domingo, 16 de dezembro de 2007

RAZÃO E UTOPIA: THOMPSON E A HISTÓRIA


Ricardo Gaspar Müller

O entendimento da pesquisa histórica como parte de um projeto político vem sofrendo muitas transformações. Conforme observa Emília Viotti, os campos temáticos mais tradicionais da história têm sido substituídos por estudos culturais, eleitos discurso privilegiado de seus acadêmicos, de “esquerda” ou não. Esse quadro se associa, direta ou indiretamente, à assim chamada “condição pós-moderna (incluídas aí as linhas pós-modernas, pós-estruturalistas e neopragmatistas), com sua rejeição às grandes narrativas, sua compreensão da realidade como fragmentos desconexos, sua redução da história a um conjunto de estilos de narrativa e seu efeito desintegrador sobre o sujeito - “condição” que também tem se revelado conveniente habitat para tendências intelectuais neoconservadoras.

Esta pesquisa se articula ao contexto desses debates. A conjuntura dos anos de 1990 opera como sua referência e “provocação” inicial. Fomos motivados pela “crise” da história social e do trabalho e nos preocupamos com os impactos sobre ela do chamado linguistic turn e sua negação ontológica dos sujeitos sociais e históricos. Frente às significativas mudanças ocorridas nas últimas décadas no mundo do trabalho e ao conseqüente realinhamento das fronteiras tradicionais entre as classes sociais, acompanhamos a discussão sobre a perda da centralidade das categorias de trabalho e de classe, a “saída de cena da classe”, ou “The Retreat from Class”, conforme definição de Ellen M. Wood. Observamos as clivagens existentes na sociedade serem definidas pelo patamar da ideologia ou, mais precisamente, do “discurso”, e a conquista da hegemonia (a do discurso, por certo) ser vista como determinante na luta dos trabalhadores na sociedade contemporânea.

Assim, ao mesmo tempo em que serve a setores acadêmicos conservadores, a explicação, ora discursiva ora cultural, vem se configurando como resposta adequada às dificuldades analíticas encontradas pela história social. Não sem resistências, porém. Segundo Emília Viotti, é esse o contexto em que se formam algumas das novas tendências na historiografia. Entre elas, chamamos a atenção para as de viés culturalista, como as discursivas, com raízes sólidas no pós-estruturalismo.

Na mesma linha de raciocínio, Ellen M. Wood adverte que as novas propostas teóricas, do revisionismo histórico ao pós-modernismo cultural, fraturam o mundo e reduzem-no a formas discursivas ou à contingência de um processo de significações múltiplas e sem referentes. Seu efeito é devastador, porque desmobiliza o pensamento, a crítica e a prática política. É nesse sentido, aponta Gregory Kealey, que as premissas do pós-estruturalismo (as que invalidam a história ou nem sequer reconhecem a possibilidade da história) colocam contradições para a prática da disciplina histórica que, mais do que a negação da história da classe trabalhadora, significam um ataque à própria história, et pour cause.

É nesse contexto que um resgate do sentido de história para E. P. Thompson e de sua “lógica histórica”, assim como de sua trajetória intelectual e política, adquire relevância nos dias de hoje. Pode-se afirmar que Edward Palmer Thompson (1924-1993) foi um dos mais importantes historiadores marxistas britânicos do século XX. Seu engajamento ao socialismo testemunhou não apenas um vigoroso envolvimento prático, por mais de cinqüenta anos, mas também um compromisso de vida com vistas a revigorar o marxismo, em particular o britânico, como movimento teórico. Fazendo-se um recorte meramente analítico de sua obra, percebem-se dois aspectos, no entanto, indissociáveis. Em termos teóricos, sua contribuição pode ser avaliada por seu empenho em redefinir uma análise da luta de classe que fosse mais apropriada para a compreensão da história da classe trabalhadora britânica. Em termos práticos, Thompson foi um defensor incansável de vários movimentos sociais que, de seu ponto de vista, representavam diferentes tendências contemporâneas de conflito de classe. Ao relacionar e integrar os elementos teóricos e práticos, ofereceu uma visão ampla do desenvolvimento das formas da política radical na Grã-Bretanha, desde os primórdios do capitalismo, assim como desenhou uma trajetória de história política, cujas informações deveriam servir de orientação para as estratégias de campanhas e movimentos sociais de seu tempo.

Sua interpretação do materialismo histórico afirma três categorias básicas: a luta de classe como protesto, a experiência da classe trabalhadora e a idéia de moral. Thompson, crítico rigoroso quanto à validade de teorias que questionava, envolveu-se em duras polêmicas no mundo acadêmico. A obra thompsoniana reafirma alguns pressupostos do socialismo, mediante sua avaliação das aspirações da classe trabalhadora, definidas como defesa de sua humanidade e de um projeto coletivo. Essa abordagem priorizava a noção de “humano” na sociedade, compreendida como um movimento histórico relacionado a um ideal democrático. Como Thompson afirma: “(...) i.e., a sociedade socialista iria revolucionar as relações humanas, substituindo o respeito à propriedade pelo respeito ao homem e a sociedade de consumo pelo bem comum”. O objetivo geral de sua iniciativa era o de substituir o “homem econômico” representativo da sociedade capitalista (mas também o do modelo de economia controlada e planejada, instalado pelo comunismo soviético) pelo “homem socialista”. A obra de E. P. Thompson é o eixo principal da tese. Com destaque para The Making of the English Working Class, The Poverty of Theory e Customs in Common, pode-se afirmar que sua obra efetiva uma mediação basilar entre as tendências teóricas e políticas da história do trabalho e as questões hoje debatidas, como classe enquanto categoria de análise e o problema da relação entre realidade (a ontologia - o out there, como coloca Thompson) e discurso (a reificação da linguagem e a influência do linguistic turn na história). Além disso, ao mesmo tempo em que é representativo da historiografia britânica de tradição marxista, ele estabelece uma inflexão nessa tradição, ao rever seus conceitos mais importantes (como classe e consciência de classe) e procurar precisá-los (contra os “assaltos” do stalinismo e do estruturalismo, por exemplo).

Há ainda outro aspecto que justifica a escolha da obra de Thompson como eixo de nossa pesquisa: a presença de E. P. Thompson, ainda hoje, é tão importante quanto incômoda, como é possível se perceber pelas várias e muitas vezes antagônicas interpretações de sua obra.

Mas, se as múltiplas leituras de Thompson nos motivaram ao longo da pesquisa, também fomos instigados por sua obra e sua trajetória política e intelectual, as quais conferem unidade às questões apresentadas, direcionam o eixo da investigação e estabelecem a idéia de mediação proposta. Com isso em vista, procuramos realizar uma reavaliação de parte da obra de E. P. Thompson, destacando a centralidade de seus conceitos de classe e luta de classe como categorias de análise e, ao mesmo tempo, como vetores de um sentido de história para sua obra. Assim, procuramos sistematizar e discutir tópicos relacionados à sua prática e a seu pensamento como teórico e político de filiação marxista. Ademais, foi nosso propósito indicar os debates teóricos em que se envolveu e resumir os seus temas prioritários: as questões relacionadas a seus conceitos de humanismo socialista e de protesto como luta; sua crítica ao marxismo de Louis Althusser e sua total oposição à penetração do estruturalismo no marxismo britânico; suas reivindicações de alternativas à diplomacia da Guerra Fria; sua defesa da razão e da liberdade.[iii][3]

A exposição dos resultados da pesquisa foi feita na seguinte ordem:

No primeiro capitulo, “Pesquisa Histórica, Historiografia Britânica e Linguistic Turn”, apresentamos as linhas gerais dos debates travados no campo da história social sobre o papel da linguagem na formação dos significados e das identidades sociais, em decorrência da adoção dos princípios pós-modernos e os do linguistic turn no campo da história social, sobretudo na historiografia inglesa. Procuramos examinar a relação entre a problemática do discurso e o processo histórico e destacamos os efeitos desse confronto sobre categorias como real e classe.

No segundo, “E. P. Thompson e a Formação do Comunismo Britânico Libertário”, acompanhamos as principais iniciativas do Grupo de Historiadores do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB) e de Thompson; a trajetória de Thompson e seus companheiros no grupo, e no partido, até os eventos de 1956 e sua saída do partido; apresentamos, em linhas gerais, a formação do grupo da ‘new left’, a organização dos periódicos Reasoner, New Reasoner e New Left Review, a formação de movimentos alternativos (como a CND, Campaign for Nuclear Disarmament), as primeiras cisões e dissidências dentro da ‘new left’ e sua relação com as correntes do humanismo socialista e as divisões dentro do marxismo. Procuramos mostrar como Thompson é marcado pela herança dos românticos, pela influência de William Morris, pela premissa e defesa do humanismo socialista, assim como pela utopia. Ou seja, há um princípio presente em sua vida: a defesa da razão em nome da utopia.

No terceiro capítulo, “A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa na Perspectiva do ‘Agir Humano’”, realizamos um resumo dos eixos mais importantes de The Making of the English Working Class e do método de Thompson, com vistas a avaliar a relação entre seus conceitos e sua exposição. Assim, percorremos os principais temas do livro, como a reabilitação das idéias românticas e de sua importância para formar um “espírito de radicalismo”; a discussão dos movimentos milenaristas; a relação entre o contexto histórico e as condições de formação de classe e a possibilidade de transformação revolucionária; a idéia de uma “contra-revolução inglesa”, associada à própria formação do Estado e às repercussões da Revolução Francesa e às Guerras Napoleônicas; a importância das tendências religiosas (como o metodismo) e suas contradições, bem como o significado de uma intelligentsia - intelectuais, como jornalistas e escritores - para a formação e consolidação do “espírito radical” em um processo revolucionário. Por fim, avaliamos algumas manifestações, favoráveis e contrárias a Thompson, uma vez que sua abordagem sobre o “agir humano”, experiência e consciência de classe, provocou inúmeras e diferentes reações. Procuramos, sempre que possível, relacionar o texto de The Making... a passagens de Customs in Common.

No quarto capítulo, “A Reafirmação do Materialismo Histórico”, apresentamos um resumo das principais idéias de The Poverty of Theory, a crítica de Thompson a Althusser e, sobretudo, à sua influência sobre parte da esquerda inglesa. Acompanhamos a fundamentação de seus argumentos, suas discussões políticas no campo do marxismo, suas críticas a Marx e a O Capital e, principalmente, destacamos a importância de sua proposta de “lógica histórica”. Resumimos também os momentos mais importantes do “debate de Oxford”, quando, na última noite de um seminário promovido pelo Grupo “History Workshop” e pelo Ruskin College em dezembro de 1979, seu livro (The Poverty...) foi questionado por Stuart Hall e Richard Johnson, com uma significativa réplica por parte de Thompson.

No último capitulo, “Liberdade Política e Desarmamento Nuclear”, estudamos o envolvimento político de Thompson nos movimentos pacifistas, no que chamamos de “lutas de libertação” e de “détente a partir de baixo”, sua participação e liderança em campanhas contra as injunções da guerra fria e pelo desarmamento nuclear, especialmente nas campanhas da CND e END. Nessa luta Thompson produziu ensaios polêmicos, como os sobre a ameaça de “exterminismo”, uma categoria de análise proposta por Thompson em 1980 para apreender a realidade da corrida armamentista no contexto da guerra fria. Também são desse período seus manifestos “Protest to Survive” e “Beyond the Cold War”, dos quais expomos as principais linhas e que procuramos relacionar à polêmica da idéia de “exterminismo”.

Nas “Considerações Finais” destacamos a forte atualidade das questões subjacentes ao temor de Thompson, tal como explicitado no capítulo quinto, o que expressa a importância da relação entre teoria e prática para Thompson e traduz sua própria luta entre razão e utopia. A nosso ver, sua luta talvez indique a necessidade e o sentido de relembrar sua obra, de modo a, mais uma vez, repensar os caminhos e descaminhos da luta de classe na sociedade contemporânea e, ao mesmo tempo, as bases de uma nova “agenda” para a história social.

Nenhum comentário: