domingo, 16 de dezembro de 2007

História e Antropologia: uma aproximação profícua


Euges Lima

Nas últimas décadas do século passado, sobretudo nos anos 70 e 80 a historiografia passou por um processo, que podemos chamar de renovação. Na verdade, esse momento na produção historiográfica ficou conhecido como: “viragem antropológica”. É sobre essa relação entre História e Antropologia, essa aproximação entre estas duas áreas do conhecimento - e que para alguns já é denominada de História antropológica - que pretendemos discutir e analisar dentro das possibilidades e limitações deste pequeno texto. A nossa proposta é tão-somente refletir sobre e a partir de uma bibliografia de qualidade, que trata desse assunto e então, evidentemente tirarmos algumas conclusões.

Dentre as ciências sociais, podemos afirmar que a História é uma das que mais evoluíram nas últimas décadas e essa evolução se deu, sem dúvida nenhuma, por conta do caráter interdisciplinar imprimido pela produção historiográfica contemporânea. Os horizontes dos historiadores se expandiram, novas temáticas, novos objetos e novos métodos foram adotados pelos historiadores, quer dizer, pelos historiadores culturais, tudo isso graças à aproximação da História com a Antropologia.

Mas essa perspectiva cultural é realmente tão nova assim? Será que essa abordagem nasce com a escola dos Annales ou, melhor dizendo, com o movimento dos Annales? Não, já nos séculos XVIII e XIX, historiadores como Legrand d’Aussy e Michelet se ocupam do campo desprezado pela história factual, dos acontecimentos, ou seja, se preocupam em estudar uma história social dos costumes dos franceses, das mentalidades; uma história com uma abordagem cultural, mais estrutural que factual. Em 1782, Legrand d’Aussy, por exemplo, já demonstra a sua insatisfação com o tipo de história que se vinha fazendo até então, uma história essencialmente política e voltada para os grandes acontecimentos, assim como, para os feitos dos reis, generais etc.

Vejamos então, como Legrand d’Aussy já nos séc. XVIII em sua História da vida privada dos franceses (3 vol.) faz severas críticas a esse tipo de história - factual - que era predominante na época:

Obrigado, pelos grandes acontecimentos que deve contar, a estudar o que não se oferece a ele com certa importância, ele só admite na cena os reis, os ministros, os generais de exército e toda aquela classe de homens famosos cujos talentos ou erros, esforços ou intrigas produziram a infelicidade ou a prosperidade do Estado. No entanto, o burguês em sua cidade, o camponês em sua choupana, o gentil-homem em seu castelo, o francês, enfim, no meio de seus trabalhos, de seus prazeres, no seio de sua família e de seus filhos, eis o que não nos pode representar.

Para o historiador cultural contemporâneo dos séculos XX e XXI, essa perspectiva histórica que insere os chamados grupos subalternos na história, que percebe na cultura de uma sociedade um objeto histórico, parece algo muito pertinente e até certo ponto natural. Como disse André Burguière (LE GOFF, 1993, p.125), poderíamos muito bem pensar que essa citação acima que expressa sobre as insuficiências do historiador, fosse de um Lucien Febvre ou até mesmo de um Jacques Le Goff ou ainda de um George Duby. No entanto, trata-se de um olhar etnológico no séc. XVIII, que torna Legrand um historiador além do seu tempo, em que para ele a história é “uma mistura constante de comportamentos herdados (portanto de permanências) e de fenômenos de adaptação ou de invenção”.

Um outro precursor do que hoje conhecemos como nova história cultural é Michelet. No séc. XIX, em meio a uma história positivista norteada por uma metodologia inspirada nos moldes das ciências experimentais, onde o elemento básico era o fato histórico, ou seja, o acontecimento; Michelet surge como um historiador que busca outros modelos de explicação da sociedade, uma história da moda alimentar, da sensibilidade, do comportamento das elites francesas no século XVIII, das mentalidades, enfim, uma história etnológica. Nesse sentido, assevera Jacques Le Goff (1993, p.22): "Lucien Febvre ontem, um Fernand Brudel hoje, que primeiro viram em Michelet o pai da história nova, da história total que quer abarcar o passado em toda a sua totalidade, desde a cultura material até às mentalidades".

Como vimos nesse breve histórico das origens da nova história cultural, Marc Bloch e Lucien Febvre tiveram em quem se inspirar e são eles que em fins dos anos 20, na França, vão fundar a revista dos Annales, como uma forma de demonstrar toda a sua insatisfação com relação à história política, permeada por análises pobres e concepções redutoras e centralizadoras, que reduziam o campo histórico ao domínio da vida pública. É a partir daí que esses historiadores vão resgatar, ou melhor dizendo: reaproximar a Etnologia da História, contribuindo sobejamente para evolução do conhecimento histórico contemporâneo.

Comumente a chamada escola dos Annales é dividida em três gerações, a primeira representada por Lucien Febvre e Marc Bloch - seus fundadores - a segunda notadamente representada pela liderança de Fernand Braudel e por fim a terceira, integrada entre outros, por Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie.

É a partir dessa terceira geração que a dimensão antropológica vai se fazer mais presente na historiografia contemporânea. Surgida em fins da década de 70 como uma reação à história quantitativa(1) predominante na geração anterior, esse movimento - viragem antropológica - "pode ser descrito, com mais exatidão, como uma mudança em direção à Antropologia cultural ou 'simbólica' " (BURKE, 1997, p.94). Os historiadores dos anos 70 e 80, vão estabelecer um diálogo mais intenso e profícuo com a Antropologia, vários antropólogos como Pierre Bourdieu, Michel de Certeau, Erving Goffman e Victor Turner vão influenciar os trabalhos desses historiadores. As idéias que migraram da chamada "nova antropologia simbólica" para história, foram adotadas, adaptadas e utilizadas para construir uma história mais antropológica.

A inserção de novas temáticas, assim como, uma apreensão do simbólico por parte do historiador, tem sido pontos fundamentais nesse novo saber e fazer histórico. Temas como o medo, o corpo, a morte, a loucura, o clima, a feminilidade etc., têm sido objetos de estudo desse novo historiador, o que na perspectiva da história tradicional era algo praticamente impensável. Todos estes aspectos da vida humana passam a ter uma nova dimensão, ou seja, a perspectiva cultural. Nesse sentido assinala Burke (1996, p.11):

O que era previamente considerado imutável é agora encarado como uma 'construção cultural', sujeita a variações, tanto no tempo como no espaço [...]. A base filosófica da nova história é a idéia de que a realidade é social ou culturalmente constituída. O compartilhar dessa idéia, ou sua suposição, por muitos historiadores sociais e antropólogos sociais ajuda a explicar a recente convergência entre essas duas disciplinas.

Um outro ponto que os novos historiadores e antropólogos culturais parecem convergir é com relação à questão do simbólico. O diálogo da História com a Antropologia se dá muito em torno da apreensão do simbólico. Como no dizer de Geovanni Levi: "O historiador não está simplesmente preocupado com a interpretação dos significados, mas antes em definir as ambigüidades do mundo simbólico" (ARANHA, 1997, p.49).

Historiadores como Carlo Ginzburg e Robert Darnton em seus trabalhos, buscam uma aproximação vantajosa com a Antropologia, sobretudo com uma “antropologia estrutural simbólica”. Só para citar alguns: História Noturna: decifrando o sabá, de Ginzburg. O grande massacre dos gatos e Outros Episódios da História Cultural Francesa, de Darnton.

É importante ressaltar que esse diálogo com a Antropologia não quer dizer que o historiador perca sua identidade, mas tão-somente utilize a disciplina vizinha para resolver questões que os métodos da História não possuem, como, por exemplo, valorizar o que os antropólogos chamam de “a visão do nativo”, para a partir daí entender os significados implícitos na sua visão de mundo, assim como, a busca por formas simbólicas análogas em sociedades diferente no tempo e no espaço etc. Portanto, ao historiador cabe agir de forma interdisciplinar, sem, contudo, perder de vista sua perspectiva histórica e resolver historicamente aquilo em que a Antropologia não pode avançar, ou seja, analisar a história a partir de uma visão antropológica sim, porém, a partir de uma adesão crítica.


Notas

(1) O tipo de história predominante no movimento dos Annales de 1950 – 1970, onde dava ênfase aos dados estatísticos, como: gráficos e tabelas.


Referências

ARANHA, Gervácio Batista. A nova história, seus temas e métodos: um diálogo com a Antropologia. Revista Raízes. Nº 14, 1997, p. 45-81.

______. A história renovada: a emergência de novos paradigmas. Revista Saeculum. Nº 4/5, 1998/1999, p. 41-72.

BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo: UNESP, 1996.

______. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997.

______. Variedade de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourett: mídia, cultura e debates. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente.
Lisboa: Estampa, 1979.

LE GOFF, Jacques et al.
A nova história. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

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