sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

História da vida, história oral e memória


Por Josias Faustino

A história oral é um recurso de pesquisa que consiste em realizar entrevistas com pessoas objetivando a preservação da informação histórica através do registro de vivências e acontecimentos que são narrados pelos entrevistados. Como fenômeno renovado, a partir do uso de entrevistas, a história oral tem resgatado do silêncio, a história de determinados seguimentos da sociedade que se fizeram calar ou por qualquer outro motivo que os levaram ao esquecimento.

Apesar de muitas vezes colocado em segundo plano, o testemunho oral representa o núcleo da investigação, nunca sua parte acessória, o que obriga o historiador a levar em conta perspectivas nem sempre presentes em outros trabalhos históricos, como por exemplo, as relações entre escrita e oralidade, memória e história ou tradição oral e história.

Além disso, o uso sistemático do testemunho oral possibilita à história oral esclarecer trajetórias individuais, eventos ou processos que às vezes não têm, como ser entendidas ou elucidados de outra forma: são depoimentos de analfabetos, rebeldes, mulheres, crianças, miseráveis, prisioneiros, loucos. São histórias de lutas cotidianas encobertas ou esquecidas, de versões menosprezadas; essa característica permitiu inclusive que uma vertente da história oral se tenha constituído ligada à história dos excluídos. ‘Por meio desses registros e dessas experiências, é possível conceber as mais variadas contradições do espaço urbano com as quais, aliás, deparamo-nos cotidianamente, tais como: a questão da moradia, saúde, desemprego, violência e tantos outros problemas. Isto consiste em compreender como estes trabalhadores vivenciam os conflitos alimentados pela dinâmica das cidades, ou em outros termos: como resistem e/ou sujeitam-se, acomodam-se e/ou buscam alternativas de vida.’ (Almeida, 2005, p. 2)

De certa maneira, a história oral, mais do que novo campo de reflexão tem servido enquanto metodologia de obtenção de dados, ou ainda como técnica auxiliar. É preciso reconhecê-la como marco inicial de reflexões levantadas acerca do novo fazer histórico. Um dos problemas centrais, assim, está ligado a especificidade da documentação com a qual se trabalha: a história da vida.

A história da vida enquanto documento possui duas particularidades que de certa forma são novos no trabalho do historiador para com a documentação. O primeiro está no fato de que a fonte é produzida, de certa maneira, pelo pesquisador, ou seja, desde o arranjo e condução das entrevistas ao registro do depoimento através de gravações. Num segundo momento, o caminho traçado pelo oralista é o da leitura de sua própria documentação, realizando as entrevistas, transcrevendo-as e trabalhando o texto do oral para o escrito, constituindo então um documento.

Esse domínio pelo historiador do documento permite uma leitura mais completa e profunda do historiador.

O entrevistado fala sobre o passado posicionado no presente. Diversamente de um documento cartorial, a narrativa realizada na entrevista é uma narração baseada na recordação, na rememoração de fatos acontecidos. A questão crucial é a seguinte: será que a visão do homem de hoje é a mesma do que ele tinha no momento do acontecido, seja uma guerra, uma greve ou mesmo a vida cotidiana de um bairro. Muitas vezes estamos mais interessados em como a pessoa vê seu passado do que observar se o que ela narra realmente aconteceu.

Entre memória e história

A relação entre memória e história é problemática e tem sido foco do trabalho teórico de vários historiadores, psicólogos e cientistas sociais. Numa visão tradicional, a relação entre história e memória é relativamente simples, cabendo ao historiador um papel de 'lembrador', guardião da memória dos acontecimentos públicos a serem preservados para a posteridade por meio do registro escrito. Cabe, pois, ao historiador salvaguardar da enxurrada do esquecimento, que tudo leva, os grandes feitos e seus protagonistas.

Ao contrário das visões tradicionais, novas formulações levam a compreender a memória como um conjunto de representações do passado, desde a história erudita até a tradição oral, colocando-a como objeto de estudo e de interesse para os historiadores. E ainda as construções teóricas dos historiadores, também como produto do jogo social nos contextos em que atuam.

Nessa perspectiva, não só outros indicadores da memória passam a ser valorizados, como os registros orais de grupos minoritários e/ou excluídos, outros tipos de documentos e vestígios passaram a ser objeto de trabalho a partir dos quais pôde-se compreender as relações sociais no tempo. Também outros temas passam a ser objeto de estudo dos historiadores. As mentalidades, os elementos do cotidiano integram os focos de trabalho, dando origem a um movimento a que se denominou Nova História.

A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que já se foi. A memória é um fenômeno sempre atual, interligado ao tempo presente. Maurice Halbwachs considera que um indivíduo participa de duas espécies de memórias, as individuais e as coletivas. De um lado, tem suas lembranças formadas por sua vida pessoal, no quadro de sua personalidade. Ao mesmo tempo, há um conjunto de outras lembranças, compartilhada a tal indivíduo por outras pessoas ou grupos e que se tornam impessoais. “Seria o caso, então, de distinguir duas memórias, que chamaríamos, se o quisermos, a uma interior ou interna, a outra exterior; ou então a uma memória pessoal, a outra memória social”. (Halbwachs, 1990, p. 55).

De acordo com Halbwachs, a memória coletiva supõe uma multiplicidade de tempos coletivos, à medida em que grupos separados ou culturas específicas contêm cada qual ritmo próprio e atuam em espaços diferentes.

Pensando a memória, enquanto prática de representação social, vale discutirmos algumas questões tanto da natureza do objeto quanto da produção do conhecimento histórico. “Em sua análise da memória coletiva, Maurice Halbwachs enfatiza a força dos diferentes pontos de referência que estruturam nossa memória e que a inserem na memória da coletividade a que pertencemos. Entre eles incluem-se evidentemente os monumentos, esses lugares da memória analisados por Pierre Nora, o patrimônio arquitetônico e seu estilo, que nos acompanham por toda a vida, as paisagens, as datas e personagens históricas de cuja importância somos incessantemente relembrados, as tradições e costumes, certas regras de interação, o folclore e a música, e, por que não, as tradições culinárias” ( Pollak, 1989, p. 3-15).

Assim, quando pensamos na memória, nos vêm logo à cabeça alguns pontos de referência tais como; monumentos, patrimônio arquitetônico, paisagens, datas, personagens históricos, tradições e costumes, regras de interação, folclore e música, tradições culinárias, etc.

Halbwachs não considera a memória individual como condição suficiente para o ato de lembrar e reconhecer. A duração da memória estaria relacionada à força e duração do grupo; o lugar ocupado no conjunto define as pessoas e os fatos a serem lembrados ou esquecidos. Em vários momentos, Maurice Halbwachs insinua não apenas a seletividade de toda memória, mas também um processo de ‘negociação’ para conciliar memória coletiva e memórias individuais. “Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum”. (Pollak, 1989, p. 3-15)

A memória individual está compreendida dentro de uma memória mais ampla, que o autor chama de memória coletiva, esta não explica todas as lembranças, logo não testemunhamos tudo, mas o conjunto de testemunho forma também a memória coletiva. Isso envolve as histórias que nos contam no trabalho, em casa, nas ruas. A multiplicidade de memórias coletivas e testemunhos dão uma certa duração aos eventos sociais.

BIBLIOGRAFIA

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo, Vértice, 1990.

LE GOFF, Jacques. História e memória, Casa da Moeda, 1984.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

ALMEIDA, Paulo Roberto de. Dossiê História Oral: Uma breve apresentação, Revista de História e Estudos Culturais, vol. 2, Ano II, n° 2, Universidade Federal de Uberlândia. 2005.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom, Manual de História Oral, Loyola, São Paulo, 1996.

NOTA: Este trabalho também teve por base os trabalhos de pesquisa realizados pelo NEHO (Núcleo de estudos em história), sediado no Departamento de História/FFLCH, da Universidade de São Paulo, que tem como objetivo promover pesquisas e atividades acadêmicas baseadas no uso dos procedimentos metodológicos da história oral, estimular o intercâmbio de conhecimento e socializar os resultados de pesquisas e reflexões elaboradas no Brasil e em outros países. Contribuindo ainda os trabalhos do Programa de história oral do CPDOC um dos pioneiros no uso de entrevistas, construindo um vasto acervo disponível para pesquisa. Além dos projetos: Memória e Cidade da UFF, coordenado pela professora Ana Maria Mauad e do Programa de história oral desenvolvidos pelo Centro de Estudos Mineiros da Fafich integrado a UFMG.

Um comentário:

S2 disse...

Olá...super interessant sua postagem,me interesso muito por questões de "histórias de vida""contação de historias",tanto que estou desenvolvendo um projeto sobre esses assuntos,resgatando então historias de experientes contadores,estou precisando muito d ajuda na parte teórica,pois tenho pouco material,se poder me neviar alguma coisa agradeço bastante..Deus t abençõe...continue escrevendo que está tudo sensacional...