quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A ESCOLA DOS ANNALES (1929-1989) Parte 1 - Peter Burke

Peter Burke

A REVOLUÇÃO FRANCESA DA HISTORIOGRAFIA:

A ESCOLA DOS ANNALES (1929-1989)

Tradução

Nilo Odália

2ª Edição

Editora

UNESP

Fundação para o

Desenvolvimento

Da UNESP

São Paulo

1992


Copyright © 1990 by Peter Burke

Título original em inglês:

The French Historical Revolution: The Annales School 1929-1989.

Copyright © 1990 da tradução brasileira: Editora Unesp, da Fundação para o Desenvolvimento da Universidade Estadual Paulista (FUNDUNESP)

Av. Rio Branco, 1210 01206 – São Paulo – SP Fone/Fax: (011)223-9560

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara brasileira rio Livro, SP, Brasil)

Índices para catálogo sistemático:

Burke, Peter.

A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales 1929-1989 / Peter Burke; tradução Nilo Odália. – São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1991.

Bibliografia.

l. Annales (Revista) 2. França – história – Revolução Francesa – Historiografia 3. Historiadores – França l. Título.

91-04028 CDD - 944.04072

- 944.0072

1. Escola dos Annales: Historiógrafos: França 944.00072

2. Historiógrafos: História 944.0072

3. Historiografia: Revoluçào Francesa 944.04072

4. Historiógrafos: França: História 944.0072

5. Revolução Francesa: Historiografia 944.04072

ISBN 85-7139-0013-4

OBSERVAÇÃO SOBRE O REGISTRO DA NUMERAÇÃO DAS PÁGINAS

A numeração indicada abaixo refere-se ao número colocado no cabeçalho da página do livro em brochura. Assim, o número 8, por exemplo, é o número da página cujo texto é apresentado a seguir: “que as estruturas sempre têm algo a dizer a respeito do comportamento do homem;”. Em outras palavras, o número registrado à direita abre o texto da página equivalente do original.


Índice

Apresentação ................................................................................................................. 7

Prefácio .......................................................................................................................... 11

1. O Antigo Regime na Historiografia e seus

....... Críticos ................................................................................................................... 17

2. Os Fundadores: Lucien Febvre e Marc Bloch ....................................................... 23

....... I – Os anos iniciais.................................................................................................... 23

....... II – Estrasburgo ....................................................................................................... 27

....... III – A criação dos Annales ..................................................................................... 32

....... IV- A Institucionalização dos Annales ................................................................... 37

3. A Era de Braudel ....................................................................................................... 45

....... I – O Mediterrâneo .................................................................................................. 45

....... II – O Braudel das últimas obras ............................................................................. 56

....... III – O nascimento da História Quantitativa ........................................................... 66

4. A Terceira Geração ................................................................................................... 79

....... I – Do porão ao sótão .............................................................................................. 81

....... II – O “terceiro nível” da história serial ................................................................... 88

....... III – Reações: Antropologia, Política, Narrativa ...................................................... 93

5. Os Annales numa perspectiva global ..................................................................... 109

I – A acolhida aos Annales ...................................................................................... 109

II – Um balanço final ............................................................................................... 121

Glossário: A linguagem dos Annales ......................................................................... 129

Bibliografia: As obras e os estudos principais

.................................. dos Annales ............................................................................... 133


Apresentação

Em seu famoso livro sobre a história da historiografia, Fueter[1] chama a atenção pára o fato de que toda nova abordagem histórica se origina de um acontecimento que determina o rumo da própria história. A insatisfação que os jovens Marc Bloch e Lucien Febvre demonstravam, nas décadas de 10 e 20, em relação à história política, sem dúvida estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações históricas complexas se viam reduzidas a um simples jogo de poder entre grandes – homens ou países – ignorando que, aquém e além dele, se situavam campos de forças estruturais, coletivas e individuais que lhe conferiam densidade e profundidade incompatíveis com o que parecia ser a frivolidade dos eventos. Se a história, como sempre pretendeu Febvre, era filha de seu tempo, não seria possível continuar a fazer esse tipo de história convencional que nem correspondia aos anseios de uma humanidade que vivia, nessas décadas, momentos de convulsões e rupturas com o passado, nem conseguia responder satisfatoriamente às exigências do novo homem que daí surgia.

A necessidade de uma história mais abrangente e totalizante nascia do fato de que o homem se sentia como um ser cuja complexidade em sua maneira de sentir, pensar e agir, não podia reduzir-se a um pálido reflexo de jogos de poder, ou de maneiras de sentir, pensar e agir dos poderosos do momento. Fazer uma outra história, na expressão usada por Febvre, era portanto menos redescobrir o homem do que, enfim, descobri-lo na plenitude de suas virtualidades, que se inscreviam concretamente em suas realizações históricas. Abre-se, em conseqüência, o leque de possibilidades do fazer historiográfico, da mesma maneira que se impõe a esse fazer a necessidade de ir buscar junto a outras ciências do homem os conceitos e os instrumentos que permitiriam ao historiador ampliar sua visão do homem. Como em Michelet, não se desprezava o subjetivo, a individualidade, como em Marx ou em outros historiadores que assentavam suas análises no econômico e no social; não se esquecia de

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que as estruturas sempre têm algo a dizer a respeito do comportamento do homem; e como Burckhardt, afirmava-se que o homem não se confinava a um corpo a ser mantido, mas também um espírito que criava e sentia diferentemente, em situações diferençadas.

Talvez resida nessa intenção de diversificar o fazer historiográfico a maior contribuição de Bloch e Febvre, quando, além de produzirem uma obra pessoal significativa, fundaram a revista Annales, com o explícito objetivo de fazer dela um instrumento de enriquecimento da história, por sua aproximação com as ciências vizinhas e pelo incentivo à inovação temática.

Duas personalidades, dois temperamentos, duas maneiras de abordagem do homem harmonizando-se numa combinação que possibilitou o franqueamento das fronteiras da história, permitindo de um lado a liberdade humana e a individualidade preservadas, e de outro, a ação do homem presente no interior de estruturas que a limitam, condicionam e mesmo determinam. Essa tensão criativa entre liberdade e determinismo tornou possível a colaboração entre os dois historiadores e a criação dos Annales. E com isso, uma renovação dos estudos historiográficos, que atinge sua plena expansão e efervescência com a chamada História Nova. Peter Burke chama a atenção em seu texto para o fato de que se se fizesse, na época, uma previsão quanto ao nascimento de uma nova história, a França não seria uma das favoritas para ser seu berço, visto que em outros países, na Alemanha por exemplo, pareciam existir melhores condições para que tal ocorresse. Mas foi na França que ela nasceu. Talvez possamos encontrar uma explicação no fato de que, depois da Revolução Francesa e com o surgimento da historiografia romântica, a sensibilidade histórica do povo francês aguçou-se, permitindo que a história se enraizasse em seu cotidiano. Sem dúvida, a obra histórica e pessoal de Michelet muito contribuiu para essa transformação, pois ele foi não apenas o grande historiador da Revolução, mas também o homem que transformou o fato histórico na saga de uma nação.

Creio que se pode dizer que com Michelet a história penetrou nos hábitos da nação, pois sua obra conseguiu “realizar uma verdadeira ressurreição da ... vida nacional”[2]. Embora os historiadores ligados à Escola dos Annales – e Peter Burke é apenas mais um exemplo – busquem, aquém do século XIX, as origens do trabalho histórico que realizam recuando até os gregos, sem dúvida devem a Michelet não algumas de suas qualidades, mas, o que me parece mais importante, a

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criação do clima emocional e intelectual necessário para que a ciência histórica se transformasse numa necessidade do homem francês.

Se a conquista do Oeste americano encontrou sua glorificação no popular faroeste, transformado num tema cinematográfico por excelência, a Revolução Francesa permitiu aos historiadores franceses encontrarem o meio de fazer ouvir sua voz, constituindo-se numa fonte contínua para as mais criativas escolas historiográficas.

O livro de Peter Burke sobre a Escola dos Annales tem, ao lado de suas múltiplas virtudes, a de propiciar ao leitor culto e ao especialista uma visão sintética e abrangente do que ela foi e é atualmente. A capacidade de Burke, de em poucas palavras, situar um problema, estabelecer vinculações e classificações, permite usufruir de seu domínio sobre ó que escreve, transferindo ao leitor, mesmo quando não integralmente familiarizado com os problemas temáticos e metodológicos, ou com as inúmeras ramificações da História Nova, um conhecimento que o habilitará a programar-se para um estudo mais sério e sistemático.

Por outro lado, permite compreender que o engajamento histórico não é uma via de mão única e que buscar o conhecimento do homem integral e total – preocupação constante de Marx – não deve limitar-se a vê-lo como prisioneiro de estruturas asfixiantes, mas também como um espírito capaz de ser livre por sua criatividade.

Afirmou Lévi-Strauss, em seu livro O Pensamento Selvagem, que sua ambição era realizar, ao nível da superestrutura, o que Marx realizara ao nível da infra-estrutura. Inspirados pela tensão estrutura e individualismo, nascida de Bloch e Febvre, uma significativa contribuição foi dada pela História Nova para que se alcançasse o ideal levistraussiano. E Peter Burke nos põe diante desse fato com simplicidade e competência. Da mesma maneira que nos permite tomar conhecimento e compreender por que todas as grandes questões da historiografia contemporânea passam necessariamente pelos historiadores vinculados, direta ou indiretamente, à História Nova. Por todas essas qualidades e por vir preencher mais uma lacuna de nossa bibliografia histórica, o livro de Peter Burke, lançado no Brasil ao mesmo tempo de sua edição inglesa, será um título obrigatório na biblioteca de todos os amantes da história.

São Paulo, 5 de agosto de 1990.

Nilo Odália


Prefácio

Da produção intelectual, no campo da historiografia, no século XX, uma importante parcela do que existe de mais inovador, notável e significativo, origina-se da França. La nouvelle histoire, como é freqüentemente chamada, é pelo menos tão conhecida como francesa e tão controvertida quanto La nouvelle cuisine (Le Goff, 1978). Uma boa parte dessa nova história é o produto de um pequeno grupo associado à revista Annales, criada em 1929[3]. Embora esse grupo seja chamado geralmente de a “Escola dos Annales”, por se enfatizar o que possuem em comum, seus membros, muitas vezes, negam sua existência ao realçarem as diferentes contribuições individuais no interior do grupo[4].

O núcleo central do grupo é formado por Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel, Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie. Próximos desse centro estão Ernest Labrousse, Pierre Vilar, Maurice Agulhon e Michel Vovelle, quatro importantes historiadores cujo compromisso com uma visão marxista da história particularmente forte no caso de Vilar – coloca-os fora desse núcleo. Aquém ou além dessa fronteira estão Roland Mousnier e Michel Foucault. Este aparece esporadicamente neste estudo em razão da interpenetração de seus interesses históricos com os vinculados aos Annales.

A revista, que tem hoje mais de sessenta anos, foi fundada para promover uma nova espécie de história e continua, ainda hoje, a encorajar inovações. As idéias diretrizes da revista, que criou e excitou entusiasmo em muitos leitores, na França e no exterior, podem ser sumariadas brevemente. Em primeiro lugar, a substituição da tradicional

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narrativa de acontecimentos por uma história-problema. Em segundo lugar, a história de todas as atividades humanas e não apenas história política. Em terceiro lugar, visando completar os dois primeiros objetivos, a colaboração com outras disciplinas, tais como a geografia, a sociologia, a psicologia, a economia, a lingüística, a antropologia social, e tantas outras. Como dizia Febvre, com o seu característico uso do imperativo: “Historiadores, sejam geógrafos. Sejam juristas, também, e sociólogos, e psicólogos” (Febvre, 1953, p.32). Ele estava sempre pronto “para pôr abaixo os compartimentos” e lutar contra a especialização estreita[5]. De maneira similar, Braudel escreveu O Mediterrâneo como o fez para “provar que a história pode fazer mais do que estudar jardins murados”[6].

O objetivo deste livro é descrever, analisar e avaliar a obra da escola dos Annales. Essa escola é, amiúde, vista como um grupo monolítico, com uma prática histórica uniforme, quantitativa no que concerne ao método, determinista em suas concepções, hostil ou, pelo menos, indiferente à política e aos eventos. Esse estereótipo dos Annales ignora tanto as divergências individuais entre seus membros quanto seu desenvolvimento no tempo. Talvez seja preferível falar num movimento dos Annales, não numa “escola”[7].

Esse movimento pode ser dividido em três fases. Em sua primeira fase, de 1920 a 1945, caracterizou-se por ser pequeno, radical e subversivo, conduzindo uma guerra de guerrilhas contra a história tradicional, a história política e a história dos eventos. Depois da Segunda Guerra Mundial, os rebeldes apoderaram-se do establishement histórico. Essa segunda fase do movimento, que mais se aproxima verdadeiramente de uma “escola”, com conceitos diferentes (particularmente estrutura e conjuntura) e novos métodos (especialmente a “história serial” das mudanças na longa duração), foi dominada pela presença de Fernand Braudel.

Na história do movimento, uma terceira fase se inicia por volta de 1968. É profundamente marcada pela fragmentação. A influência do movimento, especialmente na França, já era tão grande que perdera

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muito das especificidades anteriores. Era uma “escola” unificada apenas aos olhos de seus admiradores externos e seus críticos domésticos, que perseveravam em reprovar-lhe a pouca importância atribuída à política e à história dos eventos. Nos últimos vinte anos, porém, alguns membros do grupo transferiram-se da história socioeconômica para a sociocultural, enquanto outros estão redescobrindo a história política e mesmo a narrativa.

A história dos Annales pode assim ser interpretada em termos da existência de três gerações, mas serve também para ilustrar o processo cíclico comum segundo o qual os rebeldes de hoje serão o establishement de amanhã, transformando-se, por sua vez, no alvo dos novos rebeldes. Mesmo assim, algumas de suas preocupações básicas permanecem, pois a revista e os indivíduos a ela associados oferecem o mais sistemático exemplo, neste século, de uma interação fecunda entre a história e as ciências sociais.

Este breve estudo do movimento dos Annales pretende atravessar diversas fronteiras culturais. Objetiva, de um lado, tentar compreender o mundo francês, de outro, explicar, tanto quanto possível, a década de 20 às gerações posteriores e a prática do historiador para sociólogos, antropólogos, geógrafos e outros cientistas sociais. Ele se apresenta sob a forma de uma história que busca harmonizar uma organização cronológica a uma temática.

O problema com esse tipo de combinação, aqui ou em qualquer outro estudo histórico, é o que se conhece como “a contemporaneidade do não-contemporâneo”. Braudel, por exemplo, embora fosse excepcionalmente aberto, às novas idéias, mesmo numa idade avançada, não alterou fundamentalmente sua maneira de ver e escrever a história, desde os anos 30, quando planejava seu Mediterrâneo, até a década de 80, quando trabalhava seu livro sobre a França. Daí a necessidade de ter tomado algumas liberdades com a ordem cronológica.

O livro é, ao mesmo tempo, algo mais e algo menos do que um estudo de história intelectual. Não aspira a ser o estudo acadêmico definitivo sobre o movimento dos Annales, o que, espero, alguém faça no século XXI. Só então poderão ser utilizadas fontes às quais não tive acesso, como os rascunhos manuscritos de Marc Bloch ou as cartas não

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publicadas de Febvre e Braudel[8]. Seu autor irá precisar tanto de um conhecimento especializado da história da historiografia, quanto da história da França do século XX.

O que tentei escrever é algo bem diferente. É um ensaio de caráter mais pessoal. Já me descrevi, algumas vezes, como um “companheiro de viagem” dos Annales. Em outras palavras, um historiador de fora que, como muitos outros estrangeiros, buscou sua inspiração no movimento. Tenho acompanhado seu destino de maneira muito próxima nestes últimos trinta anos. Mas, ao mesmo tempo, Cambridge é suficientemente afastada de Paris para tornar possível escrever uma história crítica das contribuições dos Annales,

Embora Febvre e Braudel tenham sido excelentes políticos acadêmicos, pouco será dito, nas páginas que se seguem, sobre esse aspecto do movimento – a rivalidade entre a Sorbonne e o, Hautes Études, por exemplo, ou a luta pelo poder de nomeações e sobre a elaboração dos curricula[9]. Resisti também, com algum remorso, à tentação de escrever um estudo etnográfico dos habitantes do 54, Boulevard Raspail[10], seus ancestrais, os casamentos endogâmicos, as facções, as relações chefe-subordinado, os estilos de vida, as diferentes mentalidades e tantas outras coisas.

Concentrar-me-ei, ao invés disso, nos melhores livros produzidos pelos membros do grupo, e tentarei avaliar sua importância na história da historiografia. Pode parecer paradoxal discutir um movimento que foi mantido coeso por uma revista, utilizando livros e não artigos[11]. Foram, porém, as monografias que produziram a longo prazo o maior impacto, quer sobre o público profissional, quer sobre o público em geral.

O movimento tem sido freqüentemente discutido como se pudesse ser atribuído a apenas três ou quatro de seus membros. As realizações de Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel e outros são realmente espetaculares. Contudo, como no caso de muitos

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movimentos intelectuais, esse é um empreendimento coletivo para o qual contribuições significativas foram feitas por um bom número de indivíduos. Isso é mais óbvio no caso da terceira geração, mas também e verdadeiro para a era de Braudel, valendo mesmo para o tempo de seus fundadores. Trabalho em equipe foi um sonho de Febvre desde 1936[12]. Depois da guerra, o sonho tornou-se realidade. Projetos de trabalho em equipe sobre a França incluíam a história da estrutura social, a história da produtividade agrícola, a história do livro no século XVIII, a história da educação, a história da habitação e mesmo um estudo dos conscritos no século XIX, com a utilização da informática.

Este estudo conclui-se com uma discussão acerca das reações, entusiásticas ou críticas, ao movimento dos Annales, um balanço de sua acolhida em diferentes partes do mundo e por diferentes disciplinas, e uma tentativa de situá-lo na história da historiografia. Meu objetivo (apesar da relativa brevidade deste ensaio) é dar ao leitor condições de compreender o movimento como um todo.

Naturalmente, devo bastante a conversas mantidas com membros do grupo dos Annales, especialmente com Fernand Braudel, Emmanuel Le Roy Ladurie, Jacques Le Goff, Michel Vovelle, Krzystof Pomian, Roger Chartier e Jacques Revel, em Paris ou também em locais mais exóticos, do Taj Mahal ao Emmanuel College.

Gostaria de agradecer à minha esposa, Maria Lúcia, a meu editor, John Thompson, e a Roger Chartier, por seus comentários aos esboços iniciais deste estudo. Sinto-me igualmente em débito comJuan Maiguashca, que acendeu meu entusiasmo pelos Annales, cerca de trinta anos atrás, e com os diálogos mantidos com Alan Baker, Norman Birnbaum, John Bossy, Stuart Clark, Robert Darnton, Clifford Davies, Natalie Davis, Javier Gil Pujol, Carlo Ginzburg, Ranajit Guha, Eric Hobsbawm, Gábor Klaniczay, Geoffrey Parker, Gwyn Prins, Carlos Martinez Shaw, No Schoffer, Henk Wesseling e outros que, como eu, tentaram mesclar seu envolvimento com os Annales com uma certa distância crítica.


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O Antigo Regime na Historiografia e seus Críticos

Lucien Febvre e Marc Bloch foram os líderes do que pode ser denominado Revolução Francesa da Historiografia. Para interpretar as ações dos revolucionários, contudo, é necessário conhecer alguma coisa do antigo regime que desejavam derrubar. Para sua descrição e compreensão, não é suficiente permanecer nos quadros historiográficos restritos da situação francesa do início do século, quando Febvre e Bloch eram estudantes. Torna-se necessário examinar a história da historiografia na sua longa duração.

Desde os tempos de Heródoto e Tucídides, a história tem sido escrita sob uma variada forma de gêneros: crônica monástica, memória política, tratados de antiquários, e assim por diante. A forma dominante, porém, tem sido a narrativa dos acontecimentos políticos e militares, apresentada como a história dos grandes feitos de grandes homens – chefes militares e reis. Foi durante o Iluminismo que ocorreu, pela primeira vez, uma contestação a esse tipo de narrativa histórica[13].

Por volta de meados do século XVIII, um certo número de escritores e intelectuais, na Escócia, França, Itália, Alemanha e em outros países, começou a preocupar-se com o que denominava a “história da sociedade”. Uma história que não se limitava a guerras e à política, mas preocupava-se com as leis e o comércio, a moral e os “costumes”, temas que haviam sido o centro de atenção do famoso livro de Voltaire Essai sur lés moeurs.

Esses estudiosos abandonaram o que John Millar de Glasgow chamara “aquela face comum dos eventos que recobre os detalhes do historiador vulgar”, para concentrarem-se na história das estruturas,

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tais como o sistema feudal ou a constituição britânica. Alguns deles dedicaram-se à reconstrução de comportamentos e valores do passado, especialmente à história do sistema de valores conhecido corno “cavalaria”; outros à história da arte, da literatura e da música. Por volta do final do século, esse grupo internacional de estudiosos havia produzido um conjunto de obras extremamente importante. Alguns historiadores, como Edward Gibbon em seu Declínio e Queda do Império Romano, integraram à narrativa dos acontecimentos políticos esse novo tipo de história sociocultural.

Contudo, uma das conseqüências da chamada “Revolução Copernicana” na história ligada ao nome de Leopold von Ranke, foi marginalizar, ou re-marginalizar, a história sociocultural. Os interesses pessoais de Ranke não se limitavam à história política. Escreveu sobre a Reforma e a Contra-Reforma e não rejeitou a história da sociedade, da arte, da literatura ou da ciência. Apesar disso, o movimento por ele liderado e o novo paradigma histórico elaborado arruinaram a “nova história” do século XVIII. Sua ênfase nas fontes dos arquivos fez com que os historiadores que trabalhavam a história sociocultural parecessem meros dilettanti.

Os epígonos de Ranke foram, porém, mais intolerantes que o mestre e, numa época em que os historiadores buscavam profissionalizar-se, a história não-política foi excluída da nova disciplina acadêmica[14]. As novas revistas profissionais fundadas no final do século XIX, tais como Historische Zeitschrift (1865), Revue Historique (1876) e a English Historical Review (1886), concentravam-se na história dos eventos políticos. O prefácio do primeiro volume da EHR declarava sua intenção de dedicar-se aos temas da Política e do Estado”. Os ideais dos novos historiadores profissionais foram sistematizados em compêndios sobre o método histórico, como, por exemplo, o dos historiadores franceses Langlois e Seignobos, Introduction aux études historiques (1897).

Mesmo no século XIX, alguns historiadores foram vozes discordantes. Michelet e Burckhardt, que escreveram suas histórias sobre o Renascimento mais ou menos na mesma época, 1865 e 1860, respectivamente, tinham uma visão mais ampla da história do que os seguidores de Ranke. Burckhardt interpretava a história como um

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campo em que interagiam três forças – o Estado, a Religião e a Cultura –, enquanto Michelet defendia o que hoje poderíamos descrever como uma “história da perspectiva das classes subalternas”, em suas próprias palavras “a história daqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos” (Michelet, 1842, p.8).

Não podemos esquecer que a obra-prima do velho historiador francês Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga (1864), dedicava-se antes à história da religião, da família e da moralidade, do que aos eventos e à política. Marx também oferecia um paradigma histórico alternativo ao de Ranke. Segundo sua visão histórica, as causas fundamentais da mudança histórica deveriam ser encontradas nas tensões existentes no interior das estruturas socioeconômicas.

Os historiadores econômicos foram, talvez, os opositores mais bem organizados da história política. Gustav Schmoller, professor em Estrasburgo, nesse tempo pertencente à Alemanha (1872), por exemplo, foi o cabeça de uma importante escola histórica. Uma revista de história social e econômica foi criada em 1893, a Vierteljahrschrift fur Sozial – und Wirschaftsgeshichte. Na Grã-Bretanha, alguns estudos clássicos de história econômica, como os de William Cunnigham, Growth of English Trade, e J.E. Thorold Roger, Six Centuries of Work and Wages, datam de 1882 e 1884, respectivamente (Coleman, 1987, pp. 38ss). Henri Hauser, Henri Sée e Paul Mantoux, na França, começaram a escrever sobre história econômica no final do século XIX (Hauser; 1899; Sée, 1901; Mantoux, 1906).

O domínio, ou como dizia Schmoller, o “imperialismo” da história política, era freqüentemente contestado na última parte do século XIX. J.R.Green abria sua Short History of English People afirmando claramente ter “devotado mais espaço a Chaucer do que a Crécy, a Caxton do que à insignificante disputa entre os yorkistas e lancastreanos, à lei dos pobres de Elisabete do que à sua vitória de Cadiz, à Reforma Metodista do que à fuga do Jovem Pretendente (Charles Edward Stuart)”[15].

Os fundadores da nova disciplina, a sociologia, expressavam pontos de vista semelhantes. Augusto Comte ridiculizava o que

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chamava de “insignificantes detalhes estudados infantilmente pela curiosidade irracional de compiladores cegos de anedotas inúteis”, e defendia o que chamou, numa frase famosa,”uma história sem nomes” (Comte, 1864, lição 52). Herbert Spencer queixava-se de que “As biografias dos monarcas (e nossas crianças aprendem pouco mais do que isso) pouco esclarecem a respeito da ciência da sociedade” (Spencer, 1861, pp. 26ss). Da mesma maneira, Durkheim despreza os acontecimentos particulares, nada mais do que “manifestações superficiais”; a história aparente mais do que a história real de uma determinada nação (Durkheim, 1896, p.v.).

Por volta de 1900, as críticas à história política eram particularmente agudas, e as sugestões para sua substituição bastante férteis[16]. Na Alemanha, nesses anos, ocorreu a chamada “controvérsia de Lamprecht”. Karl Lamprecht, professor em Leipzig, colocava em oposição à história política – nada mais do que uma história de indivíduos – a história cultural ou econômica, considerada como a história do povo. Posteriormente, definiu a história “primordialmente como uma ciência sociopsicológica”[17].

Nos Estados Unidos, o famoso estudo de Frederick Jackson Turner sobre “o significado da fronteira na história americana” (1893) produziu uma clara ruptura com a história dos acontecimentos políticos, ao passo que, no início do novo século, um movimento foi lançado por James Harvey Robinson sob a bandeira da “Nova História”. De acordo com Robinson, “História inclui qualquer traço ou vestígio das coisas que o homem fez ou pensou, desde o seu surgimento sobre a terra”. Por método, “A Nova História deverá utilizar-se de todas as descobertas sobre a humanidade, que estão sendo feitas por antropólogos, economistas, psicólogos e sociólogos”[18].

Nessa mesma época, na França, a natureza da história tornou-se o objeto de um intenso debate. A estreiteza intelectual do establishment histórico não deve ser, porém, exagerada. O fundador da Revue Historique, Gabriel Monod, conciliava seu entusiasmo pela “história científica” alemã com sua admiração por Michelet, a quem conhecera

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pessoalmente e cuja biografia escrevera. Era por sua vez admirado por seus alunos Hauser e Fcbvre.

Por outro lado, Ernest Lavisse, um dos mais importantes historiadores em atividade na época, era o editor geral da História da França, publicada em dez volumes, entre 1900 e 1912. Seus interesses pessoais estavam voltados para a história política, de Frederico, o Grande, a Luís XIV. Contudo, a concepção histórica subjacente a esses dez volumes era muito mais abrangente. A seção introdutória foi escrita por um geógrafo, o volume dedicado ao Renascimento, por um historiador da cultura, e o próprio balanço da época de Luís XIV, escrito por Lavisse, dedicou parte substancial às artes e, particularmente, à política das artes[19]. Portanto, é inexato pensar que os historiadores profissionais desse período estivessem exclusivamente envolvidos com a narrativa dos acontecimentos políticos.

De qualquer forma, os historiadores eram vistos dessa maneira pelos cientistas sociais. O desprezo de Durkheim pelos eventos já foi mencionado; seu seguidor, o economista François Simiand, foi mais longe nesse sentido, quando, num famoso artigo, atacou o que chamou de “os ídolos da tribo dos historiadores”. Segundo ele, havia três ídolos que deveriam ser derrubados: “o ídolo político”, “a eterna preocupação com a história política, os fatos políticos, as guerras, etc., que conferem a esses eventos uma exagerada importância”; o “ídolo individual”, isto é, a ênfase excessiva nos chamados grandes homens, de forma que mesmo estudos sobre instituições eram apresentados como “Pontchartrain e o Parlamento de Paris”, ou coisas desse gênero; e, finalmente, o “ídolo cronológico”, ou seja, “o hábito de perder-se nos estudos das origens” (Simiand, 1903).

Os três temas seriam caros aos Annales, e a eles retornaremos. O ataque aos ídolos da tribo dos historiadores fazia uma referência particular a um dos chefes tribais, o protegido de Lavisse, Charles Seignobos, professor da Sorbonne e co-autor de uma das mais conhecidas introduções ao estudo da história[20]. Talvez tenha sido por essa razão que Seignobos se transformou no símbolo de tudo aquilo a que os reformadores se opunham. De fato, ele não era exclusivamente

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um historiador político, pois escrevera também sobre civilização. Estava interessado na relação entre a história e as ciências sociais, embora não tivesse a mesma visão dessa relação que Simiand ou Febvre. Estes publicaram duras críticas a seu trabalho. A crítica de Simiand apareceu numa nova revista, a Revue de Synthèse Historique, fundada por um grande empreendedor intelectual, Henri Berr. Sua intenção, encorajar historiadores a colaborar com outras disciplinas, especialmente com a psicologia e a sociologia, na esperança de produzir o que ele chamava de “psicologia histórica” ou “coletiva” (Siegel, 1983). Em outras palavras, o que os americanos chamam de “psico-história” é consideravelmente anterior aos anos 50 e ao famoso estudo de Erik Erikson sobre o Young Man Luther (Erikson, 1954).

O ideal de Berr, uma psicologia histórica construída através de uma cooperação interdisciplinar, teve grande ressonância em dois jovens que escreveram para a sua revista. Seus nomes: Lucien Febvre e Marc Bloch.


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Os Fundadores: Lucien Febvre e Marc Bloch

O movimento dos Annales, em sua primeira geração, contou com dois líderes: Lucien Febvre, um especialista no século XVI, e o medievalista Marc Bloch. Embora fossem muito parecidos na maneira de abordar os problemas da história, diferiam bastante em seu comportamento. Febvre, oito anos mais velho, era expansivo, veemente e combativo, com uma tendência a zangar-se quando contrariado por seus colegas; Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, demonstrando um amor quase inglês por qualificações e juízos reticentes[21]. Apesar, ou por causa dessas diferenças, trabalharam juntos durante vinte anos entre as duas guerras[22].

I – OS ANOS INICIAIS

Em 1897, Lucien Febvre foi admitido na Escola Normal Superior, então separada da Universidade de Paris. Era uma pequena escola superior, mas altamente qualificada intelectualmente, sendo conhecida como “o equivalente francês do Jowett’s Balliol” (Lukes, 1973, p. 45). Aceitava pouco menos de quarenta alunos por ano e era organizada segundo as linhas tradicionais da escola pública britânica (os estudantes eram todos internos e a disciplina rígida) (Peyrefitte, 1946). O ensino era ministrado através de seminários dirigidos por professores altamente competentes nas diferentes disciplinas, e através de aulas expositivas. Aparentemente, Febvre foi “alérgico” ao filósofo Henri Bergson, embora muito tenha aprendido com quatro de seus colegas[23].

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Um deles foi Paul Vidal de la Blache, um geógrafo interessado em colaborar com historiadores e sociólogos. Fundou uma nova revista, os Annales de Géographie (1891), visando a incentivar essa aproximação[24]. O segundo desses professores foi o filósofo e antropólogo Lucien Lévy-Bruhl, criador do conceito de “pensamento pré-lógico” ou “mentalidade primitiva”, um tema que surgiria nos trabalhos de Febvre na década de 30. O terceiro foi o historiador da arte Émile Mâle, um dos pioneiros a concentrar-se não na história das formas, mas na das imagens, na “iconografia”, como dizemos hoje. Seu famoso estudo sobre a arte religiosa do século XIII foi publicado em 1898, o mesmo ano em que Febvre ingressou na Escola. Finalmente, havia o lingüista Antoine Meillet, um aluno de Durkheim particularmente interessado nos aspectos sociais da língua. A admiração de Febvre por Meillet e seu interesse pela história social da língua evidenciam-se claramente nas inúmeras resenhas de livros de lingüistas que escreveu entre 1906 e 1926 para a Revue de Syrnthèse Historique, de Henri Berr[25].

Febvre reconheceu também seu débito para com inúmeros historiadores anteriores. Durante toda a vida expressou sua admiração pela obra de Michelet. Reconheceu Burckhardt como um de seus “mestres”, juntamente com o historiador da arte Louis Courajod. Confessa também uma surpreendente influência, a do político de esquerda Jean Jaurès, através de sua obra Histoire socialiste de la révolution française (1901-3), “tão rica em intuições sociais e econômicas” (Febvre, 1922, p.vi. Cf. Venturi, 1966, 5-70).

A influência de Jaurès pode ser constatada na tese de doutoramento de Febvre – um estudo sobre sua própria região, a Franche-Comté, a área em torno de Besançon, no final do século XVI, quando era governada por Felipe II, da Espanha. O título da tese, Philippe II et la Franche-Comté, mascara o fato de ser uma importante contribuição tanto à história sociocultural quanto à história política. Preocupava-se não somente com a revolta dos Países Baixos e a ascensão do absolutismo, mas também com a “feroz luta entre duas classes rivais”, a decadente e endividada nobreza e a ascendente

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burguesia de advogados e mercadores, que adquiria suas propriedades. Esse esquema interpretativo se assemelha ao marxista; Febvre, porém, difere profundamente de Marx ao descrever a luta entre os dois grupos “como um conflito de idéias e sentimentos tanto quanto um conflito econômico” (Febvre, 1911, p. 323). Sua interpretação desse conflito, e mesmo da história em geral, não diferia da de Jaurès, que se dizia “ao mesmo tempo, materialista com Marx e místico com Michelet”, reconciliando as forças sociais com as paixões individuais (Jaurès, 1901, pp. 65 ss).

Outra característica marcante e poderosa do estudo de Febvre era a introdução geográfica, que traçava um nítido perfil dos contornos da região. A introdução geográfica que era quase, de rigueur (obrigatória) nas monografias provinciais da escola dos Annales na década de 60, pode ter sido modelada pelo famosO Mediterrâneo de Braudel, mas não tem nele suas origens.

O interesse de Febvre pela geografia histórica era suficientemente grande para publicar, sob o incentivo de Henri Berr, um estudo geral sobre o assunto com o título de La terre et lévolution humaine. Esse trabalho havia sido planejado antes da Primeira Guerra Mundial, mas teve de ser interrompido quando o autor trocou as funções de professor universitário pelas de capitão de uma companhia de artilharia. Terminada a guerra, Febvre retornou ao seu estudo, auxiliado agora por um colaborador, que foi publicado em 1922.

Esse extenso estudo, que aborreceu alguns geógrafos profissionais por ser o trabalho de um não-especialista, era o desenvolvimento das idéias do antigo professor de Febvre, Vidal de la Blache.

De outro modo, foi importante para Febvre o geógrafo alemão Ratzel. O historiador francês era uma espécie de ostra intelectual, que elaborava mais facilmente suas idéias quando irritado pelas conclusões de algum colega. Ratzel foi um dos pioneiros da geografia humana (Anthropogéographie, como ele chamava); atribuía, porém, diferentemente de Vidal de la Blache, maior influência ao meio físico sobre o destino humano[26].

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Nesse debate em que o determinismo geográfico opunha-se à liberdade humana, Febvre apoiou firmemente Vidal e atacou Ratzel, enfatizando a variedade de possíveis respostas aos desafios de um dado meio. Segundo ele, não havia necessidades, existiam possibilidades (Febvre, 1922, p. 284). Para citar um dos exemplos favoritos de Febvre: um rio pode ser tratado por uma sociedade como uma barreira, mas por outra, como um meio de transporte. Em última análise, não é o ambiente físico que determina a opção coletiva, mas o homem, sua maneira de viver, seu comportamento. Mesmo as atitudes religiosas aí se incluíam. Numa discussão sobre rios e meios de transporte, Febvre não se esqueceu de discutir as rotas dos peregrinos (Idem, pp. 402 ss).

A carreira de Bloch não foi muito diferente da de Febvre. Freqüentou também a École Normale, onde seu pai Gustavo ensinava história antiga. Aprendeu, igualmente, com Meillet e Lévy-Bruhl; contudo, como comprova a análise de suas últimas obras, sua maior influência foi a do sociólogo Émile Durkheim, que iniciou sua carreira de professor na École mais ou menos na época de seu ingresso. Ele mesmo um egresso da École, aprendeu a levar a história com seriedade através de seus estudos com Fustel de Coulanges (Lukes, 1973, pp. 58 ss). Em sua maturidade, Bloch reconheceu sua profunda dívida com a revista de Durkheim, Année Sociologique, lida entusiasticamente por um grande número de historiadores de sua geração, tais como Louis Gernet, dedicado ao estudo das letras clássicas, e o sinologista Marcel Granet[27].

Apesar de seu interesse pela política contemporânea, Bloch optou por especializar-se em história medieval. Como Febvre, interessava-se pela geografia histórica, tendo por especialização a Île-de-France, sobre a qual publicou um estudo em 1913. Esse estudo revela que, como Febvre, Bloch pensava no tema sob a perspectiva de uma história-problema. Num estudo de caráter regional, aprofundou-se tanto a ponto de pôr em questão a própria noção de região, argumentando que esta dependia do problema que se tinha em mente. “Por que, escreveu ele, devemos esperar que o jurista interessado no feudalismo, o economista que está estudando a evolução da propriedade no interior do país nos tempos modernos, e

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o filólogo que trabalha os dialetos populares tenham todos que respeitar fronteiras precisamente idênticas?” (Bloch, 1913, p. 122).

O compromisso de Bloch com a geografia era menor do que o de Febvre, embora seu compromisso com a sociologia fosse maior. Contudo, ambos estavam pensando de uma maneira interdisciplinar. Bloch, por exemplo, insistia na necessidade de o historiador regional combinar as habilidades de um arqueólogo, de um paleógrafo, de um historiador das leis, e assim por diante (Idem, pp. 60-1). Esses dois homens tinham necessariamente de encontrar-se. A oportunidade ocorreu por ocasião de suas nomeações para cargos na Universidade de Estrasburgo.

II – ESTRASBURGO

Ambiente O período de encontros diários, em Estrasburgo, entre Bloch e Febvre durou apenas treze anos, de 1920 a 1933; foi, porém, de vital importância para o movimento dos Annales. Mais importante ainda pelo fato de que ambos estavam cercados por um grupo interdisciplinar extremamente atuante. Daí a importância de realçar-se o ambiente em que se formou o grupo.

Nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, Estrasburgo era efetivamente uma nova universidade, pois a cidade vinha de ser recentemente desanexada da Alemanha, criando um ambiente favorável à inovação intelectual e facilitando o intercâmbio de idéias através das fronteiras disciplinares[28].

Quando Fcbvre e Bloch se encontraram em 1920, logo após as suas nomeações como professor e maitre de conférences respectivamente, rapidamente tornaram-se amigos (Febvre, 1945, p. 393). Suas salas de trabalho eram contíguas, e as portas permaneciam abertas (Fcbvre, 1953, p. 393). Em suas infindáveis discussões participavam colegas como o psicólogo social Charles Blondel, cujas idéias eram importantes para Febvre, e o sociólogo Maurice Halbwachs, cujo

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estudo sobre a estrutura social da memória, publicado em 1925, causou profunda impressão em Bloch[29].

Outros membros da faculdade de Estrasburgo participaram, ou vieram a participar, das preocupações de Febvre e Bloch. Henri Bremond, autor da monumental Histoire littéraire du sentiment religieux en France depuis la fin des guerres de religion (1916-1924), lecionou em Estrasburgo durante o ano de 1923. Sua preocupação com a psicologia histórica inspirou Febvre em sua obra sobre a Reforma[30]. O historiador da Revolução Francesa, Georges Lefebvre, cujo interesse pela história das mentalidades era muito próximo do dos fundadores dos Annales, aí lecionou de 1928 a 1937. Não é gratuito sugerir que a idéia do famoso estudo de Lefebvre sobre “o grande medo de 1789” deve alguma coisa ao ensaio anterior de Bloch sobre o rumor[31]. Lecionaram também em Estrasburgo: Gabriel Le Bras, um pioneiro da sociologia histórica das religiões, e André Piganiol, cujo ensaio sobre os jogos romanos, publicado em 1923, revela um interesse pela antropologia semelhante ao de Bloch na sua obra Les Rois Thaumaturges, editada um ano depois[32].

Les Rois Thaumaturges merece ser considerada uma das grandes obras históricas do nosso século[33]. Seu tema é a crença, muito difundida na Inglaterra e na França, da Idade Média até o século XVIII, de que os reis tinham o poder de curar os doentes de escrófula, uma doença da pele conhecida como o “mal dos reis”, através do toque real, que se fazia acompanhar de um ritual com essa finalidade.

O tema pode ainda parecer relativamente marginal, e certamente o foi na década de 20; Bloch faz uma referência irônica a um colega inglês que comentara esse “seu curioso desvio”(Bloch, 1924, p.18). Para Bloch, muito ao contrário, o toque real não era um desvio, mas uma estrada principal, em verdade une voie royale em todos os sentidos. Era um ensaio profundo que lançava luz sobre importantes problemas. O autor considerava seu livro, com alguma razão, uma

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contribuição à história política da Europa no sentido mais amplo e verdadeiro do termo “político”, pois nele analisava a idéia de monarquia. “O milagre real foi acima de tudo a expressão de uma concepção particular do poder político supremo” (Idem, pp. 21,51).

Les Rois Thaumaturges Les Rois Thaumaturges foi notável em pelo menos três outros aspectos. Primeiro, porque não se limitava a um período histórico convencional, a Idade Média. Seguindo o conselho que mais tarde formularia em termos gerais em seu Métier dhistorien, Bloch escolheu o período para localizar o problema, o que significava que tinha de escrever “a história da longa-duração”, como foi chamada por Braudel uma geração depois. Tal perspectiva conduziu Bloch a conclusões interessantes; uma das mais importantes foi a de constatar que o ritual do toque não apenas sobreviveu no século XVII, a época de Descartes e de Luís XIV, mas nele floresceu como jamais, pelo menos no sentido de que Luís XIV tocou um número maior de doentes do que seus predecessores. Não era, pois, um mero “fóssil” (Idem, pp. 21, 360 ss).

Em segundo lugar, o livro era uma contribuição ao que Bloch denominava “psicologia religiosa”. O núcleo central do estudo era a história dos milagres e concluía com uma discussão explicita do problema de como explicar que o povo pudesse acreditar em tais “ilusões coletivas” (Idem, p. 420 ss). Observou ainda que alguns doentes retornavam para serem tocados uma segunda vez, o que sugere que sabiam ter o tratamento fracassado, mas que o fato não destruía sua fé. “O que criava a fé no milagre era a idéia de que deveria haver um milagre” (Idem, p.429). Na famosa frase do filósofo Karl Popper, formulada poucos anos depois, a crença não era “falsificável” (Popper, 1935, pp. 440 ss). `

Esse tipo de discussão sobre a psicologia da crença não era algo que se podia esperar de um estudo histórico nos anos 20. Era um tema para psicólogos, sociólogos ou antropólogos. De fato, Bloch discutiu seu livro com seu colega de Estrasburgo Charles Blondel, como também com Febvre (Bloch, 1924, p. vi). Bloch conhecia também o trabalho de James Frazer, e o que o Golden Bough tinha a dizer sobre a monarquia sagrada, da mesma maneira que sabia o que Lévy-Bruhl dissera sobre a “mentalidade primitiva” (Idem, p. 421n). Embora Bloch não se utilizasse freqüentemente do termo, seu livro foi uma obra

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pioneira para o que hoje designamos de história “das mentalidades”. Pode também ser descrito como um ensaio de sociologia histórica, ou antropologia histórica, por focalizar os sistemas de crença – e também de sociologia do conhecimento.

A frase com que Bloch descreveu mais de uma vez seu livro foi “representações coletivas”, uma frase bastante associada ao sociólogo Émile Durkheim, tanto quanto a frase “fatos sociais”, encontrável também nas páginas de sua obra (Idem, pp. 21, 51, 409). Em verdade, sua maneira de abordar o tema deve muito a Durkheim e a sua escola (Febvre, 1945, p. 392; Rhodes, 1978). Sob um aspecto, pelo menos, pode ser criticado, talvez tardiamente, por ter sido durkheiminiano um pouco demais.

Embora tenha sido cuidadoso ao registrar as dúvidas sobre o toque real expressas durante o longo período coberto por seu livro, ainda assim Bloch cria uma impressão de consenso muito forte, talvez em virtude de não oferecer nenhuma discussão sistemática da espécie de povo que acreditava (ou, em certas oportunidades, desacreditava); ou dos grupos cujo interesse era que outros acreditassem no toque real. Não discute o fenômeno em termos ideológicos. É claro que se deve observar que nos dias de Bloch o conceito de “ideologia” era usado de uma maneira simples e reducionista. Como hoje não mais ocorre, é difícil imaginar que um historiador ligado aos Annales, Georges Duby, por exemplo, pudesse discutir o problema do toque real sem recorrer a esse conceito.

Um terceiro aspecto que enfatiza a importância do estudo de Bloch é o que seu autor chama de “história comparativa”. Algumas comparações são feitas com sociedades distantes da Europa como a Polinésia, embora sejam feitas de passagem e com extrema cautela: (“não transfiramos os Antípodas para Paris ou Londres”) (Bloch, 1924, pp. 52ss, 421n.). A comparação entre a França e a Inglaterra, porém, é central no livro, os dois únicos países em que o toque real era praticado. Acrescente-se, porém, que a comparação é feita de maneira a permitir a constatação das diferenças.

Em resumo, Bloch já utilizava, em 1924, o que iria pregar quatro anos mais tarde num artigo chamado “Por uma história comparativa das sociedades européias”. Nele o autor defende o que chama de “uso mais competente e mais geral” do método comparativo, distinguindo o

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estudo das similaridades entre sociedades do estudo das suas diferenças, e o estudo das sociedades vizinhas no tempo e no espaço do das sociedades distantes entre si, recomendando, porém, que os historiadores praticassem ambas as perspectivas” (Bloch, 1928).

Febvre, o Renascimento e a Reforma Depois de completar seu antigo projeto de geografia histórica, Febvre, tal qual Bloch, mudou o rumo de seus interesses para o estudo de atitudes coletivas, ou “psicologia histórica”, como ele, da mesma maneira que seu amigo Henri Berr, denominou esse tipo de trabaho[34]. Até o fim de sua vida, concentrou o melhor de seu trabalho de pesquisa na história do Renascimento e da Reforma, especialmente na França.

Essa fase de sua carreira iniciou-se com quatro conferências sobre os primórdios do Renascimento francês, uma biografia de Lutero e um artigo polêmico sobre as origens da Reforma francesa, a qual descreveu como “uma questão mal posta”. Todos esses trabalhos referiam-se à história social e à psicologia coletiva.

As conferências sobre o Renascimento, por exemplo, rejeitavam as explicações tradicionais defendidas pelos historiadores da arte e da literatura (inclusive por seu velho mestre Émile Mâle), que realçavam a evolução interna do movimento. Em compensação, Febvre oferecia uma explicação social dessa “revolução”, realçando o que se poderia chamar de “demanda” de novas idéias e, tal como em sua tese sobre a Franche-Comté, a ascensão da burguesia (Febvre, 1962, 529-603, particularmente pp. 573, 581).

De maneira semelhante, o artigo de Febvre sobre a Reforma critica os historiadores religiosos por tratarem o episódio como essencialmente vinculado aos “abusos” institucionais e a intenção de reformá-los, mais do que como “uma profunda revolução do sentimento religioso”. De acordo com Febvre, a razão dessa revolução deveria ser buscada, ainda uma vez, na ascensão da burguesia, que “necessitava de... uma religião que fosse transparente, racional, humana e amavelmente fraternal” (Febvre, 1929, rpr Febvre, 1957, p.38 e 1973, p.66)[35]. A invocação da burguesia parece hoje um pouco

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recorrente, mas o intento de ligar a religião à história social permanece inspiradora.

Pode-se ficar surpreso ao deparar com Febvre escrevendo uma biografia histórica nesse momento de sua carreira. Contudo, no prefácio de seu estudo sobre Lutero, o autor previne que não se trata de uma biografia, mas da tentativa de resolver um problema, a saber, “o problema da relação entre o indivíduo e o grupo, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social”. Constatou a existência, em 1517, de seguidores potenciais de Lutero, a burguesia de novo, um grupo social que adquiria “um novo sentido de importância social” e que facilmente se ressentia da intermediação clerical entre Deus e o homem. Mas ao mesmo tempo recusou-se a reduzir as idéias de Lutero a um reflexo dos interesses da burguesia. Pelo contrário, defendia que essas idéias criativas nem sempre eram apropriadas para a sua posição social e tiveram que ser adaptadas às necessidades e à mentalidade da burguesia pelos seguidores de Lutero, especialmente por Melanchton (Febvre (1928), pp. 104 ss, 287 ss.)16.

Deve ter sido óbvio, nesse momento que certos temas são recorrentes na obra de Febvre e também que há uma tensão criativa entre sua fascinação pelos indivíduos e sua preocupação com grupos sociais – como havia entre seu profundo interesse em escrever uma história social da religião e seu igualmente forte desejo de não reduzir atitudes e valores espirituais a meras expressões de transformações na economia ou na sociedade.

III – A CRIAÇÃO DOS ANNALES

Logo depois do foral da Primeira Guerra Mundial, Febvre idealizou uma revista internacional dedicada à história econômica, que seria dirigida pelo grande historiador belga Henri Pirenne. O projeto encontrou grandes dificuldades, tendo sido abandonado. Em 1928, foi Bloch quem tomou a iniciativa de ressuscitar os planos de uma revista (uma revista francesa, agora), obtendo sucesso em seu projeto (Febvre (1945), pp.398 ss; Leuilliot (1973), p.317 ss, Fink (1989), ch.7). 16. Sobre os meios de combinar a nova história com biografia, ver Le Goff (1989).

Novamente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista; contudo, em virtude de sua recusa, Febvre e Bloch tornaram-se os editores. Originalmente chamada Annales dhistoire économique et sociale, tendo por modelo os Annales de Géographie de Vidal de la Blache, a revista foi planejada, desde o seu início, para ser algo mais do que uma outra revista histórica. Pretendia exercer uma liderança intelectual nos campos da história social e econômica[36]. Seria o porta-voz, melhor dizendo, o alto-falante de difusão dos apelos dos editores em favor de uma abordagem nova e interdisciplinar da história.

O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929. Trazia uma mensagem dos editores, na qual explicavam que a revista havia sido planejada muito tempo antes, e lamentavam as barreiras existentes entre historiadores e cientistas sociais, enfatizando a necessidade de intercâmbio intelectual[37]. O comitê editorial incluía não somente historiadores, antigos e modernos, mas também um geógrafo (Albert Demangeon), um sociólogo (Maurice Halbwachs), um economista (Charles Rist), um cientista político (André Siegried, um antigo discípulo de Vidal de la Blache)[38].

Os historiadores econômicos predominaram nos primeiros números: Pirenne, que escreveu um artigo sobre a educação dos mercadores medievais; o historiador sueco Eli Heckscher, autor do famoso estudo sobre o mercantilismo; e o americano Earl Hamilton, muito conhecido por suas obras sobre as finanças americanas e sobre a revolução dos preços na Espanha. Nessa ocasião, a revista tinha a feição de um equivalente franeês, ou de uma rival, da Economic History Review inglesa. Contudo, em 1930, declarava-se a intenção de a revista estabelecer-se “sobre o terreno mal amanhado da história social”[39]. Preocupava-se também com o problema do método no campo das ciências sociais, tal como a Revue de Synthèse Historique.

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O realce atribuído à história econômica sugere que Bloch era o co-editor predominante nos primeiros anos. Mas seria temerário, sem se conhecer toda a sua correspondência, muito da qual ainda não publicada, tentar adivinhar quem foi mais importante na criação dos Annales depois de 1929, ou mesmo como dividiam as tarefas de dirigir a revista entre si. O que se pode afirmar com bastante convicção é que, se Febvre e Bloch não concordassem no fundamental de seu trabalho comum, o movimento não teria sido um sucesso. Apesar disso, as contribuições históricas dos dois parceiros, depois de 1929, devem ser analisadas separadamente.

A obra de Bloch sobre história rural e feudalismo A carreira de Bloch foi mais curta, violentamente cortada pela guerra. Na última década de sua carreira acadêmica, escreveu alguns estudos circunstanciais e dois livros importantes. Os artigos incluíam um estudo sobre o moinho de água e os obstáculos culturais e sociais para a sua difusão; e reflexões sobre as mudanças tecnológicas “como um problema de psicologia coletiva” (Bloch, 1967). Por ser Bloch, freqüentemente, identificado como um historiador econômico, vale a pena dar atenção ao seu interesse pela psicologia, bastante óbvio não só no Les Rois Thaumaturges, mas também significativo em sua conferência sobre a mudança tecnológica, pronunciada para um grupo de psicólogos profissionais e onde pregava a colaboração entre as duas disciplinas (Bloch, 1948).

O melhor de seus esforços, porém, foi despendido na elaboração de seus dois grandes livros. Em primeiro lugar, seu estudo sobre a história rural francesa. A origem do livro está numa série de conferências pronunciadas em Oslo, sob o auspício do instituto de Estudo Comparativo das Civilizações (Febvre, 1952, “Advertissement au lecteur”). Mas, num certo sentido, era o desdobramento, no tempo e no espaço, de sua tese sobre a população rural da Île-de-France, na Idade Média, que havia sido planejada antes da Primeira Guerra e abandonada por ter de se apresentar ao exército. O livro, publicado em 1931, tem um pouco mais de duzentas páginas, um ensaio breve sobre um grande tema, que revela de maneira clara a competência do autor parà produzir sínteses e para ir direto ao coração de um problema.

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O ensaio foi e é importante por um bom número de razões. Do mesmo modo que Les Rois Thaumaturges, ele se desenvolve na longa duração, do século XIII ao século XVII, utilizando comparações esclarecedoras e contrastes entre a França e a Inglaterra. A concepção de Bloch sobre “história agrária”, definida como “o estudo associado de técnicas e costumes rurais”, era incomumente ampla para a época, pois os historiadores estavam mais propensos a escrever sobre temas mais restritos como a história da agricultura, da servidão ou da propriedade agrária. Igualmente incomum era o uso sistemático de fontes não-literárias, tais como mapas cartográficos das propriedades, e sua ampla concepção de civilização agrária, um termo escolhido por realçar o fato de que a existência de diferentes sistemas agrários não poderia ser explicada apenas através do meio físico. (Bloch, 1931, pp. xi, 64).

Les caractères originaux de lhistoire rurale française é mais famoso, talvez, pela aplicação do “método regressivo”. Bloch encarecia a necessidade de ler a “ história ao inverso”, pois conhecemos mais a respeito dos últimos períodos e deve proceder-se de maneira a ir do conhecido ao desconhecido (Idem, p. xii). Bloch trabalha de maneira eficiente o método, contudo não reclama sua criação. Sob o nome de “método retrogressivo” havia já sido empregado por F.W. Maitland – um estudioso admirado por Bloch – em sua obra clássica Domesday Book and Beyond (1897); o “além” do título refere-se ao período anterior à realização do Domesday Book, em 1086[40].

Poucos anos antes, um outro estudo sobre Inglaterra medieval chamou a atenção de Bloch; foi o livro de Frederick Seebohm The English Village Community (1883), que se inicia com um capítulo sobre “The English Open Field System examined in its modern remains” (“O sistema inglês de campos abertos examinado em sua modernidade permanece”), especialmente em Hitchin (onde viveu o autor), antes de voltar-se sobre a Idade Média. Mesmo o velho historiador Fustel de Coulanges, professor do pai de Bloch, Gustavo, havia empregado uma abordagem semelhante em seu livro La cité antique (1864), ao estudar os gens ou as linhagens gregas e romanas. Ele admitia que as evidências

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desse grupo social “datavam de um tempo em que ele nada mais era do que uma sombra de si mesmo”, mas argumentava que essas últimas evidências permitiam “apreender vestígios” do que era o sistema em sua plenitude[41]. Em outras palavras, Bloch não criou o novo método. Sua tarefa foi empregá-lo de uma maneira mais consciente e sistemática do que os seus predecessores.

O segundo estudo, La societé féodale, é o livro pelo qual Bloch é mais conhecido. É uma ambiciosa síntese que abrange mais de quatro séculos de história européia, vai de 900 a 1300, enfocando uma grande variedade de tópicos, muitos dos quais discutidos em outras obras: servidão e liberdade, monarquia sagrada, a importância do dinheiro e outros. Por isso, pode-se afirmar que se trata de uma obra que sintetiza o trabalho de toda a sua vida. Diferentemente de seus primeiros estudos sobre o sistema feudal, não se restringe à análise das relações entre a propriedade agrária, a hierarquia social, a guerra e o estado. Preocupa-se com a sociedade feudal como um todo, com o que hoje designaríamos “a cultura do feudalismo”. Como também, ainda uma vez, com a psicologia histórica, com o que o autor chamava de “modos de sentir e de pensar”. É a parte mais original do livro, consubstanciada numa discussão sobre temas como o sentido do tempo, ou melhor, a medieval “indiferença pelo tempo”, ou, pelo menos, sua falta de interesse em mensurá-lo acuradamente. Dedica também um capítulo à “memória coletiva”, um tema que tanto o fascinou quanto ao seu amigo, o sociólogo durkheiminiano Maurice Halbwachs (ver p. 33).

Sem dúvida, La societé féodale é o seu livro mais durkheiminiano. Persiste em utilizar a linguagem da consciência coletiva, da memória, das representações coletivas (Bloch, 1939, pp. 363, 368, 379). Observações incidentais tais como a que se segue são um eco das palavras do mestre: “em toda literatura, a sociedade contempla sua própria imagem” (Idem, p.156). O livro preocupa-se com um dos temas centrais da obra de Durkheim, a coesão social. Essa forma particular de coesão, ou de “laços de dependência” (na sociedade feudal), é explicada de uma maneira essencialmente funcionalista, isto é, como

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uma adaptação às “necessidades” de um meio social específico, mais precisamente como uma resposta a três ondas de invasão – a dos viquingues, a dos muçulmanos e a dos magiares.

A preocupação de Durkheim com a comparação, a tipologia e a evolução social deixou suas marcas num capítulo ao foral do livro, intitulado “O feudalismo como tipo social”. Neste, Bloch afirma que o feudalismo não era um acontecimento único, mas antes uma fase recorrente da evolução social. Com sua precaução habitual, observando a necessidade de análises mais sistemáticas, não deixa de citar o Japão como uma sociedade que espontaneamente produziu, em sua essência, um sistema similar ao desenvolvido no Ocidente medieval europeu. Contudo, assinala diferenças significativas entre as duas sociedades, citando especialmente o direito de o vassalo europeu desafiar seu senhor. De todo jeito, sua preocupação com tendências recorrentes e comparações com sociedades remotas dão ao seu trabalho um caráter sociológico mais marcante do que em outros historiadores franceses de sua geração. Sendo mesmo excessivamente sociológico para o gosto de Lucien Febvre, que critica Bloch por negligenciar a análise dos indivíduos de maneira mais detalhada.

IV – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS ANNALES

Nos anos 30 o grupo de Estrasburgo dispersou-se. Febvre deixou a cidade em 1933 para ocupar uma cátedra no prestigioso Collège de France, enquanto Bloch somente em 1936, para suceder Hauser na cadeira de história econômica da Sorbonne. Levando-se em consideração a importância de Paris para a vida intelectual francesa, essas transferências são sinais evidentes do sucesso do movimento dos Annales. Como também a designação de Febvre para a presidência do comitê organizador da Encyclopédie Française, uma ambiciosa aventura interdisciplinar cuja publicação iniciou-se em 1935. Um dos volumes mais notáveis foi o editado pelo antigo professor de Febvre, Antoine Meillet, dedicado ao que se pode chamar de “instrumental intelectual”(outillage mental). Pode-se afirmar que esse volume lançou as bases para o nascimento da história das mentalidades. Deve-se contudo assinalar que, nessa mesma época, Georges Lefebvre, antigo colega de Febvre em Estrasburgo, publicou um artigo que se tornaria famoso sobre o estudo das multidões revolucionárias e sua

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mentalidade coletiva. A motivação para esse artigo foi sua oposição ao menosprezo votado por Gustave Lebon, um psicólogo conservador, ao comportamento dito irracional das multidões. Georges Lefebvre tentou, ao contrário, mostrar a lógica de suas ações.

Pouco a pouco os Annales converteram-se no centro de uma escola histórica. Foi entre 1930 e 1940 que Febvre escreveu a maioria de seus ataques aos especialistas canhestros e empiricistas, além de seus manifestos e programas em defesa de “um novo tipo de história” associado aos Annales –postulando por pesquisa interdisciplinar, por uma história voltada para problemas , por uma história da sensibilidade, etc. (Febvre, 1953, pp. 3-43, 55-60, 207-238).

Febvre estava sempre inclinado a dividir o mundo entre os que estavam a seu favor e os que lhe eram contrários, e a história, entre a “deles” e a “nossa”[42]. Mas ele estava certamente correto em reconhecer a existência, por volta de 1939, de um grupo de discípulos, um núcleo fiel de jovens, que adotavam o que chamavam de “o espírito dos Annales” ( Annales, 1939, p.5). Provavelmente estava pensando, em primeiro lugar, em Fernand Braudel, que conhecera em 1937, mas sem dúvida existiam outros. Pierre Goubert estudava com Bloch nessa época, e, embora viesse a especializar-se na história do século XVII, permaneceu fiel ao estilo da história rural de seu mestre. Alguns de seus discípulos em Estrasburgo estavam, então, transmitindo suas mensagens em escolas e universidades. Em Lyon, Maurice Agulhon estudou história com um deles, o mesmo acontecendo com Georges Duby, que apontou Bloch como um de seus “mestres” (Duby, 1987; Duby/Lardreau, 1980, p. 40).

A Segunda Guerra Mundial freou esse desenvolvimento. A reação de Bloch, embora já tivesse 53 anos, foi a de alistar-se no exército. Após a derrota francesa retornou, por pouco tempo, à vida acadêmica, acabando por engajar-se na Resistência, na qual desempenhou um papel ativo até a sua captura pelos alemães. Foi fuzilado em 1944. Apesar de suas atividades extramuros, Bloch encontrou tempo para escrever dois pequenos livros durante a guerra. Um deles, LÉtrange défaite, era, de um lado, o relato de uma

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testemunha ocular do colapso francês em 1939, de outro, a tentativa de compreendê-lo do ponto de vista de um historiador.

Mais admirável, talvez, foi a capacidade de Bloch colocar no papel suas ponderadas reflexões sobre o objetivo e o método da história, num momento de crescente isolamento e no qual suas preocupações com seus familiares, amigos e com o seu país atingiam uma intensidade dolorosa e trágica. Esse ensaio sobre o “trabalho do historiador”, que permaneceu inacabado quando da morte do autor, é uma introdução lúcida, moderada e judiciosa sobre o tema – ainda um dos melhores que se possui; melhor do que o manifesto sobre a nova história que Febvre certamente escreveria em seu lugar[43]. Sua única feição iconoclástica era o capítulo em que Bloch atacava o que denominou, no estilo de Simiand, “o ídolo das origens”, defendendo que todo fenômeno histórico tem de ser explicado em termos de seu tempo, e não em função de tempos anteriores (Bloch, 1961, cap.1).

O Rabelais de Febvre Enquanto isso, Febvre continuava a editar a revista, primeiramente com o nome de ambos, mais tarde apenas sob o seu[44]. Muito velho para lutar, passou a maior parte da guerra em sua casa de campo escrevendo artigos e livros sobre a Renascença Francesa e a Reforma. Diversos desses estudos são sobre indivíduos, como Marguerite de Navarre e François Rabelais, não são, porém, biografias estritamente falando. Fiel aos seus preceitos, Febvre elaborava seus estudos tendo por centro problemas. Como pode, por exemplo, Marguerite , uma princesa letrada e piedosa, escrever uma série de histórias, LHeptameron, algumas das quais extremamente obscenas? Era ou não Rabelais um ateu?

Le problème de lincroyance au XVIe siècle: la réligion de Rabelais é uma das obras históricas mais fecundas publicadas neste século. Juntamente com o livro de Bloch, Les Rois Thaumaturges, e o artigo de Lefebvre sobre as multidões, inspirou a história das mentalidades coletivas, com a qual, a partir dos anos 60, tantos historiadores

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franceses se preocuparam. Da mesma maneira que tantos outros estudos de Febvre, este se origina de sua reação ao ponto de vista de outro historiador. Febvre estava irritado com a maneira pela qual se interessou por Rabelais. Seu interesse nascera de uma sugestão feita por Abel Lefranc em sua edição do Pantagruel, segundo a qual Rabelais fora um ateu que escrevia com a finalidade de solapar o cristianismo. Febvre estava convencido de que essa interpretação era não apenas um erro quanto a Rabelais, mas cometia o erro do anacronismo, por atribuir ao autor de Pantagruel idéias que não poderiam ser pensadas no século XVI. Propôs-se a refutá-la.

Le problème de lincroyance possui uma estrutura inusual, uma espécie de pirâmide invertida. O livro se inicia com uma abordagem filológica extremamente precisa. Segundo Lefranc, o ateísmo de Rabelais era denunciado por um bom número de contemporâneos; Febvre decidiu analisá-los – a maior parte dos quais era formada por poetas neolatinos menores da década de 30 do século XVI – para mostrar que o termo “ateísta” não possuía o significado moderno preciso. Era um termo ofensivo “usado no sentido que se quisesse”.

Indo além da análise de uma simples palavra, Febvre discute as aparentes piadas blasfemas escritas por Rabelais no Pantagruel e no Gargântua; piadas que Lefranc valoriza em sua argumentação sobre o “nacionalismo” do autor. Febvre assinala que essas anedotas tinham sua raiz na tradição medieval da paródia do sagrado, com a qual os religiosos mostravam-se indulgentes; não se constituíam em evidências de nacionalismo. Para Febvre, Rabelais era um cristão da espécie de Erasmo, um crítico de muitas das formas exteriores da Igreja da baixa Idade Média, mas um crente da religião interior.

Poder-se-ia esperar que o livro se encerraria nesse ponto, pois as credenciais religiosas de Rabelais tinham sido verificadas e os argumentos de Lefranc refutados. O que ele fez, porém, foi ampliar ainda mais as suas investigações. Deixando para trás Rabelais, passou a discutir o que denominava impossibilidade do ateísmo no século XVI. Bloch havia procurado explicar por que o povo continuava a acreditar no milagre do toque real, mesmo quando a cura falhava. De uma maneira semelhante, Febvre agora tentava explicar por que o povo não duvidava da existência de Deus. Argumentava, que o “instrumental intelectual” do período, como o denominava, não permitia a descrença.

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Enfocou o problema com uma verve característica, por uma espécie de via negativa, anotando a importância do que faltava ao século XVI, as palavras que faltavam, incluindo termos-chave, tais como “absoluto” e “relativo”, “abstrato” e “concreto”, “causalidade”, “regularidade”, e tantos outros. “Sem eles”, indaga enfaticamente, “como poderia o pensamento de alguém possuir um verdadeiro vigor filosófico, solidez e claridade?”

O profundo interesse de Febvre pela lingüística subjaz a essa discussão extremamente original. Contudo, ele não se contentou com uma análise lingüística. O livro finaliza com um debate sobre alguns problemas da psicologia histórica. É a parte do livro mais conhecida, bastante controvertida, mas muito inspiradora. Observa, por exemplo, que as concepções seiscentistas de espaço e tempo eram extremamente imprecisas se comparadas com os nossos padrões. “Em que ano nasceu Rabelais? Ele não sabia”, e nada havia de incomum nesse desconhecimento. “O tempo mensurado”, ou o tempo de relógio, era ainda menos significativo do que o “tempo vivenciado”, descrito em termos de pôr-de-sol, do vôo das aves ou da extensão de uma Ave Maria. Febvre vai mais longe e sugere que a visão era um sentido “subdesenvolvido” nesse período, e que o sentimento de beleza da natureza não existia. “Não existia um Hotel Belavista no século XVI, nem qualquer Hotel Campo Belo. Esses nomes apenas apareceram com o Romantismo.”

De acordo com Febvre, havia ainda uma outra ausência mais significativa na visão de mundo do período: “Ninguém, então, tinha noção do que era impossível”. Entendo que Febvre esteja presumindo que não havia um critério aceito geralmente para o que era impossível, pois o adjetivo “impossível” não consta de sua relação das “palavras que faltam”. Como resultado dessa falta de critério, o que denominamos “ciência” era literalmente impensável no século XVI. “Devemos nos resguardar de projetar esta concepção moderna de ciência nos quadros de referência de nossos ancestrais”. O instrumental intelectual da época era muito “primitivo”. Assim, uma análise precisa e técnica do significado do termo “ateísta” levou muitos escritores a uma temerária caracterização da visão de mundo de uma época inteira.

Passados quase cinqüenta anos, o livro de Febvre parece relativamente datado. Historiadores posteriores observaram

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evidências por ele negligenciadas, que indicam fortes simpatias de Rabelais por algumas idéias de Lutero. Outros questionaram sua presunção de pensar que o ateísmo era inconcebível no século XVI, utilizando os interrogatórios da Inquisição na Espanha e na Itália e indicando indivíduos que, pelo menos, haviam negado a Providência e haviam professado uma forma de materialismo (Wootton, 1988). A teoria do subdesenvolvimento visual, adotada cerca de vinte anos depois por Marshall McLuhan, o teórico canadense da mídia, não é muito plausível. Existisse ou não um Hotel Belavista no século XVI francês, havia certamente um Belvedere na Florença renascentista, enquanto Alberti e outros defendiam que o olhar precede o ouvir.

Mais séria, porém, é a crítica a Febvre por presumir muito facilmente uma homogeneidade de pensamento e sentimentos entre os vinte milhões de franceses da época, escrevendo com convicção sobre “os homens do século XVI”, como se não houvesse diferenças significativas entre os pressupostos de homens e mulheres, ricos e pobres, e assim por diante[45].

O livro de Febvre permanece, contudo, exemplar pelas questões postas e pelos métodos empregados, mais do que pelas respostas oferecidas. É um exemplo notável da história como problema. Tal qual o livro de Bloch, Les Rois Thaumaturges, exerceu considerável influência nos escritos históricos na França e no exterior. Ironicamente, porém, parece não ter exercido muita influência sobre Fernand Braudel, a quem o livro é dedicado “na esperança...”. Por outro lado, a história das mentalidades, tal como foi praticada a partir dos anos 60 por Georges Duby, Robert Mandrou, Jacques Le Goff e tantos outros, deve muito ao exemplo de Febvre, como também ao de Bloch.

Febvre no Poder Depois da guerra, Febvre teve finalmente sua chance. Foi convidado a auxiliar na reorganização de uma das instituições mais prestigiosas no sistema francês de educação superior, a École Pratique des Hautes Études, fundada em 1884. Foi eleito membro do Instituto e tornou-se também o delegado francês na UNESCO, participando da organização da coleção sobre a “História Cultural e Científica da Humanidade”. Em razão dessas múltiplas atividades, sobrou-lhe pouco tempo para escrever com vagar, e os

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projetos de seus últimos anos jamais foram concluídos (como o volume sobre o “Pensamento ocidental e a crença”, de 1400 a 1800), ou, então, foram terminados por outros. A história do livro impresso e seus efeitos sobre a cultura ocidental na Renascença e na Reforma foi em grande parte obra de seu colaborador Henri-Jean Martin, embora tenha sido publicado sob o nome dos dois. (Febvre e Martin, 1958). O ensaio sobre psicologia histórica, Introduction à la France Moderne, foi escrito, baseado em anotações de Febvre, por seu discípulo Robert Mandrou e editado em nome deste (Mandrou, 1961).

Mas a mais importante conquista de Febvre, no pós-guerra, foi criar a organização dentro da qual “sua” história poderia desenvolver-se, a VI Seção da École Pratique des Hautes Études, em 1947. Ele tornou-se Presidente da VI Seção, dedicada às ciências sociais, e Diretor do Centro de Pesquisas Históricas, uma seção dentro da seção. Nomeou discípulos e amigos para as posições-chave da organização. Braudel, a quem tratava como um filho, auxiliou-o a administrar o Centro de Pesquisas Históricas e os Annales. Charles Morazé, um historiador especialista no século XIX, juntou-se a ele no “Comitê Diretor” da revista; Robert Mandrou, outro dos “filhos” de Febvre, tornou-se seu Secretário Executivo, em 1955, pouco antes de sua morte.

Os Annales começaram como uma revista de seita herética. “É necessário ser herético”, declarou Febvre em sua aula inaugural, Oportet haereses esse (Febvre, 1953, p.16)[46]. Depois da guerra, con tudo, a revista transformou-se no órgão oficial de uma igreja ortodoxa[47]. Sob a liderança de Febvre os revolucionários intelectuais souberam conquistar o establishment histórico francês. O herdeiro desse poder seria Fernand Braudel.




[1] Fueter, Ed. historia dela Historiografia moderna. Trad. Argentina. Buenos Aires, Editora Nova, 1953. 2 v.

[2] Pelit Larousse llustré, 1906-1934, apud Barthes, Roland, Michelet, Seuil, p.6.

[3] A revista teve quatro títulos: Annales dhistoire économique et sociale (1929-39); Annales dhistoire sociale (1939-1942, 45); Mélanges dhistoire sociale (1942-4); Annales: économies, sociétés, civilisations (1946-).

[4] Num debate internacional sobre a Escola dos Annales, em Stuttgard, em 1985, Marc Ferro negou vigorosamente à existência da escola. Enquanto fazia isso, constantemente empregava a palavra nous.

[5] Febvre (1953),104-6, carta escrita em 1933.

[6] Braudel (1949). Trad. bras. 1983.

[7] Ou talvez, como R. Chartier e J. Revel, de “uma espécie de nebulosa em expansão constante e dotada de uma capacidade de atração e de amálgama notável” (citado em Coutau-Bégarie, 1983, p. 259).

[8] Com referência aos rascunhos de Bloch, ver Mastrogregori (1989). Para outros manuscritos de Bloch, Fink (1989).

[9] Em seu livro, Couteau-Bégarie (1983) analisa de maneira bastante crua e simplista o que chama de “estratégia” dos Annales. Para um exemplo de Febvre como político, ver Charle/Delange (1987).

[10] É o endereço da Maison des Sciences de lHomme, da qual Braudel foi o primeiro administrador (196?). Tornou-se um dos principais centros de encontro é difusão das idéias dos membros ligados aos Annales. (N.T.)

[11] Sobre a revista, Wesseling/Iosterhoff (1986).

[12]Pour une histoire dirigée”, rpr (reimpressão) Febvre (1956), 55-60.

[13] Maiores detalhes e referências em Burke (1988).

[14] Sobre isso, consultar Gilbert (1965) e Boer (1981).

[15] Como Himmelfarb (1987) assinala, p.152, o texto de Greeen desmente algumas dessas afirmações.

[16] Cf. Iggers (1975), pp. 27 ss, sobre o que ele denomina “A crise da concepção convencional da História científica”.

[17] Lamprecht (1894), prefácio: Lamprecht (1904). Sobre ele, ver Weintraub (1966), cap. 4.

[18] Robinson (1912). A seu respeito ver Hendricks (1946).

[19] Lavisse (1900-1912). O geógrafo era Paul Vidal de Ia Blache e o Historiador cultural I Henri Lemonnier. Sobre Lavisse, Boer (1987).

[20] Langlois e Seignobos (1897). A seu respeito, ver Boer (1987).

[21] Sobre Febvre como “combativo e veemente”, ver Braudel p.15.

[22] Algumas divergências são anotadas por Fink (1989), pp. 185, 200,161.

[23] A respeito de Febvre e Bergson, v. Braudel (1972), p. 465.

[24] Sobre Vidal, Buttimer (1971), pp. 43 ss.

[25] Revue de Synthése Historique 12 (1906), 249-61; 23 (1911),131-47; 27 (1913), 52-65; 38 (1924), 37-53; 42 (1926), 19-40.

[26] Sobre Rauel, ver Buttimer, 1971, pp. 27 ss

[27] Cf. Bloch em Annales (1935), p. 393. “À velha revista lAnnée os historiadores de minha geração devem mais do que confessam”.

[28] Em relação às reminiscências de Estrasburgo dessa época, V. Baulig (1957-8) e Dollinger in Carboneli-Livet (1983), p. 65 ss. Por ter lecionado em uma universidade nova no início de minha carreira (Sussex, nos primeiros anos da década de 60), posso dar testemunho da excitação intelectual é o estimulo à renovação existentes em tais ambientes.

[29] A respeito de Blondel, v. Febvre (1953), pp. 370-5. Halbwachs (1925), obra discutida por Febvre in Revue de Synthése Historique, 40 (1925), pp. 73-83.

[30] Febvre (1953) discute Bremond em seis ocasiões.

[31] Lefebvre (1932); M. Bloch, Revue de Synthése Historique (1921).

[32] Piganiol (1923), especialmente pp. 103ss, 141ss. A seu respeito, v. Hartog in Carbonell –Livet (1983), p. 41...

[33] V. boas discussões sobre isso in Ginzburg (1965) e Le Goff (1983).

[34] Febvre (1953) sugere que seu interesse foi encorajado pela leitura do livro de Stenthal sobre a Itália.

[35] A frase de Febvre relembra o título do famoso estudo de Henri Bremond, cuja importância para ele já foi assinalada anteriormente (v. p. 28).

[36] “Pretendemos criar uma revista que possa exercer, no domínio dos estudos da história social e econômica, um papel diretivo” (Febvre, 1928, cit. em Leuilliot, p. 319).

[37] Annales 1. p.1. Conf. as cartas de Febvre da época em que afirma a “necessidade de por abaixo os compartimentos” e sobre a função da revista “ como agente de ligação entre geógrafos, economistas, historiadores, sociólogos, etc. (Leuilliot, 1973, p. 321).

[38] Pomian (1986), p. 385, sugere que Pirenne, Rist e Siegfried desempenhavam um papel apenas honorífico.

[39] Annales 2, p.2. Conf. uma carta de Bloch citada por Leuilliot (1973), p. 318: “nós nos atemos ao termo social”.

[40] Bloch (1925, p. 81) observa “quanto é lamentável que a obra desse grande espírito que foi F.W. Maitland seja tão pouco lida na França. (O Domesday Book resultou de um recenseamento econômico feito por ordem de Guilherme, o Conquistador. (NT.)

[41] Fustel (1864), Livro 2, cap. 10. As referências e Maitland, Seebohm e Fustel enontram-se em Bloch (1931, XI-XII), elas minimizam o paralelo com o seu método regressivo, porém, em Bloch (1949), há um tributo a Maitland a esse respeito.

[42] “A história deles e a nossa” (1938), rpr Febvre (1953), pp. 276-83: “Sobre uma forma de históría que não é a nossa” (1947, rpr) Febvre (1953), pp. 114-8. Conf. Cobb (1966).

[43] Febvre (1953) pp. 427-8, em sua resenha sobre o livro de Bloch, sugere coisa semelhante.

[44] A política anti-semítica do regime de Vichy exigiu a retirada de Bloch da co-direção da revista. Bloch esperava que a revista deixasse de ser publicada, prevaleceu porém, a vontade de Febvre de continuar com a publicação. Cf. N.Z. Davis, conferência pronunciada em congresso realizado em Moscou, sob o nome de “Censorship, Silence and Resistance, the Annales during the German Occupation of France”.

[45] Entre as críticas mais pertinentes ao livro, estão as de Frappier (1969).

[46] Todo recém-designado para o Collège de France deve ministrar uma aula inaugural, na qual, em geral, expõe suas idéias e princípios, relativos a sua disciplina. (N.T.)

[47] Imagens eclesiásticas fluem com naturalidade à mente quando se escreve sobre Febvre, do “combativo prelado” (Raulff, 1988) ao “papado Febvre” (Hughes, 1966).

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