quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A ESCOLA DOS ANNALES (1929-1989) Parte 3 - Peter Burk

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A Terceira Geração

O surgimento de uma terceira geração tornou-se cada vez mais óbvio nos anos que se seguiram a 1968. Em 1969, quando alguns jovens como André Burguière e Jacques Revel envolveram-se na administração dos Annales, em 1972, quando Braudel aposentou-se da Presidência da VI Seção, ocupada, em seguida, por Jacques Le Goff; e em 1975, quando a velha VI Seção desapareceu e Le Goff tornou-se o Presidente da reorganizada École des Hautes Études en Sciences Sociales, sendo substituído, em 1977, por François Furet.

Mais significativas, contudo, do que as tarefas administrativas foram as mudanças intelectuais ocorridas nos últimos vinte anos. O problema está em que é mais difícil traçar o perfil da terceira geração do que das duas anteriores. Ninguém neste período dominou o grupo como o fizeram Febvre e Braudel. Alguns comentadores chegaram mesmo a falar numa fragmentação (Dosse, 1987).

Deve-se admitir, pelo menos, que o policentrismo prevaleceu. Vários membros do grupo levaram mais adiante o projeto de Febvre, estendendo as fronteiras da história de forma a permitir a incorporação da infância, do sonho, do corpo e, mesmo, do odor[1]. Outros solaparam o projeto pelo retorno à história política e à dos eventos. Alguns continuaram a praticar a história quantitativa, outros reagiram contra ela.

A terceira geração é a primeira a incluir mulheres, especialmente Christiane Klapisch, que trabalhou sobre a história da família na Toscana durante a Idade Média e o Renascimento; Arlette Farge, que estudou o mundo social das ruas de Paris no século XVIII; Mona Ozouf, autora de um estudo muito conhecido sobre os festivais

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durante a Revolução Francesa; e Michèle Perrot, que escreveu sobre a história do trabalho e a história da mulher (Klapisch, 1981; Farge, 1987, Ozouf, 1976, Perrot, 1974). Os historiadores anteriores dos Annales haviam sido criticados pelas feministas por deixarem a mulher fora da história, ou mais exatamente, por terem perdido a oportunidade de incorporá-la à história de maneira mais integral, já que haviam obviamente mencionado as mulheres de tempo em tempo, desde Marguerite de Navarre às chamadas bruxas (Fauré, 1980, Stuard, 1981). Nesta geração, contudo, a crítica torna-se cada vez mais improcedente. Georges Duby e Michèle Perrot, por exemplo, estão empenhados em organizar uma história da mulher em vários volumes.

Esta geração, por outro lado, é mais aberta a idéias vindas do exterior. Muitos dos seus membros viveram um ano ou mais nos Estados Unidos, em Princeton, Ithaca, Madison ou San Diego. Diferentemente de Braudel, falam e escrevem em inglês. Por diferentes caminhos, tentaram fazer uma síntese entre a tradição dos Annales e as tendências intelectuais americanas-como a psico-história, a nova história econômica, a história da cultura popular, antropologia simbólica, etc.

Novas abordagens estão ainda sendo exploradas por historiadores identificados com o movimento dos Annales, como este capítulo tentará demonstrar. O centro de gravidade do pensamento histórico, porém, não está mais em Paris, como seguramente esteve entre os anos 30 e 60. Inovações semelhantes acontecem mais ou menos simultaneamente em diferentes partes do globo. A história das mulheres, por exemplo, tem se desenvolvido não só na França, mas também nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Holanda, Escandinávia, Alemanha Ocidental e na Itália. A história geral das mulheres, planejada por Georges Duby e Michèle Perrot, está sendo escrita não para uma editora francesa, mas para a Laterza. Há mais do que um centro de inovação – ou centro nenhum.

Nas páginas que se seguem, concentrar-me-ei em três temas maiores: a redescoberta da história das mentalidades, a tentativa de empregar métodos quantitativos na história cultural e, finalmente, a reação contrária a tais métodos, quer tomem a forma de uma antropologia histórica, um retorno à política ou o ressurgimento da narrativa. O preço a ser pago por esta decisão é, infelizmente, ter de

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excluir um bom número de trabalhos interessantes, especialmente a contribuição feita à história das mulheres por Farge, Klapisch, Perrot e outros. É a única maneira de evitar, contudo, que este capítulo seja tão fragmentado quanto dizem que é a escola dos Annales.

I – DO PORÃO AO SÓTÃO

Como vimos, na geração de Braudel, a história das mentalidades e outras formas de história cultural não foram inteiramente negligenciadas, contudo, situavam-se marginalmente ao projeto dos Annales. No correr dos anos 60 e 70, porém, uma importante mudança de interesse ocorreu. O itinerário intelectual de alguns historiadores dos Annales transferiu-se da base econômica para a “superestrutura” cultural, “do porão ao sótão”[2].

Por que isso teria acontecido? A mudança de interesse, estou convencido, foi em parte uma reação contra Braudel. Como foi também, de outra parte, uma reação mais ampla contra qualquer espécie de determinismo.

Foi realmente um historiador da geração de Braudel que despertou a atenção pública para a história das mentalidades, através de um livro notável, quase sensacional, publicado em 1960. Philippe Ariès era um historiador diletante, “um historiador domingueiro”, como ele próprio se chamava, que trabalhava num instituto de frutos tropicais, devotando seu tempo de lazer à pesquisa histórica. Demógrafo histórico por formação, Ariès veio a rejeitar a perspectiva quantitativa (da mesma maneira que rejeitou outros aspectos do mundo burocrático-industrial moderno). Seus interesses direcionaram-se para a relação entre natureza e cultura, para as formas pelas quais uma cultura vê e classifica fenômenos naturais tais como a infância e a morte.

Em seu estudo sobre as famílias e as escolas durante o antigo regime, Ariès defende que a idéia de infância, ou, mais exatamente, que o sentimento da infância, não existia na Idade Média. O grupo etário que chamamos de “crianças” era visto, mais ou menos, como

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animais até a idade de sete anos e quase que como uma miniatura dos adultos daí em diante. A infância, de acordo com Ariès, foi descoberta na França, na altura do século XVII. Foi por esse tempo que, por exemplo, roupas especiais eram destinadas às crianças, como a “robe” para meninos. Cartas e diários do período documentam o interesse crescente dos adultos no comportamento das crianças, que tentavam, algumas vezes, reproduzir a fala infantil. Baseou-se também em registros iconográficos, como o crescente número de quadros de crianças, para ilustrar a hipótese de que a consciência da infância como uma fase do desenvolvimento humano retroage ao limiar dos tempos modernos-não vai além (Ariès, 1960).

LEnfant et la vie fanúliale sous lAncien Regime é um livro polêmico e foi mesmo criticado por muitos historiadores, justa e injustamente. Especialistas na Idade Média encontraram evidências contra suas generalizações excessivas sobre o período. Outros historiadores criticaram Ariès por estudar a evolução européia, apoiando-se tão somente em evidências quase que exclusivamente limitadas à França, e por não distinguir com mais clareza entre as atitudes dos homens e das mulheres, das elites e do povo comum[3]. Pelo sim, pelo não, foi uma contribuição de Ariès colocar a infância no mapa histórico, inspirar centenas de estudos sobre a história da criança em diferentes regiões e períodos, e chamar a atenção de psicólogos e pediatras para a nova história.

Seus últimos anos foram dedicados a estudos sobre as atitudes perante a morte, focalizando de novo um fenômeno da natureza refratado pela cultura, a cultura ocidental, e atendendo a um famoso reclamo de Lucien Febvre, em 1941, “Nós não possuímos uma história da morte” (Febvre, 1973, p. 24). Seu alentado livro, LHomme devant la mort, distingue, num panorama de seu desenvolvimento sob uma muito longa duração, quase mil anos, uma seqüência de cinco atitudes, que vão desde a “morte domada” da baixa Idade Média, uma visão definida com um “compósito de indiferença, resignação, familiaridade e ausência de privacidade”, ao que ele chama “morte invisível” (la mort inversée), de nossa própria cultura, na qual, subvertendo as práticas vitorianas, tratamos a morte como um tabu e discutimos abertamente

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o sexo (Ariès, 1977). LHomme devant la mort tem os mesmos méritos e defeitos do livro LEnfant et la vie familiale sous lAncien Regime. Nele se encontram a mesma audácia e a mesma originalidade, o mesmo uso de uma ampla variedade de evidências, que inclui literatura e arte, mas não a estatística, e a mesma vontade de não traçar cartas regionais ou sociais de diferenças[4].

O livro de Philippe Ariès foi particularmente um desafio aos demógrafos históricos; um desafio ao qual alguns deles responderam dando maior atenção ao papel dos valores e das “mentalidades” no “comportamento demográfica”; em outras palavras, pelo estudo da família, da sexualidade e, como desejava Febvre, da história do amor. A figura central desse desdobramento é Jean-Louis Flandrin, cujos estudos sobre o antigo regime francês direcionaram-se para questões tais como a natureza da autoridade paterna, atitudes em relação às crianças, a influência do ensino religioso sobre a sexualidade e sobre a vida emocional dos camponeses (Flandrin, 1976). Os estudos nessa área muito contribuiram para estabelecer uma ponte entre a história das mentalidades baseada em fontes literárias (por exemplo, o Rabelais de Febvre) e a história social, que negligenciava o estudo de valores e atitudes.

No interior do grupo dos Annales, alguns historiadores sempre estiveram envolvidos prioritariamente com os fenômenos culturais. Tome-se o exemplo de Alphonse Dupront, um historiador da geração de Braudel, não muito conhecido, mas cuja influência sobre a nova geração foi considerável[5]. Desse ponto de vista, ele pode ser considerado o Labrousse da história cultural. Sua tese doutoral, que despertou uma atenção favorável de Braudel por sua preocupação com as atitudes inconscientes, analisava a idéia da “cruzada” como uma instância da sacralização, uma guerra santa para a conquista dos lugares sagrados Braudel, 1969, pp. 32,57). Mais recentemente, voltou a sua atenção para a peregrinação, interpretada como uma busca do sagrado e um exemplo da “sensibilidade coletiva” em relação a lugares de poder cósmico como Lurdes ou Rocamadour. Seu interesse pelos espaços sagrados inspirou alguns de seus discípulos a investigar as

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mudanças nos projetos arquitetônicos das igrejas e o significado simbólico dessas mudanças. Combina seu interesse pelos grandes temas – como o sagrado – com uma grande precisão no inventário ou na cartografia das (ditas) imagens miraculosas. Dupront tem trabalhado, durante toda a sua carreira, no sentido de relacionar a história da religião com a psicologia, sociologia e com a antropologia (Dupront, 1961, 1965,1974,1987).

A figura principal na psicologia histórica à la Febvre foi o falecido Robert Mandrou (Joutard/Lecuir, 1985). Logo após a morte de Febvre, Mandrou encontrou entre seus papéis um arquivo contendo notas sobre um livro não escrito, que deveria ter sido a continuação do Rabelais, sobre o nascimento da mentalidade moderna francesa. Decidiu prosseguir a obra de seu mestre e publicou sua Introduction à la France Moderne, com o subtítulo “Um ensaio em psicologia histórica – 1500-1640”, em que incluía capítulos sobre saúde, emoções e mentalidades (Mandrou, 1961). Logo depois da publicação desse livro, ocorreu a ruptura entre Braudel e Mandrou. Quaisquer que tenham sido as razões pessoais, a ruptura se produziu no decorrer de um debate sobre o futuro do movimento dos Annales. Nessa discussão, Braudel defendeu a inovação, enquanto Mandrou preferia a herança de Febvre, o que ele chamava “o estilo original” ( Annales première manière), em que a psicologia histórica ou a história das mentalidades desempenhavam um papel importante.

Mandrou prosseguiu em sua abordagem com a publicação de um livro sobre a cultura popular nos séculos XVII e XVIII e, depois, com um estudo sobre Magistrats et sorciers en France au XVII e siècle com o subtítulo “Uma análise de psicologia histórica” (Mandrou, 1968). Ambos os temas, bruxaria e cultura popular, rapidamente atraíram, na época, um interesse histórico crescente. Jean Delumeau, que iniciara a carreira como historiador socioeconômico, transferiu suas preocupações com a produção de alumem nos estados papais para os problemas da história da cultura. Sua primeira tentativa foi no sentido da história da Reforma e da denominada “descristianização” da Europa. Mais recentemente, Delumeau voltou-se para a psicologia histórica, no sentido febvriano do termo, e escreveu uma ambiciosa história do medo e da culpa no Ocidente, discriminando “os medos da maioria (o mar, fantasmas, pragas e fome) dos medos da “cultura dominante” (satã, judeus, mulheres – principalmente feiticeiras).

Psico-História Delumeau utilizou, ocasionalmente, as idéias de psicanalistas como Wilhelm Reich e Erich Fromm. Havia sido precedido nesse sentido por Le Roy Ladurie, cujo Les paysans de Languedoc (1966), analisado no capítulo anterior, incluía livros de Freud na bibliografia, espremidos entre um estudo dos preços do trigo em Toulose e uma análise da estrutura de classes no início da sociedade moderna. Le Roy descreveu o carnaval de Romans como um psicodrama, “que dava acesso imediato a criações do inconsciente”, tais como fantasias de canibalismo, e interpretou as convulsões proféticas dos camisards em termos de histeria. Ele foi, porém, o primeiro a admitir: “Cavalier e Mazel (os líderes da revolta), não podem deitar-se no divã de um hipotético historiador psicanalista. Podem-se apenas neles observar certos traços evidentes que geralmente encontramos em casos de histeria semelhantes” (Le Roy Ladurie, 1966, pp.196, 284). De maneira semelhante, Le Roy observa um aspecto antes negligenciado nos julgamentos por feitiçaria: a acusação de que feiticeiras tornavam sua vítima impotente fazendo um nó durante a cerimônia do casamento, um ritual que interpretou persuasivamente como uma castração simbólica (Le Roy Laurie, 1978, cap. 3).

Outros membros do grupo dos Annales iam na mesma direção, especialmente Alain Besançon, um especialista na Rússia do século XIX, que escreveu um longo ensaio na revista sobre as possibilidades do que ele denominava “história psicanalítica”. Tentou pôr em prática essas possibilidades num estudo sobre pais e filhos. O estudo focalizava dois tzares, Ivã, o Terrível, e Pedro, o Grande, o primeiro matou seu filho, e o segundo condenou o seu à morte (Besançon, 1968, 1971).

Lucien Febvre tomou emprestadas suas idéias sobre a psicologia de Blondel e Wallon. Besançon, Le Roy Ladurie e Delumeau tomaram suas idéias principalmente de Freud, dos freudianos ou neofreudianos. O estilo americano de psico-história, orientado no sentido do estudo de indivíduos, finalmente encontrou a psicologia histórica francesa, dirigida no sentido do estudo de grupos, embora as duas correntes não se tenham fundido numa síntese.

Ideologias e Imaginário Social Contudo, a tendência principal la numa direção diferente. Dois dos mais destacados historiadores recrutados para a história das mentalidades, no início dos anos 60, foram os medievalistas Jacques Le Goff e Georges Duby. Le Goff, por

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exemplo, publicou um famoso artigo em 1960 sobre “O tempo dos mercadores e o tempo da Igreja na Idade Média” (Le Goff, 1977,29-42). Em seu estudo sobre o problema do ateísmo no século XVI, Febvre havia analisado o que chamara de o “flutuante” ou “impreciso” sentido de tempo de um período em que as pessoas freqüentemente desconheciam a própria idade e mediam seu dia não pelo relógio, mas pelo sol (Febvre, 1942, pp. 393-9). Le Goff sofisticou as generalizações de Febvre, elas mesmas um pouco imprecisas, e discutiu o conflito entre as concepções do clero e as dos mercadores.

Sua contribuição mais substancial, contudo, para a história das mentalidades, ou à história do “imaginário medieval”, como agora denomina, foi realizada vinte anos depois com a publicação do La naissance du Purgatoire, uma história das mudanças das representações da vida depois da morte. Segundo Le Goff, o nascimento da idéia de Purgatório fazia parte da “transformação do cristianismo feudal”, havendo conexões entre as mudanças intelectuais e as sociais. Ao mesmo tempo, insistia na “mediação” de “estruturas mentais”, de “hábitos de pensamento”, ou de “aparatos intelectuais”, em outras palavras, de mentalidades, observando que, nos séculos XII e XIII, surgiram novas atitudes em relação ao tempo, espaço e número, inclusive o que ele chamava do “livro contábil da vida depois da morte”[6].

No que concerne a Georges Duby, ele fez sua reputação como um historiador social e econômico da França Medieval. Sua tese, publicada em 1953, teve como tema a sociedade na região de Macon. Em seguida, publicou um substancial trabalho de síntese sobre a economia rural do Ocidente medieval. Ambos os estudos seguem de perto a tradição estabelecida pelos livros de Bloch La societé feudal e Les caracteres originaux de lhistoire rurale française . Na década de 60, como seus interesses moveram-se gradualmente em direção à história das mentalidades, colaborou com Mandrou em sua história cultural da França. Posteriormente, foi além de Bloch e do estilo original dos Annales. Inspirado em parte na teoria social neomarxista, preocupou-se com a história das ideologias, da reprodução cultural e do imaginário social, que procura combinar com a história das men-

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talidades. Seu mais importante livro, Les trois ordres, em muitos aspectos, caminha paralelamente ao livro de Le Goff, O Purgatório. Sua investigação recai sobre o que autor denomina “as relações entre o mental e o material no decorrer da mudança social, através do estudo de caso, a saber, o da representação coletiva da sociedade dividida em três grupos, padres, cavaleiros e camponeses, isto é, os que rezam, os que guerreiam e os que trabalham (ou lavram – o verbo latino laborare é convenientemente ambíguo).

Duby está perfeitamente ciente de que, como o grande historiador clássico Georges Dumézil havia assinalado, essa concepção de sociedade formada de três grupos que exercem as três funções básicas, está entranhada na tradição Indo-Européia e pode ser encontrada desde a antiga índia à Gália dos tempos de César. Duby mostra, tal como os medievalistas haviam feito antes, que essa imagem de três ordens tem a função de legitimar a exploração dos camponeses por seus senhores, sugerindo que cada um desses grupos serve a sociedade de maneira diversa. Sua análise, porém, não pára aí. O que lhe interessa é saber a razão pela qual é reativada essa concepção tripartite da sociedade, de Wessex à Polônia, e do nono século em diante, através de uma longa discussão do contexto sócio-político desse ressurgimento, especialmente na França, onde a imagem ressuscitou no início do século XI.

Duby sugere que a reativação da imagem corresponde a uma nova necessidade. Numa época de crise política, como por exemplo na França do século XI, foi uma “arma” nas mãos dos monarcas, que proclamavam concentrar em sua própria pessoa as três funções básicas. Latente na “mentalidade” da época, esse sistema intelectual foi concretizado como ideologia com finalidades políticas. Ideologia, observa Duby, não é um reflexo passivo da sociedade, mas um projeto para agir sobre ela (Duby, 1978).

A concepção de ideologia de Duby não está longe da de Louis Althusser, que a definiu, um dia, como “a relação imaginária dos indivíduos com as condições reais de sua existência”[7]. De maneira similar à de Duby, um especialista em século XVIII, Michel Vovelle, fez uma séria tentativa de fundir a história das mentalidades coletivas,

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no estilo de Febvre ou Lefebvre, com a história das ideologias marxista (Vovelle, 1982, especialmente, 5-17).

Não é tão surpreendente encontrar contribuições importantes à história das mentalidades feitas por medievalistas como Duby e Le Goff. A distância temporal que nos separa da Idade Média, sua “alteridade”, coloca problemas que uma abordagem desse tipo auxilia resolver. Por outro lado, os tipos de fontes que restaram da Idade Média não são menos aceitáveis para uma outra das novas abordagens da cultura, a história serial.

II – O “TERCEIRO NÍVEL” DA HISTÓRIA SERIAL

A história das mentalidades não foi marginalizada nos Annales, em sua segunda geração, apenas porque Braudel não tinha interesse nela. Existiram pelo menos, duas outras razões mais importantes para essa marginalização. Em primeiro lugar, um bom número de historiadores franceses acreditava, ou pelo menos pressupunha, que a história social e econômica era mais importante, ou mais fundamental, do que outros aspectos do passado. Em segundo lugar, a nova abordagem quantitativa, analisada no capítulo anterior, não encontrava no estudo das mentalidades o mesmo tipo de sustentação oferecido pela estrutura socioeconômica.

A abordagem quantitativa ou serial segue as linhas definidas por Chaunu, num manifesto bastante conhecido em favor do que denomina (seguindo uma observação feita por Ernest Labrousse) “o quantitativo no terceiro nível” (Chaunu, 1973). O artigo de Lucien Febvre, “Amiens, da Renascença à Contra-Reforma”, publicado nos Annales em 1941, mostra a importância do estudo das séries de documentos (no caso, inventários post mortem), na longa duração, a fim de mapear mudanças de atitudes e mesmo no gosto artístico (Febvre, 1973, p. 193-207). Observe-se, contudo, que Febvre não oferecia a seus leitores estatísticas precisas. A abordagem estatística foi desenvolvida para estudar a história da prática religiosa, a história do livro e a história da alfabetização. Espraiou-se, algum tempo depois, para outros domínios históricos.

A idéia de uma história da prática religiosa francesa , ou de uma sociologia retrospectiva do catolicismo francês, baseada em

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estatísticas da freqüência à comunhão, das vocações religiosas etc., remonta a Gabriel Le Bras, que publicou um artigo sobre o tema, em 1931 (Le Bras, 1931). Le Bras, um sacerdote católico de fora também colega de Febvre e Bloch em Estrasburgo, tinha um grande interesse em teologia, história, legislação e sociologia. Criou uma escola de historiadores da Igreja e sociólogos da religião, que estavam particularmente preocupados com o que chamavam de “descristianização” da França do final do século XVIII em diante, investigando a questão através de métodos quantitativos.

Le Bras e seus seguidores não pertenceram ao grupo dos Annales-eram geralmente padres e possuíam seus próprios centros e revistas, tais como a Revue de lhistoire de léglise de France. Contudo, o trabalho de Le Bras (vivamente acolhido por seu antigo colega Lucien Febvre) e de seus seguidores era claramente inspirado pelos Annales[8]. Pode-se tomar como um exemplo desse substancial corpo de trabalho a tese sobre a diocese de La Rochelle, nos séculos XVII e XVIII. É estruturada de maneira muito próxima de um dos estudos regionais associados aos Annales, iniciando-se pela descrição geográfica da diocese, passa pela discussão da situação religiosa e finaliza com os acontecimentos e tendências de 1648 a 1724. A utilização dos métodos quantitativos lembra também as monografias regionais dos discípulos de Braudel e Labrousse[9].

Por seu lado, a obra do círculo de Le Bras (como o de Ariès) inspirou alguns historiadores dos Annales quando se elevaram do porão ao sótão. Estudos regionais mais recentes sobre Anjou, Provença, Avignon e Bretanha dedicaram-se mais fortemente à cultura do que seus predecessores, e, em particular, às atitudes diante da morte. Como escreveu Le Goff no prefácio de um desses estudos, “a morte está na moda” (Lebrun, 1971; Vovelle, 1973; Chiffoleau, 1980; Croix, 1983).

O mais original desses trabalhos é o de Vovelle. Um historiador marxista da Revolução Francesa, “formado na escola de Ernest Labrousse”, como ele próprio diz, Vovelle interessou-se pelo problema da “descristianização”. Sua idéia foi a de tentar mensurar esse processo pelo estudo das atitudes diante da morte e o além tal como são

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reveladas nos testamentos. O resultado, consubstanciado em sua tese doutoral, foi um estudo da Provença fundamentado na análise sistemática de cerca de 30.000 testamentos. Onde historiadores anteriores haviam justaposto evidências quantitativas sobre mortalidade com evidências mais literárias sobre as atitudes frente a morte, Vovelle quis mensurar mudanças no pensamento e no sentimento. Deu atenção, por exemplo, às referências feitas à proteção dos santos padroeiros; ao número de missas que o testador encomenda para a salvação de sua alma; aos arranjos feitos para os funerais e mesmo ao peso das velas acendidas durante a cerimônia.

Vovelle identificou uma mudança bastante significativa no que denominou de “pompa barroca” dos funerais do século XVII para a singeleza dos funerais do século XVIII. Sua principal pressuposição era a de que a linguagem dos testamentos refletia “o sistema de representações coletivas; sua conclusão mais importante foi a identificação de tendências à secularização, sugerindo que a “descris- tianização” nos anos da Revolução Francesa foi espontânea e não imposta de cima, por fazer parte de uma tendência mais ampla. Digna de nota é a maneira pela qual Vovelle mapeia a expansão das novas atitudes da nobreza para com os artesãos e camponeses, das grandes cidades, como Aix, Marselha e Toulon, através de pequenas cidades, Barcelonette, por exemplo, para as pequenas vilas. Sua argumentação era ilustrada com uma grande quantidade de mapas, gráficos e tabelas.

Piété baroque et Dechristianisation, título do estudo de Vovelle, produziu uma certa sensação intelectual, graças particularmente ao uso virtuoso das estatísticas, acompanhado de um agudo senso das dificuldades em interpreta-las. Foi esse livro que levou Chaunu a organizar uma investigação coletiva sobre as atitudes diante da morte na Paris do início da época moderna, utilizando métodos semelhantes (Chaunu, 1978b)[10]. O que Ariès vinha realizando sozinho no campo da história da morte, em seu estilo deliberadamente impressionista, foi assim completado por pesquisas coletivas e quantitativas de profissionais”[11].

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Essa apropriação da vida depois da morte por historiadores laicos, armados de computadores, é ainda o mais notável exemplo da história serial de terceiro nível. Outros historiadores da cultura, porém, utilizaram de maneira eficiente os métodos quantitativos, especialmente na história da alfabetização e na história do livro.

O estudo da alfabetização é um outro campo da história cultural que conduz à pesquisa coletiva e à análise estatística. De fato, um diretor de escola francês levou a cabo pesquisas nessa área, no período da década de 1870, utilizando como fonte, assinaturas em registros de casamento o que o levou a notar profundas diferenças nos vários departamentos, bem como o crescimento da alfabetização a partir do século XVII. Na década de 50, dois historiadores reanalisaram seus dados e apresentaram, sob a forma de mapas cartográficos, o dramático contraste entre duas Franças, separadas por um linha que ia de St. Malo a Genebra. Na parte nordeste dessa linha, a alfabetização era relativamente elevada, enquanto na parte sudoeste era baixa (Fleury/Valmary, 1957).

O projeto mais importante nesse campo, iniciado na década de 70, foi levado a efeito na École des Hautes Études, dirigido por François Furet – um discípulo de Ernest Labrousse, que havia trabalhado antes sobre a análise quantitativa das estruturas sociais – e Jacques Ozouf. O tema do projeto era a mudança dos níveis de alfabetização, na França do século XVI ao XIX (Furet e Ozouf, 1977). Os pesquisadores utilizaram fontes mais variadas, do recenseamento às estatísticas do exército sobre os conscritos, o que os habilitava antes a afirmar do que a presumir a correlação entre a habilidade de assinar o próprio nome à capacidade de ler e escrever. Confirmaram a tradicional divisão entre duas Franças, mas sofisticaram a análise estabelecendo distinções dentro das regiões. Entre outras conclusões interessantes, notaram que, no século XVIII, a alfabetização cresceu mais rapidamente entre as mulheres do que entre os homens.

As pesquisas sobre a alfabetização foram acompanhadas de pesquisas sobre o que os franceses chamam de “a história do livro”. Pesquisas que não se preocupavam com os grandes livros, mas com as tendências da sua produção e com os hábitos de leitura dos diferentes grupos sociais (Roche/Chartier, 1974). O estudo de cultura popular de Robert Mandrou, já mencionado anteriormente, por exemplo, lidava

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com literatura de Cordel, a chamada “Biblioteca Azul” (Mandrou, 1964)[12]. Tais livros, que custavam um ou dois sous, eram distribuídos por mascates e produzidos em grande parte por famílias de impressores em Troyes, localizada na região Nordeste da França, onde a taxa de alfabetização era elevada. Mandrou examinou cerca de 450 títulos, assinalando a importância da leitura religiosa (120 .títulos), almanaques e mesmo romances de cavalaria. Concluiu que essa literatura era essencialmente uma “literatura de evasão”, lida especialmente pelos camponeses e que revelava uma mentalidade “conformista”. Estas duas últimas conclusões foram contestadas por outros pesquisadores que trabalharam no mesmo assunto.

Ao mesmo tempo que Mandrou, a VI Seção lançou um projeto de pesquisa coletiva sobre a história social do livro no século XVIII francês (Bolléme, 1965). A figura-chave da história do livro, porém, é um outro colaborador de Febvre, Henri-Jean Martin, da Biblioteca Nacional. Martin colaborara com Febvre na elaboração de um levantamento geral da invenção e expansão da impressão, LApparition du livre, 1958. Prosseguiu seu trabalho escrevendo um rigoroso estudo quantitativo sobre o comércio do livro e o público leitor do século XVII francês, no qual analisava não somente as tendências da produção do livro, mas também as mudanças no gosto dos diferentes grupos de leitores, especificamente os magistrados do parlamento de Paris, tais como são reveladas, em suas bibliotecas particulares, pela proporção dos livros em diversas áreas (Martin, 1969). Daí em diante, Martin dirigiu um maciço trabalho coletivo sobre a história do livro na França (Martin e Chartier, 1983-86).

Um dos principais colaboradores nessas empresas coletivas, Daniel Roche, organizou um grupo de pesquisa próprio, em meados da década de 70, para estudar a vida cotidiana do povo comum na Paris do século XVIII. No livro que se seguiu à pesquisa coletiva, Le peuple de Paris, um capítulo substancial foi dedicado à literatura popular, concluindo que ler e escrever desempenhava um papel importante na vida de alguns grupos no interior das classes inferiores, os criados em especial (Roche, 1981, cap. 7). O lado mais surpreendente do livro, contudo, é a localização dessa análise da leitura no interior da estrutura

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de um estudo da cultura material do parisiense comum. Esse é um estudo de história serial, baseado essencialmente em inventários post mortem, repletos de detalhes sobre as roupas e os móveis do defunto, detalhes que Roche interpreta com grande habilidade, visando construir um retrato da vida cotidiana. Ainda recentemente, escreveu uma história social do vestuário do início da França moderna, de novo mesclando seus interesses pela antropologia histórica, característica da terceira geração, com os mais rigorosos métodos do seu antigo mestre Labrousse (Roche, 1989).

III – REAÇÕES: ANTROPOLOGIA, POLÍTICA E NARRATIVA

A abordagem quantitativa da história em geral, ou da história cultural em particular, pode ser criticada, obviamente, como reducionista. De maneira geral, o que pode ser medido não é o que importa. Os historiadores quantitativos podem contar as assinaturas nos registros de casamentos, os livros em bibliotecas particulares, os que comungam na Páscoa, as referências ao juízo divino, etc. O problema que permanece é o de saber se essas estatísticas são indicadores seguros de alfabetização, de religiosidade, ou de qualquer coisa que o historiador queira investigar. Alguns historiadores levantaram dúvidas quanto à validade desses números, outros aceitaram-na. Alguns fizeram uso de outros tipos de evidência para tornarem suas estatísticas significativas; outros não. Alguns assinalaram que tratavam de pessoas reais, outros esqueceram esse fato. Qualquer avaliação do movimento necessita discriminar a mais modesta e a mais calorosa defesa do método, e também as formas de aplicação, umas cruamente, outras com fineza.

No final da década de 70, os inconvenientes dessa espécie de história tornaram-se visíveis. De fato, houve algo como que uma reação negativa indiscriminada contra a abordagem quantitativa. Ao mesmo tempo se formava uma reação contrária ao que os Annales defendiam, especialmente contra o domínio da história estrutural e social. Olhando para o lado positivo dessas reações, podemos distinguir três correntes: uma mudança antropológica, um retorno à política e um ressurgimento da narrativa.

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A viragem antropológica A viragem antropológica pode ser descrita, com mais exatidão, como uma mudança em direção à antropologia cultural ou “simbólica”. Afinal de contas, Bloch e Febvre leram o seu Frazer e seu Lévy-Bruhl e usaram essas leituras em suas obras sobre a mentalidade medieval e seiscentista. Braudel era familiarizado com a obra de Marcel Mauss, que fundamenta sua discussão sobre fronteiras e intercâmbios culturais. Na década de 60, Duby utilizara os trabalhos de Mauss e Malinowski sobre a função dos presentes, a fim de entender a história econômica da baixa Idade Média (Duby, 1973).

Tudo o que os historiadores anteriores pareciam desejar de sua disciplina vizinha era a oportunidade de sobrevoá-la, de tempos em tempos, em busca de novos conceitos. Alguns historiadores das décadas de 70 e 80, contudo, demonstraram intenções mais sérias. Podiam mesmo pensar em termos de casamento, em outras palavras em termos de “antropologia histórica” ou de “etno-história” (Burguiére, 1978).

Mas o que mais atraía esses historiadores era a nova “antropologia simbólica”. Os nomes que surgem em suas notas de rodapé incluem Erving Goffman e Victor Turner (que realçam os aspectos dramáticos da vida cotidiana), Pierre Bourdieu e Michel de Certeau. Bourdieu, que havia trocado os estudos antropológicos da Argélia pela sociologia da França contemporânea, exerceu influência em diversos aspectos. Suas idéias sobre a sociologia da educação (uma de suas principais áreas de interesse), especificamente a idéia da educação como um instrumento de “reprodução social”, lastreou estudos recentes sobre a história social das escolas e da universidades (Bourdieu, 1970; Chartier, Compére e Julia, 1976). Seu conceito de “capital simbólico” fundamenta alguns trabalhos recentes sobre a história do consumo ostensivo. Historiadores de mentalidades, cultura popular e da vida cotidiana, todos aprenderam com a “teoria da prática” de Bourdieu. A substituição da idéia de “regras sociais” (que considera muito rígida e determinista) por conceitos mais flexíveis como “estratégia” e “habitus” afetou de tal maneira a prática dos historiadores franceses que seria ilusório reduzi-la a exemplos específicos, como as estratégias matrimoniais dos nobres na Idade Média (Bourdieu, 1972).

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Outra influência ampla é a do falecido Michel de Certeau, um jesuíta especialista na história da religião. Contudo, era impossível atá-lo a uma única disciplina. Foi, entre outras coisas, psicanalista, e sua análise dos casos de possessão diabólica durante o século XVII, original e importante (De Certeau, 1975, caps. 6 e 8). Mais influentes, porém, foram suas contribuições em outros três campos. Juntamente com dois historiadores do grupo dos Annales, escreveu um estudo pioneiro sobre a política da linguagem, analisando pesquisa sobre dialetos locais, realizada durante a Revolução Francesa pelo abade Gregoire, a qual refletia o desejo do regime revolucionário por uniformidade e centralização (De Certeau, Revel e Julia, 1975). Organizou também um estudo coletivo sobre a vida cotidiana contemporânea francesa, em que rejeitou o mito do consumidor passivo e enfatizou o que denominou “o consumo como produção”; em outras palavras, a criatividade do povo comum em adaptar os produtos fabricados em série (dos móveis aos dramas televisivos) às suas necessidades pessoais (De Certeau, 1980). O mais importante de tudo, talvez, sejam seus ensaios sobre a escrita da história, concentrando-se sobre o processo que descreve como a construção do “outro” (os índios do Brasil, por exemplo), freqüentemente como o inverso da imagem que o escritor tem de si mesmo (De Certeau, 1975).

As idéias de Goffman, Turner, Bourdieu, De Certeau e outros foram adotadas, adaptadas e utilizadas para construir uma história mais antropológica. Jacques Le Goff, por exemplo, vem trabalhando há mais de vinte anos no que pode ser descrito como antropologia cultural da Idade Média, indo da análise estrutural das lendas ao estudo dos gestos simbólicos da vida social, especialmente o rito da vassalagem (Le Goff, 1977, pp. 225-87, conf. Schmitt, 1984). Emmanuel Le Roy Ladurie foi na mesma direção numa série de estudos, dos quais o mais famoso, de longe, é o seu Montaillou (1975).

Montaillou é uma aldeia em Ariége, sudoeste da França, região em que a heresia cátara teve influência considerável, em princípios do século XIV. Os heréticos locais foram processados, interrogados e punidos pelo bispo local, Jacques Fournier. Os registros dos interrogatórios sobreviveram e foram publicados em 1965. Foi, sem dúvida, o interesse de Le Roy pela antropologia social que lhe permitiu ver o valor dessa fonte, não somente para o estudo dos cátaros, mas também

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para a história rural francesa. Ele notou que vinte e cinco indivíduos, cerca de um quarto dos suspeitos arrolados, procediam da mesma aldeia. Sua inspiração foi tratar os registros como se fossem gravações de um conjunto de entrevistas com esses vinte e cinco indivíduos, mais ou menos dez por cento da população da aldeia. Tudo o que tinha de fazer, diz-nos Ladurie, era re-ordenar a informação fornecida aos inquisidores, pelos suspeitos sob a forma de um estudo de comunidade do tipo que os antropólogos escrevem freqüentemente[13]. Dividiu-o em duas partes. A primeira trabalha com a cultura material de Montaillou, as casas, por exemplo, construídas de pedras sem argamassa, permitindo aos vizinhos observar e ouvir uns aos outros, através das fendas. A segunda parte do livro se preocupa com as mentalidades dos aldeões – seu sentido de tempo e espaço, infância e morte, sexualidade, Deus e natureza.

Como Braudel, Le Roy descreve e analisa a cultura e a sociedade mediterrânica, mas não se pode dizer que tenha esquecido o povo nesse livro. O livro atraiu um vasto grupo de leitores e permanece na memória essencialmente porque o autor tem o dom de trazer os indivíduos de volta à vida, desde o gentil, adepto do “amor-livre”, Pierre Maury, “o bom pastor”, até a aristocrata local, a sensual Beatrice des Planissoles, e seu sedutor, o agressivo e autoconf ante padre Pierre Clergue.

Montaillou é também um estudo de história social e cultural ambicioso. Sua originalidade não reside nas questões postas, que, como já vimos, são as questões propostas por duas gerações de historiadores franceses, incluindo Febvre (sobre o ateísmo) e Braudel (sobre a casa), Ariès (sobre a infância), Flandrin (sobre a sexualidade) e tantos outros. Le Roy foi um dos primeiros a usar os registros da inquisição para a reconstrução da vida cotidiana e suas atitudes, mas não estava sozinho nisso. A novidade de sua abordagem está em sua tentativa de escrever um estudo histórico de comunidade no sentido antropológico – não a história de uma aldeia particular, mas o retrato da aldeia, escrita nas palavras dos próprios habitantes, e o retrato de uma sociedade mais ampla, que os aldeãos representam. Montaillou é

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um primeiro exemplo do que viria a se chamar de “micro-história”[14]. Seu autor estudou o mundo através de um grão de areia, ou, em sua própria metáfora, o oceano através de um gota de água.

É precisamente sobre esse ponto que se concentraram algumas das mais sérias críticas ao livro[15]. Montaillou foi atacado, – à parte inexatidões de detalhes – devido ao uso não crítico de sua principal fonte, que Le Roy descreveu, uma vez, como “o testemunho sem intermediário, que traz o camponês sobre si mesmo” (Le. Roy Ladurie, 1975, p. 9). É claro que nada disso ocorria. Os aldeões depunham em occitanês e seus testemunhos eram escritos em latim. Não era uma conversa espontânea sobre si mesmos, mas respostas a questões sob a ameaça de torturas. Os historiadores não podem permitir-se esquecer esses intermediários entre si e os homens e mulheres que estudam.

A segunda crítica importante ao livro – e da abordagem micro-histórica cada vez mais popular que ajudou a inspirar – traz à tona a questão da tipicidade. Nenhuma comunidade é uma ilha, nem mesmo uma aldeia de montanha como Montaillou. Suas conexões com o mundo exterior, tão distante quanto a Catalunha, emergem claramente do próprio livro. O problema permanece: Que unidade maior representa a aldeia? É uma gota de que oceano? Pressupõe-se que é típica de Ariége, do Sul da França, do mundo mediterrânico ou da Idade Média? Apesar de sua experiência prévia com estatísticas, o autor não chega a discutir este problema metodológico crucial. Teria sido pelo fato de que escreveu Montaillou como reação à aridez da história quantitativa?

Como no caso das casas de pedra da própria aldeia, é fácil encontrar fendas no Montaillou. É preciso lembrar acima de tudo o poder do seu autor trazer o passado à vida e também colocar em questão os documentos, lendo-os nas entrelinhas e fazendo-os revelar o que nem mesmo os aldeões sabiam que sabiam. É um brilhante tour de force da imaginação histórica e uma revelação das possibilidades de uma história antropológica.

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Mais paradoxal é a contribuição de Roger Chartier, para esse tipo de história, que é mais conhecido por seu trabalho conjunto com Martin, Roche e outros, sobre a história do livro, discutido no capítulo anterior. Pode parecer estranho descrever um especialista em história da alfabetização como antropólogo histórico, e estou longe de estar seguro de que Chartier aceitaria esse rótulo[16]. Mesmo assim, a força impulsora de seu trabalho vai na mesma direção dos trabalhos recentes em antropologia cultural.

A importância dos ensaios de Chartier está em que exemplificam e discutem uma mudança na abordagem, como ele diz, “da história social da cultura para a história cultural da sociedade”. Isto é, os ensaios sugerem que o que os historiadores anteriores, pertencentes ou não à tradição dos Annales, geralmente aceitavam como estruturas objetivas, devem ser vistas como culturalmente “constituídas” ou “construídas”. A sociedade em si mesma é uma representação coletiva.

Os estudos das mentalidades por Philippe Ariès implicavam que a infância e a morte eram construções culturais, mas na obra de Roger Chartier esse ponto torna-se explícito. Ele opta por estudar não tanto os camponeses ou os vagabundos, mas a imagem que deles têm as classes superiores, imagens do “outro”[17]. Diferentemente de Furet e Ozouf (ver acima), não discute as diferenças objetivas entre a França do nordeste e a do sudoeste, segundo a linha Saint-Malo e Genebra. Ele se concentra na idéia das “duas Franças”, sua história e os efeitos desse estereótipo sobre as políticas governamentais (Chartier, 1988, caps. 5,7,8). Distanciando-se dos chamados fatores “objetivos”, Chartier está de acordo com a antropologia corrente, com os trabalhos recentes sobre “o imaginário” (discutidos acima) e também com o falecido Michel Foucault.

Apesar da crítica de Foucault à idéia de influência, torna-se difícil não utilizar o termo para descrever os efeitos de seus livros sobre os historiadores do grupo dos Annales. Graças a ele, descobriram a história do corpo e os liames entre essa história e a história do poder. Importante também no desenvolvimento intelectual de muitos historiadores da terceira geração foi sua crítica aos historiadores, em

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razão de sua “pobre idéia do real”; em outras palavras, a redução do real ao domínio do social, deixando de fora o pensamento. A recente virada em direção à “história cultural da sociedade”, bem exemplificada em Chartier, deve muito à obra de Foucault[18].

Os estudos de Chartier sobre a história do livro seguem linhas semelhantes e demonstram sua crescente insatisfação com a história das mentalidades e com a história serial do terceiro nível[19]. Seus ensaios sobre a Bibliothèque Bleue, por exemplo, minam a interpretação de Mandrou (discutida anteriormente), por sugerir que essa literatura de Cordel não era lida exclusivamente por camponeses, ou mesmo pelas pessoas comuns. Pelo menos, antes de 1660, os clientes eram geralmente parisienses (Chartier, 1987, p. 257).

Um ponto mais geral enfatizado por Chartier é que é impossível “estabelecer relações exclusivas entre formas culturais específicas e grupos sociais particulares”. Isto claramente torna a história da cultura serial bem mais difícil, se não mesmo impossível. Chartier mudou, portanto, sua atenção, seguindo Pierre Bourdieu e Michel De Certeau, para as “práticas” culturais compartilhadas por vários grupos (Bourdieu, 1972, De Certeau, 1980).

Em sua análise dos folhetos e outros textos, o termo central é “apropriação”. O popular não deve, ele sugere, ser identificado com um corpus particular de textos, objetos, crenças, ou seja o que for. O popular está na “maneira de usar os produtos culturais”, tais como festivais ou matéria impressa. Os ensaios de Chartier estão, portanto, profundamente preocupados com a re-escritura, com as transformações sofridas pelos textos particulares quando adaptados às necessidades do público, ou mais exatamente de públicos sucessivos.

Uma preocupação semelhante com a apropriação e a transformação subjaz a dos mais impressionantes empreendimentos históricos franceses dos últimos anos, a obra coletiva sobre Les lieux de la mémoire, organizada por Pierre Nora, que combina os papéis de historiador e editor (1986). Esses volumes, que discutem temas como a bandeira francesa, a Marselhesa, o Panteão e a imagem do passado tal como é encontrada em enciclopédias e textos escolares, marcam um

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retorno às idéias de Maurice Halbwachs sobre a estrutura social da memória, idéias que haviam inspirado Marc Bloch, mas que tinham sido negligenciadas pelos historiadores posteriores. Em sua preocupação com os usos do passado pelo presente, exemplificam uma abordagem antropológica, uma antropologia reflexiva neste caso, pois os autores são um grupo de historiadores franceses escrevendo sobre a história francesa. Organizados em torno dos temas “da Revolução” e “da Nação”, revelam também um retorno à política.

O retorno à política[20] Talvez a mais conhecida crítica à chamada Escola dos Annales tem sido a sua pressuposta negligência em relação à política, uma crítica que a revista parece confessar por levar em seu título o lema “economias, sociedades, civilizações”, sem mencionar estados. Há de fato alguma razão na crítica, mas é necessário torná-la mais precisa. Febvre e Braudel pouco se preocuparam com a política nacional, o que não ocorreu com um bom número de historiadores proeminentes do grupo, que estiveram envolvidos com a política francesa do pós-guerra, freqüentemente como membros – pelo menos, por um certo tempo – do Partido Comunista. As reminiscências de um deles traçam um quadro vivo das reuniões do partido, as denúncias, as expulsões e as demissões nos anos que se seguiram a 1956[21].

A crítica de negligenciar a política foi, é claro, dirigida contra o trabalho histórico do grupo, mas é necessário nuançar a afirmação. Seria difícil, por exemplo, sustentar esse argumento no caso de Marc Bloch. Seu livro Les Rois Thaumaturges foi escrito como uma contribuição à história das idéias de monarquia. La societé féodale se inicia com um resumo das invasões, sofridas pela Europa Ocidental, de viquingues, mulçumanos e húngaros, e inclui um longo capítulo sobre o feudalismo como uma forma de governo.

No caso de Lucien Febvre, a crítica é mais procedente. Apesar de ter discutido longamente a Revolta dos holandeses, em sua tese sobre Felipe II e o Franco-Condado, posteriormente denunciou com sua costumeira veemência a história política e dedicou-se à história das religiões e das mentalidades. Em Braudel, deve-se notar que a seção

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do Mediterrâneo dedicada às estruturas inclui capítulos sobre impérios e a preparação para a guerra. É a história dos acontecimentos políticos e militares por ele rejeitada em razão de ser a mais superficial espécie de história.

Os estudos regionais dos princípios da França moderna, que levam a chancela dos Annales, geralmente se limitavam à história social e econômica. O livro Beauvais de Goubert é um exemplo óbvio. Todavia ninguém pode classificar Goubert como um historiador não-político. Escreveu um livro sobre Luís XIV e um estudo sobre o antigo regime no qual o segundo volume trata do poder (Goubert, 1966, 1973). Talvez, a região não seja um contexto adequado para o estudo da política do antigo regime. Esse pressuposto talvez tenha impedido que os autores de alguns dos estudos regionais incluíssem um capítulo sobre política. Contudo, a obra do discípulo de Mousnier sobre revolta popular e alguns americanos recentes estudos sobre política regional indicam que esse pressuposto estava errado e que uma esplêndida oportunidade para uma “história total” foi perdida (Bercé, 1974; Pillorget, 1975; Beik, 1985). A exceção óbvia à regra, como vimos, é Le Roy Ladurie, que discute as revoltas no Languedoc (se não mesmo a administração da província), e que produziu alguns ensaios explicitamente políticos (Le Roy Ladurie, 1987).

Os medievalistas do grupo dos Annales estão longe de rejeitar a história política, mesmo quando dedicam maior atenção a outros temas. Georges Duby, que começou como historiador social e econômico, transferindo-se depois para a história das mentalidades, escreveu uma monografia sobre a batalha medieval de Bouvines (será examinada mais adiante). Sua análise da gênese ou da reativação da idéia dos três estados situa a idéia num contexto político, a crise das monarquias francesa e de outros países. Jacques Le Goff considera que a política não é mais a “espinha dorsal” da história, no sentido de que “ela não pode aspirar à autonomia” (Le Goff, 1972). Todavia ele partilha do interesse de Bloch na monarquia sagrada e está, no momento, trabalhando num estudo sobre Luís IX, o conhecido São Luís.

É pouco surpreendente, contudo, saber que os historiadores do grupo dos Annales que mais atenção dedicaram à política, são aqueles preocupados com o que os franceses chamam de “história

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contemporânea”, em outras palavras, com o período que se inicia em 1789. François Furet e Michel Vovelle, que devotaram muito de seu tempo à Revolução Francesa, apesar de seus outros interesses históricos, não podem ser acusados de negligenciar a política. Nem Marc Ferro, historiador da Revolução Russa e da primeira Guerra Mundial. Mas a figura mais destacada neste domínio é certamente Maurice Agulhon.

Agulhon é o autor do livro La République au Village, um estudo do comportamento político do povo comum em Var, Provença, de 1789 a 1851 (Agulhon, 1970). Esse estudo aplica um dos conceitos mais amplos do pensamento marxista, o do desenvolvimento da consciência política. Os anos de 1815 a 1848 são descritos como os anos de preparação, em que os conflitos sobre a usurpação dos direitos comuns (especialmente sobre a madeira florestal) e a “ampliação dos horizontes culturais”, pelo crescimento da alfabetização, encorajaram o desenvolvimento da consciência política na região. Os poucos anos da Segunda República, 1848-51, são apresentados como os anos da “revelação”, em que o povo comum do Var votou pela primeira vez e votou em favor da Esquerda.

Embora o estudo de Agulhon se relacione mais com o interior do que com as cidades, é tentador descrevê-lo como preocupado com “a formação da classe operária da Provença”[22]. O paralelo com Edward Thompson pode ser ampliado. Ambos os historiadores são “abertos”, empíricos e marxistas ecléticos[23]. Ambos estão envolvidos com formas de “sociabilidade”. Thompson analisa sociedades fraternais e seus “ritos de mutualidade” (Thompson, 1963, p.p. 416 ss). Agulhon, graças a quem a palavra sociabilidade é hoje corrente na França, estudou lojas maçônicas e confrarias católicas sob esse ponto de vista, e prosseguiu estudando o “círculo” burguês e os cafés. Ambos levam a cultura a sério. Thompson descreve a tradição do radicalismo popular; Agulhon, charivaris e carnavais, tal como o “carnaval sedicioso” de Vidauban em 1580, porém, significativos como ilustração de opostos, mas complementares, processos de “arcaísmo” e modernização, a de

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“folclorização” da política e a politização do folclore (Agulhon, 1970, pp. 254-60)[24].

No trabalho mais recente de Agulhon, há uma interpenetração igualmente fecunda da história política e da história cultural. Seu Marianne au combat analisa o imaginário republicano francês e seu simbolismo, de 1789 a 1880, focalizando as representações de Marianne, a personificação da República, com ênfase nas mudanças do significado de sua imagem – na cultura popular e na cultura da elite – entre a Revolução e a Comuna (Agulhon, 1979). Seu ensaio no Les lieux de la mémoire segue linhas semelhantes e apresenta o paço municipal do século XIX como uma expressão dos valores republicanos, um texto que os historiadores devem aprender a ler (Nora, 1984, pp. 167-93).

Resumindo. Febvre e Braudel podem não ter ignorado a história política, mas não a tomaram muito a sério. O retorno à política na terceira geração é uma reação contra Braudel e também contra outras formas de determinismo (especialmente o “economismo” marxista). Está associado à redescoberta da importância do agir em oposição à estrutura. Está associado também ao que os americanos denominam “cultura política”, de idéias e de mentalidades. Graças a Foucault, esse retorno se estendeu em direção à “micropolítica”, a luta pelo poder no interior da família, da escola, das fábricas, etc[25]. Em conseqüência dessas mudanças, a história política está em vias de uma renovação[26].

O renascimento da narrativa O retorno à história política está vinculado à reação contra o determinismo, que, como vimos também inspirou a viragem antropológica. A preocupação com a liberdade humana, juntamente com o interesse pela micro-história, fundamenta também o recente renascimento da biografia histórica, fora e dentro dos quadros dos Annales. Georges Duby publicou uma biografia de um cavaleiro medieval inglês, William The Marshal, enquanto Jacques Le Goff está trabalhando sobre a vida de um rei da França, S. Luís. O

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renascimento não é simplesmente um retorno ao passado. A biografia histórica é praticada por diferentes razões e assume formas diferentes. Pode ser um meio de entender a mentalidade de um grupo. Uma dessas formas é a vida de indivíduos mais ou menos comuns, como o burguês Joseph Sec, sobre quem Vovelle escreveu em razão de sua “irresistível ascensão”, ou do artesão parisiense, Jean-Louis Ménétra, estudado por Daniel Roche (Le Goff, 1989; Vovelle, 1976; Roche, 1982).

A volta à política está também ligada ao ressurgimento do interesse na narrativa dos eventos. Os eventos nem sempre são políticos –pense-se na quebra da bolsa de 1929, a grande peste de 1348, ou mesmo na publicação de Guerra e Paz. De todo jeito, discussões sobre história política, história dos eventos e narrativa histórica estão muito interligadas. Paralela ao “retorno à política”, houve recententemente um “renascimento da narrativa” entre os historiadores franceses e de outros países. A frase é de Lawrence Stone, um historiador inglês que atribui a tendência a “uma difundida desilusão com o modelo determinista da explicação marxista”, empregada por historiadores marxistas e dos Annales, e especialmente com o fato de relegarem a cultura à superestrutura ou “terceiro nível” (Stone, 1979). Não há dúvidas de que Stone apontou uma tendência significativa, mas ainda aqui é necessário nuançar.

A rejeição desdenhosa da “história dos eventos” por Durkheim, Simiand e Lacombe já foi discutida na abertura do livro. A ênfase de Febvre na história-problema sugere que ele partilha dessa visão, apesar da importância dada em sua tese doutoral aos eventos da Revolta dos holandeses. Marc Bloch, segundo me consta, jamais censurou a história dos eventos, mas, por outro lado, nunca escreveu história desse tipo.

Quanto a Braudel, tanto denunciou quanto dela se utilizou. Mais precisamente, como já vimos, afirmava que a história dos acontecimentos é a superfície da história. Não disse que essa superfície fosse desinteressante; ao contrário, descreveu-a como “a mais excitante de todas” (Braudel, 1949, p. 21). Contudo, seu interesse residia no que podia revelar de “realidades mais profundas”, as correntes abaixo da superfície. Para Braudel, os acontecimentos eram apenas espelhos que refletiam a história das estruturas. Em seu magnífico estudo sobre o tempo e a narrativa, o filósofo Paul Ricoeur argumentou que todas as obras históricas são narrativas, incluindo O Mediterrâneo de

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Braudel. Sua demonstração das semelhanças existentes entre a história convencional e estrutural (em sua temporalidade, em sua causalidade e em outros aspectos) dificilmente pode ser refutada. Mesmo assim, chamar O Mediterrâneo de uma narrativa histórica é certamente utilizar o termo “narrativa” num sentido tão amplo que perde sua utilidade (Ricoeur, 1983, p. 289 ss).

A maioria das monografias regionais das décadas de 60 e 70 foi mais longe do que Braudel, pois não incluíam narrativa alguma. A exceção foi Les paysans de Languedoc de Le Roy Ladurie, em que, como vimos, as análises estruturais se alternavam com o relato de eventos, especialmente dos protestos: o carnaval de Romans, em 1580, a insurreição de Vivarais, em 1670, a revolta dos camisards, em 1702.

O tratamento dado por Le Roy aos acontecimentos como reações ou respostas a mudanças estruturais não estava longe da perspectiva de Braudel, deles serem espelhos ou negativos que revelam estruturas subterrâneas. Um comentário semelhante pode ser feito em relação a um livro de Georges Duby, publicado em 1973, que poderia ter chocado Febvre, pois não trata apenas de um acontecimento, mas de uma batalha, a de Bouvines, em 27 de julho de 1214. O livro, na verdade, foi escrito para uma velha coleção, intitulada “dias que fizeram a França”, e tinha em vista o grande público. Mesmo assim, Duby não retornou à velha história. Utilizou relatos contemporâneos à batalhas para esclarecer o comportamento medieval em relação à guerra, e tratou as análises posteriores de Bouvines como um “mito”, que revelavam mais os autores do que o que estavam narrando (Duby, 1973).

A questão óbvia que esses estudos não levantam é saber se alguns eventos, afinal, não conseguem modificar as estruturas, ao invés de simplesmente refleti-las. O que dizer dos acontecimentos de 1789 ou de 1917? O sociólogo Émile Durkheim, a quem os críticos da histoire événementielle devem tanto, estava pronto a descartar mesmo 1789 como um sintoma e não como uma causa de mudança social (Giddens, 1977). Há, contudo, sinais de uma mudança dessa posição extrema durkheiminiana ou braudeliana. Por exemplo, o estudo sociológico de uma área na França Oeste, no departamento de Sarthe, defendeu a necessidade de levar em conta os acontecimentos de 1789 e seus desdobramentos em qualquer tentativa de explicar os compor-

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tamentos políticos da região, dividida entre um leste de esquerda e um oeste de direita (Bois, 1960)[27].

Le Roy Ladurie levou em consideração as implicações desse estudo num ensaio em que discutia o que chamava alternadamente de o evento “traumático”, o evento “catalizador” e o “evento matriz”. O uso de metáforas tão divergentes sugere que ainda não estava seguro a respeito da importância dos eventos, e seu artigo não foi mais longe do que recomendar aos historiadores que refletissem sobre a relação entre eventos e estruturas (Le Roy Ladurie, 1973, 111-32). Alguns anos depois, porém, Le Roy retornou ao carnaval de Romans e o transformou no objeto de um livro. Analisou o “evento” como um drama social que tornou manifesto os conflitos latentes na pequena cidade e em seus arredores. Em outras palavras, sintomas, não causas (Le Roy Ladurie, 1973)[28].

É claro que o carnaval de Romans não foi um grande acontecimento. É mais difícil rejeitar como meros reflexos das estruturas sociais os eventos, digamos, de 1789, ou a Grande Guerra de 1914-18, ou a Revolução de 1917 (temas sobre os quais os historiadores dos Annales escreveram)[29]. Num estudo recente, François Furet vai tão longe a ponto de sugerir não somente que os acontecimentos da Revolução romperam as velhas estruturas e deram à França seu “patrimônio” político, mas que uns poucos meses de 1789 foram decisivos (Furet/Halévy, 1989, p. 4).

Uma outra faceta da terceira geração dos Annales merece nossa atenção. O tipo de história que produzem tornou-sé popular na França, em sua época. O Mediterrâneo de Braudel e as obras de Bloch e Febvre não venderam muitos exemplares quando de sua primeira edição. Montaillou, por outro lado, conseguiu ir ao topo da lista de “best-seller” dos livros de não-ficção; sua venda aumentou quando o presidente Mitterand admitiu na televisão que o estava lendo, enquanto que a aldeia foi quase soterrada sob a massa de turistas.

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Montaillou foi um livro escrito no tempo certo e no lugar certo, impulsionado pelas ondas de ecologia e regionalismo, mas o seu sucesso é apenas o exemplo mais espetacular do interesse agora demonstrado pelo público francês pela “História Nova”. Quando a trilogia de Braudel, Civilization et Capitalisme, foi publicada em 1979, recebeu uma atenção bastante diferente na mídia daquela recebida por seus livros anteriores. Alguns membros do grupo dos Annales aparecem regularmente na televisão e em programas de rádio, chegando mesmo a produzi-los, especialmente Georges Duby e Jacques Le Goff. Outros, como Pierre Chaunu, Roger Chartier, Mona Ozouf, Michéle Perrot, escrevem regularmente para jornais e revistas, onde se incluem Le Figaro, Le Monde, LExpress e Le Nouvel Observateur. É difícil pensar outro país, ou outro período, em que tantos historiadores profissionais estivessem tão firmemente ancorados nos meios de comunicação.

Os escritos dos historiadores dos Annales eram volumes enormes, publicados em pequenas edições da Armand Colin (o fiel editor da revista), ou mesmo da École des Hautes Études. Hoje em dia, tomam mais a forma de volumes delgados com grande tiragem, publicados por importantes editoras comerciais, freqüentemente em coleções dirigidas por outros historiadores dos Annales. Na década de 60, Ariès e Mandrou editaram para a Plon uma coleção sobre “Civilizações e Mentalidades”. Agora, Agulhon edita uma coleção de história para Aubier Montaigne, enquanto Duby edita mais de uma para a Seuil, incluindo vários volumes de história sobre a França rural, a França urbana e a vida privada. Um exemplo de uma colaboração mais estreita entre historiadores e editores é dado por Pierre Nora, que leciona na École des Hautes Études e, ao mesmo tempo, trabalha para a Gallimard. Foi ele quem criou a conhecida coleção Bibliothèque des Histoires, que inclui um bom número de estudos feitos por seus colegas.

Não estou sugerindo que a mídia tenha criado a onda de interesse para esse tipo de história, embora possa tê-la encorajado. Produtores e editores devem ter imaginado que havia demanda para a história em geral e, em particular, para a história sociocultural, ao estilo dos Annales. Essa demanda não está restrita a França. É tempo de examinar a acolhida dispensada aos historiadores dos Annales além das fronteiras de seu país e de sua disciplina.



[1] Sobre o odor, ver Corbin, 1982.

[2] Vovelle (1982) admite ter percorrido o mesmo itinerário e observa que a frase foi cunhada por Le Roy Ladurie, antes de ter seguido um roteiro semelhante.

[3] As críticas mais pertinentes estão em Herlihy (1978), pp. 109-31; Hunt (1970), pp. 32-51; e Pollock (1983).

[4] Para um balanço imparcial das contribuições de Ariès, ver McManners (1981), pp. 116ss.

[5] Entre os que assistiram a seus seminários estavam Jean-Louis Flandrin, Dominique Julia, Mona Ozouf e Daniel Roche.

[6] Le Goff, 1981, 227 ss. A frase foi utilizada como título de um ensaio de um de seus discípulos (ver p. 89).

[7] Althusser, 1970. Duby, 1987, p. 119, confessa seu débito em relação a Althusser.

[8] Febvre resenhou o trabalho de Le Bras in Annales, 1943 (1973, 268-75).

[9] Pérouas, 1964. Comparar com a abordagem de Marcilhacy,1964.

[10] Chaunu, 1987, p. 92, admite ter ficado “perturbado” com a tese de Vovelle.

[11] Para uma análise lúcida e judiciosa desse corpo de obras, ver McManners, 1981.

[12] La Bibliothèque Bleue tinha esse nome porque suas capas eram feitas de papel azul, utilizado para empacotar açúcar.

[13] Os modelos de Le Roy incluem Redfield (1930), Wylie (1957) e Pitt-Rivers (1961).

[14] Originariamente um termo italiano, que se aplicou de início ao estudo de Carlo Ginzburg, 1976, sobre a visão de mundo de um moleiro do século XVI, também fundamentado nos registros inquisitoriais.

[15] Entre as mais penetrantes estão as de Davis (1979), Boyle (1981) e Rosaldo (1986).

[16] Em Chartier, 1988, a única discussão extensa sobre a antropologia histórica acontece (durante) de uma crítica a Darnton, 1984.

[17] Conf. De Certeau, 1975, cp. 5, “o espaço do outro”.

[18] 18. Citado por Chartier, 1988, p. 61.

[19] Chartier reuniu seus ensaios em um volume, 1987.

[20] Sobre o “retorno do político, conf. Julliard, 1974

[21] Le Roy Ladurie, 1982. O grupo incluía Agulhon, Besançon, Furet, Labrousse, Le Roy Ladurie e Vovelle.

[22] A impressão seria mais forte se a tese doutoral original não tivesse sido publicada em volumes separados, tendo sido excluído deste volume o estudo sobre Toulon.

[23] Sobre sua mudança em direção ao “ecletismo e o empirismo”, ver Agulhon (1987).

[24] O autor assinala na p. 368 que seu carnaval “não é nem filho nem o irmão mais novo” do carnaval de Romans (ver Le Roy Ladurie. N.T.) Para abordagens semelhantes na França do século dezenove, ver Corbin, 1975, e Perrot, 1974.

[25] Por exemplo, Le Roy Ladurie, 1975.

[26] Sobre “a renovação da história política”, Julliard (1974).

[27] Talvez valha a pena observar que esse estudo principia com uma referência favorável a Febvre e utiliza o método regressivo associado a Bloch.

[28] A frase “drama social” vem do antropólogo Victor Turner, citado por Le Roy Ladurie em seu livro.

[29] Sobre 1917 e 1914-18, ver Ferro, 1967, 1969, enquanto Furet e Vovelle estão entre os mais proeminentes historiadores da Revolução Francesa.

3 comentários:

Edílson Martinez disse...

Professor estou precisando intender bem a escola de anales,
históriadas mentalidades e cultural. Não consegui boa nota e vou fazer prova suplementar, gostaria de uma. ajuda.

perguntas da prova
a. analise a irupção da historia das mentaliddes, seus pressupostos e diversidades conceituais e tamaticos.
b. analise as cr´ticas e o declinio da história das mentalidades e o seu refúgio na historia cultural.

analise as 03 fases dos annales
tesouraria@sebhe.com.br

Rita Bittencourt disse...

Prezado Prof.Josias
Minha tese doutoral trata da historiografia de pessoas com transtorno mental severo na perspectiva de suas vivencias escolares, para tanto necessitarei utilizar alguns de seus preciosos apontamentos, necessito saber onde eu teria a sua publicação ou como posso citá-lo como bvlogger, dentro das normas de referenciação da APA.Meu tempo é exíguo,por favor ,envie a sua resposta o mais rápido possível, para que eu possa utilizar seus apontamentos no meu trabalho doutoral.Obrigada e Parabéns
Rita Bittencourt
Univeridade Del Mar- Chile

Rita Bittencourt disse...

Prezado Prof.Josias
Minha tese doutoral trata da historiografia de pessoas com transtorno mental severo na perspectiva de suas vivencias escolares, para tanto necessitarei utilizar alguns de seus preciosos apontamentos, necessito saber onde eu teria a sua publicação ou como posso citá-lo como bvlogger, dentro das normas de referenciação da APA.Meu tempo é exíguo,por favor ,envie a sua resposta o mais rápido possível, para que eu possa utilizar seus apontamentos no meu trabalho doutoral.Obrigada e Parabéns
Rita Bittencourt
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