da avaliação nada lisonjeira que Bakthin faz da cultura popular renascentista, Ginzburg resgatou do lingüista russo a dinâmica cultural que levou Rabelais a assimilar aspectos da cultura popular e aprofundou a reflexão sobre o movimento recíproco e contínuo que influencia os diferentes níveis culturais.

No caso de Menocchio, um moleiro que destoava do seu grupo por saber ler e escrever, Ginzburg descobriu uma teia de imbricações, reapropriações e, mesmo admitindo ser Scandela e sua história “um fragmento perdido, que só nos alcançou por acaso [...], através de um gesto arbitrário”, fez da decifração de sua cosmogonia um ensaio de teoria e metodologia, um roteiro para o estudo do que hoje chamamos “história cultural”. Como um antropólogo, ou, para usar sua própria formulação, como um verdadeiro inquisidor4, nosso autor desbravou os processos de Menocchio procurando desvendar os prováveis, ou improváveis, caminhos assumidos pela interpretação peculiar de textos como os de Boccacio, Mandeville e da própria Bíblia, capazes de ensejar a elaboração da fantástica tese do queijo e dos vermes.

O contato com o mundo das letras, e mesmo com textos sofisticados, não retirou Menocchio de sua cultura, mas, ao contrário, realçou a especificidade de suas interpretações, adaptadas a uma realidade ainda refratária a abstrações e fortemente marcada pela vivência concreta e materializada dos fenômenos religiosos e das religiosidades. Para entender a origem do mundo, Menocchio serviu-se de algo que lhe era familiar, cotidiano, conhecido: fez da origem do queijo e dos vermes, por analogia, a Gênese; através da mistura de cultos pagãos e cristãos deu suporte à sua formulação herética.

Mas se uma análise tão aprofundada da história de um herege que acabou queimado pela inquisição por não conseguir deixar de propagar suas idéias pode parecer apenas o relato excepcional de um personagem bizarro, devemos novamente estar atentos às advertências do autor: “dois grandes eventos históricos tornaram possível um caso como o de Menocchio: a invenção da imprensa e a Reforma”. É, portanto, no cruzamento entre a micro-história de nosso moleiro e a macro-história das Reformas e das transformações que marcaram a Época Moderna que podemos entender a “produção” de um personagem como Menocchio. Domenico Scandela encarnou a dinâmica da circularidade cultural, tendo acesso a livros produzidos pela cultura letrada e adaptando suas leituras às vivências cotidianas de uma comunidade camponesa.

Ginzburg levaria ainda mais longe suas reflexões sobre os diferentes níveis de interpenetração das culturas com o seu História Noturna. Decifrando o sabá5, publicado em 1989. Com esse trabalho, praticamente se fecha o ciclo iniciado com os benandanti: partindo da força da cultura dominante, Ginzburg descobriu com Menocchio a resistência da cultura subalterna e a circularidade cultural entre as classes dominantes e populares, até chegar à decifração do estereótipo do sabá, construção da cultura letrada, porém eivada de reminiscências pagãs, de longuíssima duração, e reveladora de uma dinâmica cultural ainda mais complexa que a apontada no caso de Menocchio. Fruto da obsessão de inquisidores e juízes, o estudo do ritual do sabá feito por Ginzburg desvendou uma história “noturna” e desconhecida, alimentada por mitos e medos ancestrais, conformando o que o autor chamou de “formação híbrida de compromisso”, resultado híbrido de um conflito entre cultura folclórica e cultura erudita. Na história noturna do sabá, Ginzburg retoma a problemática dos benandanti e avança ainda mais teoricamente ao observar perseguidores e perseguidos igualmente atravessados pela dinâmica dos encontros e embates culturais.

Como se vê, foram muitos os temas tratados por Carlo Ginzbrug ao longo de mais de 30 anos de pesquisa dedicada à feitiçaria, às religiosidades populares, à cultura em sua dimensão histórico-antropológica. Publicados desde meados da década de 80 no Brasil, seus trabalhos, felizmente, abriram um campo de investigação bastante promissor entre nós. Só para lembrar dois exemplos de nossa melhor historiografia e que claramente incorporaram os passos indicados por Ginzburg, cito o livro pioneiro no estudo da feitiçaria e das religiosidades populares no Brasil colonial, O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, e A Heresia dos Índios, de Ronaldo Vainfas, que reconstrói a história de uma seita católico-tupinambá acolhida por um senhor de engenho na segunda metade do século XVI.6

Abordagem sofisticada e minuciosa, a história cultural tal como concebida por Carlo Ginzburg se interessa pelo detalhe e pelo contexto, pelas micro e pelas macro-questões que, articuladas, podem nos aproximar um pouco mais de nossos antepassados. Decifração de indícios, ciência do particular, a história cultural se move em terreno acidentado e misterioso e, sem prescindir jamais das fontes, autoriza alguns vôos, muitos deles também noturnos, já que “a tentativa de conhecer o passado também é uma viagem ao mundo dos mortos.”

1 O queijo e os vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. A primeira edição italiana do livro é da Giulio Einaudi Editore, 1976. A edição brasileira é da Companhia das Letras, 1986.
2 A tradução brasileira é de 1988, com o nome Os andarilhos do bem. Feitiçarias e cultos agrários nos séculos XVI e XVII, pela Companhia das Letras.
3 Publicado no Brasil com o título A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.
4 Refiro-me ao texto “O inquisidor como antropólogo: uma analogia e suas implicações” in Micro-História e Outros Ensaios. Lisboa: Difel, 1991.
5 A edição brasileira de História Noturna também é da Companhia das Letras.
6 Os dois trabalhos foram editados pela Companhia das Letras. O primeiro, O Diabo e a Terra de Santa Cruz. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, é de 1986 e o segundo, A Heresia dos Índios. Catolicismo e rebeldia no Brasil colonial, é de 1995.

Esta é uma iniciativa de alunos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é um espaço público onde todas as colaborações políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.

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