quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A ESCOLA DOS ANNALES (1929-1989) Parte 2 - Peter Burk

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A Era de Braudel

I – O MEDITERRÂNEO

Quando da criação dos Annales, em 1929, Braudel tinha vinte e sete anos. Estudara História na Sorbonne, lecionava história numa escola da Argélia e trabalhava em sua tese. Tese que se iniciara como um ensaio de história diplomática, de caráter bastante convencional, embora ambiciosa. Foi projetada originalmente como um estudo sobre Felipe II e o Mediterrâneo, em outras palavras, uma análise da política externa do soberano.

Durante seu longo período de gestação, a tese ampliou consideravelmente seu objetivo. Era e é normal para os historiadores acadêmicos franceses lecionarem em escolas enquanto escrevem suas teses. Lucien Febvre, por exemplo, ensinou brevemente em Besançon; Braudel, durante dez anos, 1923-32, lecionou na Argélia, experiência que lhe permitiu ampliar seus horizontes.

Seu primeiro artigo importante, publicado nesse período, tinha por tema a presença dos espanhóis no Norte da África, no século XVI. Esse estudo, cujas dimensões são a de um pequeno livro, merece ser resgatado de seu imerecido esquecimento. Era, ao mesmo tempo, uma crítica a seus predecessores no tema pela ênfase que haviam atribuído aos grandes homens e às batalhas; uma discussão sobre a “vida diária” das guarnições espanholas; e também uma demonstração da estreita relação, embora invertida, entre a história africana e européia, isto é, quando estourava a guerra na Europa as campanhas africanas eram suspensas, e vice-versa (Braudel, 1928).

A maior parte da pesquisa para a tese havia sido feita no início dos anos 30 em Simancas, onde os documentos oficiais espanhóis estavam guardados, e nos arquivos das principais cidades cristãs do Mediterrâneo – Gênova, Florença, Palermo, Veneza, Marselha e

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Dubrovnik – onde Braudel poupou tempo filmando os documentos, sempre que possível, com uma câmara cinematográfica americana (Braudel, 1972).

A pesquisa foi interrompida quando Braudel foi contratado para lecionar na Universidade de São Paulo, 1935-1937, período definido por ele, mais tarde, como o mais feliz de sua vida. Foi no retorno de sua viagem ao Brasil que Braudel conheceu Lucien Febvre, que o adotou como um filho intelectual e persuadiu-o – se é que ainda necessitava de persuasão – de que o título da tese deveria ser realmente “O Mediterrâneo e Felipe ll”, e não “Felipe II e o Mediterrâneo” (Braudel, 1953, especialmente p. 5; conf. (Febvre, 1953, p. 432).

A elaboração de O Mediterrâneo Com o advento da Segunda Guerra Mundial, Braudel teve, por mais irônico que possa parecer, a oportunidade de escrever sua tese. Permaneceu quase todos os anos de guerra como prisioneiro num campo perto de Lübeck. Sua prodigiosa memória compensou em parte a impossibilidade de recorrer às bibliotecas, tendo rascunhado O Mediterrâneo em cadernos escolares comuns e os remetia a Febvre, para lhe serem devolvidos ao final da guerra (Braudel, 1972). Somente um historiador que tenha examinado os manuscritos poderá falar sobre o vínculo existente entre eles e a tese defendida em 1947 e publicada em 1949, dedicada a Febvre “com a afeição de um filho”. Minha análise será feita tendo por base o texto impresso.

O Mediterrâneo é um livro de grandes dimensões, mesmo que consideremos os padrões da tradicional tese de doutoramento francesa. Sua edição original continha aproximadamente 600000 palavras, o que perfaz seis vezes o tamanho de um livro comum. Dividido em três partes, cada uma das quais – como o prefácio esclarece – exemplifica uma abordagem diferente do passado. Primeiramente, há a história “quase sem tempo” da relação entre o “homem” e o ambiente; surge então, gradativamente, a história mutante da estrutura econômica, social e política e, finalmente, a trepidante história dos acontecimentos.

A parte mais tradicional, a terceira, parece corresponder à idéia original de Braudel de uma tese sobre a política exterior de Felipe II. Ele oferece aos seus leitores um trabalho altamente profissional de história política e militar. Traça breves mas incisivos esboços do caráter

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dos atores principais da cena histórica, do Duque de Alba, “esse falso grande homem”, “de mente estreita e curta visão política”, ao seu senhor Felipe II, lento, “solitário e discreto”, cauteloso e perseverante, um homem que “via sua tarefa como a sucessão infindável de pequenos detalhes”, mas ao qual faltava uma visão do todo. São descritos com vagar a batalha de Lepanto, o cerco e a libertação de Malta, e as negociações de paz do final da década de 1570.

Essa narrativa de eventos, contudo, está longe de ser uma história tradicional de “tambores e trombetas”, como pode parecer à primeira vista. Freqüentemente, o autor desvia-se de seu caminho para enfatizar a insignificância dos eventos e as limitações impostas à liberdade de ação dos indivíduos. Em 1565, por exemplo, o comandante naval espanhol no Mediterrâneo, Don Garcia de Toledo, mostrou-se lento para libertar Malta do cerco dos turcos. “Os historiadores criticaram Don Garcia por sua demora em agir, escreve Braudel, mas tiveram eles o cuidado de examinar profundamente as condições sob as quais ele agiu?” (Braudel, 1949: edição inglesa de 1975, p. 1017). Reitera que a conhecida e sempre condenada lentidão de Felipe II em reagir aos eventos não deve ser explicada apenas em termos de seu temperamento, mas deve ser associada à exaustão financeira da Espanha e aos problemas de comunicação em um império tão vasto (Ibidem, pp. 372, 966).

Da mesma maneira, Braudel recusa-se a explicar em termos pessoais o sucesso de Don Juan, Don Juan da Áustria, em Lepanto. Ele foi apenas “o instrumento do destino”, no sentido de que sua vitória dependeu de fatores cuja existência desconhecia (Ibid., p.1101). Mas, ainda segundo Braudel, a vitória de Lepanto foi apenas uma vitória naval que “não poderia destruir as rotas turcas, pois estas estavam solidamente estabelecidas no interior do continente” (Ibid., p. 1104). Também a conquista de Túnis por D. Juan é descrita “como uma vitória que leva a lugar nenhum”.

A preocupação de Braudel é situar indivíduos e eventos num contexto, em seu meio, mas ele os torna inteligíveis ao preço de revelar sua fundamental desimportância. A história dos eventos, ele sugere, embora “rica em interesse humano”, é também a mais superficial. “Recordo-me de uma noite, perto da Bahia, quando assistia absorto ao espetáculo pirotécnico de fosforescentes vagalumes; sua pálida luz

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brilha, desaparece, volta a brilhar, sem penetrar na noite com uma verdadeira luz. O mesmo acontece com os eventos, para além de seu brilho, a escuridão predomina” (Braudel, 1980, p. 10). Em uma outra imagem poética, Braudel descreve os acontecimentos como “perturbações superficiais, espumas de ondas que a maré da história carrega em suas fortes espáduas”. “Devemos aprender a desconfiar deles” (Ibid., p. 21). Para compreender a história é necessário saber mergulhar sob as ondas.

Aguas mais calmas, que correm mais profundamente, são o objeto da segunda parte do Mediterrâneo, denominada “Destinos coletivos e movimentos de conjunto”; sua preocupação, a história das estruturas-sistemas econômicos, estados, sociedades, civilizações e formas mutantes de guerra. Esta história se movimenta a um ritmo mais lento do que a dos eventos. As mudanças ocorrem no tempo de gerações, e mesmo de séculos, por isso os contemporâneos dos fatos nem sempre se apercebem delas. Mas, mesmo assim, eles são carregados pela corrente. Numa de suas mais famosas análises, Braudel examina o império de Felipe II como uma “colossal empresa de transporte terrestre e marítima”, que “se exauriu por sua própria dimensão”, e não poderia ser diferente numa época em que “cruzar O Mediterrâneo de norte a sul levava uma ou duas semanas”, enquanto atravessá-lo de leste a oeste “dois ou três meses” (Ibid., p. 363). A observação lembra o veredicto de Gibbon sobre o Império Romano destruído pelo seu próprio peso e suas afirmativas sobre geografia e comunicações, no primeiro capítulo do Declínio e Queda.

O século XVI, porém, parece ter sido favorável ao desenvolvimento de grandes estados do tipo dos impérios rivais espanhol e turco, que dominaram o Mediterrâneo. Para Braudel, “O curso da história é alternadamente favorável e desfavorável à formação de vastas hegemonias políticas”, e o período de desenvolvimento econômico, durante os séculos XVI e XVII, criou uma situação bastante favorável aos grandes e enormes estados (Ibid., pp. 660-1).

Como as estruturas políticas, as estruturas sociais dos dois grandes impérios – opostas entre si de diversas maneiras no topo – caminharam gradativamente no sentido de se assemelharem cada vez mais. As principais tendências sociais na Anatólia e nos Balcãs, nos séculos XVI e XVII, corriam paralelas às da Espanha e Itália, sendo

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que esta, durante o período, estava submetida em grande parte às leis espanholas. Segundo Braudel, a principal tendência, em ambos os lados, era a polarização social e econômica. A nobreza enriquecia e migrava para as cidades, os pobres tornavam-se cada vez mais pobres e eram empurrados para a pirataria e o banditismo. Quanto às classes médias, desapareceram ou “emigraram” para a nobreza, processo descrito por Braudel como a “traição” ou a “falência” da burguesia (Ibid. pp. 704 ss.)[1].

Num capítulo dedicado às fronteiras culturais e à gradual difusão das idéias, objetos, ou costumes, Braudel estende a comparação entre cristãos e muçulmanos mediterrâneos da sociedade. para a “civilização”, denominação que prefere. Evitando um difusionismo simplista, discute também a resistência a essas inovações, invocando o “repúdio” espanhol ao protestantismo, a rejeição do cristianismo da parte dos mouros de Granada e a resistência dos judeus a todas as outras civilizações (Ibid., pp. 757 ss).

Não chegamos ainda ao coração do problema. Abaixo das correntes sociais jaz uma outra história, “uma história quase imóvel... uma história lenta a desenvolver-se e a transformar-se, feita muito freqüentemente de retornos insistentes, de ciclos sem fim recomeçados”[2] (Ibid., p. 20). A verdadeira matéria do estudo é essa história “do homem em relação ao seu meio”, uma espécie de geografia histórica, ou, como Braudel preferia denominar, uma “geo-história”. A geo-história é o objeto da primeira parte do Mediterrâneo, para a qual devota quase trezentas páginas, descrevendo montanhas e planícies, litorais e ilhas, climas, rotas terrestres e marítimas.

Essa parte do livro deve sua existência, indubitavelmente, ao amor de Braudel pela região – revelado imediatamente por sua primeira frase, que assim se inicia: “Amei O Mediterrâneo apaixonadamente, sem dúvida porque sou um homem do Norte” (Braudel nasceu em Lorraine, ao norte da França).

O objetivo é demonstrar que todas as características geográficas têm a sua história, ou melhor, são parte da história, e que tanto a história dos acontecimentos quanto a história das tendências gerais

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não podem ser compreendidas sem elas. O capítulo sobre as montanhas, por exemplo, discute a cultura e a sociedade das regiões montanhosas, o conservadorismo dos montanheses, as barreiras socioculturais que separam os homens da montanha dos da planície, e a necessidade de muitos jovens montanheses emigrarem, tornando-se mercenários (Ibid. pp. 34 ss).

Tomando o próprio mar para análise, Braudel contrasta O Mediterrâneo ocidental, nessa época dominado pelos espanhóis, com O Mediterrâneo oriental, submetido aos turcos. “A política apenas segue o roteiro de uma realidade subjacente. Esses dois Mediterrâneos, comandados por dirigentes rivais, eram física, econômica e culturalmente diferentes entre si” (Ibid. p.137). A região mediterrânea, porém, continuava a ser uma unidade, mais una do que a Europa, segundo Braudel, graças tanto ao clima, aos vinhos e às oliveiras quanto ao próprio mar.

Esse notável volume causou imediatamente sensação no mundo histórico francês. Sua reputação expandiu-se em ondas cada vez mais amplas em direção às outras ciências e a outras partes do mundo (ver capítulo 5). Não se pode duvidar de sua originalidade. Contudo, como o próprio autor reconhece em seu ensaio bibliográfico, o livro se insere numa tradição ou, mais exatamente, em diversas tradições diferentes.

Em primeiro lugar, é claro, na tradição dos Annales, uma revista com vinte anos quando o livro foi publicado. “O que devo aos Annales, ao seu ensino e inspiração, constitui a maior de minhas dívidas” (Ibid. p. 22). A primeira parte do livro, que trata do papel do meio ambiente, deve muito à escola geográfica francesa, do próprio Vidal de la Blache, cujas páginas sobre O Mediterrâneo foram “lidas” e “relidas” por Braudel, às monografias regionais inspiradas pelo mestre (por exemplo, Cvijic (1918). Também Lucien Febvre está presente nessa primeira parte de O Mediterrâneo, não somente como o autor de um ensaio de geografia histórica, mas porque sua tese sobre Felipe II e o Franco-Condado se iniciava com uma introdução geográfica da mesma espécie, embora em escala mais reduzida.

Uma presença igualmente sentida em O Mediterrâneo, embora possa parecer irônica, é a do homem que Febvre adorava atacar, o geógrafo alemão Friedrich Ratzel, cujas idéias sobre geopolítica ajudaram Braudel a formular as suas sobre um bom número de temas,

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que variavam do império às ilhas (Ratze1, 1897, esp. cap. 13 e 21). São menos visíveis sociólogos e antropólogos, embora o capítulo sobre a civilização mediterrânea mostre traços da influência das idéias de Marcel Mauss sobre o autor (Mauss, 1930, 231-51; conf. Braudel, 1969, pp. 201-3).

Entre os historiadores, o que influenciou mais Braudel foi o medievalista Henri Pirenne, cujo famoso Mahomet et Charlemagne defendia que, para compreender a ascensão de Carlos Magno, o fim da tradição clássica e a construção da Idade Média, o historiador deveria afastar-se da história da Europa, ou da cristandade; por outro lado, sua visão, ao estudar o Médio Oriente Muçulmano, de dois impérios rivais que se confrontavam através do Mediterrâneo oitocentos anos antes de Suleiman, o Magnífico, e Felipe II, deve ter sido uma inspiração para Braudel. Curiosamente, embora esse tenha sido o último livro de Pirenne, seu projeto nasceu num campo de prisioneiros durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto Braudel trabalhou o seu num campo de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial (Pirenne, 1937).

Avaliações de O Mediterrâneo Braudel lamentava, quando da publicação da segunda edição, que o livro havia sido muito elogiado, mas pouco criticado. Houve, porém, críticas, algumas delas convincentes, procedentes dos Estados Unidos e de outros países[3]. Ao nível de detalhes, um bom número de afirmações de Braudel foi contestado por pesquisadores posteriores. A tese sobre a “falência da burguesia”, por exemplo, não satisfez os historiadores dos Países Baixos, cujos mercadores continuaram a prosperar. A sua tese sobre a relativa insignificância da batalha de Lepanto foi modificada, senão mesmo rejeitada em obras recentes[4].

Uma outra lacuna da obra atraiu menos atenção, mas deve ser aqui enfatizada. Apesar de sua aspiração de atingir o que chamava de “história total”, Braudel muito pouco tinha a dizer sobre atitudes, valores, ou mentalidades coletivas, mesmo no capítulo dedicado a “Civilizações”. Nisso diferia enormemente de Febvre, apesar de sua admiração pelo Le problème de lincroyance (Braudel, 1969, p. 208).

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Exemplificando: Braudel pouco tem a dizer sobre honra, vergonha e masculinidade, embora, como um bom número de antropólogos demonstrou, esse sistema de valores tinha, e ainda tem, grande importância no mundo mediterrâneo, tanto do lado cristão quanto do muçulmano (Peristiany, 1965, Blok, 1981). Embora as crenças religiosas – católica e muçulmana – tivessem obviamente, na época. de Felipe II, grande importância para o mundo mediterrâneo, o historiador francês não as discute. Apesar de seu interesse pelas fronteiras culturais, curiosamente nada. tem a dizer sobre-as relações entre o cristianismo e o muçulmanismo nesse período. Essa ausência de interesse pela influência recíproca entre cristianismo e islamismo contrasta com o demonstrado por historiadores anteriores da Espanha e do Médio Oriente, cujas obras assinalavam a existência de lugares muçulmanos sagrados freqüentados por cristãos, ou mães muçulmanas que batizavam seus filhos para protegê-los da lepra ou de lobisomens (Hasluck, 1929)[5].

Algumas críticas são ainda mais radicais. Um crítico americano lamenta que Braudel “tenha se enganado ao dar uma resposta poética a um problema histórico do passado”, perdendo assim seu livro, por um lado, essa dimensão, e que a organização do livro, por outro, secciona os eventos de seus fatores sociogeográficos que poderiam explicá-los (Bailyn, 1951). Tais críticas merecem ser discutidas mais detalhadamente.

A insinuação de que o livro falha por não se propor um problema seria irônica se bem fundamentada, pois Febvre e Bloch insistiram na ênfase de uma história voltada para problemas, e o próprio Braudel escreveu que “A região não é o alicerce da pesquisa. Esse alicerce é o problema”. ( Annales, 1949, citado em Hexter, 1972, p.105). Poderia Braudel esquecer seu próprio conselho? Coloquei a questão para ele numa entrevista realizada em 1977. Não hesitou na resposta. “Meu grande problema, o único problema a resolver, é demonstrar que o tempo avança com diferentes velocidades”[6]. Mesmo assim, grandes setores desse denso estudo não lidam com esse problema, pelo menos não diretamente.

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A crítica à organização tripartite do livro foi antecipada, mas não respondida por Braudel em seu prefácio. “Se for criticado em razão do método empregado na elaboração do livro, espero que pelo menos cada uma de suas partes, considerada isoladamente, possa ser tida como bem realizada.” Um meio de fugir às críticas teria sido iniciar o livro pela história dos acontecimentos (como eu próprio fiz no resumo do livro), e mostrar que é ininteligível sem a história das estruturas que, por sua vez, é ininteligível sem a história do meio. Iniciar, porém, pelo que considerava a história “superficial” dos acontecimentos seria intolerável para Braudel. Sob as circunstâncias em que esboçou sua obra – na prisão – foi psicologicamente necessário que olhasse além da curta duração[7].

Outra crítica radical a O Mediterrâneo diz respeito ao determininismo de Braudel, que é o exato oposto do voluntarismo de Febvre. Diz um crítico britânico: “O Mediterrâneo de Braudel é um mundo insensível ao controle humano” (J. H. Elliott, New York Review of Books, 3.5.1973). É provavelmente revelador que Braudel use em seus escritos, mais de uma vez, a metáfora da prisão, descrevendo o homem como “prisioneiro” não somente do seu ambiente físico, mas também de sua estrutura mental (os quadros mentais são também prisões de longa duração) (Braudel, 1969, p. 31)[8]. Diferentemente de Febvre, Braudel não percebe a dupla face das estruturas, que são, ao mesmo tempo, estimulantes e inIbidoras. “Quando penso no indivíduo, escreveu uma vez, sou sempre inclinado a vê-lo como prisioneiro de um destino sobre o qual pouco pode influir” (Braude1, 1949, p.1244).

É justo, porém, acrescentar que o determinismo braudeliano não é simplista: prova-o sua insistência na necessidade de explicações pluralistas; seus críticos, por outro lado, ao rejeitarem seu determinismo, nada oferecem de preciso ou construtivo. O debate sobre os limites da liberdade e o determinismo é um daqueles que deverão permanecer até quando a historiografia existir. Independentemente da opinião dos filósofos, é extremamente difícil aos historiadores, nesse debate, irem além de uma simples afirmação de sua própria posição.

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Alguns críticos foram ainda mais longe em suas críticas e falaram de “uma história sem homens.” Para ver que essa acusação é exagerada, basta ler as penetrantes descrições dos caracteres individuais feitas na terceira parte da obra. Contudo, também é justo dizer que o preço pago pela visão olímpica braudeliana dos assuntos humanos em grandes espaços e longos períodos, é uma tendência a apequenar os seres humanos, a tratá-los como “insetos humanos”, uma frase reveladora dita em uma discussão sobre os pobres do século XVI (Braudel, 1949, p. 755).

Uma crítica mais construtiva da primeira parte de O Mediterrâneo talvez seja dizer que, embora admita que sua geo-história não seja totalmente imóvel, o autor não a consegue mostrar em movimento. Sua admiração por Maximilien Sorre, um geógrafo francês que desde os anos 40 preocupava-se com o que chamava “ecologia humana” – o processo de interação entre a humanidade e o ambiente – não impediu que Braudel falhasse em nos mostrar o que poderia ser denominado a “construção da paisagem mediterrânica”, mais especificamente os prejuízos causados ao meio pela destruição da cobertura florestal, na longa duração[9].

É hora de retornar aos aspectos mais positivos de um livro que mesmo seus críticos descrevem como uma obra-prima. O ponto principal a realçar é que Braudel contribuiu mais do que qualquer outro historiador deste século para transformar nossas noções de tempo e espaço.

Como poucos livros anteriores, se é que algum o fez, O Mediterrâneo torna seus leitores conscientes da importância do espaço na história. Braudel consegue isso fazendo do mar o herói de seu épico, e não uma unidade política como o Império Espanhol, deixando abandonada uma personagem como Felipe II – e também pela constante repetição da importância da distância e da comunicação. Mais eficaz do que tudo isso, porém, é a maneira pela qual Braudel auxilia os leitores a verem a região mediterrânica dele emergindo como um todo. O mar é suficientemente vasto para engolir muitos historiadores, mas Braudel sente a necessidade de ampliar suas fronteiras em direção ao Atlântico e ao deserto do Saara. “Se não considerarmos esta extensa

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zona de influência... seria difícil apreender a história do mar” (Braudel, 1949, p. 170). O capítulo sobre “O Mediterrâneo Maior”, como ele o chama, é um exemplo dramático da concepção braudeliana de história “global”, do que tem sido designado como seu “vasto apetite para estender as fronteiras de seu objetivo”; ou como ele próprio define, seu “desejo e necessidade de tudo ver grande” (Ibid. p. 22)[10]. Diferentemente de Felipe II – o homem obcecado pelos detalhes – Braudel possuía sempre uma visão do todo.

Para os historiadores, é mais significativa a maneira pela qual ele maneja o tempo, seu intento “de dividir o tempo histórico em tempo geográfico, tempo social e tempo individual”, realçando a importância do que se tornou conhecido, desde a publicação do famoso artigo, como a longa duração (Ibid. p. 21; Braudel 1958). A longa duração de Braudel pode ser curta em relação aos padrões dos geólogos, mas sua ênfase do “tempo geográfico” alertou muitos historiadores.

A distinção entre curta e longa duração era comum ao vocabulário do historiador – e mesmo da linguagem comum – antes de 1949. Estudos de temas particulares que se estendiam por vários séculos não eram incomuns na história econômica, especialmente na história dos preços. Um exemplo óbvio, bem conhecido de Braudel, é a obra de Earl J. Hamilton, American Treasure and the Price Revolution 1501-1650 (1934). Historiadores da arte e da literatura haviam investigado mudanças culturais na longa duração, notadamente Aby Warburg e seus discípulos em seus estudos sobre a remanescência e a transformação da tradição clássica, que não eram desconhecidos de Braudel[11]. Contudo, permanece uma conquista pessoal de Braudel combinar um estudo na longa duração com o de uma complexa interação entre o meio, a economia, a sociedade, a política, a cultura e os acontecimentos.

Segundo Braudel, a contribuição especial do historiador às ciências sociais é a consciência de que todas as “estruturas” estão sujeitas a mudanças, mesmo que lentas (Braudel, 1969, pp. 26 ss.). Era impaciente com fronteiras, separassem elas regiões ou ciências. Desejava ver as coisas em sua inteireza, integrar o econômico, o social, o

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político e o cultural na história “total”. “Um historiador fiel às lições de Lucien Febvre e Marcel Mauss desejará sempre ver o todo, a totalidade do social”.

Poucos historiadores desejariam imitar O Mediterrâneo, ainda menos seriam capazes de fazê-lo. Ainda é verdadeiro dizer a seu respeito, como de Guerra e Paz de Tolstói (com a qual se assemelha não apenas na extensão, mas também na sua visão penetrante pelo espaço e em sua percepção da futilidade da ação humana), que ele ampliou as possibilidades do gênero em que foi escrito.

II – O BRAUDEL DAS ÚLTIMAS OBRAS

Braudel no Poder Durante quase trinta anos, da morte de Febvre em 1956 até sua própria em 1985, Braudel foi não apenas o mais importante historiador francês, mas também o mais poderoso. Em 1949, no mesmo ano em que sua tese foi publicada, tornou-se professor do Collège de France, e passou a acumular ao lado de Febvre, a função de Diretor do Centre Recherches Historiques, na École de Hautes Études.

Dessa fase de direção conjunta datam três séries de publicações da VI Seção, da qual o Centro era parte, todas lançadas em 1951-52. A primeira série intitulava-se “Portos-Rotas-Tráficos; a segunda, “Negócios e Gente dos Negócios”; e a terceira, “Moeda-Preço-Conjuntura”. Dada a enorme importância atribuída à história econômica, é razoável presumir que a iniciativa fora de Braudel, não de Febvre[12].

Com a morte de Febvre em 1956, Braudel foi seu sucessor, tornando-se o diretor efetivo dos Annales. As relações entre os dois “filhos” de Febvre, Braudel e Mandrou, tornaram-se progressivamente menos fraternais, e Mandrou demitiu-se de seu cargo de secretário executivo da revista em 1962. Uma transformação maior, para não dizer um “expurgo”, foi levada a efeito em 1969, aparentemente uma conseqüência de Maio de 1968. Os acontecimentos pareciam vingar-se de quem tanto os desprezara. Braudel decidiu recrutar jovens

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historiadores, como Jacques Le Goff, EmmanueI Le Roy Ladurie, Marc Ferro, com a finalidade de renovar os Annales, “renovar a pele”, como dizia[13].

Braudel também sucedeu Febvre como presidente da VI Seção da École. Em 1963, criou uma nova entidade dedicada à pesquisa interdisciplinar, a Maison des Sciences de l’Homme. No seu tempo, a Seção, o Centro e a Maison, todos se mudaram para o 54, Boulevard Raspail, onde a convivência com antropólogos e sociólogos da qualidade de Claude Lévi-Strauss e Pierre Bourdieu, disponíveis para as conversas de café e para seminários conjuntos, manteve e continuou a pôr os historiadores dos Annales em contato com as novas idéias e desenvolvimentos das ciências vizinhas.

Sendo um homem de grande respeitabilidade e de personalidade dominante, Braudel manteve sua poderosa influência, mesmo depois de sua aposentadoria, em 1972. Tendo conservado em suas mãos, durante os seus anos de direção, o controle dos fundos para a pesquisa, publicações e nomeações, guardou para si um grande poder, que usou para promover o ideal de um “mercado comum” das ciências sociais, onde a história era um membro dominante. (Braudel, 1968b, p.349). As bolsas de estudo concedidas a jovens historiadores estrangeiros, como os poloneses, para estudar em Paris ajudaram a difundir no exterior o novo estilo francês, de fazer história. Por outro lado, era notório que Braudel destinava os recursos preferentemente aos historiadores que se dedicavam à época moderna (1500-1800). Se seu império não foi tão vasto quanto o de Felipe II, tinha, porém, um dirigente mais decidido.

A influência de Braudel sobre algumas gerações de estudantes pesquisadores também deve ser levada em conta. Pierre Chaunu, por exemplo, descreve como as conferências de Braudel sobre a história da América Latina, feitas logo após o seu retorno à França depois da guerra, produziram-lhe um “choque” intelectual que determinou sua carreira histórica. “Após os primeiros dez minutos, eu estava conquistado, subjugado” (Chaunu, 1987, p. 71). Chaunu, porém, não é o único historiador a dever a Braudel preocupação com o mundo mediterrânico do início da época moderna, ou com alguns problemas

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particulares. O autor de um estudo sobre a família de mercadores espanhóis do século XVI deve seu tema a uma sugestão de Braudel, enquanto monografias sobre Roma e Valladolid se inspiravam no seu tipo de abordagem (Lapeyre, 1955, dedicada a Braudel, Delumeau, 1957-9, Bennassar, 1967).

Muitos outros historiadores atestaram o que deviam aos conselhos e encorajamentos de Braudel durante o tempo em que escreviam suas teses. A figura mais destacada da terceira geração dos Annales, Emmanuel Le Roy Ladurie, que escreveu sua tese sobre a França mediterrânica, teve Braudel como orientador de tese. Conhecido durante um certo tempo como o “Delfim”, Le Roy Ladurie sucedeu Braudel no Collège de France como este sucedera Febvre.

A História da Cultura Material Durante esses anos dedicados às atividades de organizador, 1949-1972, Braudel trabalhou num segundo estudo ambicioso. Muitos historiadores franceses, depois dos longos anos de pesquisa e de elaboração necessários para escrever a exaustiva tese doutoral, instrumento fundamental de sucesso acadêmico, optam por uma vida comparativamente pacífica, nada produzindo anão ser artigos e textos escolares. Não Braudel. Logo depois da publicação de O Mediterrâneo, Lucien Febvre convidou-o a participar de um outro grande projeto. A idéia era escreverem uma história da Europa, em dois volumes, abrangendo o período de 1400 a 1800. Febvre responsabilizar-se-ia pelo “pensamento e crença” e Braudel ficaria com a história da vida material[14]. Febvre ainda não escrevera sua parte quando de sua morte em 1956; Braudel escreveu a sua em três volumes, entre 1967 e 1979, sob o título Civilization matérelle et capitalisme[15].

Sua preocupação nos três volumes está mais ou menos concentrada nas categorias econômicas do consumo, distribuição e produção, nessa ordem, mas ele prefere caracterizá-las de maneira diferente. A introdução ao primeiro volume descreve a história econômica como um edifício de três andares. No andar térreo, está a civilização material – a metáfora não está longe da “base” de Marx – definida por “ações recorrentes, processos empíricos, velhos métodos

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e soluções manipuladas desde tempos imemoriais”. No andar intermediário, há a vida econômica “calculada, articulada, emergindo como um sistema de regras e necessidades quase naturais”. No andar superior – para não dizer superestrutura – existe o “mecanismo capitalista”, o mais sofisticado de todos (Braudel, 1979a, pp. 23-26).

Existe paralelo óbvio entre as estruturas tripartites de O Mediterrâneo e da Civilisation et Capitalisme. Em ambos os casos, a primeira parte trata da história quase imóvel, a segunda, das mudanças estruturais institucionais lentas e a terceira, de mudanças mais rápidas – eventos no primeiro livro, tendências no outro.

O primeiro volume é dedicado ao alicerce, isto é, lida com o “velho regime” econômico que permanece há quase quatrocentos anos. Esse livro exemplifica o interesse permanente de Braudel pela longa duração. Ilustra, por outro lado, sua abordagem totalizante. Projetado originalmente como um estudo da Europa, diz pouco sobre a África e muito sobre a Ásia e a América. Um de seus principais argumentos é a afirmação da impossibilidade de explicar as mudanças significativas sem recorrer a uma visão global. Seguindo o economista e demógrafo alemão Ernest Wagemann, Braudel assinala que os movimentos populacionais, na índia e na China, obedecem a um padrão similar ao da Europa: expansão no século XVI, estabilidade no século seguinte, e nova expansão no século XVIII (sobre Wagemann, Braudel, 1979a, p. 34; conf. Braudel, 1969, pp. 133-42). Um fenômeno de caráter mundial necessita obviamente de uma explicação na mesma escala.

Enquanto seus discípulos estudavam as tendências populacionais ao nível das províncias, ou, às vezes, de vilas, Braudel, caracteristicamente, tentava apreender o todo. Enquanto analisavam crises de abastecimento na Europa, ele comparava as vantagens e as desvantagens do trigo e outros cereais com as do arroz no Extremo Oriente e o milho na América, observando por exemplo que os campos de arroz “trouxeram densas populações e rígida disciplina social onde prosperaram”, enquanto o milho, “uma colheita que exige pouco esforço”, deixou os índios “livres” (se essa for a palavra) para trabalharem nas “gigantescas pirâmides maias ou aztecas” ou nas “ciclópicas muralhas de Cuzco”.

A finalidade dessas aparentes divagações é definir a Europa, contrastando-a com o resto do mundo, como um continente de

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comedores de trigo relativamente bem equipado de móveis domésticos, cuja densidade populacional minimiza os problemas de transporte em relação a outras regiões, mas onde, por outro lado, o trabalho era relativamente caro – um estímulo ao emprego de fontes inanimadas de energia, o que se associa com a Revolução Industrial.

Como em relação ao espaço, Braudel em seus temas subverte as fronteiras tradicionais da história econômica. Deixa de lado as categorias tradicionais de “agricultura”, “comércio” e “indústria”, e observa, substituindo-as, “a vida diária”, o povo e as coisas, “coisas que a humanidade produz ou consome”, alimentos, vestuários, habitação, ferramentas, moeda, cidades... Dois conceitos básicos subjazem a esse primeiro volume, um deles, “vida diária”, o outro, “civilização material”.

Na introdução à segunda edição, declara que o objetivo de seu livro era nada menos do que “a introdução da vida cotidiana no domínio da história”. Não foi, é claro, o primeiro historiador a tentar. La civilization quotidienne era o título de um dos volumes da Encyclopédie Française de Lucien Febvre, para o qual Bloch contribuiu com um ensaio sobre a história da alimentação. A livraria Hachette publicou, a partir de 1938, algumas coleções de história cotidiana de diferentes épocas e diferentes tempos, começando por um estudo do Renascimento francês, de autoria de Abel Lefranc, cuja interpretação de Rabelais tanto irritara Febvre. Anteriormente, um estudo importante sobre a vida cotidiana na Dinamarca e Noruega, no século XVI, foi escrito pelo grande historiador dinamarquês T.F. Troels-Lund, no qual dedicava volumes diferentes para a alimentação, vestuários e habitação (Troels-Lund, 1879-1901). De todo jeito, a obra de Braudel é importante por sua síntese entre o que pode ser denominado a “pequena história” do dia-a-dia, facilmente transformável em mera descrição, anedotário ou antiquarismo, e a história das grandes tendências socioeconômicas da época.

Sua concepção de civilização material merece também uma análise mais acurada. A idéia de um domínio da rotina (Zivilisation), oposto ao domínio da criatividade (Kultur), foi muito cara a Oswald Spengler, um historiador com o qual Braudel tem mais afinidades do que as geralmente admitidas[16] O historiador francês pouco se

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preocupa com as rotinas mentais, com o que Febvre denominava instrumental intelectual. Como vimos anteriormente, Braudel jamais demonstrou grande interesse pela história das mentalidades, e pressupunha-se que pensamento e crença eram atribuição de seu parceiro. Mas, por outro lado, tinha muito o que dizer a respeito de outras formas de hábito.

Da mesma maneira que em O Mediterrâneo, sua forma de abordar a civilização é a de um geógrafo, ou de um geo-historiador, interessado em áreas culturais, nas quais a troca de bens ocorre, ou deixa de ocorrer. Um dos exemplos mais fascinantes é o da cadeira, introduzida na China, vinda provavelmente da Europa, no segundo ou terceiro século d.C., sendo amplamente usada por volta do século XIII. Esse novo costume exigiu novos tipos de móveis, mesas altas, por exemplo, e uma nova postura; em resumo, um novo estilo de vida. Os japoneses, por outro lado, não aceitaram a cadeira, da mesma maneira que os mouros de Granada, tema levantado em O Mediterrâneo, resistiram ao cristianismo (Braudel, 1979a, cap. 4).

Se algo importante está faltando nesse brilhante estudo da “cultura material”, é certamente o domínio do simbólico[17]. O sociólogo americano Thorstein Veblen dedicou uma significativa parte de sua Teoria da Classe Ociosa (1899) para discutir os símbolos do status. Alguns historiadores seguiram essa orientação: Lawrence Stone, por exemplo, num livro publicado dois anos antes da obra de Braudel, analisa as casas e os funerais da aristocracia inglesa desse ponto de vista (Stone, 1965). Mais recentemente, historiadores e antropólogos têm devotado grande atenção aos significados da cultura material (Appadurai, 1986).

Um antropólogo-historiador ou um historiador-antropólogo gostaria, talvez, de suplementar a fascinante descrição da “Europa carnívora” com uma discussão, por exemplo, do simbolismo das carnes “nobres” como o veado e o faisão, associadas com o aristocrático hábito da caça, desempenhando uma parte importante nos rituais de troca de presentes. Observações semelhantes podem ser feitas a respeito do uso do vestuário para o que o sociólogo Erving Goffman denominou “apresentação de si mesmo na vida diária”; outro tanto pode ser dito a

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respeito do simbolismo das casas, suas fachadas e decorações interiores (Goffman, 1959)[18].

Braudel e o Capitalismo Les jeux de léchange se inicia-se com a evocação da imagem turbilhonante e apressada, animada e poliglota, barulhenta e multicolorida do mundo do mercado tradicional, pros seguindo com as descrições das feiras, dos mascates e dos grandes comerciantes. Muitos destes eram tão exóticos quanto as mercadorias que compravam e vendiam, pois o comércio internacional estava nas mãos de marginais: protestantes na França, judeus na Europa Central, velhos crentes na Rússia, coptas no Egito, persas na índia, armênios na Turquia, portugueses na América espanhola, e assim por diante.

Como sempre, Braudel mantém um fino equilíbrio entre o abstrato e o concreto, o geral e o particular. Interrompe, aqui e ali, seu panorama para focalizar um estudo de caso, incluindo uma “fábrica” agrícola, como ele a denomina, no século XVIII veneziano, ou também a Bolsa de Amsterdam, essa “confusão das confusões”, como a descreviam seus participantes no século XVII, já ocupada por especuladores. Braudel sempre teve um bom olho para os detalhes vivos. Durante a feira de Medina dei Campo, em Castela, ele nos conta que a missa era celebrada no balcão da Catedral, a fim de que “compradores e vendedores a assistissem sem interromper os negócios”.

Essas descrições coloridas eram complementadas por uma fascinante análise, onde Braudel exibia integralmente seu maravilhoso dom de se apropriar das idéias de outras disciplinas e convertê-las em próprias. Nesse volume, utiliza-se da “teoria do lugar central”, do geógrafo alemão Walter Christaller, para analisar a distribuição dos mercados na China. Apoia-se na sociologia de Georges Gurvitch para discutir o que chama de “o pluralismo das sociedades”, as contradições em suas estruturas sociais. Lança mão das teorias de Simon Kuznets, um economista “convencido do valor explicativo da longa duração na economia... um procedimento caro a meu coração”, para caracterizar as sociedades pré-industriais pela falta de capital fixo e durável (Braudel, 1979b, pp. 118, 463 ss., 244 ss.). Mas Braudel apoiou-se sobretudo no notável polímata Karl Polanyi, que, na década de 40,

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estudava antropologia econômica, embora dele discordasse. Defendia, ao contrário, que a economia de mercado coexistia com uma economia sem mercado no início do mundo moderno, e não, como pretendia Polanyi, que ela emergia repentinamente no que denominava a “grande transformação” do século XIX (Braude1, 1979b, p. 225 ss).

Nessa análise dos mecanismos de distribuição e troca, Braudel oferece, caracteristicamente, explicações ao mesmo tempo estruturais e multilaterais. Discutindo o papel das minorias religiosas como os huguenotes e os persas no comércio internacional, concluía que “é certamente o mecanismo social que reserva aos marginais essas tarefas desagradáveis, mas socialmente essenciais... se não existissem, teriam necessariamente de ser inventados” (Braudel, 1979b, p. 166). Recusava-se a explicações em termos individuais. Por outro lado, opôs-se sempre a explicações baseadas em um único fator. “O capitalismo não pode ter se originado de uma única fonte”, observava, pondo de lado Marx e Weber com um simples piscar de olhos. “Economia, política, sociedade, cultura e civilização, cada uma delas tem sua parte. Assim como a história, que freqüentemente decide, em última análise, quem vencerá a prova de força” (Ibid. pp. 402-3). Este é um trecho característico de Braudel, que combina uma visão ampla com uma falta de rigor analítico, dando peso a fatores pouco analisados no decorrer do livro.

Vale lembrar a advertência de que achava necessário acrescentar para preservar uma certa distância intelectual de Marx e, mais ainda, do marxismo, evitando cair na armadilha de uma estrutura intelectual que considerava muito rígida. “O gênio de Marx, o segredo de sua longa influência, escreveu Braudel, está no fato de ter sido o primeiro a construir verdadeiros modelos sociais, fundamentados na longa duração histórica. Esses modelos se sedimentaram em toda sua simplicidade por lhe darem o status de leis” Braudel, 1969, p. 51).

Le Temps du monde muda a atenção da estrutura para o processo – o processo de nascimento do capitalismo. Nesse último volume, em que precisa ser conclusivo, Braudel elide sua usual abordagem eclética. Apoia-se firmemente nas idéias de um único homem, Immanuel Wallerstein. É quase tão difícil classificar Wallerstein quanto Polanyi. Formado sociólogo, fez pesquisas na África; convencido de que não a poderia entender sem conhecer o capitalismo, voltou-se para a eco-

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nomia. Ao descobrir que não poderia entender o capitalismo sem retornar às suas origens, decidiu-se a ser um historiador econômico. Sua história inacabada da “economia mundial” desde 1500 é, de sua parte, devedora de Braudel, a quem é dedicado o segundo volume (Wallerstein, 1974-80).

A análise que Wallerstein faz da história do capitalismo repousa também sobre a obra de economistas desenvolvimentistas como Andre Gunder Frank, especialmente sobre seus conceitos de economias centrais e periféricas, e sua posição de que o desenvolvimento do Ocidente e o subdesenvolvimento do resto do mundo são as faces opostas de uma mesma moeda (Gunder Frank, 1969, pp. 32ss.). Wallerstein analisa também o que denomina “divisão internacional do trabalho” e as sucessivas hegemonias holandesa, britânica e americana. Ele se filia a uma tradição marxista, e é de algum modo surpreendente para muitos leitores ver o velho Braudel, que sempre manteve distância em relação a Marx, finalmente aceitar algo semelhante a uma estrutura marxista.

Le Temps du monde preocupa-se também com a seqüência dos poderes preponderantes, mas principia, como se poderia esperar de Braudel, com o Mediterrâneo. Segundo ele, foi a Veneza do século XV que obteve pela primeira vez uma hegemonia sobre a economia mundial. Seguiu-se a Veneza, Antuérpia, e a esta, Gênova, cujos banqueiros controlaram os destinos da Europa (e, através da Espanha, os da América) no final do século XVI e no início do século XVII, “a idade do genovês”. A seqüência se completa com a hegemonia holandesa, mais especificamente a de Amsterdam, que Braudel identifica como a última das cidades economicamente dominantes. Finalmente, com sua habilidade característica de inversão, coloca o problema às avessas e passa a analisar o fracasso de outras partes do mundo (incluindo a França e a índia) em obter uma posição dominante similar, concluindo sua história com a Grã-Bretanha e a Revolução Industrial.

Não é difícil encontrar lacunas e imperfeições nesses volumes, particularmente quando o autor se afasta do mundo mediterrânico, que tanto amava e conhecia. Tais imperfeições eram virtualmente inevitáveis numa obra de tão grande fôlego. Uma crítica mais séria, análoga a já apontada em O Mediterrâneo, é que Braudel permanece, numa de suas metáforas preferidas, “prisioneiro” de sua divisão de

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trabalho original com Febvre (se não de seu próprio instrumental intelectual). Até o fim manteve-se “alérgico”, como dizia, a Max Weber, e pouco tinha a dizer sobre os valores capitalistas – diligência, frugalidade, disciplina, espírito empreendedor e outros. Contudo, o contraste entre o que pode ser chamado de “culturas favoráveis a empreendimentos”, como a República holandesa e o Japão, e as “culturas não favoráveis”, como a Espanha e a China, é bastante sensível, e tais diferenças em valores são seguramente relevantes para a história econômica desses países.

A má-vontade de Braudel em reconhecer autonomia à cultura, às idéias, transparece claramente em seus últimos ensaios. Ao analisar o problema da rejeição da Reforma na França (como anteriormente discutira a rejeição da Reforma na Espanha), oferece uma explicação geográfica brutalmente reducionista. Limita-se a notar que o Reno e o Danúbio eram as fronteiras do catolicismo como haviam sido anteriormente as fronteiras do Império Romano, sem se dar ao trabalho de analisar a possível relação entre essas fronteiras, os acontecimentos e as idéias da Reforma (Braudel, 1981).

As qualidades, contudo, da trilogia de Braudel superam e muito seus defeitos. Juntos, os três volumes constroem uma magnífica síntese, tomando-se o termo economia num sentido amplo, da história econômica do início da Europa moderna, e colocam essa história num contexto comparativo. Eles confirmam o direito do autor ao título mundial dos pesos-pesados. Devemos ser gratos pela demonstração de que é ainda possível, neste final de século, resistir às pressões da especialização. Admire-se também a tenacidade de Braudel ao levar adiante dois grandes projetos por um período de mais de cinqüenta anos.

E o que é mais, ele não esmoreceu. Na sua velhice, Leopold von Ranke dedicou-se à história mundial. Pela primeira vez, mais modesto em suas ambições, Braudel, com mais de setenta anos, embarcou na aventura de uma história global de seu país. Quando de sua morte, em 1985, já estavam escritos os capítulos sobre geografia, economia e demografia, publicados sob o título LIdentité de la France.

Num certo sentido, esse último livro é previsível – não é difícil imaginar o que seria um estudo braudeliano sobre a França. Assenta-se, da mesma maneira que seus livros anteriores, na obra de

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seus geógrafos favoritos, de Vidal de Blache a Maximilien Sorre. Embora Braudel tenha aproveitado a oportunidade para responder à crítica de que era excessivamente determinista, e tenha endereçado algumas palavras generosas ao “possibilismo” à maneira de Febvre e de Blache, ele realmente não alterou suas convicções, reiterando sua crença de que somos “esmagados” pelo “enorme peso das distantes origens” (Braudel, 1985, p. 237 ss). O primeiro volume desse estudo é uma nova demonstração enfática da capacidade de Braudel incorporar o espaço na história, discutir a diversidade regional e a distância, de um lado, e as comunicações e a coesão nacional, de outro; além, é claro, de oferecer suas reflexões sobre as mudanças de fronteiras da França, na longa duração, entre 843 a 1761[19].

Um último tema de Braudel merece ser aqui analisado, a estatística. Ele recebia com entusiasmo os métodos quantitativos empregados por seus colegas e discípulos. Fazia uso das estatísticas ocasionalmente, especialmente na segunda edição ampliada de seu Le Mediterranée, publicado em 1966. Contudo, não é parcial dizer que os números são apenas a decoração de seu edifício histórico, e não parte de sua estrutura (Hexter, 1972, p.113). Num certo sentido, ele resistia aos métodos quantitativos da mesma maneira que resistia à maioria das formas de história cultural, o que o levava a descartar o famoso livro de Burckardt, A civilização da Renascença na Itália, por estar suspenso no ar (Braudel, 1969, p. 186). Ele foi assim, de alguma maneira, alheio a dois grandes movimentos no interior da história dos Annales de seu tempo, a história quantitativa e a história das mentalidades. É tempo agora de dirigirmos nossa atenção sobre eles.

III – O NASCIMENTO DA HISTÓRIA QUANTITATIVA

Apesar de sua liderança carismática e de sua contribuição, o desenvolvimento da escola dos Annales nos tempos de Braudel, não pode ser explicado apenas em função de suas idéias, interesses e influências. Os “destinos coletivos e as tendências gerais” do movimento merecem também ser examinados. Dessas tendências, a mais importante, de mais ou menos 1950 até 1970, ou mesmo mais, foi

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certamente o nascimento da história quantitativa. Esta “revolução quantitativa”, como foi chamada, foi primeiramente sentida no campo econômico, particularmente na história dos preços. Da economia espraiou-se para a história social, especialmente para a história populacional.

Finalmente, na terceira geração, a ser examinada no próximo capítulo, a nova tendência invadiu a história cultural – a história da religião e a história das mentalidades[20].

A importância de Ernest Labrousse Não se constituia em novidade os historiadores econômicos lidarem com estatísticas. Um grande número de pesquisas sobre a história dos preços havia sido realizado no século XIX (Wiebe, 1895). O início dos anos 30 assistiu a uma explosão de interesse pelo tema, vinculada, sem dúvida, à hiperinflação alemã e ao estouro das bolsas em 1929. Dois importantes estudos sobre preços apareceram na França em 1932-34. O primeiro, Recherches anciennes et nouvelles sur le mouvement général des prix du XVI e au XIX e siècle (1933), o livro de cabeceira obrigatório para todo historiador, como afirmava Febvre (Febvre, 1962, pp.190-1). Era fruto do trabalho do economista François Simiand, o homem que, trinta anos antes, havia publicado um ataque demolidor à história tradicional. O livro discutia a alternância na história de períodos de expansão, por ele chamados “Fases A”, e períodos de retração, ou “Fases B” (Simiand, 1932).

O segundo estudo importante, modestamente intitulado “Esquisse du mouvement des prix et des revenus en France au XVIII e siècle, era obra do jovem historiador Ernest Labrousse (1933). Dois anos mais velho do que Braudel, Labrousse foi extremamente influente na historiografia por mais de cinqüenta anos. Em razão de sua influência sobre os historiadores mais jovens, dos quais, em muitos casos, foi o orientador de tese, pode-se dizer que ocupou um lugar central nos Annales. Em outro sentido, porém, ele pode ser tido como marginal ao grupo. Lecionava na Sorbonne; seu foco de interesse era a Revolução Francesa, o evento por excelência, e o que era mais importante, tratava-se de um marxista[21].

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Como já vimos, nem Febvre nem Bloch tinham grande interesse nas idéias de Marx. Apesar de seu socialismo e de sua admiração por Jaurès, Febvre era muito voluntarista para ter Marx como fonte de inspiração. Quanto a Bloch, apesar de seu entusiasmo pela história econômica, afastava-se de Marx em razão de sua perspectiva durkheiminiana (Suratteau, 1983). Braudel, como já vimos, deve mais a Marx, mas apenas em suas últimas obras.

Foi com Labrousse que o marxismo começou a penetrar no grupo dos Annales. O mesmo ocorreu com os métodos estatísticos, pois Labrousse foi incentivado pelos economistas Albert Aftalion e François Simiand a empreender um rigoroso estudo quantitativo da economia francesa do século XVIII, publicado em duas partes: Esquisse (1933), sobre os movimentos dos preços de 1701 a 1817, e La crise de léconomie française à la fin de lAncien Régime et au début de la Revolution (1944), sobre o fim do antigo regime. Estes livros, saturados de gráficos e tabelas, referem-se a movimentos de longa duração e a ciclos de curta duração, “crises cíclicas” e “interciclos”. Labrousse, muito engenhoso em encontrar maneiras de mensurar as tendências econômicas, utilizou conceitos, métodos e teorias de economistas como Juglar e Kondratieff, preocupados respectivamente com os ciclos econômicos de curta e longa duração; e de seu professor Albert Aftalion, que escrevera sobre crises econômicas. Labrousse defendia que uma má colheita na França do século XVIII tinha um efeito devastador, determinando tanto um declínio nas rendas rurais como também no ainda grande mercado rural para a indústria. Também demonstrava a importância da crise econômica do foral da década de 80 como uma precondição da Revolução Francesa (Labrousse, 1933, 1944)[22]. Essas duas monografias foram estudos pioneiros do que os Annales chamariam posteriormente conjuntura (ver Glossário). Foram criticados, de vez em quando, por forçarem os dados a se conformarem ao modelo, mas foram extremamente influentes.

Em seu famoso ensaio, “História e Ciências Sociais” (1958), centrado no conceito de longa duração, Braudel proclama que o livro de Labrousse, La crise..., é “o maior livro de história publicado na

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França nestes últimos vinte e cinco anos” (Braudel, 1969, pp. 25-54; 1974, p. 11). Da mesma maneira, Chaunu declara que “todo o movimento no sentido de uma história quantitativa, na França, deriva de dois livros que eram os breviários de minha geração, Esquisse... e La Crise... “, livros que considerava mais influentes do que o próprio Mediterrannée (Chaunu, 1955-60, 8, parte 1, p. xiv; Braudel, 1974, p. 21).

Os livros eram extremamente técnicos e Labrousse pouco publicou depois. Era um historiador de historiadores sem ser, contudo, um especialista limitado. Sua curiosidade la além da história econômica do século XVIII, dirigia-se também para as revoluções de 1789 e de 1848, para a história social da burguesia européia de 1700 a 1850[23]. Declarou certa vez que “não pode haver estudo da sociedade sem estudo das mentalidades” (Labrousse, 1980 e 1970).

Labrousse dedicou boa parte de seu tempo na supervisão de estudantes pós-graduados e merece ser lembrado como “a eminência parda” dos Annales, representando Padre Joseph, o invisível mas indispensável colaborador do Cardeal Richelieu Braudel. Há motivos para se suspeitar que houve influência de Labrousse na da 2ª edição do Mediterrannée, em 1966, pois há uma maior ênfase na história quantitativa e inclusão de tabelas e gráficos inexistentes na primeira[24]. Foi também pela preocupação em ampliar o espaço dos Annales para tabelas e gráficos que a revista aumentou seu formato em 1969.

É impossível analisar detalhadamente as obras das décadas de 50 e 60 que mostram a marca de Braudel e Labrousse, mas é igualmente impossível deixar de mencionar a tese histórica de Chaunu, Sevilha e o Atlântico (1955-1960), talvez a mais longa tese já escrita[25]. Esse estudo de Chaunu, escrito com a colaboração de sua esposa Huguette, tenta imitar, se não mesmo superar Braudel, tomando como sua região o oceano Atlântico. Concentrou-se em tudo o que podia ser mensurado, a tonelagem das mercadorias transportadas entre a Espanha e o Novo Mundo, de 1504 a 1560, para, a partir dessa base, ampliar

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sua análise e discutir as flutuações mais gerais no volume desse comércio. Finalmente, voltou-se para as tendências econômicas mais significativas do período, especialmente a passagem da expansão no século XVI (uma Fase-A, como Simiand a chamaria) para a retração no século XVII (uma Fase-B).

Esse estudo volumoso, que lançou o famoso par de termos estrutura e conjuntura, foi, ao mesmo tempo, uma aplicação ao comércio transatlântico de um método e de um modelo desenvolvidos por Labrousse para a França do século XVIII, e um desafio a Braudel, por estudar um oceano, pelo menos do ponto de vista econômico, e conferindo ao seu tema uma verdadeira visão global. Digna de nota também é a seção reservada à geografia histórica da América espanhola. Chaunu perde apenas para Braudel em sua consciência da importância do espaço e da comunicação na história[26].

Demografia histórica e História demográfica A história da população foi a segunda grande conquista da abordagem quantitativa, depois da história dos preços. O surgimento da história demográfica deu-se na década de 50, e isso se deve à consciência da explosão populacional mundial, da mesma forma que a história dos preços na década de 30 está intimamente relacionada ao craque financeiro. O desenvolvimento dessa área de estudo foi, pelo menos na França, o resultado tio trabalho conjunto de demógrafos e historiadores. Louis Henry, por exemplo, que trabalhava no Institut National d’Études Demographiques (INED), transferiu, na década de 40, sua atenção dos estudos da população atual para a população do passado. Desenvolveu o método da “reconstituição familiar”, que vincula os registros de nascimentos, casamentos e mortes, investigando uma região e um período, através do estudo de casos de famílias em Gênova, Normandia, e outras partes.

A revista do INED, Population, publicada a partir de 1946, sempre recebeu contribuições de historiadores. O primeiro volume, por exemplo, inclui importante artigo do historiador Jean Meuvret, onde desenvolve a noção de “crise de subsistência”, argumentando que tais crises eram acontecimentos comuns na França de Luís XIV. Um aumento nos preços do trigo era acompanhado por um acréscimo da

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taxa de mortalidade e uma queda da taxa de nascimento. Seguia-se uma recuperação gradual e, posteriormente, nova crise (Meuvret, 1946, 1977). As idéias contidas no artigo fundamentam um bom número de estudos regionais posteriores, desde o livro de Goubert, Beauvais et te Beauvaisis (1960), em diante. Como Labrousse, Meuvret foi um historiador de muito maior importância para o movimento dos Annales, nos anos 40 e 50, do que faz supor sua pequena produção histórica. Seu monumento é o trabalho realizado por seus discípulos.

Em breve, a demografia histórica ligou-se oficialmente à historia social. Data de 1960 a criação, na VI Seção, de uma nova coleção histórica: “Demografia e Sociedades”, que publicou um número de monografias importantes sobre história regional.

A importância da história regional e serial Uma das primeiras publicações da coleção foi a tese de Goubert sobre Beauvais et le Beauvaisis. Do mesmo modo que Chaunu, dividiu seu trabalho em duas partes, intituladas “Estrutura” e “Conjuntura”. A primeira parte trata das flutuações, na curta e longa duração, dos preços, produção e população, na perspectiva de um “longo” século XVII, que vai de 1600 a 1730. É um exemplo regional da Fase B de Simiand. A justaposição feita por Goubert entre movimentos de preços e população mostra as conseqüências humanas de uma modificação econômica.

A importância da primeira parte está em que integra a demografia histórica à história social de uma região. Goubert procede a um cuidadoso estudo das tendências populacionais num certo número de vilas da região de Beauvais, tais como Auneuil e Breteuil. Chega a conclusões semelhantes às de Meuvret a respeito da persistência de um “velho regime demográfico”, caracterizado por crises de subsistência a cada trinta anos, mais ou menos, durante o século XVIII, e observa como seus habitantes se adaptavam aos tempos duros, casando tarde, de maneira a diminuir o número de anos dedicados pelas esposas à criação dos filhos.

Ele fez mais, contudo, do que demonstrar a relevância para os beauvisianos do que veio a se tornar a interpretação ortodoxa da recessão econômica e da crise demográfica, no século XVII. Deu considerável ênfase no que chamou “demografia social”, isto é, no fato de que as chances de sobrevivência variavam de um grupo social para outro. Considerou seu estudo uma contribuição à “história social”, uma

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história preocupada com todos, não somente com o rico ou com o poderoso, um aspecto reiterado em sua obra posterior, Louis XIV et vingt millions de français (1966).

A parte mais interessante do livro, a meu ver, são os capítulos sobre a sociedade rural e a sociedade urbana, sobre o mundo da produção têxtil em Beauvais, por exemplo, ou sobre os camponeses ricos, médios e pobres. Esse cuidadoso estudo das diferenciações sociais e das hierarquias sociais, que Goubert, posteriormente, ampliou num ensaio sobre o campesinato francês do século XVII, é um excelente corretivo para qualquer visão simplista da sociedade do antigo regime (Goubert, 1982).

Embora a análise social de Goubert seja fecunda, está longe da história total. O problema da “mentalidade burguesa” é discutido brevemente, mas, como autor admite desde o início, religião e política estariam de fora. De uma maneira similar, a maioria das monografias regionais, dentro do estilo dos Annales das décadas de 60 e 70, uma notável obra coletiva, restringia-se à história econômica e social, com introduções geográficas ao modelo de Braudel.

A tese de Goubert foi dedicada a Labrousse, cujo papel nos bastidores é revelado pelos agradecimentos feitos em alguns dos mais significativos estudos regionais da segunda e terceira geração dos Annales, do Catalunha de Pierre Vilar ao Languedoc de Emmanuel Le Roy Ladurie e o Provence de Michel Vovelle (discutidos adiante)[27]. Tais estudos, que não são apenas cópias de um modelo, mas variações individuais de um tema comum a um grupo, são a conquista mais destacada da escola dos Annales, na década de 60. A esse respeito, assemelham-se às monografias regionais da escola geográfica francesa, tais como a de Demangeon sobre a Picardia, ou a de Sion sobre a Normandia, e tantas outras, cinqüenta anos atrás (Buttimer, 1971, pp. 74 ss). Eles marcam também o retorno dos Annales à província, em universidades como as de Caen e Rennes, Lyon e Toulouse.

Em síntese, os estudos regionais combinam as estruturas braudelianas, a conjuntura de Labrousse e a nova demografia histórica.

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A sociedade rural do início da França moderna foi estudada a nível provincial na Burgundia, na Provença, no Languedoc, na Île-de-France, na Savóia e em Lorraine (Saint Jacob, 1969, Baehrel, 1961, Freche, 1974, etc.). Houve também um bom número de monografias sobre as cidades modernas, não somente na França (Amiens, Lyon, Caen, Rouen, Bordeaux), mas também nas cidades do mundo mediterrânico (Roma, Valladolid, Veneza) (Deyon, 1967, Garden, 1970, Gascon, 1971, Delumeau, 1957-9, Bennassar, 1967). Esses estudos locais, urbanos e rurais, têm grande semelhança, formando como que um grupo familiar. Quase sempre são divididos em duas partes, estruturas e conjunturas, e se fundamentam em fontes que possibilitam dados bastante homogêneos, do tipo que permite serem arrolados em séries de longa duração, tais como tendências dos preços e taxas de mortalidade. O próprio nome “história serial” se origina desse fato (Chaunu, 1970). Analisando essas teses, pode-se comprender a observação de Ladurie de que “a revolução quantitativa transformou completamente o trabalho do historiador na França” (Le Roy Ladurie, 1973, p. 7).

A maioria desses estudos locais foi orientada por Braudel ou Labrousse, e tinham por objeto o início da época moderna. Houve exceções, contudo, a essas regras. O medievalista Georges Duby foi um dos primeiros a escrever uma monografia sobre a propriedade, a estrutura social e a família aristocrática na área de Mâcon nos séculos XI e XII. A monografia de Duby era supervisionada por Charles Perrin, um antigo colega de Bloch, e tinha como fonte a geografia histórica. A região de Limousin, também foi estudada ao estilo dos Annales, numa obra que se iniciava pela geografia da região, descrevia, em seguida, as “estruturas econômica, social e mental” e concluía com uma análise das atitudes políticas e um balanço das transformações no tempo (Corbin, 1975).

Mesmo tratando-se de estudos sobre o início da época moderna, seria enganador apresentar a escola ou o círculo dos Annales, como completamente refratária a outros historiadores[28]. O caso mais óbvio a ser mencionado é o de Roland Mousnier, que foi um orientador de teses sobre a era moderna tão influente quanto Braudel e

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Labrousse. Mousnier publicava seus artigos na Revue Historique, não nos Annales. Foi professor na Sorbonne, não nos Hautes Études. Era persona non grata a Braudel. Se o círculo dos Annales era um clube, Mousnier certamente não foi um dos membros. Mesmo assim, seus interesses se sobrepunham num grau considerável. Nenhum historiador francês desde Bloch tomara a abordagem comparativa na história tão seriamente. Mousnier comparou o desenvolvimento político da França- e da Inglaterra, por exemplo; estudou as revoltas camponesas no século XVII não só na França como também em países longínquos como a Rússia e a China. Tal como o grupo dos Annales, usou extensamente a teoria social, de Max Weber a Talcott Parsons, dando pouca atenção a Marx[29].

Embora sua visão política fosse de direita, Mousnier dispôs-se a colaborar num estudo sobre o século XVIII com Labrousse, cujo coração estava sempre com a esquerda. Não concordavam sobre métodos de pesquisa, para não falar sobre as conclusões, mas os dois partilhavam do mesmo grande interesse pela análise da estrutura social do antigo regime, suas “ordens” e “classes”, um tema sobre o qual organizavam conferências rivais[30].

Mousnier orientou um considerável número de teses em história social, sobre temas que vão desde o soldado francês do século XVIII até uma análise quantitativa computadorizada das transformações da estrutura social de uma pequena cidade francesa por mais de três séculos (Corvisier, 1964, e Couturier, 1969). No início da década de 60, lançou um projeto de pesquisa coletiva sobre os levantes camponeses dos séculos XVI e XVII, em parte para refutar a interpretação marxista das revoltas campesinas defendida por Boris Porshnev, historiador soviético, cuja obra, publicada na Rússia nos anos 40, havia sido traduzida pelos rivais de Mousnier na VI Seção (Porshnev, 1948). Os trabalhos de Mousnier e seus discípulos geralmente davam mais atenção à política do que à economia, e levavam mais a sério os critérios legais do que os econômicos em suas análises da estrutura social. Mesmo assim, alguns desses estudos

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dificilmente se diferenciam dos da chamada “escola dos Annales” (Mousnier, 1968a, Pillorget, 1975, e Bercé, 1974)

Le Roy Ladurie em Languedoc Nos estudos regionais produzidos pelo círculo dos Annales, há uma importante exceção na ênfase atribuída às estruturas socioeconômicas e à conjuntura. A tese doutoral de Emmanuel Le Roy Ladurie, Les paysans de Languedoc (1966), engaja-se na “aventura”, como diz seu autor, “da história total”, num período de mais de duzentos anos (Le Roy Ladurie, 1966, p.11).

Esse historiador, por consenso, é o mais brilhante dos discípulos de Braudel, a ele se assemelhando em muitos aspectos – no poder imaginativo, na ampla curiosidade, na abordagem multidisciplinar, na preocupação com a longa duração e numa certa ambivalência em relação ao marxismo. Como Braudel, é um homem do Norte, um normando apaixonado pelo Sul. Seu Paysans de Languedoc é construído na mesma escala de O Mediterrâneo, principiando, como se poderia esperar, com uma descrição geográfica de Languedoc – uma região rural, de vegetação rala e pedregosa, de grãos, vinha e oliveiras, azinheiros e castanheiros, típica do Mediterrâneo.

Le Roy Ladurie compartilha com Braudel um grande interesse pelo meio físico, interesse que o levou a escrever um notável estudo comparativo da história do clima na longa duração (Le Roy Ladurie, 1971). Cientistas americanos haviam usado, para estabelecer a tendência climática na longa duração, os registros fornecidos pelos anéis que se formam nas árvores (especialmente nas sequóias gigantes do extremo Oeste, algumas das quais atingem 1500 anos). Um anel estreito significa um ano de seca, um largo, ano de chuvas abundantes. O autor francês teve a feliz idéia de justapor as conclusões dos cientistas americanos às obtidas por um outro exemplo de “história serial”, um estudo das variações nas datas da colheita de uvas em várias partes da Europa. Uma colheita antecipada significa um ano quente, uma colheita atrasada, um ano frio. Concluiu que “os antigos vinhais da Alemanha, França e Suíça compatibilizavam-se, embora distantes, de maneira harmônica com as evidências das florestas milenares do Alasca e do Arizona” (Le’Roy Ladurie, 1959, p.157). O paralelo com a comparação braudeliana dos movimentos populacionais na Europa e na Ásia é bastante óbvio. Por outro lado, Le Roy, como é conveniente chamá-lo, achou necessário guardar certa distância de Braudel, como

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este fez em relação a Marx. Abandonou a então tradicional organização dos estudos regionais em seções sobre estruturas e conjunturas, preferindo dividir seu livro, que vai de 1500 a 1700, em três períodos. Três fases do que denomina “um grande ciclo agrário”, um enorme movimento de fluxo e refluxo, de ascensão e queda.

A primeira é uma Fase-A, período de expansão econômica estimulado por um dramático aumento da população na região, recuperando-se finalmente das devastações da peste negra da Alta Idade Média. No dizer de um contemporâneo, a população do século XVI estava procriando “como ratos num celeiro”. As terras marginais passaram a ser cultivadas e o solo passou a ser explorado mais intensamente. O tamanho médio das propriedades rurais diminuía, pois era dividida entre mais filhos, e os salários agrícolas tornavam-se cada vez menores, visto que o crescimento da população favoreceu a criação de um mercado de trabalho. O grupo que se beneficiou com a situação foi o dos proprietários de terras que dirigiam seu próprio negócio.

A população continuou a se expandir, a uma taxa menor, até 1650, ou mesmo 1680 (na região de Beauvaisis, estudada por Goubert, ela deixou de crescer pouco depois), assim como os lucros dos proprietários. De fato, Le Roy denomina o período de 1600 a 1650 de o período da “ofensiva da renda”. Nesse ponto, contudo, ocorre o que Simiand chamaria de uma Fase-B de depressão, e houve uma reversão do quadro de todo o movimento. A razão fundamental dessa reversão foi o declínio da produtividade na agricultura. Os agricultores empobrecidos eram incapazes de investir em suas terras e, em todo caso, havia um limite ao que se poderia tirar desse solo mediterrânico pedregoso. Não havia alimento suficiente, produzindo-se assim uma crise de subsistência. Muitos morreram, alguns emigraram, e os casais (como em Beauvaisis) tenderam a se casar mais tarde. “Parecia como que se a população procurasse adaptar-se dolorosamente às condições de uma economia em retração” (Le Roy Ladurie, 1966, 243). Por outro lado, o declínio populacional intensificava a depressão econômica, que atingiu seu auge no início do século XVIII, ao final do reinado de Luís XIV. Concluía que “O anátema malthusiano caiu sobre o Languedoc nos séculos XVI e XVII”, no sentido de que o crescimento da população eliminou qualquer crescimento na prosperidade, tal como dissera Malthus (Ibid. p. 311).

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O que acabo de descrever é uma página esplêndida da história geográfica e socioeconômica escrita à maneira das monografias regionais, nos anos 60, vinculadas aos Annales Faziam uso abundante dos métodos quantitativos, não só para estudar as flutuações de preços, as taxas de nascimento, casamento e mortalidade, mas também as tendências na distribuição da propriedade, na produtividade agrícola, etc.

Les paysans de Languedoc, contudo, rompe, em muitos aspectos, com a tradição. Como vimos, Le Roy adota uma forma de organização cronológica no lugar de uma divisão em estrutura e conjuntura. Em cada uma das seções cronológicas, discute os desenvolvimentos culturais, tais como a ascensão do protestantismo e a alfabetização, e descreve também as reações do homem comum da região às tendências econômicas vividas no dia-a-dia. Para escrever essa história vista “da perspectiva das classes subalternas”, fundamentou-se exaustivamente na evidência das revoltas. Por exemplo, no curso da discussão sobre a polarização da sociedade rural, no final do século XVI, entre prósperos proprietários de terra e assalariados pobres, introduziu uma mininarrativa de um episódio simples de conflito social, na pequena cidade de Romans[31]. Durante o carnaval de 1580, artesãos e camponeses se valeram das mascaradas para proclamar que “os ricos da cidade tinham se tornado prósperos às custas do pobre” e que, em breve, a carne dos “cristãos estaria sendo vendida a seis pences a libra”.

Na seção dedicada à depressão econômica no início do século XVIII, Le Roy relata também a história da guerra de guerrilhas conduzida pelos camisards, os montanheses protestantes das Cevenas, contra o rei que havia posto fora de lei sua religião. Observou que os líderes da revolta, entre os quais se incluíam jovens mulheres, tinham, de maneira freqüente, convulsões, durante as quais tinham visões do céu e do inferno e faziam profecias. Le Roy sugeriu que esses ataques eram histéricos e relacionou o fenômeno à conjuntura geral da época – a depressão levando ao empobrecimento, ao casamento tardio, à frustação sexual, à histeria e, finalmente, às convulsões.

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Sua tese foi de maneira geral bem recebida[32]. Na realidade, construiu sua reputação. Com o passar dos anos, contudo, algumas críticas substanciais surgiram. Suas conclusões sobre os profetas de Cevena, por exemplo, foram contestadas por tratá-los antes como casos patológicos do que em tentar ler suas convulsões como uma forma autêntica de linguagem corporal (Garret, 1985). Sua análise econômica, segundo um crítico, “não faz sentido”, porque “confunde renda com lucro” (North, 1978, p. 80). Mais fundamental, contudo, foi a crítica dos marxistas ao seu “modelo demográfico” de transformações no Languedoc, por ser de um malthusianismo simplista e porque “é a estrutura das relações de classe, do poder de classe, que determina a maneira e o grau em que mudanças particulares demográficas e econômicas afetam a direção na distribuição de rendas e o crescimento econômico, e não o contrário”. A essa crítica, Le Roy respondeu dizendo que o seu modelo não é um simples, mas sim um complexo modelo “neomalthusiano”, que incorpora a estrutura de classes (Brenner, 1976, esp. p. 31; Le Roy Ladurie, 1978). Ficamos assim com dois modelos contrários de mudança social: um modelo demográfico que incorpora as classes sociais, e um modelo classista que incorpora a demografia. Como no caso do debate sobre liberdade e determinismo a respeito de O Mediterrâneo de Braudel, parece não haver meios de decidir a questão empiricamente.

Aceite-se ou não o modelo explicativo do autor, Les paysans de Languedoc impõe admiração por sua vitoriosa e incomum combinação de meticulosa história quantitativa e econômica com uma história política, religiosa e psicológica, brilhantemente impressionista. Vendo esse estudo vinte anos depois de sua publicação, agora está claro que Le Roy foi o primeiro a notar as insuficiências do paradigma braudeliano e a trabalhar para modificá-lo. Essas modificações, em grande parte obra da terceira geração dos Annales, são o tema do próximo capítulo.



[1] O termo “traição” alude ao famoso ensaio de Julien Benda, La trahison des clerks.

[2] A tradução baseou-se no texto original de Braudel, Ecrits sur lHistoire, Paris, Flammarion, 1969, p.11. (N.T.)

[3] As mais importantes foram as de Bailyn (1951) e Hexter (1972).

[4] Guilmatin (1974) esp. pp. 234, 251. Por outro lado, Hess (1972) argumenta que Braudel sobrevalorizou sua importância.

[5] Em 1977, indaguei a Braudel sua opinião sobre o livro, ele não o conhecia.

[6] “Braudel and the Primary Vision”, um diálogo com P. Burke e H.G. Koenisberger, difundido pela Rádio 3, em 13 de Novembro de 1977.

[7] A hipótese é de Hexter (1972), p. 104, observando que Braudel (1958), virtualmente a confirma.

[8] Para uma contestação vigorosa dessa crítica, ver Vovelle (1982), especialmente parte 4.

[9] Braudel discute a obra de Sorre in Annales (1943), rpr Braudel (1969) pp. 105-16. Conf. Dion (1934), Sereni (1961).

[10] A frase sobre seu “vasto apetite” é de Hexter, 1972, p. 119.

[11] Braudel (1969) cita Curtius (1948), obra dedicada a Aby Warburg e inspirada em seu trabalho.

[12] Ele escreveu a introdução ao primeiro volume da série “Portos-Rotas-Tráficos”. anunciando que a coleção “representaria a parte essencial de nosso trabalho”.

[13] Le Goff (1987), p. 224, nega qualquer vinculação com os acontecimentos de 1968.

[14] Braudel, 1967, ed. 1981, p. 23, diz que Febvre fez a sugestão em 1952, Braudel, 1977, p. 3, assinala a data de 1950.

[15] Braudel, 1979a, é a edição revista.

[16] Braudel, 1969, faz observações positivas a respeito de Spengler, pp. 186 ss, bem como referências a seu propósito no index de Braudel, 1979a, 1979b.

[17] Essa crítica foi feita por Burke, 1981, pp. 38 ss, e Clark, 1985, pp. 191 ss.

[18] Para uma discussão das casas desse ponto de vista, ver Le Roy Ladurie, 1975. Sobre o vestuário, Roche, 1989.

[19] Ver Aymard, 1988, sobre uma visão favorável; severas críticas são feitas pelo geógrafo Lacoste, 1988.

[20] Para uma visão mais geral, ver Le Roy Ladurie, 1973, p. 7-16.

[21] A referência à “marginalidade” de Labrousse vem de Allegra / Torre, 1977, pp.328ss. Labrousse (1980) expressa sua identificação com os Annales.

[22] Para uma crítica desses estudos, ver Landes (1950). Ver também Renouvin (1971), Braudel (1974), Labrousse (1980).

[23] No Congresso Internacional de Ciências Históricas de Roma, em 1955, apresentou uma importante comunicação: Voies nouvelles vers une histoire de la bourgeoisie occidentale. Supervisionou a tese de Daumard sobre a burguesia de Paris.

[24] Braudel colaborou também com o historiador italiano Ruggiero Romano num estudo quantitativo de embarcações no porto de Livorno

[25] Formada por 12 volumes, a maioria dos quais de estatísticas. O volume 8 dedicado à interpretação tem mais de 3000 páginas de texto.

[26] Está melhor expresso in Chaunu, 1964, p. 11-38.

[27] Estudos regionais orientados por Labrousse incluem também os de Maurice Agulhon sobre a Provença, de Pierre Deyon sobre Amiens, de Adeline Daumard sobre a burguesia parisiense, de Georgelin sobre Veneza e de J. Nicolas sobre a Savóia.

[28] Foi Gaston Zeller, um historiador de relações internacionais, quem inspirou Delumeau (1957-9) e Gaston (1971).

[29] Arriaza (1980) cita a influência de Bernard Barber sobre Mousnier e de outros sociólogos americanos, embora saliente a de Max Weber.

[30] Mousnier (1964) é um crítico das contribuições de Daumard e Furet ao projeto de Labrousse de uma análise quantitativa da estrutura social. Comparar Mousnier (1968) sobre castas, ordens e classes, com Labrousse (1973).

[31] Em 1979, Le Roy Ladurie publicou um livro, Le Carnaval de Romans, sobre o episódio. (N.T.)

[32] Algumas críticas foram feitas por Yves Bercé in Bibliothéque de lécole des Chartes 125, 1967, 444-50.

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