domingo, 13 de abril de 2008

I - Uso e abuso da História – M. I. Finley

Uso e abuso da História – M. I. Finley

Título original: THE USE AND ABUSE OF HISTORY

Prefácio

Apesar da diversidade dos temas considerados nestes doze en­saios, todos têm uma preocupação em comum: o lugar (ou usos) do passado, tanto na sociedade científica quanto na vida cultural, passada e presente, e ainda no campo mais restrito da política e da discussão política. A semelhança entre o título de meu segundo en­saio e Considerações Extemporâneas, de Nietzsche, não é casual. Embora nem minha linguagem nem meu pensamento sejam nietzs-cheanos, concordo — e acho importante demonstrar — que o que ele chamou de "história monumental" transforma-se rapidamente em "ficção mítica"; que sem o método do "estudo das antiguida­des" e o método "crítico" para estudar o passado, "o próprio pas­sado está sujeito a erros" e a história, então, "aniquila e degrada a vida".

Alguns ensaios tendem ao programático e ao didático, enquanto outros tratam de assuntos essenciais, de instituições e sociedades par­ticulares, embora mantenham implicitamente a preocupação central. Estes últimos são mais técnicos, mas mesmo eles não pressupõem um conhecimento especializado do mundo antigo.

Todos os ensaios, com exceção de um (nº 6), já foram publica­dos anteriormente. Todos eles foram revisados para este livro, alguns drasticamente, e só em minha aula inaugural (nº 2) mantive a lingua­gem apropriada para a ocasião. Os detalhes bibliográficos e os agra­decimentos encontram-se em notas de rodapé de cada capítulo.

O índice foi gentilmente elaborado pelo sr. Douglas Matthews.

M.I.F.

Jesus College, Cambridge

Junho, 1974

l

Mito, memória e história*

Os pais da história foram os gregos. Os historiadores da Anti­guidade têm muito orgulho disso, tanto que preferem não se lem­brar que algumas das maiores inteligências em história antiga não se impressionaram muito com esse feito. Os cunhadores de bons mots sempre tiveram grande predleção pela história enquanto discipli-na: é falsa, é perigosa, é bobagem. Os historiadores podem ignorar tranqüilamente as zombarias e dúvidas de Walpole ou Henry Ford, ou mesmo de Goethe, mas Aristóteles é outro caso, pois, afinal, criou várias ciências e dominou outras também, de um modo ou de outro — exceto história e economia. Ele não escarneceu da história, ele a rejeitou, nas famosas palavras do nono capítulo de sua Poética: "A poesia é mais filosófica e séria do que a história, pois aquela fala principalmente do universal e a história do particular. Por 'uni­versal' entendo que determinado indivíduo dirá ou fará determina­das coisas segundo a verossimilhança ou a necessidade; esse é o pro­pósito da poesia, acrescentar os devidos nomes às suas personagens. Por 'particular' refiro-me ao que Alcibíades fez e pelo que passou."

Não é de admirar que, dentre todos os capítulos, o nono talvez seja a maior vítima da conhecida "reclamação contra as supostas omissões de Aristóteles" na Poética1. Esta foi tachada de "insufi-

* Uma versão mais curta deste ensaio, publicada em History and Theory 4 (1965) 281-302, foi apresentada na forma de conferência no Warburg Institute, em 28 de outubro de 1964. Agradeço a G. S. Kirk e E. R. Leach pelas críticas e sugestões.

Copyright © 1965 by Wesleyan University; reproduzido com autorização da Wesleyan University Press.


4 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

ciente" e invalidada por engenhosas exegeses, como se Aristóteles fosse um dos filósofos pré-socráticos cujas poucas frases enigmáti­cas que chegaram até nós podem ser ajustadas a mil teorias diferen­tes; ou então, como se não tratasse da história, a Poética foi polida­mente desprezada. Este último argumento, porém, encerra um pe­rigoso elemento de verdade; Aristóteles nunca se ocupou da histó­ria, nem no capítulo nove nem em qualquer outro.

Afora duas referências casuais na Poética e uma recomenda­ção, na Retórica (1360a33-37), de que os líderes políticos deviam am­pliar sua experiência através da leitura de livros sobre viagens e his­tória, ele não torna a mencionar esse assunto em nenhum ponto da vasta obra a nós transmitida. Nada poderia ser mais significativo do que esse profundo silêncio. Indicações do passado, o passado en­quanto fonte de paradigmas é uma coisa; história enquanto estudo sistemático, enquanto disciplina, é outra2. Ela não é séria o bastan­te, não é suficientemente filosófica, nem mesmo quando compara­da à poesia. Não pode ser analisada, reduzida a princípios, sistema­tizada. Ela simplesmente nos diz o que Alcibíades fez ou sofreu. Ela não estabelece verdades. Não tem uma função séria.

Pode-se ir muito mais longe. Todos os filósofos gregos, até o último dos neoplatônicos, estavam evidentemente de acordo quan­-to a sua indiferença para com a história (como disciplina). Pelo me­nos é o que o silêncio deles sugere, um silêncio rompido apenas por murmúrios fugazes. Consta que Teofrasto, o discípulo de Aristóte­les, escreveu uma obra chamada Da História, assim corno seu ami­go mais jovem Praxífanes, outro peripatético. Ninguém sabe mais nada além dos títulos dessas duas obras. Especular sobre seu con­teúdo é perda de tempo. Devemos simplesmente registrar o total de­saparecimento dos dois livros e o fato de que eles não foram men­cionados nem por Diógenes Laércio em seu livro A Vida dos Filó­sofos, por exemplo, nem pelos estudiosos de Aristóteles*.

O que faltou de filosofia sobrou de retórico. É razoável supor que a única obra antiga a nós legada que pretende ser um ensaio sistemático sobre historiografia é Como Escrever História, de Lu-ciano, escrita pouco depois de 165 d.C. Essa obra, uma mistura de regras e máximas que se tornaram lugares-comuns na instrução re-

* Não me esqueci de Posidônio. Mas nem mesmo esse autor de uma obra (per­dida) em larga escala histórica, dentro da tradição retórica, deu a menor contribui­ção ao método histórico, e muito menos à filosofia da história. A considerável im­portância da obra de Posidônio, aumentando o conhecimento greco-romano de ou­tros povos e nações, particularmente aqueles que os romanos estavam conquistando no Oeste, não altera minha proposta geral sobre a história e os filósofos antigos. Veja a respeito A. Momigliano, Alien Wlsdom (Cambridge, 1975), cap. 2.


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 5

tória, é um trabalho inferior, superficial e essencialmente sem va-lor3. Seu único ponto e interesse para nós é que, quinhentos anos depois de Aristóteles, Luciano ainda estava contrapondo a história à poesia. Nessa época, os próprios historiadores já tinham aceitado havia muito tempo a necessidade de competir com a poesia – capi-tulando e escrevendo trabalhos que Políbio rejeitou com o irônico rótulo de “história trágica”4. Muitos historiadores, e, o que é cru­cial, até mesmo os que resistiram mais bravamente, não lograram ven­cer nem a indiferença dos filósofos nem o gosto dos leitores comuns.

Por que poesia? A resposta, naturalmente, é que com "poe­sia" Aristóteles e os outros referiam-se tanto à poesia épica, à re­cente poesia lírica, como a de Píndaro, quanto à tragédia, que re-tratavam as grandes figuras e os grandes acontecimentos do passa­do. Não se tratava de saber se essa poesia era ou não historicamente confiável, ou até que ponto o era, no sentido em que hoje em dia fazemos o mesmo tipo de pergunta em relação aos épicos antigos; tratava-se, isso sim, da questão mais profunda da universalidade, da verdade sobre a vida em geral. A questão, em resumo, era distin­guir mito de história. Por "mito" refiro-me ao que, na acepção co­mum, geralmente significa "mito" e "lenda", e não aos sentidos mais metafóricos, como na expressão "o mito racista", ou às mui-to conhecidas extensões do termo usadas por pensadores modernos como Sorel ou Cassirer5. Refiro-me a mitos como os de Prometeu, Héracles e a Guerra de Tróia.

A atmosfera na qual os pais da história começaram a trabalhar estava impregnada de mitos. Sem o mito, na verdade, eles nunca teriam conseguido iniciar seu trabalho. O passado é uma massa des­conexa e incompreensível de dados incontados e incontáveis. Ele só pode tornar-se inteligível se for feita uma seleção em torno de um ou mais focos. Em todos os infindáveis debates gerados pelo wie es eigentlich gewesen (como as coisas foram realmente), de Ranke, uma primeira pergunta é frequentemente esquecida: que "coisas" merecem ou exigem consideração para se definir como elas "foram realmente"? Muito antes de alguém sequer sonhar com a história, o mito deu uma resposta. Essa era sua função, ou melhor, uma de suas funções: tornar o passado inteligível e compreensível selecio-nando e focalizando algumas partes dele, que, desse modo, adqui­riram permanência, relevância e significado universal6.

Quando Heródoto atingiu a juventude, o passado distante es­tava bastante vivo na consciência dos homens, mais vivo do que os séculos ou as gerações recentes: Édipo, Agamenon e Teseu eram mais reais para os atenienses do século V que qualquer figura história an­terior a esse século salvo Sólon, e este foi elevado à categoria da-


6 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

queles, ao ser transformado em figura mítica. As tragédias e odes corais apresentadas anualmente nas grandes festividades religiosas faziam ressurgir os heróis míticos, e estes, recuando pelas gerações de homens até chegarem aos deuses, recriavam a trama contínua da vida para o público, pois os heróis do passado, e mesmo muitos he­róis do presente, tinham ascendência divina. Tudo isso era sério e verdadeiro, literalmente verdadeiro. Era a base da religião deles, por exemplo. Há uma bela passagem de Robertson Smith que resume o quadro: "Na Grécia antiga... certas coisas eram feitas num tem­plo, e o povo concordava que deixar de fazê-las seria uma heresia. Mas se você tivesse perguntado por que elas eram feitas, provavel­mente teria recebido várias explicações mutuamente contraditórias de pessoas diferentes, e ninguém teria dado a menor importância religiosa a qual delas você resolvesse adotar. Na verdade, as expli­cações apresentadas não teriam sido do tipo a suscitar sentimentos fortes, pois, na maioria dos casos, não passariam de histórias dife­rentes a respeito das circunstâncias em que o rito foi estabelecido pela primeira vez, por determinação ou exemplo direto do deus. O rito, em suma, não estava ligado a um dogma e sim a um mito."7

Os gregos, todavia, amavam os épicos e as tragédias não só por­que precisavam ser lembrados das origens de seus ritos, embora es­sa função fosse muito importante para o indivíduo — e ainda mais para a comunidade, que era arraigada a seus padroeiros e ancestrais divinos. O mito era o grande mestre dos gregos em todas as ques­tões do espírito. Com ele, aprendiam moralidade e conduta; as vir­tudes da nobreza e o inestimável significado ou a ameaça da hybris; e ainda sobre raça, cultura e até mesmo política. Pois não foram Sólon e Pisístrato acusados de falsificar o texto da Ilíada, introdu­zindo dois versos com a finalidade de obterem autorização da obra de Homero para o confisco de Salamina aos megáricos?*

Nesse contexto, não é de surpreender que na Antiguidade a his­tória tenha sido discutida, julgada e avaliada com base na poesia. Fundamentalmente, tratava-se de uma comparação entre duas for­mas de narração do passado. Porém, há uma verdade irrefutável: todos reconheciam que a tradição épica era baseada em fatos con­cretos. Até mesmo Tucídides, que nos diz isso tão logo acaba de se apresentar. A Guerra do Peloponeso, afirma ele, dentre todas as que a precederam, é a que mais merece ser narrada, "pois foi o maior movimento, até hoje, entre os helenos e entre uma parte do mundo bárbaro", maior, especificamente, até mesmo que a Guerra de Tróia.

* Os versos são 2.557-58: "Ájax trouxe doze navios de Salamina e, ao trazê-los, estacionou-os ao lado das fileiras atenienses."


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 7

Tucídides sustenta seu ponto de vista demoradamente, e entre as per­sonagens "históricas" que ele apresenta em sua introdução apare­cem Heleno, filho de Deucalião (o ancestral de cujo nome se origi­nou o dos helenos), Minos, rei de Creta, e Agamenon e Pélops. Os detalhes são vagos, afirma ele, tanto sobre o passado remoto quan­-to sobre o período que antecedeu a Guerra do Peloponeso — um ponto em comum bastante significativo —, mas os esboços gerais são claros e confiáveis8. Homero exagerou, pois, sendo poeta, em­pregou adequadamente a licença poética, e Tucídides, ao contrário da maioria vulgar, reconheceu isso em sua introdução. O próprio Tucídides alerta que em seu trabalho não atenderá aos anseios por exageros e adornos poéticos da parte dos leitores; seu relato dos fa­tos será objetivo. Mas nem Tucídides, Platão, Aristóteles ou qual­quer outro chegaram a mostrar-se totalmente céticos quanto ao que um escritor moderno poderia chamar de "semente histórica do épi­co", e certamente não o rejeitaram por completo.

Contudo, o que quer que tenha sido, o épico não era história, e sim uma narrativa, detalhada e precisa, com descrições minucio­sas de guerras, viagens marítimas, banquetes, funerais e sacrifí­cios, todos muito reais e vívidos; ele podia conter inclusive algumas sementes encobertas do fato histórico — mas não era história. Co­mo todo mito, era atemporal. As datas e um escalonamento coe­rente de datas são tão essenciais para a história quanto a medição exata o é para a física9. O mito também sugeria fatos concretos, mas estes eram completamente isolados: não tinham ligação nem com os acontecimentos anteriores nem com os posteriores. A Ilíada começa com a cólera de Aquiles por causa de uma afronta à sua honra e termina com a morte de Heitor. A Odisséia, como cenário para as viagens de Ulisses, menciona o término da Guerra de Tróia e o retorno de alguns dos heróis. Mas tudo isso acontecia no estilo "era uma vez", surgindo do nada (o rapto de Helena é meramente outro fato isolado, totalmente a-histórico sem qualquer sentido sig­nificativo) e levando a nada. Mesmo dentro da narrativa, o relato é fundamentalmente atemporal, apesar de muitos números (de dias ou anos) serem determinados. "Esses números, em sua maioria, referem-se tipicamente a todas quantidades possíveis, e em geral não estão ligados entre si; não servem de base para cálculos ou sincroni­zações. Simplesmente indicam, de modo amplo, uma magnitude ou escala, e em sua pseudoprecisão estilizada simbolizam uma longa duração. Na realidade, não há interesse na cronologia, quer relati-va quer absoluta."10 Muitos anos depois, os autores de tragédias mantiveram a mesma indiferença: Édipo, Ifigênia, Orestes, todos fizeram ou passaram por coisas que se acreditava serem fatos histó-


8 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

ricos, mas os eventos flutuavam vagamente no passado distante, des­vinculados, em termos de tempo ou padrão, de outros aconteci­mentos.

A atemporalidade reflete-se também nas características indivi­duais. A morte é um dos principais tópicos de suas vidas (bem co­mo a honra, da qual é inseparável), e o destino é freqüentemente o mais importante poder propulsor. Nesse sentido eles vivem no tem­po, e tão-somente nesse sentido. A nenhum leitor da Odisséia deve ter escapado que quando o herói volta, depois de vinte anos, ele e Penélope são exatamente o que haviam sido meia geração antes. Mas Samuel Butler certamente não se deu conta disso, quando escreveu: "Não há nenhum caso de amor na Odisséia, exceto a volta de um homem casado, calvo e idoso, para a esposa idosa e o filho adulto, depois de uma ausência de vinte anos, e furioso por terem-lhe rou­bado tanto dinheiro nesse meio-tempo. Dificilmente, porém, pode­ríamos chamar isso de caso de amor; quando muito, não passa de domesticidade."11

O poeta não diz que Ulisses estava calvo e velho; Butler é quem o diz, e, provavelmente, foi isso que ele chamou de ler os versos homéricos "com inteligência": lendo-lhes as "entrelinhas". Um Ulis­ses que não estivesse calvo e velho depois de vinte anos seria contrá­rio ao senso comum e à "inteligência". O erro - e Samuel Butler é apenas um bode expiatório para uma prática freqüente - está em aplicar o pensamento histórico moderno, à guisa de senso comum, a um relato mítico, a-histórico. Esposas e maridos históricos enve­lhecem, mas a verdade é que nem Ulisses nem Penélope mudaram em nada; não evoluíram nem degeneraram, assim como nenhuma outra personagem do poema épico. Tais homens e mulheres não po­dem ser personagens da história; são excessivamente simples, fecha­dos em si mesmos, rígidos e estáveis, excessivamente desvinculados de seus contextos. São atemporais como o próprio poema.

Talvez o exemplo mais decisivo não venha de Homero, mas de Hesíodo, que viveu aproximadamente na mesma época*. A intro­dução de Os Trabalhos e os Dias contém um dos mais famosos rela­tos primitivistas, a narrativa do declínio do homem da idade de ou­ro do passado em vários estágios, cada um simbolizado por outro metal: ao ouro sucede-se a prata, em seguida o bronze ou o cobre, e finalmente o ferro (a era presente). Mas a visão de Hesíodo não é de degeneração progressiva, de evolução ao contrário. Cada raça humana (Hesíodo fala de raças, genê, não de idades) não evolui até

* É conveniente (e, neste contexto, inócuo) falar de Homero e de Hesíodo in­dividualmente, deixando-se de lado o complexo problema da autoria de "seus" poemas.


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 9

a seguinte; ela é destruída e substituída por uma nova criação. Ne­nhuma das raças existe nem no tempo nem no espaço. As raças hu­manas são atemporais como a Guerra de Tróia: tanto em relação ao futuro quanto ao passado. E assim Hesíodo pode lamentar: "eu não queria estar entre os homens da quinta geração, e sim ter mor­rido antes ou nascido depois" (versos 174-75)12.

É possível que o mito das quatro idades ou raças do metal tenha se originado no Oriente, sendo helenizado por Hesíodo. Mas houve também uma quinta idade ou raça, certamente grega do começo ao fim: a idade dos heróis inseridos entre o bronze e o ferro. "Mas quan-­do a terra cobriu também essa geração [bronze], Zeus, o filho de Cro-nos, criou mais outra, a quarta, sobre a terra fecunda, que era mais nobre e justa, uma raça semelhante a deus, de homens-heróis que são chamados de semideuses, a raça que antecedeu a nossa, por todo o vasto mundo." Essa colcha de retalhos era inevitável, pois os mitos dos heróis estavam tão arraigados na mente e eram tão indispensá­veis que não podiam ser deixados de lado. A colcha de retalhos é a regra no mito, e não causa problemas. Só os que têm uma mente vol­tada para a história é que vêem os pontos rústicos e as costuras defei­tuosas, e sentem-se incomodados com isso, como é evidente em He-ródoto. Mas Hesíodo não tinha uma mente voltada para a história. De um lado estavam as quatro raças e, de outro, a raça dos heróis. Estes eram os dados e a tarefa do poeta consistia em coligi-los. Ele o fez do modo mais fácil possível, graças à total ausência do elemen­-to tempo. Não havia problemas cronológicos, nem datas para ser sin­cronizadas, nem evolução para ser acompanhada ou explicada. A raça de heróis não tinha começo na história: ela simplesmente foi feita por Zeus. E também não tinha fim, não sofrera transição para o estágio seguinte, o contemporâneo. Alguns dos heróis foram destruídos diante dos portões de Tebas e na Guerra de Tróia. "Mas, para os outros, o pai Zeus, filho de Cronos, deu vida e um lar separados dos ho-mens, obrigando-os a morar nos confins do mundo. E, imunes à tris­teza, vivem eles nas ilhas dos bem-aventurados ao longo da costa do profundo e revolto oceano."13

Existe, naturalmente, um sentido no qual o mito das idades não é propriamente um mito. Ele é abstraio demais. O poema de Hesío­do, em sua primeira parte, trata do problema do mal. Jamais se es­creveu uma denúncia tão desesperadora contra a injustiça do mun­do. Por que, ele pergunta, por que o mundo está tão cheio de mal­dade? Sua primeira resposta é mítica no sentido mais tradicional do termo; ele conta a história de Prometeu e Pandora: uma resposta tipicamente mítica, o tipo da resposta que os gregos continuavam a dar para explicar crenças e ritos durante toda sua história. Mas


10 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

agora, prossegue ele sem interrupção, vou contar-lhes uma outra his-­tória. Hesíodo faz, então, o relato das raças humanas, que é a alter­nativa para o mito de Pandora. Há claramente um novo tipo de pen­samento aqui, incipiente, poético e não sistemático, sem seqüência e sequer apropriadamente ligado ao resto do extenso poema, mas que, em contrapartida, está voltado para um modo de comporta­mento intelectual inteiramente novo, deixando de centrar-se no mi­to e no épico. "O que era no começo?", um historiador de filosofia grega escreveu sobre Hesíodo, "é a pergunta da história precisamente no ponto em que ela se transforma em filosofia... A pergunta que Hesíodo faz já não se refere mais ao passado histórico, e sim ao começo do que existe, uma pergunta de origens filosóficas..."14 Mas "história" está completamente fora de lugar aqui. Hesíodo es­tá prenunciando a passagem do mythos para o logos, passagem que, sem ser mediada pela história deu-se totalmente à margem desta. Foi a transição da atemporalidade do mito para a atemporalidade da metafísica.

Mais de dois séculos se passaram antes que o passado (mais re­cente) fosse submetido a algum tipo de cronologia. Esse foi o traba­lho de Heródoto. Escrevendo no terceiro quartel do século V, He-ródoto presumiu que Homero vivera quatrocentos anos antes (por volta de 850 a.C.) e que a Guerra de Tróia tinha acontecido outros quatrocentos anos antes disso (1250 a.C., aproximadamente). Sabia-se que muitos eventos tinham ocorrido durante esse longo interva­lo, como a volta de Heráclides para Esparta, os vários (e cronologi­camente incompatíveis) feitos de Teseu, ou a legislação de Licurgo. Esses, Heródoto foi totalmente incapaz de ajustar dentro de seu es­quema cronológico. A culpa não foi dele, e sim uma conseqüência do fato de que os dados eram atemporais e, portanto, a-históricos. A dimensão de seu gênio deve-se meramente a ele ter levado tais li­mitações em consideração (ainda que não chegasse ao ponto de du­vidar do "fato", como Orestes, Teseu e os demais), não se empe­nhando, assim, em atribuir datas aos mitos indatáveis. A cronolo­gia histórica de Heródoto, se é que há uma, é mais precisa do que tem-se admitido, assim como a recusa dele em arruiná-la com a in­clusão dos eventos míticos15. Estes últimos aparecem com freqüên­cia em seu trabalho, mas como algo isolado, como algo que acon­teceu no estilo "era uma vez", ao contrário, por exemplo, do que ocorre com a carreira de Sólon ou o reinado de Polícrates em Sa-mos. Polícrates, segundo Heródoto (3.122), aparentemente foi o pri­meiro grego a pensar num império marítimo, "deixando de lado Mi-nos" e outros iguais a ele; o primeiro, em outras palavras, "no que se chama de 'tempo dos homens'" — o qual podemos definir como


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 11

o primeiro dos tempos históricos, em contraposição a tempos míti­cos16. O que Heródoto conseguiu fazer foi estabelecer uma espécie de seqüência cronológica para dois séculos do passado, aproxima­damente da metade do século VII a.C. em diante. Tudo que aconte­ceu antes continuou como estava quando ele começou seu trabalho, contos épicos e míticos supostamente verdadeiros, pelo menos em essência, mas incorrigivelmente atemporais.

O fato puro e simples é que os gregos clássicos sabiam muito pouco sobre sua história anterior a 650 a.C. (ou mesmo 550 a.C.), e o que eles pensavam que sabiam era uma confusão de fatos e fic­ção, alguns fatos misturados e muita ficção sobre o essencial e so­bre a maioria dos detalhes. Basta atentarmos para a introdução de Tucídides, que já mencionei, na qual ele justifica seu próprio esfor­ço apresentando em vinte e um capítulos (doze páginas) uma notá­vel interpretação dos primórdios da história da Grécia. A partir do capítulo catorze ele trilha sobre bases firmes, estabelecidas por He­ródoto (cujo livro ele estudara cuidadosamente) com a indispensá­vel ajuda de registros egípcios, persas, e outros do Oriente Próxi­mo. Mas na primeira parte ele não tinha em que se basear a não ser em Homero e outros "poetas antigos", na tradição, nas evidên­cias contemporâneas, e em uma mente poderosa e disciplinada. O resultado é uma teoria abrangente, qual seja, a de que a grandeza e o poder helênicos só emergiram em conseqüência do desenvolvi­mento sistemático da navegação e do comércio, que precedem uma acumulação de riquezas, uma organização estável da comunidade, o imperialismo (para usar uma palavra anacrônica) e, finalmente, a maior de todas as lutas gregas pelo poder, a Guerra do Pelopone-so. Essa teoria pode estar correta, em sua totalidade ou em parte, ou pode estar errada — não estou tratando desse aspecto neste mo­mento. O crucial é que essa teoria deriva de uma prolongada medi­tação sobre o mundo no qual Tucídides viveu, e não de um estudo da história. Existe, naturalmente, algo aqui que é história num sen­tido conceitual: Tucídides sugeriu corajosamente que havia uma con­tinuidade e um desenvolvimento na Grécia desde os tempos mais an­tigos (míticos) até o seu. Eu não subestimo essa nova concepção, mas a efetiva utilização que Tucídides faz dela na introdução de sua obra não é história em nenhum sentido dessa palavra. Em vez dis­so, ele nos apresenta o que na realidade é uma teoria sociológica geral, uma teoria sobre poder e progresso, aplicada retroativamen-te ao passado e aplicada, devemos acrescentar, com cautela e hesi­tação, pois, como Tucídides explica de início, não se pode ter certe­za sobre os tempos antigos; pode-se apenas dizer que todos os "in­dícios" sugerem o que foi o passado.


12 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

Surpreendentemente, há poucos eventos concretos entre os in­dícios: a primeira talassocracia "conhecida pela tradição" (a do rei Minos), a Guerra de Tróia, algumas migrações, mudanças nos há­bitos de vestir e na prática de carregar armas, a extensão de Esparta para os jogos olímpicos, do hábito de os atletas competirem inteira­mente nus nas provas, e outras poucas coisas sem importância — até a época dos tiranos e dos anais persas. Só há quatro datas: a da migração dos beócios para a Beócia sessenta anos depois da Guer­ra de Tróia e a dos dórios para o Peloponeso vinte anos depois dis­so; a da construção de quatro trirremes (uma nova invenção muito importante) pelo coríntio Amínocles para os sâmios trezentos anos antes do fim da Guerra do Peloponeso (ou seja, por volta de 700 a.C.); e, quarenta anos depois, a do primeiro registro de uma bata­lha naval, entre Corinto e Corcira. Tucídides não fixa a data da Guer­ra de Tróia, mas mesmo tendo aceito a cronologia de Heródoto, ele não datou nenhum evento entre 1170 e 700 a.C., período igual ao decorrido entre a ascensão de Henrique VII e nossos dias. Tudo que aconteceu nesse intervalo só podia ser fixado como "depois" ou "bem depois". Além do mais, não temos nenhuma fonte indepen­dente para confirmar suas duas últimas datas, e podemos rejeitar suas duas primeiras por se acharem elas ainda no terreno do mito, qualquer que seja a verdade sobre os movimentos dos beócios e dos dórios. Dispomos, porém, de um meio de verificar o quadro geral do progresso material e da migração, onde constatamos que o re­sultado é negativo (deixando-se de lado a possível validade da pró­pria teoria do poder marítimo). Nesse parágrafo, Tucídides baseia explicitamente seus argumentos no que devemos chamar de "pro­vas arqueológicas", que são duas: as ruínas de Micenas e os ossos e artefatos descobertos quando Delos foi purificada em 425-5 a.C. (durante a vida do próprio Tucídides), abrindo-se todos os túmulos e transferindo-se seus conteúdos para a ilha de Renéa. Os argumen­tos, embora inteligentes e convincentes, serão válidos? Pelo contrá­rio, eles revelam total ignorância e confusão sobre o passado em vá­rios pontos de grande importância. Nota-se claramente que Tucídi­des (assim como todos os outros escritores gregos, tanto quanto sa­bemos) não tinha conhecimento algum da catastrófica destruição da civilização micênia durante os últimos anos do segundo milênio a.C., nem a profunda descontinuidade entre a civilização micênia e a ci­vilização grega propriamente dita; ele "não reconhecia a cerâmica... geométrica como particularmente grega e datou-a de, pelo menos, trezentos anos antes"; ele "ou não tinha conhecimento do que cha­mamos de Idade do Bronze ou então fixou o término desta em mui­to antes". Em resumo, na opinião dele, "a Micena de Agamenon


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 13

e a Micena do século V podiam ser consideradas uma só cidade, res­taurada e eventualmente reconstruída, mas essencialmente a mesma"17.

Esses erros, juntamente com a ausência de todas as datas e de virtualmente todos os eventos fixados entre 1170 e 700, destroem qualquer possibilidade de uma história adequada da Grécia primiti­va. Eu não estou querendo dizer que Tucídides tentou escrevê-la, mesmo em forma embrionária, e fracassou; pelo contrário, ele não tentou porque não acreditava nem na possibilidade nem na necessi­dade de escrevê-la. O que quero dizer é que, dadas tais condições, grego algum podia escrever uma história, e a prova está no patético fracasso daqueles homens dos últimos séculos, que tentaram escre­ver anais e histórias universais desde a Guerra de Tróia (ou a cria­ção do mundo) até seus próprios dias. Eles não dispunham de in­formações, nem tinham como obtê-las. Disso podemos ter certeza, assim como podemos corrigir seguramente os erros de Tucídides so­bre a queda de Micena ou sobre a origem e a data dos vasos geomé­tricos. E, além disso, sabemos muito mais (e com muito mais preci­são) a respeito das tendências políticas e do crescimento das cidades e desenvolvimento do comércio e do dinheiro, bem como de toda a lista de fenômenos institucionais e sociais. E, ainda assim, somos também totalmente incapazes de escrever a história desse período. Essa é a inevitável herança que os gregos nos deixaram. Podemos, por exemplo, discorrer com considerável sutileza e sofisti­cação — e com uma verossimilhança inerente — sobre o declínio da monarquia e o surgimento da polis aristocrática, mas não pode­mos narrar a história, nem mesmo em forma fragmentária, de se­quer uma única comunidade; estamos coligindo gradualmente mui­tas informações sobre o aspecto físico das primeiras cidades jôni­cas, e podemos datar seu desenvolvimento com pouca margem de erro, mas não temos conhecimento significativo sobre a vida políti­-ca dentro delas; podemos classificar cuidadosamente os vasos, mas não sabemos nada sobre os ceramistas ou sua atividade. E nunca o saberemos. Em suma, como Tucídides, podemos formular teo­rias sociológicas e, ao contrário dele, escrever a história da arte (mui­to restrita às simples aparências). Mas nós, também, não podemos escrever uma história da Grécia primitiva.

A razão é muito simples: não há documentos, nada que regis­tre eventos ou relate quem fez as coisas, quais coisas e por quê. An­tes do ano 700 a.C. (um número redondo que uso como parâmetro, não como data precisa), esses documentos nunca existiram, nem mes­mo na forma mais precária como papiro ou cera. A partir desse ano um conjunto de escritos gregos começou a surgir, aumentando de


14 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

forma constante, em volume e variedade, à medida que se aproxi­mavam os séculos V e IV. Pouca coisa sobreviveu: algumas citações nas obras dos últimos escritores e coleções fragmentárias, recupera­das em nosso século, de papiros egípcios dos tempos helenísticos e romanos. Temos ainda a esperança de encontrar, no futuro, mate­rial que venha a aumentar nosso estoque de informações, assim co­mo os novos fragmentos do poeta Alceu nos ensinaram coisas so­bre as lutas políticas internas da aristocracia de Lesbos por volta do ano 600, e sobre a tirania de Pítaco, tão misteriosa em detalhes quanto famosa em lenda. Se cada linha perdida escrita entre 700 e 500 fosse recuperada, incluindo-se os textos de leis e decretos, bem como os poemas e escritos filosóficos, uma geração inteira de histo­riadores teria de se ocupar da seleção, organização e interpretação do novo material — e ainda assim seríamos incapazes de escrever a história desses dois séculos, e muito menos dos anteriores.

Essa sombria predição provém, inevitavelmente, da natureza do material. Por complicadas razões — que, a meu ver, não esta­mos em posição de formular totalmente -, a composição da poesia épica terminou de um modo um tanto abrupto. Os poetas deram as costas para o passado - tanto para as formas literárias do pas-sado quanto para este como tema - e começaram a escrever sobre si mesmos e seus amigos, seus amores e ódios, sentimentos, alegrias e prazeres. Durante dois séculos toda poesia foi pessoal; ela podia ser frívola ou festiva, erotica (safica ou de outro tipo), ou podia ser séria, moralista e filosófica – mas sempre tratava de problemas pessoais e generalidades, e não de narração nem de política ou socieda­de em suas expressões institucionais concretas*.

Detesto o magro policial, de pernas afastadas e rígida posição, Célebre, se tanto, pela barba e o corte de cabelo;

A ele prefiro o sujeitinho com sua grandeza de coração

E pernas tortas, mas que sempre irão protegê-lo.

Esses versos de Arquíloco18 revelam uma nova escala de valo­res, a-heróica, a-homérica. Outros sugerem trechos biográficos — "Nós, os depauperados da Hélade, fomos em tropa para Tasos" — muitas vezes com importantes implicações sociais (neste exemplo, o surgimento do soldado mercenário). São trechos preciosos, dada a escassez de nosso conhecimento desses séculos, mas não podem ser

* Pode-se considerar alguns dos poemas de Sólon como exceções, mas eles são tão pouco concretos, mesmo a respeito de suas próprias reformas, que depõem a fa­vor de minha generalização, não contra.


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 15

convertidos, mesmo que existissem às dezenas de milhares, numa história coerente e contínua de como as cidades gregas surgiram, cres­ceram, tomaram forma, lutaram e viveram. Tampouco os escrito­res filosóficos acrescentam outra dimensão. E isso foi tudo o que existiu.

Antes do século V ninguém tentou organizar o material essen­cial da história, nem de seu próprio tempo nem das gerações ante­riores. Havia listas — dos reis de Esparta, dos arcontes de Atenas e dos vencedores dos vários jogos. Tais listas poderiam fornecer uma cronologia se soubéssemos o que aconteceu no arcontado de X ou no reinado de Y; mas não sabemos, salvo nuns poucos casos isola­dos sobre alguns eventos isolados. Os códigos legais e os regulamen­tos individuais eram registrados de alguma forma, mas não havia arquivos adequados, e estes em sua maior parte se perderam. Essa combinação de fatores negativos — a ausência de anais (como os dos reis da Assíria), a indiferença de poetas e filósofos e a perda de documentos públicos — é irrevogável. A menos que uma gera­ção seja documentada e a estrutura de sua história estabelecida, ou contemporaneamente ou logo depois, o historiador do futuro esta­-rá bloqueado para sempre. Ele pode reinterpretar, dar novas ênfa­ses, acrescentar ou subtrair dados, mas não pode criar a estrutura e nihilo. Eis por que, graças a Heródoto, podemos escrever a histó­-ria das guerras persas e, graças a Tucídides, a história da Guerra do Peloponeso, mas não a história dos cinqüenta anos entre elas, não fossem todos os escritores de tragédias e comédias e todas as inscrições e objetos descobertos por arqueólogos modernos19.

A arqueologia contemporânea é um processo altamente refina­do, profissional e técnico. O sistema de determinação de datas por meio do Carbono-14 e técnicas similares algum dia produzirão pro­vas concretas jamais sonhadas no mundo de Tucídides. Contudo, seria um grande erro creditar nosso conhecimento superior de Mi-cenas unicamente aos avanços científicos. Tecnicamente, Schliemann e Sir Arthur Evans dispunham de pouca coisa a mais do que os ate­nienses do século V. Os gregos antigos já possuíam a habilidade e a mão-de-obra para descobrirem os túmulos em forma de poço de Micenas e o palácio de Cnossos, além de inteligência para vincular as pedras enterradas — caso as tivessem desenterrado — aos mitos de Agamenon e Minos, respectivamente. O que lhes faltou foi inte­resse: é aí que está a grande distância entre a civilização deles e a nossa, entre sua visão do passado e a nossa. Um exemplo inverso vem de seu uso da evidência literária. Tucídides e seus contemporâ­neos conheciam as principais obras de poesia lírica e elegíaca, mas o uso que delas fizeram para uma análise histórica foi menor e me-


16 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

nos hábil do que o nosso em relação aos poucos fragmentos que che­garam até nós. Torno a salientar que nem técnica nem inteligência são critérios úteis; só o interesse explica a diferença.

Um certo interesse pelo passado é universal, naturalmente. Es­sa afirmação, todavia, ajuda muito pouco, embora seja repetida vá­rias vezes em livros e textos de história, como se fosse muito im­portante ressaltá-la20. Como não se trata apenas de tautologia — visto que tem memória por natureza, inclusive memória das coisas que lhe são contadas pelas gerações mais velhas, o homem nutre "in­teresse" pelo passado — essa afirmação é, em todos os sentidos, errada ou desconcertante. O interesse no sentido de curiosidade ou desejo de conhecimento é, no uso comum, um termo de psicologia individual que descreve um estado da mente ou dos sentimentos, que não basta para explicar o comportamento individual e é totalmente inútil quando estendido a uma sociedade. O próprio interesse deve ser definido e explicado: que parte do passado e em que proporção? Interesse com que propósito, para desempenhar que atividade? O passado tem sido estudado didática e moralmente, como padrão da pecaminosidade essencial do homem, por exemplo, ou como guia para a ação política futura; ele tem desempenhado a função sócio-psicológica de dar uma coesão e um propósito à sociedade, de re­forçar a moral e de encorajar o patriotismo; ele pode ser, e tem si­do, usado para fins românticos. E assim por diante. Cada um des­ses interesses requer um tipo diferente de abordagem e de estudo (dentro de certos limites) — em resumo, um tipo diferente de co­nhecimento.

Nenhum dos interesses que acabo de enumerar requer um rela­to sistemático do passado. A pergunta que está implícita em tantos escritos modernos sobre a história da história — como puderam os gregos (ou qualquer outro povo) contentar-se com um passado tão cheio de espaços em branco e que era essencialmente acrônico? — baseia-se numa falsa concepção do tempo na psicologia humana. Somos escravos da concepção altamente sofisticada, abstrata e cien­tífica do tempo como uma série contínua mensurável, concepção que não tem sentido para as finalidades humanas habituais. Ò tempo passado consiste de uma quantidade de eventos individuais (inclusi­ve transformações biológicas e satisfações sensuais); o tempo futu­ro consiste de eventos ou satisfações previstos. A duração do tem­po, se é que se pode considerá-la — o que nem sempre é o caso —, não é experimentada como uma quantidade mensurável, mas sim como uma qualidade associativa ou emocional: saltos no tempo, por exemplo21. A memória individual ilustra isso perfeitamente. Não nos lembramos de um acontecimento passado — quer o procure-


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 17

mos conscientemente em nossa memória, quer nos lembremos es­pontaneamente dele — abrindo nosso caminho do presente até o pas­sado. A memória salta instantaneamente para o ponto desejado e então estabelece a data por associação. Certamente existe uma cer­-ta consciência de duração, mas ela é satisfeita por "há muito tem­po", "outro dia", ou por uma associação que sugere "há muito tempo", por exemplo, "quando eu ainda era estudante".

Isso é bem conhecido e óbvio, e se aplica tanto à experiência grupal quanto à pessoal. Claud Cockburn registra um encontro re­velador com três judeus que falavam um idioma latino, em Sofia, logo depois da Segunda Guerra Mundial. Ele aproximou-se dos três homens na estação de trem sem saber quem eram ou o que eram. Após tentar inutilmente comunicar-se em vários idiomas, ele expe­rimentou o espanhol.

"Eles entenderam e responderam num espanhol inteligível — apesar de esquisito... Observei que era curioso encontrar espanhol ali [em Sofia]. Eles explicaram. Não eram espanhóis mas, disse um deles, 'nossa família vivia na Espanha antes de mudar para a Tur­quia. Agora estamos indo para a Bulgária'. Pensando que eles tal­vez tivessem sido 'desalojados' da Espanha pelo levante da guerra civil, perguntei quanto tempo fazia que sua família morava naquele país. Ele disse que fora há aproximadamente quinhentos anos... Fa­lava como se tais acontecimentos tivessem ocorrido poucos anos antes."22

Em essência, as referências "históricas" desses judeus de lín­gua latina eram iguais às referências "míticas" da maioria dos gre­gos, com uma diferença cujo significado é mais potencial do que real. Quando pressionados, os primeiros traduziram "nossa famí­-lia viveu na Espanha" por "foi há aproximadamente quinhentos anos". Eles puderam fazer isso graças ao calendário moderno, com seu sistema de fixação de datas por anos a partir de um ponto ini­cial fixado. Os gregos também chegaram a adquirir essa técnica quan­do introduziram a determinação de data pelas Olimpíadas, mas pa­ra eles isso não passou de uma convenção artificial, inventada e usada por um pequeno número de intelectuais interessados pelo passado, jamais introduzida na vida cotidiana. E isso nos leva de volta à ques­tão do interesse. O único povo da Antiguidade que até certo ponto mostrou-se "moderno" nesse aspecto foi o hebreu, cujo interesse — que provocou suas narrativas detalhadas do passado como uma série contínua — era, em última análise, religioso, ou seja, a histó­-ria do desenvolvimento da vontade de Deus desde a criação até o triunfo final no futuro. Os gregos não tinham esse interesse, nem religioso nem de outro tipo; fosse qual fosse a função desempenha-


18 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

da na época por Agamenon, ela não exigia que ele fosse situado nu­ma série contínua do tempo; tanto fazia se ele vivera duzentos, qua­trocentos ou mil anos antes.

O pensamento grego, na verdade, dividia o passado em duas partes, dois compartimentos: era heróica e era pós-heróica (ou tem­po dos deuses e tempo dos homens). A primeira foi a parte determi­nada, definida e descrita pelos criadores de mitos, que trabalharam nos séculos que para nós são estritamente pré-históricos. Eles cria­vam e transmitiam mitos oralmente, reunindo material puramente religioso (sobre cujas origens pode-se especular, mas não estão do­cumentadas), eventos históricos genuínos (inclusive detalhes pessoais sobre as famílias nobres) e muito material puramente imaginário. Eles estavam voltados para o passado; a princípio, presumivelmen­te, para o passado mais recente; com o passar do tempo, porém, foram-se atendo progressivamente a épocas mais remotas — em gran­de parte de modo deliberado. Todavia, o interesse não era histórico no sentido de uma investigação objetiva dos fatos da Guerra de Tróia (ou de qualquer outro período da história). Isso é óbvio, mas preci­sa ser dito23. Mesmo quando pomos de lado as considerações esté­ticas, os prazeres evocados pela beleza dos versos e cantos, ou a gran­de satisfação provocada por uma narrativa simplesmente por ser uma boa narrativa, os interesses restantes ficam muito longe do campo da investigação e da ciência. A consciência e orgulho pan-helênicos ou regionais, o governo aristocrático e especialmente seu direito de governar, suas notáveis qualificações e virtudes, uma compreensão dos deuses, o sentido das práticas religiosas — estes e outros propó­sitos semelhantes eram atendidos pela contínua repetição dos rela­tos antigos e pela constante reconstrução destes, pois sempre havia a ocorrência de novas condições.

Essa primeira fase, portanto, quando a tradição oral foi criada e mantida viva, teve por resultado um passado mítico baseado em elementos díspares que diferiam em caráter e precisão (factual), e cuja origem (factual) remontava a períodos de tempo bastante es­parsos. A "tradição" não transmitia meramente o passado, ela o criava. De uma forma que às vezes assemelha-se à história - e que foi largamente aceita como tal pelos gregos e (com restrições) por muitos estudiosos modernos —, os bardos criaram uma mitologia atemporal24. Sobreveio em seguida uma nova fase, simbolizada por ocasionais relatos dos épicos e outros documentos mitológicos. Num mundo desprovido de qualquer tipo de autoridade central, política ou eclesiástica, e repleto de interesses políticos e regionais separa­-dos, muitas vezes conflitantes, essa etapa ajudou a determinar os textos dos relatos, criando uma versão autorizada. Todavia, essa fa-
MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 19

se, apesar de importante, não foi necessariamente decisiva em si mes­ma. O processo de criação mítica não terminou no século VIII; ele nunca parou totalmente. Além da mitificação de homens como Só-lon, a criação de mitos prosseguiu porque a religião grega continuou a criar novos ritos, introduzir novos deuses, e combinar elementos antigos em novas formas, cada etapa exigindo um ajustamento apro­priado da mitologia herdada. Da mesma forma, a grande dispersão dos gregos, ocorrida aproximadamente entre 750 e 600 a.C., que os levou para o sul da Itália, Sicília e muitos outros lugares ao longo da costa do Mediterrâneo e do mar Negro, exigiu outras mudanças para que os imigrantes se ajustassem aos novos alinhamentos polí­ticos entre cidades e regiões e absorvessem as tradições dos povos (não-gregos) entre os quais eles se estabeleceram. Todavia, toda es­sa atividade posterior de criação mítica foi secundária: o "mapa mí­-tico" da autoconsciência helênica estava agora totalmente delinea­do25. Os interesses moviam-se em novas direções.

Na segunda fase, portanto, o interesse pelo passado importan­-te e remoto, embora totalmente vivo, expressou-se pela conserva­ção e repetição do mapa mítico. Juntamente com o relato dos épi­cos deu-se o desaparecimento dos bardos enquanto classe. Estes fo­ram substituídos pelos rapsodos, homens como Íon, de Platão, que eram profissionais também, mas recitadores — atores —, e não cria­dores. Os intelectos criativos, como já disse, voltaram-se para cam­pos inteiramente novos, para a poesia contemporânea e pessoal, e para a filosofia. O passado heróico precisava tão-somente de uma atenção passiva que assegurasse que todos se lembrassem dele, na versão aceita, em todas as ocasiões adequadas, e que cada geração futura mantivesse esse conhecimento e o usasse dos mesmos modos.

Assim, devemos perguntar: como e através de quem as tradi­ções sobre os séculos pós-heróicos eram preservadas e transmitidas? Por exemplo, como sobreviveu a memória da batalha marítima en­tre Corinto e Corcira, ou a da construção de quatro navios de guer-ra para os sâmios por um coríntio, que Tucídides relata e à qual ele até atribui datas precisas? Tucídides pode ter lido a respeito em Heródoto ou em algum outro escritor. Mas alguém o registrou em papel pela primeira vez duzentos ou mais anos depois do evento (e havia muitos outros fatos tradicionais ocorridos antes ainda, que exigiram a transmissão oral por mais outros séculos). O primeiro homem a registrá-los (e, em alguns casos, pode muito bem ter sido contemporâneo de Tucídides) não dispunha de documentos nem ar­quivos de onde tirá-los — nunca é demais ressaltar. Ele teve de apreender algo que fora transmitido oralmente.


20 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

A tradição oral sempre foi bastante privilegiada por livros que tratam de eras remotas, ou mesmo de épocas bem recentes, sobre as quais há poucos registros (ou nenhum). E poucas são as idéias que os historiadores da Idade das Trevas da Grécia não estejam pre­parados para examinar com espírito suficientemente crítico, deixan­do-se envolver pelo cálido brilho irradiado pela palavra "tradição". Agora, há a tradição que estrutura grande parte de nossas vidas, perpetuando costumes, hábitos de comportamento, ritos, crenças e normas éticas. Nesse sentido, a tradição não guarda mistério algum; ela é transmitida de uma geração a outra, em parte através do pro­cesso comum da vida em sociedade, sem nenhum esforço conscien­te de ninguém e, em parte por homens cujas funções consistem exa-tamente em transmiti-la: padres, professores, parentes, juizes, líde­res de partidos, censores, vizinhos. Da mesma forma, nada há de confiável acerca desse tipo de tradição, isto é, suas explanações e narrações, conforme qualquer um pode julgar com um mínimo de observação, raramente são muito precisas e, às vezes, completamente falsas. A confiabilidade, naturalmente, é irrelevante, pois, desde que seja aceita, a tradição funciona e precisa funcionar; caso contrário a sociedade deixaria de existir.

Mas a "tradição" desvinculada de práticas e instituições vivas — uma tradição sobre uma guerra ocorrida há duzentos anos, por exemplo — não é absolutamente a mesma coisa; só uma confusão semântica parece colocá-la na mesma categoria. Onde quer que a tradição possa ser estudada entre pessoas vivas, a evidência é que, além de ela não existir sem estar ligada a uma prática ou crença, também outros tipos de lembranças, lembranças irrelevantes, por assim dizer, têm vida curta, remontando à terceira geração, à gera­ção dos avós e, com raras exceções, detendo-se aí. Isso se aplica até mesmo às genealogias, a menos que elas sejam registradas por es­crito; pode-se tomar como regra que as genealogias transmitidas oral­mente, a não ser que intervenha algum interesse muito forte (como uma monarquia carismática), são freqüentemente distorcidas, dis­cutidas ou totalmente fictícias depois da quarta geração, e muitas vezes a partir da terceira. Há um exemplo grego muito interessante: os heróis homéricos recitam freqüentemente suas genealogias em de­talhes e, sem exceção, em poucas etapas seus ancestrais humanos convertem-se em deuses ou deusas.

A analogia com a memória individual faz-se novamente útil. Ela, também, normalmente pára na terceira geração, com fatos con­tados por avós, por pais sobre seus pais, por velhas amas. Ela, tam­bém, é controlada pela relevância. Toda lembrança é seletiva, e o fato de freqüentemente não sabermos por que retemos algo (com


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 21

excecão das coisas aprendidas ativa e deliberadamente, como uma lição de escola) deve-se a uma falha de nosso conhecimento, e não a uma manifestação de comportamento casual, sem propósito. Mas, ao mesmo tempo, a analogia deixa de ser válida, pois a "memória de grupo" nunca é motivada subconscientemente no sentido de ser, ou parecer ser, tão automática e desprovida de controle, tão espon-tânea quanto a memória pessoal. A memória de grupo, afinal, na­-da mais é do que a transmissão para muitas pessoas das lembranças de um homem, ou de alguns homens, repetida muitas e muitas ve­zes; e o ato da transmissão da comunicação e, portanto, da preser­vação da lembrança, não é espontâneo e inconsciente, e sim delibe­rado, com a intenção de servir a um fim conhecido pelo homem que o executa. Ele pode julgar erroneamente seus motivos, pode formulá-los de modo obscuro, pode não se dedicar a um processo prévio e longo de reflexão, mas invariavelmente ele está atuando, fazendo alguma coisa, provocando um resultado que deseja ou quer. A me­nos que tal atividade consciente e deliberada ocorra, a lembrança de qualquer evento acabará extinguindo-se, ao passo que as lembran­ças individuais podem permanecer adormecidas durante décadas para depois voltarem à vida inesperadamente ou sem uma ação consciente.

A tradição oral, portanto, não é um instrumento com que o his­toriador possa contar "na natureza das coisas". Ele sempre deve per­guntar Cui bono? Em minha opinião, com respeito ao período pós-heróico próprio do século V, a sobrevivência do tipo de tradição que venho discutindo deve ser amplamente creditada às famílias nobres das várias comunidades, inclusive às famílias reais, onde elas exis­tiam, e, o que equivale à mesma coisa numa variação especial, aos sacerdotes de santuários como Delfos, Eleuses e Delos. Somente eles, pelo menos na maioria das circunstâncias, tinham tanto o interesse de "lembrar" os eventos e incidentes que lhes convinham (por algu-ma razão) quanto a posição social para sugerir essa lembrança, quer verdadeira quer falsa, de modo a convertê-la numa tradição pública. É desnecessário dizer que nem o interesse nem o processo eram his­tóricos — talvez eu devesse dizer "historiográfico" — em qualquer sentido significativo. O objetivo era imediato e prático, fosse ele com-pletamente consciente ou não, e visava ao aumento de prestígio, à garantia do poder, ou à justificação de uma instituição.

As conclusões são diversas. Em primeiro lugar, as perdas, os inúmeros fatos que eram completa e irreversivelmente esquecidos por todos, eram enormes, num processo infindável. Muitos desses fatos dependiam da fortuna de famílias individuais na medida em que suas memórias particulares podiam tornar-se públicas e conforme a duração e pureza da tradição nas gerações futuras.


22 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

Segundo, o material que chegou até nós tem a aparência de dis­persão casual. Por exemplo, Tucídides escreve (1.13.2) que os "co-ríntios, segundo dizem, foram os primeiros a se dedicarem à arte naval de uma forma moderna, e Corinto foi o primeiro lugar da Gré­cia onde foram construídas trirremes". Não são mencionados no­mes, mas na frase seguinte Tucídides acrescenta o fato irrelevante de que um corindo chamado Amínocles construiu quatro trirremes para Samos, provavelmente os primeiros dessa ilha. Por que essa curiosa escolha? De acordo com as provas de que dispomos, nenhum nome de inventor de trirremes é transmitido na tradição, embora o de Amínocles seja citado (sem dúvida entre os sâmios). Não te­mos como explicar esse padrão particular de transmissão histórica, e tampouco podemos explicá-lo na maioria dos outros casos, pois a explicação repousa em circunstâncias contemporâneas sobre as quais não sabemos absolutamente nada. É por isso que falo da apa­rência de uma dispersão casual, de um grande número de fatos in­dividuais, cuja maioria não apresenta uma ligação visível entre si, como se a pura sorte, um lance de dados, tivesse determinado se eles deviam ser lembrados ou não. Esses fatos só passaram a ter uma conexão cronológica precisa quando esta lhes foi imposta. As datas que Tucídides estabeleceu para Amínocles e para a batalha entre Co­rinto e Corcira são fruto de seus próprios cálculos, não da tradição como ele a recebeu. E, embora não possamos conferir nenhuma des­sas datas, há fortes razões para acreditarmos que elas são excessiva­mente antecipadas, presumindo-se que os dois eventos sejam fatos e não ficção. Devido à escassez e dispersão da tradição, seria pura sorte se Tucídides ou qualquer outra pessoa fosse capaz de estabele­cer uma relação cronológica precisa.

Terceiro, os elementos individuais da tradição eram confundi­dos, modificados e, às vezes, inventados. Rivalidades entre famí­lias, conflitos entre comunidades e regiões, mudanças na relação de poder, novos valores e crenças — todos esses desenvolvimentos his­tóricos moldaram a tradição. Eles tinham um relativo domínio em relação ao que acontecia habitualmente, mas muitas vezes não po­diam deixar de tomar conhecimento de tradições que haviam her­dado. Onde um interesse vital era afetado, tornava-se imperativo que se fizessem correções. Mesmo num mundo que faz considerável uso da escrita, esse processo não é muito difícil; por exemplo, a fal­sificação das antigas evoluções políticas atenienses foi característi­ca da panfletagem política e do conflito de partidos em Atenas, nos últimos anos da Guerra do Peloponeso e nas duas ou três décadas seguintes. Essa falsificação foi tão eficiente que nem os atenienses do século IV nem os historiadores modernos foram capazes de pôr


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 23

em ordem os quadros que foram desenhados. E, quando a tradição é inteiramente oral, torna-se bem mais simples confundir e falsifi­-car. Na realidade, isso é inevitável26.

Todavia, a verdade, como já mencionei, verdade no sentido ran-keano de "como as coisas foram realmente", não era nem uma con­sideração importante nem uma alegação que se pudesse comprovar. Aceitação e crença era o que contava, e os gregos dispunham de to­-do o conhecimento do passado de que precisavam sem a ajuda de historiadores. Os poetas encarregavam-se do passado heróico; o res­tante — as tradições específicas, amplamente orais — era suficiente. Em Atenas, a codificação de Sólon, os tiranicidas, a Maratona fa­ziam parte do cabedal de alusões dos oradores políticos e dos panfle-tistas, e todos sabiam tudo que qualquer pessoa precisava saber so-bre esses assuntos. Esforços ocasionais de historiadores para corrigir erros factuais na tradição foram infrutíferos, como o demonstram as iradas observações de Tucídides sobre os tiranicidas27. Harmódio e Aristogiton eram essenciais para o mapa mítico ateniense, que a verdade teria danificado e enfraquecido. Mesmo no século IV, de­-pois de Heródoto e Tucídides, os oradores atenienses ainda se afer­ravam a seus mitos tradicionais e histórias populares, completamen-te indiferentes ao novo conhecimento e novas concepções. Demóste-nes pode ter sido tão preciso quanto qualquer outro a respeito de as­suntos contemporâneos ao citar registros alfandegários, tratados e pro­cessos dos tribunais para corroborar seus fatos e números, mas a res­peito do passado ele era tão ignorante, talvez deliberadamente, quanto seus ouvintes, limitando-se a citar os mesmos lugares-comuns — e inexatidões — de seus oponentes e seu público28.

Trata-se de uma falácia modernista e intelectualista pensar que isso é o que requer explicação. Pelo contrário, a pergunta difícil é por que alguém — especificamente por que Heródoto e Tucídides — afastou-se tão radicalmente das atitudes habituais e "inventou" a idéia de história29. A resposta convencional começa com os filósofos jô­nicos e seu ceticismo, o que contém uma meia-verdade. Os jônios e seus sucessores forneceram duas condições necessárias: seu ceticismo sobre os mitos e sua noção de "investigação". Todavia, como já afir­mei ao discutir Hesíodo, essas razões não eram suficientes. O ceticis-mo quanto aos mitos levou os jônios a investigarem o cosmos, ou seja, levou-os à metafísica, não à historiografia. Devemos perguntar ainda por que Heródoto usou a palavra história, que simplesmente significa "investigação", para uma investigação do passado. Sua pró­pria resposta é dada bem no começo de sua obra: para preservar a fama dos grandes e maravilhosos feitos dos gregos e bárbaros e para investigar as razões por que eles guerrearam entre si.


24 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

As razões por que eles guerrearam entre si: essa não é uma per­gunta nova. Afinal, os mitos davam as razões pelas quais gregos e troianos lutaram entre si, e as razões pelas quais ocorreram muitos outros eventos. A novidade introduzida por Heródoto é tanto a in­vestigação sistemática que ele segue ao buscar respostas, que resul­tou numa narrativa histórica, quanto até que ponto suas explica­ções são humanas e seculares e, em particular, políticas. Na gera­ção seguinte, Tucídides levou essas novidades muito mais longe, in­sistindo numa narrativa contínua com uma cronologia rigorosa, nu­ma análise estritamente secular e numa ênfase igualmente rigorosa com relação ao comportamento político. O novo impulso veio da polis clássica, e em particular da polis ateniense, que, pela primeira vez — ao menos na história ocidental —, apresentou a política co­mo uma atividade humana, elevando-a em seguida à mais funda­mental das atividades sociais. Um novo enfoque do passado era im­prescindível. Ou seja, um outro ímpeto talvez pudesse ter produzi­do a idéia de história30, mas entre os gregos essa foi a condição de­cisiva (combinada ao ceticismo e ao hábito de investigar já men­cionados).

O novo enfoque tinha de ser secular, não-mítico e político — mas teria ele de ser histórico no sentido de uma pesquisa sobre um longo período de tempo contínuo? Mais precisamente, de quanto tempo seria esse período? Se considerarmos as histórias de Heródo­to e de Tucídides sem preconceito, a resposta óbvia — embora não a mais conhecida — é que a maior parte do passado não foi real­mente relevante. Heródoto percorreu uma grande parte do passa­do, tanto o mítico quanto o histórico, tanto o egípcio quanto o gre­go, mas por razões freqüentemente irrelevantes para essa parte de sua investigação que era propriamente histórica. Tucídides rejeitou tão completamente esse tipo de digressão, esse "romanceamento", que sua obra não contém nenhuma história contínua do passado. Quando Tucídides concluiu em 431 a.C. que o mundo grego estava entrando na maior das guerras e que ele devotaria sua vida a registrá-la, essa guerra ainda achava-se no futuro. Basicamente, ele escre­veu uma introdução esboçando algumas generalizações sobre a Guer­ra de Tróia e o surgimento do mundo clássico, e preenchendo um pouco da lacuna existente entre a narrativa de Heródoto e o come­ço da Guerra do Peloponeso. Essa introdução, porém, apesar de con-ceitualmente histórica, não era história. Todo o resto era contem­porâneo.

Daí em diante, todos os escritos históricos gregos sérios trata­ram de história contemporânea. Num parágrafo brilhante, Colling-wood disse que o historiador grego "não pode, como Gibbon, co-


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 25

meçar pela vontade de escrever uma grande obra histórica e depois perguntar sobre o que vai escrever... Não é o historiador que esco­-lhe o assunto, é o assunto que escolhe o historiador; isto é, a histó­-ria só é escrita porque aconteceram coisas memoráveis que pedem um cronista entre os contemporâneos do povo que as viu. Podería­mos quase dizer que na Grécia antiga não havia historiadores no sentido em que havia artistas e filósofos; não havia ninguém que devotasse a vida ao estudo da história; o historiador era apenas o autobiógrafo de sua geração, e autobiografia não é uma pro­fissão"31.

Isso pode ser simples e unilateral demais; não é simplesmente falso. Tucídides viu-se em meio a inclinações contraditórias que nun-ca foi capaz de resolver. Reconhecia a necessidade de narrar even­-tos em seqüência, mas, por outro lado, queria extrair dos eventos a essência da política e do comportamento político, a natureza e as conseqüências do poder. Esse seu intento, caso o lograsse, seria uma "posse perpétua", até porque a natureza humana é uma constante e, portanto, a reincidência é o padrão. Mas, nesse caso, de que ser­viria uma narrativa linear sobre longos períodos de tempo? Só po-demos conhecer realmente nosso próprio tempo, e isso é suficiente, afinal de contas. O passado só pode oferecer corroborações para­digmáticas para as conclusões que tiramos do presente; o passado, em outras palavras, ainda pode ser tratado da mesma forma atem-poral com que tratamos os mitos. Há uma importante passagem em The Hedgehog and the Fox, de Sir Isaiah Berlin, que é sobre Tols-toi, mas o nome do escritor russo pode ser substituído pelo de Tucí­dides durante uma boa parte do livro (embora não na totalidade) sem sacrificar-se a exatidão.

"O interesse de Tolstoi pela história despontou muito cedo em sua vida. Esse interesse aparentemente não foi despertado pelo pas­sado em si, mas sim pelo desejo de chegar às causas primeiras, de entender como e por que as coisas acontecem de determinada for­-ma e não de outra... pela tendência a duvidar e suspeitar, e, se ne­cessário, rejeitar tudo que não responda completamente a questão, de ir à raiz de todas as questões, a qualquer custo... E a isso juntava-se um amor incurável pelo concreto, o empírico, o verificável e uma desconfiança instintiva do abstrato, do impalpável, do sobrenatu­ral—em suma, uma tendência precoce para uma abordagem cien­tífica e positivista, uma hostilidade ao romantismo, às formulações abstraias, à metafísica. Sempre e em qualquer situação ele buscava fatos 'concretos'... Atormentava-se com os problemas fundamen­-tais com que se deparam os jovens de todas as gerações... mas as respostas oferecidas pelos teólogos e pelos metafísicos eram-lhe ab-


26 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

surdas... A história, apenas ela, somente a soma dos eventos con­cretos no tempo e no espaço... só isso continha a verdade, o mate­rial do qual as respostas genuínas... podiam ser construídas."32

Assim, um escreveu Guerra e Paz e outro, A Guerra do Pelo-poneso. Não estou sendo frívolo quando coloco as coisas desse mo­do. A história "continha a verdade" e para Tucídides isso signifi­cava que era desnecessário inventar como os poetas o faziam. Mas também era impossível apenas registrar o que já acontecera. Fazia-se necessário compor os discursos que exporiam os argumentos apro­priados (apropriados na opinião de Tucídides) dos dois lados de uma questão. Era necessário inclusive escrever um tratado sofista sobre força e direito, o Melian Dialogue. Apenas a narrativa revelou-se um fracasso no fim: ela diz apenas o que Alcibíades fez e sofreu. Esses foram fatos, não verdades.

Depois de Tucídides, todo historiador sério lutou com as mes­mas dificuldades e, na maioria das vezes, preferiu lutar com elas no campo da história contemporânea. A idéia de uma narrativa histó­rica, de uma série contínua de eventos no tempo, chegara para fi­car. Mas de que serviria isso? Essa pergunta nunca foi respondida satisfatoriamente. Nascera e fora nutrida a idéia de que a sociedade estava ligada a seu passado e, até certo ponto, podia ser entendida a partir de seu passado, de modos diferentes daqueles dos velhos mitos. Todavia, essa idéia gorou devido à ausência de uma idéia de progresso, pela idealização do eterno e imutável em contraposição ao mutável e transitório ("uma metafísica rigorosamente a-histórica", segundo as palavras de Collingwood), pelas visões cícli­cas da história, pelas doutrinas primitivistas. Ao nível intelectual, tudo estava contra a idéia da história. Só os tipos tolstoianos conti­nuavam a lutar, estimulados por cada situação ou progresso extraor­dinários a tentar outra vez: Timeu e as ferozes lutas na Sicília con­tra a tirania, Políbio e o estabelecimento do império mundial de Ro­ma; ou, entre os romanos, Salústio e a desintegração da república romana, Tácito e o surgimento do absolutismo despótico. Como Tu­cídides, cada um desses homens, em última análise, estava procu­rando entender e explicar seu próprio mundo contemporâneo.

Sua atração e influência são difíceis de medir. Todavia, são sig­nificativos a rapidez com que os historiadores trocaram a austeri­dade de Tucídides pelos apelos emotivos dos poetas e o fato de a história ter-se tornado "história trágica", mesmo em Políbio, que o negou tão veementemente. Também é significativo que os filóso­fos tenham rejeitado todo o empreendimento. Quanto às pessoas em geral, não há razão para pensar que alguma vez elas foram além dos antigos mitos e trechos ocasionais da história mitificada. Afi-


MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA 27

nal de contas, por que o fariam? Como disse Hans Meyerhoff em outro contexto, mas relacionado a este de certa forma: "As gera-ções anteriores sabiam muito menos acerca do passado do que nós, mas talvez sentissem em relação a ele uma noção de identidade e continuidade muito maior..."33 O mito exerceu a contento essa fun-ção, e nada havia na sociedade que exigisse seu abandono ou subs­tituição. Talvez isso tenha sido uma falha na polis — mas essa é outra questão.


2

A constituição ancestral*

Num panfleto político, o Aeropagiticus, provavelmente escrito não muito antes de 350 a.C., Isócrates, o influente retórico atenien­se, manifestou seu desagrado (7.15-16): "Apesar de ficarmos pelas lojas denunciando a situação atual, dizendo que nunca fomos pior governados em nossa democracia", agimos como se estivéssemos mais satisfeitos com nossa democracia atual "do que com a que her­damos de nossos antepassados". Eu afirmo, continuaria ele, que "o único meio de nos livrarmos de nossos males atuais e eliminar­mos os perigos futuros é estarmos dispostos a restaurar a democra­cia instituída por Sólon, que foi o mais popular dos legisladores, e restabelecida por Clístenes, que depôs os tiranos e levou o povo de volta ao poder".

Dois mil anos depois a Câmara dos Comuns queixava-se de que Carlos I "tinha um plano pernicioso para subverter as leis antigas e fundamentais e as liberdades desta nação"1. Em nosso próprio sé­culo um advogado de Nova York fez o seguinte desabafo: "Nossa grande e sagrada constituição, serena e inviolável, estende seus be­nefícios sobre nossa terra — sobre seus lagos, rios e florestas, sobre seus filhos, como o braço estendido do próprio Deus... Oh, mara­vilhosa constituição! Pergaminho mágico! Palavra transformado-ra! Criadora, monitora, guardiã da humanidade!"2 A retórica de

* Minha aula inaugural de 4 de maio de 1971 foi uma versão resumida deste texto original. Fiz algumas revisões antes da publicação pela Cambridge University Press, seguindo as sugestões de A. Andrewes e John Dunn que, muito gentilmente, leram o manuscrito. Não fiz mudanças no estilo.

Copyright © 1971 by M. I. Finley; reproduzido com autorização da Cambridge University Press.


30 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

Henry Estabrook não se esgotou com essas poucas palavras, como vocês terão pensado, mas um breve exemplo é suficiente para de­monstrar meu ponto de vista.

Essa retórica pode não ter a clareza de Isócrates, mas, a seu modo, é uma manifestação de uma discussão política que se tem le­vantado em situações históricas bastante diferentes. Não é, certa­mente, uma discussão sofisticada — Brian Barry não faz nenhuma menção a ela em seu recente livro sobre discussão política; além do mais, trata-se de uma discussão facilmente caricaturada, como nas palavras de Cornford, "nada jamais deve ser feito pela primeira vez"3. Mas um alto nível de sofisticação não é uma condição ne­cessária para a eficácia. O apelo para a "constituição ancestral" sa­tisfaz o princípio de que ela deve "parecer racional e persuasiva", que tanto seus proponentes quanto aqueles que eles persuadiram, se pressionados, poderiam defender-se "por meio de regras de lógi­ca e provas que eles mesmos aceitariam"4. Portanto, é um exercí­cio histórico legítimo examinar seriamente a discussão, como me pro­ponho a fazer agora em três períodos de agudo conflito político, aproximando-me da guerra civil, uma vez, e tocando-a diretamente por duas vezes.

O primeiro ocorreu em Atenas, no fim do século V a.C. Ate­nas fora uma democracia durante um século, desde que essa forma de governo foi estabelecida por Clístenes em 508 a.C., e ela difun­dira gradualmente a noção de uma democracia direta (distinta de um sistema representativo) para o mais longe possível da utopia. A assembléia soberana reunia-se freqüentemente durante o ano e seus membros eram sorteados ou escolhidos, indiferentemente, entre os cidadãos adultos do sexo masculino (que tivessem completado de­zoito anos) para estarem presentes a determinada reunião. O conse­lho dos quinhentos, virtualmente todos os componentes das repar­tições administrativas e dos tribunais, eram selecionados por sor­teio e recebiam uma pequena diária enquanto estavam em serviço. Em sua maioria, os funcionários cumpriam mandato de um ano, de forma que uma grande proporção da população masculina tinha alguma experiência direta no governo, além de participar da assem­bléia ou ser membro de um júri. É verdade que a liderança política permanecia em poder dos ricos, e por muito tempo, de forma mais restrita ainda, esteve nas mãos das antigas famílias aristocráticas, mas isso não era considerado um abuso na democracia, e tampouco o era na prática.

O sistema não era do agrado de todos em Atenas, mas seu su­-cesso silenciava eficazmente a oposição, visto que Atenas tornou-se o maior, mais rico e mais poderoso Estado do mundo grego. Mes-


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 31

mo depois do início da guerra com Esparta, em 431, ainda houve um período de quase duas décadas em que não se comprovaram ativida-des antidemocráticas, até o desastre da Sicília em 413, que aparente­mente acabou com qualquer chance de uma vitória ateniense. O con­seqüente clima de desesperança deu uma oportunidade à oposição la­tente, que logo se utilizou dela. No início de 411 houve um golpe oli-gárquico; a assembléia, com sua composição desfigurada pela ausên­-cia de uma grande proporção de cidadãos pobres, que se encontra­vam na ativa do serviço naval, e seu bom-senso assediado por cons­piradores organizados que empregavam uma mistura clássica de ter-ror e propaganda, votou pelo fim da democracia. Cons­-tituiu-se uma comissão de trinta para criar novos instrumentos de go­verno voltados para certos interesses, incluindo uma classificação ba­seada nas propriedades como requisito para a obtenção de um cargo público e a suspensão de pagamento para a maioria dos funciona-rios. Enquanto isso, concedia-se poder a um conselho de quatrocen­-tos, designado (não eleito) através de um procedimento que garantia que os principais conspiradores controlassem sua composição. Pou-cos meses depois tornou-se claro que a junta governamental não es­tava procedendo conforme o prometido, e foi derrubada numa bre-ve refrega de rua. Durante mais alguns meses Atenas teve um gover-no baseado na qualificação pela propriedade, sobre a qual nada sa­bemos, e então a democracia foi calmamente restaurada.

As evidências de que dispomos atualmente restringem-se quase que totalmente a quarenta "capítulos" de Tucídides (8.54.97). Através de seu relato sabemos apenas que a propaganda decisiva a favor do gol­-pe foi a alegação de que a guerra contra Esparta só poderia ser venci- da com o apoio financeiro da Pérsia, sendo condição para tanto que a democracia fosse substituída pela oligarquia, e que os líderes do gol­pe fossem divididos entre uma célula central de resistência que nunca pensasse em renunciar ao poder tirânico e outro grupo, liderado por Teramenes, que pedia justificadamente um governo de base mais am- pla, no qual a cidadania plena fosse restringida aos que pudessem ser escolhidos por sua riqueza para o serviço militar. Todavia, a preserva- cão casual de três curtos documentos revela a existência de uma outra discussão política, da qual Tucídides não tomou conhecimento, assim como ignorava regularmente todas as discussões que, em sua opinião, não expressassem as "verdadeiras" questões.

Na assembléia que constituiu a comissão de recrutamento de trinta, Clitofon propôs uma emenda ao decreto, pleiteando "que os membros da comissão que tinham sido eleitos também deviam investigar (procurar e encontrar) as leis ancestrais (nomoi) estipula-das por Clístenes quando este instituiu a democracia"5. Clitofon,


32 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

apesar de não ser uma figura de primeira importância na vida ate­niense, gozava de certa posição, tanto em política, na qual ele se as­sociava a Teramenes6, quanto nos círculos intelectuais que gravita­vam em direção e em torno dos sofistas. Clitofon aparece duas vezes na obra de Platão, uma, de modo breve e insignificante no primeiro volume da República, e outra, no pseudodiálogo patético e muito cur­to, cujo título é Clitofon, que certamente não foi escrito por Platão. Nas duas vezes ele é identificado como amigo e seguidor do sofista Trasímaco e, por acaso, o único fragmento substancial de Trasíma-co que chegou até nós tem relação direta com nosso assunto. Com trinta linhas de extensão, esse fragmento pretende ser um discurso na assembléia ateniense, o que seria impossível, visto que Trasímaco não era um cidadão ateniense. Sua autenticidade, porém, não deve ser posta em dúvida, e, de acordo com evidências internas, ele tem que ser datado precisamente do tempo que estamos considerando7.

"Eu gostaria", começa o fragmento, "de ter vivido naqueles velhos tempos em que os homens jovens podiam ficar em silêncio porque os negócios do Estado não precisavam ser discutidos publi­-camente e os velhos administravam o Estado corretamente." Ago­ra, mesmo com a confusão em que vivemos, as facções ainda discu­-tem sobre um problema que não é problema. "Há uma agitação em torno da constituição ancestral (patrios politeia), que é, de fato, fá­-cil de ser compreendida, e que todos os cidadãos têm em comum."

Trasímaco não estava referindo-se a discussões eruditas nos cír­culos intelectuais, e sim às discussões políticas públicas, no merca­do e na própria assembléia. A emenda de Clitofon, portanto, não foi uma idéia isolada e ardilosa de intelectual, mas uma proposta formal para converter em ação a discussão que já se tornara corren­te, quer Tucídides tenha achado isso um problema "verdadeiro" ou não, e a nós cabe perguntar o que Clitofon (e, presumivelmente, Te­ramenes) pretendia.

A linguagem empregada não facilita nossa tarefa. Convencio­-nalmente, traduzimos nomos por "lei", politeia por "constituição", psephisma por "decreto" e patrios por "ancestral", e, embora cada uma dessas traduções possa ser justificada, cada uma delas tam­bém pode induzir a erro, por duas razões. A primeira é que cada palavra tem vários significados: Tucídides, quando afirmou que para Alci-bíades os conspiradores oligárquicos haviam abolido as "leis an-cestrais" de Atenas (8.76.6), podia estar participando inconsciente­mente do debate do qual conscientemente não tomava conhecimen­-to, nas suas palavras não tinha o mesmo significado que as de Cli­tofon. Suas "leis ancestrais" eram as leis em vigor no dia em que a votação fatal teve lugar na assembléia, e esse emprego de patrios


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 33

é justificado: pode significar "tradicional" no sentido específico de "o que temos feito já há algum tempo"8.

Vocês também devem ter observado que tanto Alcibíades (ou Tu-cídides) quanto Clitofon falaram de nomoi ancestral, e Trasímaco de politeia ancestral. Não se pode deduzir distinção alguma entre am­bas, e aí reside o segundo ponto fraco de nossas traduções. Um ou­tro contemporâneo começou um de seus discursos forenses desse mo­do: "Quando os fatos são concordantes, o caso é decidido antecipa­damente pela lei (nomos) ou pelos decretos (psephismata) que regem a toda politeia"9 , e aqui politeia não é "constituição", e sim "mo­do de vida". Os atenienses do final do século V a.C. por certo eram intelectualmente capazes de distinguir entre as leis que definiam os poderes da assembléia, do conselho e dos magistrados, as leis que di­tavam penalidades para assaltos e roubos, as leis que estabeleciam o calendário dos festivais e sacrifícios, e os decretos de declaração de guerra contra Esparta ou de concessão de honras a um estrangei­-ro ilustre*. Todavia, eles ainda não tinham começado a formar uma estrutura conceitual nem para a jurisprudência nem para a ciência política, e sequer para a teoria política. E quanto às distinções espe­cíficas de que estamos tratando agora, eles nunca foram muito lon­ge. Portanto, é um anacronismo imputar a Clitofon, digamos, uma distinção entre lei constitucional e qualquer outro tipo de lei10. Quan­do propôs uma pesquisa das leis de Clístenes, Clitofon obviamente estava referindo-se ao que nós deveríamos chamar de constituição, e não às leis sobre contratos, heranças, assaltos e agressões. A ques­tão era: como Atenas será governada? Por quem? Se ele houvesse dito nomoi, e não politeia, nenhum dos presentes tê-lo-ia interpreta­do erroneamente e é provável que sequer o tivesse notado.

Mas, afinal, por que ele se preocupou? Só podemos conjectu­rar, e a direção para a qual nos devemos voltar pode ser assinalada por outra pergunta. Por que uma grande parte dos cidadãos ate­nienses, provavelmente a maioria, teria concordado em abandonar permanentemente o sistema democrático no qual tinham sido cria­dos e que tanto os beneficiara? "Vencer a guerra" era sem dúvida um apelo muito forte, mas os patrióticos marinheiros atenienses mi­litantes, então baseados na ilha de Samos, rejeitaram a exortação, considerando-a um truque visível. Argumentos teóricos referentes à superioridade de um sistema de governo sobre outro não teriam convencido ninguém além daqueles que já estavam convencidos. Os

* Escrevi "leis" para referir-me a normas mais gerais, "decretos" para deci­sões da assembleia pertinentes a uma única ação, só porque essa distinção lingüística nos é mais "natural". Não estou sugerindo que essa distinção fosse feita na lingua­gem dos atenienses do século V.


34 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

homens que chamei de célula central rígida achavam-se despreocu­pados; davam-se por satisfeitos em tomar o poder pelo terror e mantê-lo pela força. Esse, porém, não era o caso do grupo de Tera-menes, e, assim, na falta de outros (ou melhores) argumentos, eles se aferraram a um grupo psicologicamente limitado.

O passado heróico ateniense era quase que exclusivamente mí­tico; poucas figuras genuinamente históricas foram heroificadas, e as que tinham relevância naquele momento de crise eram em menor número ainda: não se podia apelar, por exemplo, para os tiranici-das Harmódio e Aristogiton. Nem mesmo o historicamente decisi-vo Clístenes tornara-se herói popular, mas ele pelo menos era co­nhecido como o homem que instituíra a democracia. Assim, Clito-fon propôs que os atenienses se voltassem para o pai da democra­-cia, sob cujas leis, ele poderia ter acrescentado, nós vivemos nossos melhores momentos quando salvamos a Grécia dos bárbaros, os per­sas invasores, em Maratona e Salamina. Recuando até esse ponto do passado, ainda continuaremos a ser uma democracia, uma de­mocracia ancestral, a que nos foi tão útil antes que homens como Efialtes e Péricles distorcessem sua forma original com medidas de­magógicas como o pagamento pelo exercício de um cargo público. Esse apelo certamente não teria empolgado a "plebe naval", mas seria ideologicamente atraente para o grande grupo intermediário que não gostava do governo dos "demagogos", mas estremecia ao ouvir a palavra "oligarquia".

Como vimos, a tentativa de estabelecer a oligarquia fracassou rapidamente, mas o debate teve uma conseqüência prática. Depois da queda dos quatrocentos, decidiu-se examinar o decrépito acúmulo de leis e decretos, e publicar-se um código organizado de leis sobre todos os campos, das quais uma parte surpreendentemente grande (para nós) consistia no calendário sagrado11. A comissão, que re­cebeu esse encargo em 410 a.C., ainda não havia terminado seu tra­balho quando Atenas finalmente perdeu a guerra em 404, em parte por causa da magnitude da tarefa num Estado que não tinha um setor de arquivo central — daí as palavras usadas por Clitofon ao propor que as leis de Clístenes fossem pesquisadas ou investigadas; e em parte porque a comissão parece ter-se conduzido mal, de uma forma que nos é desconhecida. O término da guerra interrompeu o trabalho de codificação, mas reacendeu os conflitos políticos de 411, com uma facção voltando a exigir uma oligarquia, restrita, ou­-tra resistindo a favor da democracia, enquanto uma terceira, na qual Teramenes e Clitofon reaparecem, propunha o retorno da consti­tuição ancestral12. Todavia, os atenienses foram impedidos de to-­mar a decisão: os espartanos vitoriosos enviaram tropas e impuse-


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 35

ram uma junta, ainda mais rígida e brutal que a dos quatrocentos de 411, e que posteriormente foi denominada de "os trinta tiranos".

Graças a uma divisão na liderança espartana, os democratas atenienses logo puderam recuperar o controle de sua cidade. Assim que a democracia foi restaurada em 403, decidiu-se completar a co­dificação proposta em 410. O decreto começa assim: "Os atenien­ses serão governados do modo ancestral [patrios aqui está converti­do num substantivo plural, ta patria], usando-se as leis, pesos e me­didas de Sólon e também os regulamentos de Drácon, que estive­ram em vigor anteriormente."13 Patrios aqui é ancestral no senti-do que notamos anteriormente em Tucídides, significando meramen­-te o modo como Atenas era governada antes de os trinta tiranos to­marem posse, posteriormente definido como "as leis de Sólon e as normas de Drácon"; o termo não é empregado no sentido arcaico de voltar-se às codificações de 594 e 621 a.C., respectivamente, e sim no sentido elíptico14. Por "leis de Sólon e Drácon" o decreto referia-se às leis de Atenas que haviam vigorado em 403 e que em parte remontavam aos antigos legisladores; a maior parte dessa legislação, porém, foi revisada ou totalmente renovada nos dois séculos posteriores a Sólon. Essa elipse pode exigir um esforço de imaginação, mas há exemplos ainda mais surpreendentes nos textos compostos após a conclusão da codificação. Depois do ano 403/2, toda lei que não tivesse sido incorporada ao código perdia sua vi­gência; contudo, os advogados continuavam citando alegremente nas cortes o que chamavam de "uma lei de Sólon", mesmo quando era absolutamente impossível que se tratasse de um decreto muito antigo.

Drácon introduz uma outra complicação da qual só tratarei para dizer que uma das primeiras providências da comissão legislativa, em 409 ou 408, foi reeditar leis draconianas sobre homicídio15. Só­-lon ocupava uma categoria diferente: ele era um dos sete sábios e o mais carismático de todos os atenienses históricos dos tempos an­tigos. Embora o decreto de 403 seja a mais antiga referência a Só­lon de que temos notícia, no que diz respeito ao debate sobre a cons­tituição ancestral, acredito seriamente que isso se trate de mero aca­so, dada a escassez de textos disponíveis. Porém, a referência a Só­lon num documento oficial no contexto da democracia restaurada certamente não é casual. Especulemos por um momento. Os adep­tos de Teramenes, como sabemos, reivindicaram a autoridade an­cestral para a oligarquia em nome da democracia. Os democratas, presumo, replicaram imediatamente, invocando um ancestral ainda mais antigo e heróico, o próprio Sólon16. O jogo de palavras aju­dou. A constituição metaforicamente ancestral de então foi amal­gamada à constituição literalmente ancestral de dois séculos antes.



36 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

Se é que a discussão tinha alguma importância, os democratas ha­viam jogado um trunfo. Então, resolvida a crise política, a discus­são deixou de ter sentido em assuntos práticos, embora tenha pro­vocado agitação entre os intelectuais — o rumo tomado pela dis­cussão no século seguinte é um assunto de que tratarei mais tarde; por ora, registrarei apenas uma última comoção. Em 322 a.C., após a morte de Alexandre, o Grande, os macedônios sufocaram uma re­belião ateniense e incluíram entre os termos de paz a condição de que "a constituição ancestral baseada numa qualificação por pro­priedades" fosse restaurada17. A cláusula da qualificação impedia quaisquer outros jogos de palavras futuros.

De Clitofon mudamos para Sir Edward Coke. A crise cons­titucional do século XVII entre rei e parlamento naturalmente foi diferente, mas a questão básica pode ser reduzida às mesmas perguntas: como a Inglaterra será governada? Por quem? Aqui também os debatedores novamente apelavam para os interesses contemporâneos como ainda, com bastante vigor, para a autori­dade do passado remoto. A resposta foi dada pelos juristas especiali­zados em direito consuetudinário, com Coke à frente que, partindo de sua ênfase profissional nos usos e costumes imemoriais, interpre­tados e aplicados pelos tribunais, chegaram facilmente às "leis fun­damentais" e à "antiga constituição" da pré-Conquista, a estrutura política dentro da qual, insistiam, o direito consuetudinário funcio­nava "imune à ação privilegiada do rei"18. A discussão histórica revelou-se tão atraente que logo tornou-se, talvez, a única predileta dos panfletistas, fossem juristas ou não. Havia inclusive um Sólon inglês, representado por Eduardo, o Confessor, tornando-se desne­cessário forjar as leges Edwardi Confessoris; isso já fora realizado ao fim da Idade Média, e Coke, por exemplo, citou-as repetidamen­-te em seus Institutes19. O paradoxo, como observou o professor Po-cock, foi que o grande jurista versado em direito consuetudinário re­correu então à sua enorme autoridade em estatutos apócrifos e con­seguiu, "de forma peculiar, considerar a existência deles, uma prova da antiguidade do direito consuetudinário que eles não contêm"20.

Essa história hoje em dia é tão conhecida que posso restringir-me a três aspectos, selecionados primordialmente por assinalar em paralelos com a situação ateniense:

(1) Há o elemento da história falsa: tanto as leis de Eduardo, o Confessor, quanto todo o relato das instituições antes e depois da Conquista foram ficção, assim como o relato da Carta Magna. "Coke não era historiador", escreve o professor Douglas com rara moderação, "mas achava-se sempre disposto a buscar a origem do direito consuetudinário na Antiguidade saxônica."21 Maitland abor-


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 37

dou a questão em termos mais claros: "É verdade que, com relação aos tempos muito antigos, o arrogante dogmático que dominou a jurisprudência de seu tempo trouxe poucas contribuições. Quando estava num terreno pouco conhecido, Sir Edward Coke era o mais crédulo dos homens. Não havia lenda, ou invenção, que ele não en­dossasse; e muitas das lendas e mentiras medievais passaram para a aceitação geral com seu aval."22

(2) Embora haja muita falta de clareza com relação a termos co­-
mo "constituição" — definição, afinal, introduzida posteriormente
— e "lei fundamental", Francis Bacon, por exemplo, quando escre­-
veu em 1506 que Eduardo I "curvou-se para dotar seu Estado de vá­-
rias e notáveis leis fundamentais, sobre as quais o governo assentou-
se primordialmente desde então", usou uma linguagem, reminiscen-
te de algum dos autores gregos que citei, tão clara quanto a destes
últimos, apesar da ausência da palavra "constituição"23.

(3) Há a mesma recusa do outro lado em abandonar o passado.
Jaime I justificadamente não fez fé na reinstituição da Sociedade dos
Estudiosos da Antiguidade em 161424, mas os juristas da coroa
revelaram-se capazes de coligir dados históricos em defesa do rei: "a
Prerrogativa da Coroa é a primeira Tábua dessa Lei Fundamental"25
foi facilmente fundamentada em documentos que abrangiam grande
parte do passado. A história mostrou-se uma fraca arma de defesa;
os realistas perderam a verdadeira batalha e os parlamentaristas vi­-
toriosos foram prontamente atacados pelos radicais, com a acusação
de que o próprio direito consuetudinário era um instrumento de opres­-
são, criação da conquista normanda. A palavra "normanda" é em­-
pregada pejorativamente em numerosas passagens de panfletos es­-
critos pelos levellers*; até o pobre Coke foi castigado com esse rótu­-
lo. Os levellers apelaram para o direito e razão naturais, fontes pro­-
fundamente a-históricas, mas eles também não abandonariam o pas­sado, o que resultou num curioso produto híbrido. O direito dos in­-
gleses, escreveu Robert Norwood em 1653, foi sancionado pelo Par­-
lamento do "Rei Ethelred" e "enraizado no coração dos ingleses pe­-
lo próprio Céu". Sete anos antes, John Lilburne usou, no The Just
Man's Justification, uma linguagem que já encontramos várias ve­-
zes: devemos abolir a "inovação normanda" dos tribunais em West-
minster e restaurar "a antiga estrutura de governo existente neste rei­-
no antes dos dias dos conquistadores"26.

Não precisamos percorrer os curiosos caminhos secretos da dis­cussão sobre o Jugo Normando depois disso27. Apesar de toda sua

* Componentes de um grupo radical que defendiam um programa de reforma constitucional na Inglaterra. (N. T.)


38 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

impetuosidade (e de apoiar-se continuamente numa história em gran­de parte fictícia), ela não possuía, como discussão política, o ardor da antiga constituição de Coke, pois a situação política se al-terara. Depois da Revolução Gloriosa, na verdade, "a teoria da Conquista deixou de constituir uma ameaça e passou a ser uma brincadeira"28, embora tenha originado algumas pesquisas históri-cas sérias e um po­lêmico debate na imprensa entre 1730 e 173529.

Meu terceiro caso a ser analisado é americano, recente o bastan­te para poder ser chamado de contemporâneo. Os Estados Unidos, naturalmente, possuem a constituição ancestral, redigida, bem docu-mentada e santificada desde que John Marshall converteu a Supre­ma Corte em árbitro da política pública. A interpretação da consti­tuição tem sido objeto contínuo de debate político por mais de um século e meio, mas essa é uma atividade diferente da que estou discu­tindo. Por isso os norte-americanos substituíram a constituição an­cestral pelos patronos fundadores* e a confiança em sua sanção não é um fenômeno novo, por razões de que tratarei mais adiante. Du­rante a eleição presidencial de 1900, o sr. Dooley, a figura cômica predileta de Sir Denis Brogan, observou que ambos os candidatos eram "adoradores de ancestrais tal qual os chineses"30. Mas o clímax foi atingido durante a celeuma sobre o plano do governo para o restabe­lecimento econômico e a segurança social, e vale lembrar que essa celeuma incluiu uma crise constitucional sobre a Suprema Corte que reforça o paralelo com as duas situações que já examinamos.

A escolha praticamente unânime, para patrono supremo foi Thomas Jefferson, e isso é intrigante. Ele era, para ser preciso, o patrono do partido democrático e autor da Declaração de Indepen­dência, cujos parágrafos iniciais todo estudante sabe de cor. Toda­via, ele não fora (e nunca veio a ser) herói popular - George Wash­ington não teve nenhum rival antes de Abraham Lincoln -, não fo-ra um presidente notável, e acreditava numa sociedade de proprie­tários rurais independentes com uma forte autoridade centralizada. "Os cultivadores da terra são os cidadãos mais valiosos", escreveu ele de Paris em 1785. "Considero a classe dos artesãos os alçovi-tei­ros do vício e os instrumentos através dos quais as liberdades de um país geralmente são subvertidas."31 E, contudo, ele tornou-se o es­pírito ancestral de um governo nacional intervencionista que procu­rava resolver uma crise industrial num país altamente urbani-zado - uma inversão de papéis procedente dos respectivos apelos feitos pelos partidos de Bolingbroke e Walpole na década de 1730, cada qual para a opinião "errada" da história32. Franklin Roosevelt con-

* Membros da Convenção Constitucional dos Estados Unidos, de 1787. (N. T.)



A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 39

tribuiu pessoalmente para a construção do novo mito. Em 1925, na única crítica literária que escreveu, ele analisara Jefferson and Ha­milton: The Struggle for Democracy in America, de Claude Bowers. Quando assumiu o cargo, ele já compilara um grande e bem organi­zado arquivo de citações de Jefferson, que empregava livremente em seus discursos, e todo dia 13 de abril um de seus auxiliares pes­soais depositava uma coroa de flores no túmulo de Jefferson33.

É bem possível que o espírito de Jefferson tenha ficado con­tente. Ele mesmo, por motivos semelhantes, "coletava meticulosa­mente toda e qualquer evidência para reconstruir a história" de seus "ancestrais saxões", como ele os chamava34. Todavia, os historia­dores não foram os únicos a ressaltar prontamente que sobre as ques­tões substantivas e a natureza e papel do governo a antítese de Jef­ferson, o elitista Alexander Hamilton, era o patrono mais apropria­do. Alguns republicanos chegaram, de fato, a voltar-se para ele, mas, por várias razões, ele era um ancestral ineficaz e até mesmo perigoso35. Assim, eles observaram as regras do jogo com que já nos deparamos: reclamaram Jefferson a Roosevelt e aos democra­tas. Por ocasião da eleição presidencial de 1936, quando Roosevelt concorreu para seu segundo mandato, os apelos da oposição conse­guiram o efeito de uma ópera cômica, embora o tom fosse sério e solene. Num artigo escrito no começo desse ano, o professor Bro-gan resumia: "O sr. Dooley afirmou, de fato, que 'não se pode vo­-tar em defuntos'. Os políticos americanos não estão tão certos dis­so, e durante este ano todos se empenharão em obter o voto desse [único] patrono fundador."36

Naturalmente, a discussão norte-americana voltada para o pas­sado ancestral não podia ser igual às outras duas que já vimos, vis­to que o passado já estava muito bem documentado e estudado. A citação seletiva, portanto, substituiu a invenção como expediente operacional. Há outras diferenças: não preciso perder tempo salien­tando que, institucional e estruturalmente, a Atenas do século V, a Inglaterra do século XVII e os Estados Unidos do século XX di­vergiam muitíssimo. Por outro lado, podemos isolar importantes ele­mentos comuns, e o simples fato de sua repetição na discussão polí­tica dessas sociedades tão diversas e tão separadas no tempo (e tam­pouco esses três são os únicos exemplos disponíveis)37 sugere o en­volvimento de algo fundamental sobre o comportamento social, al­go que não se podia rotular elegantemente de "retórica" ou "pro­paganda" e deixar estar para ver como é que fica (aliás, nunca se pode "deixar estar" a retórica e a propaganda).

Há pelo menos quatro elementos comuns a ser considerados:

(1) Supôs-se, sem justificar-se, que o argumento da Antiguida-


40 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

de é válido num debate sobre a política da época. Mas havia, os cé-ticos, naturalmente, como, por exemplo, o sr. Dooley: "Tenho pro­fundo respeito pelos sábios, e aprovo que se dê o nome deles a ruas e escolas públicas."38 Todavia, os que tomaram parte no debate, de ambos os lados, discutiram sobre fatos do passado — pelo me­nos afirmavam que esses fatos eram do passado —, e não sobre a legitimidade ou mesmo os limites do apelo em si. Sabedores do que queriam encontrar no passado, eles o procuraram e acharam.

(2) O passado remoto foi concretizado e personalizado, exata-mente como o fora nos mitos e lendas das sociedades antigas. O an­cestral sancionador era normalmente um ancestral, Sólon, Eduar­do, o Confessor, Thomas Jefferson ou alguma outra pessoa, e não simplesmente o passado em geral ou mesmo um período específico do passado. Isso foi igualmente verdade em relação aos juristas ver­sados em direito consuetudinário do século XVII, apesar de toda sua retórica sobre "o passado imemorial": como os advogados ate­nienses do século IV, que nunca citaram "a lei" ou "costume" no abstrato39, nem Coke nem Sir Matthew Hale deixaram de especifi­-car qual código, qual estatuto, qual rei definiu para os ingleses qual­quer uma de suas liberdades atemporais40. Já não podemos mais compreender, em todos os exemplos, por que a escolha recaiu na­quela determinada pessoa, como o ocorrido no século XVIII com a descoberta do rei Alfredo41, mas devemos reconhecer a percep­-ção psicológica revelada por esse procedimento. Nossos próprios es­pecialistas em opinião pública propuseram solenemente "a teoria de que 'quem' diz alguma coisa a alguém, influencia significativa­mente a resposta ao que é dito"42. Burke, que nunca ouviu falar de eleição nem de pesquisa de opinião pública, já sabia disso. No longo trecho conhecido atualmente como An Essay Towards an Abridgment of English History, ele escreveu que Alfredo "é geral­mente reverenciado como o fundador de nossas leis e Constituição", acrescentando uma nota de rodapé que, embora historiadores, "co­piando uns aos outros", tenham atribuído falsamente essa ou aquela reforma a Alfredo, "esses relatos, apesar de erroneamente avalia­dos, constituem forte prova da grande veneração de que esse exce­lente príncipe sempre foi alvo; e pensou-se que, ao serem atribuí-das a ele, essas regulamentações ganhariam a estima da nação"43. Além do mais, uma vez escolhido o candidato à veneração, todos prefe­riam tirar proveito dele a oferecer uma alternativa. Às vezes, havia pouca ou nenhuma opção: não é difícil compreender por que nin­guém quis a sanção de Guilherme, o Conquistador, numa crise cons­titucional. Mas, de algumas outras vezes, a ausência de alternativas foge ao nosso entendimento.


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 41

(3) Vistos objetivamente, isto é, do ponto de vista de um obser-
vador externo que não esteja envolvido na controvérsia (na medida
em que isso seja humanamente possível), os debates eram sobre ques-tões genuínas, questões constitucionais ou de outra natureza nas
quais havia diferenças nítidas quanto aos interesses e objetivos, e
que portanto podiam ser discutidas racionalmente. Contudo, vimos
que mesmo aqueles que enfatizavam os argumentos racionais e mo-
rais raramente podiam resistir à tentação de recorrer ao passado.
Um testemunho recente muito importante nos vem do dr. Staugh-
ton Lynd, um líder da Nova Esquerda intelectual americana e, a seu
modo, um bom historiador. "Apesar do suposto a-historicismo da
Nova Esquerda", escreveu ele, "a necessidade de um passado cole-
tivo é sentida com particular veemência pelos jovens de hoje. Mui-
tos jovens norte-americanos rebeldes tiveram seus sentimentos pro-
fundamente perturbados quando se defrontaram com a história de
nosso país." Não obstante, "há uma sensação difusa de que a retó-
rica da Revolução e da Guerra Civil falava então e fala agora de
esperanças difundidas entre a humanidade"44.

(4) Não acho que estou exagerando quando detecto uma certa afi-
nidade entre os rebeldes norte-americanos do dr. Lynd e o "Oh, Ma-
ravilhosa Constituição! Criadora, Monitora, Guardiã da Humanida-
de!" O professor Plumb, com uma eloqüência mordaz, demonstrou
recentemente que "o passado sempre foi o criado da autori-
dade"45. Um bom criado, devemos acrescentar: o apelo para o pas-
sado, o argumento baseado no passado ancestral, geralmente ultra­-passa os limites de classe, nível educacional ou disposição política. Ele
foi ouvido na assembléia popular ateniense, no parlamento inglês e
no congresso dos Estados Unidos, nos discursos de Quatro de Julho
e nas conversas de Roosevelt em volta da lareira, na imprensa, em pan-fletos populares, em pesquisas mais eruditas. Ele é, em resumo, ideo-logia em sua forma clássica. Pode estar ligado ao conservadorismo,
como em Burke, mas não necessariamente; tanto na Inglaterra do sé-culo XVII quanto nos Estados Unidos da década de 1930, o apelo foi
feito primeiro pelo partido que reivindicava uma mudança mais ou me-
nos radical, obtendo em seguida o apoio dos "conservadores".

O que os historiadores modernos fizeram de tudo isso? A res­posta pura e simples é: muito pouco. Em nossas histórias mais ge­rais e em narrativas dos respectivos períodos, o emprego de argu­mentações baseadas no passado ancestral raramente é notado. Na História da Grécia, de Bury, existe apenas uma breve e vaga refe­rência ao apelo da patrios politeia em 411 a.C., e Hammond, em sua História da Grécia, apresenta uma única frase sobre a emenda de Clitofon de 411 e outra sobre a moção de 403, sem comentários.


42 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

O nome de Thomas Jefferson não consta no índice de Franklin D. Roosevelt and the New Deal, de Leuchtenberg nem nos três volu­mes da minuciosa obra de Schlesinger, Age of Roosevelt. Devemos recorrer a monografias e artigos especializados que tratam de as­pectos da história da historiografia, de erudição ou pensamento po­lítico, ou escritos apenas porque alguém precisava de um novo as­sunto para uma tese de doutoramento, ou porque um arquivo foi aberto recentemente para pesquisa. Além do mais, mesmo os me­lhores destes — e alguns realmente atingem muito bem seus objeti-vos — evitam as dificuldades de explicação. De uma forma ou de outra, a legitimidade do apelo é aceita como se fosse um dos axio­mas de Euclides. Dizer que "talvez os estadistas nunca tenham... se voltado mais instintivamente para o passado" a fim de "encon­trar uma solução para os problemas do presente" não ajuda em nada46. "Os norte-americanos nunca acharam necessário desculpar-se por recorrer continuamente aos patronos fundadores em busca de sabedoria e inspiração" é correto, mas igualmente inútil; conti­nuar dizendo que uma avaliação adequada de Hamilton nos dará "uma orientação clara... à medida que confrontemos nossas pró­prias perplexidades" tampouco é correto, no sentido estrito47.

Duas razões para esse fracasso (palavra que não é excessiva­mente forte) apresentam-se por si mesmas. A primeira é que, ape­sar de o fenômeno ser explicável, os historiadores não se preocu­param muito com a psicologia das pessoas que são seus objetos de estudo, com o que os franceses chamam de structures mentales, de modo algum idêntico ao "nível consciente — o conteúdo manifesto de idéias e crenças"48. A história da religião parece ser uma exce-ção, além de atividades como o ascetismo ou a conversão, e eu não compreendo por que os fatores psicológicos são permitidos ali, mas não no comportamento político (existe, naturalmente, a obra, de influência freudiana, que examina em profundidade os gênios cria­tivos individuais, sobretudo na literatura, arte e música, mas esse tipo de "psico-história" — termo de Erik Erikson para seus estu­dos de Lutero e Gandhi — de pouco serve para nosso problema).

A segunda razão é que todos nós somos tucidideanos; por uma espécie de decisão tácita coletiva, os historiadores permitiram-se não relatar discussões políticas que eles próprios tacham de "romance" (o to mythodes, de Tucídides) ou de irracionais ou irrelevantes para as realidades da política. Gostamos de pensar que somos realistas empedernidos e projetamos essa imagem não apenas sobre os influen-ciadores como também sobre aqueles que são influenciados. Para­doxalmente, porém, os historiadores admitem que aceitar a história falsa no debate político é melhor do que não ter história alguma.


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 43

O Mestre de Baliol encontra uma espécie de lógica na teoria do Jugo Normando: se "levarmos em conta o apelo patriótico mais amplo", veremos que ele "não foi assim tão absurdo quanto supõem alguns historiadores do século XX"49. Do fato de Roosevelt insistir em man­-ter Thomas Jefferson em sua memória, o professor Malone conclui que "começa a parecer que o sr. Roosevelt lera a história dele com uma perspicácia maior" do que a de seus predecessores50.

Explicações particulares para a repetição desse tipo de discus­são não são difíceis de encontrar. Eu mesmo sugeri anteriormente que em Atenas era reconfortante poder aceitar a oligarquia em no­me de Clístenes, pai da democracia. A peculiar evolução inglesa do direito consuetudinário tem sido advogada como a chave para o apelo do século XVII. O sr. Hill escreveu, por outro lado, que "os ho­mens ainda não ousavam apelar somente para a razão e a utilidade; a autoridade devia ser desafiada pela contra-autoridade"51, mas isso não nos diz por que a contra-autoridade reside no precedente anglo-saxão de seiscentos anos de idade. Sem dúvida, quando a vi­da se torna intolerável para grandes partes da população, obtém-se um certo alívio acreditando-se e sonhando com uma época em que as coisas eram diferentes e melhores, geralmente uma época do pas­sado remoto, por razões óbvias. Todavia, o sonho não produz na­da mais concreto do que visões utópicas de uma Idade Dourada, irrecuperável, salvo por um milagre ou ato da graça divina, enquanto que nossa preocupação está voltada precisamente para os momen­tos em que se exige uma ação política específica52.

Em minha opinião, as raízes encontram-se mais no fundo, na própria natureza do homem, que só possui memória e a presciência da morte inevitável, o que o leva inconscientemente a um desejo, uma necessidade, algo que crie um sentimento de continuidade e per­manência. A psicopatologia moderna demonstrou que um colapso no "horizonte temporal" leva à desorientação e desordem da per­sonalidade53. Hans Meyerhoff deu a fascinante sugestão de que pode-se ler Édipo Rei, de Sófocles, "como a tragédia de um homem que é destruído súbita e brutalmente porque a continuidade do tem­po em sua vida é interrompida irremediavelmente. Abre-se um ter­rível abismo: de um lado, há seu passado vivido e lembrado desde a derrota da esfinge, a libertação de Tebas e a conquista do trono e da esposa; de outro, está o passado de sua infância e juventude, esquecido, reprimido, ou simplesmente falsificado, e, em seguida, trazido à luz. Pode-se dizer, portanto, que Édipo não tem auto-identidade"54.

A tragédia de Édipo, naturalmente, não é só uma tragédia pes­soal; ela envolve sua família, como acontece com a maioria das tra-


44 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

gédias gregas; seu oikos, como diriam os gregos, e um oikos esten­dido para frente e para trás no tempo55. Para nossos propósitos, dois aspectos são importantes. O oikos era o repositório e transmis­sor das "lembranças" do passado; sem as lembranças das casas aris­tocráticas, Heródoto não poderia ter começado a escrever sua história56. E essas mesmas casas dominaram a política ateniense pe­-lo menos até a morte de Péricles, fortalecendo sua autoridade pela tradição antiga e pela sanção religiosa. As duas sanções eram, de fato, interligadas.

Como aqui entramos num terreno traiçoeiro, preciso usar de cautela. Em sociedades mais simples que a Grécia clássica, e espe­cialmente nas sociedades sem Estado, os cultos ancestrais estão di-retamente ligados, geralmente de modos sutis, não só à riqueza e prosperidade dos descendentes vivos como também à manutenção das normas sociais, ao poder dentro da linhagem e à transmissão de suas propriedades57. Quando podemos obter dos gregos uma do­cumentação útil, parece-nos que o culto ancestral, no sentido estri­to, foi substituído, entre eles, pelos cultos à família, sobretudo o do Zeus Herkeios e o dos heróis, um termo técnico dos tempos pós-homéricos que melhor definiremos com a citação do poeta Hesíodo (Os Trabalhos e os Dias, 159-60): "uma raça de homens-heróis, se­melhantes a deus, que são chamados de semideuses". O elo históri­co entre os dois cultos, dos ancestrais e dos heróis, está bem estabelecido58. Na medida em que os heróis eram patronos de ci­dades e de subgrupos políticos, o culto ancestral no sentido estrito dera lugar a uma versão metafórica análoga ao culto aos santos, em geral e em particular (como patronos individuais). Todavia, cada uma das casas aristocráticas da Grécia clássica, mesmo na Atenas democrática, também tinha seu herói, do qual seus membros des­cendiam, e é aí que a questão se complica. O que os alcmeônidas, que contavam entre seus membros com Clístenes e Péricles, acredi­tavam "realmente" sobre Alcmêon e sua "descendência" dele? Ou então o grande rival aristocrático de Péricles, Cimon, que alegava ser descendente direto de Ájax59?

Com as linhagens, pelo menos podemos nos situar. Fosse de uma família real ou de uma casa aristocrática, uma linhagem, se­gundo o professor Goody, "constituía um privilégio para um cargo público e outros direitos; quanto mais antiga a linhagem, mais for­te e eficaz ela era como instrumento de legitimação do cargo e do ocupante do mesmo"60. A origem divina, e mesmo o direito divi­-no, ajuda mas não é indispensável; uma referência genérica, não ne­cessariamente explícita, à vontade de Deus parecia ser quase que da mesma valia. Além do mais, as linhagens nos levam ao caminho que


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 45

parte da psicologia individual e do grupo familiar e vai até o Estado ou Nação, que é nosso tema. Não creio que o simbolismo do paren­tesco — a constituição ancestral, os patronos fundadores — seja aci­dental ou destituído de sentido. Burke ocupa-se reiterada e enfati­camente dele; examinarei aqui apenas algumas poucas frases e pará­grafos de um único trecho das Reflexões: "O povo que nunca relem­bra seus ancestrais não poderá ansiar pela posteridade. Além do mais, o povo da Inglaterra sabe muito bem que a idéia de herança origina um princípio seguro de conservação e de transmissão... Nessa opção pela herança, concedemos à estrutura de nosso Estado a imagem de um parentesco sangüíneo, cingindo a constituição de nosso país aos nossos mais caros laços nacionais, adotando nossas leis fundamen­tais no seio de nossas afeições familiares... Sempre agindo como se estivéssemos na presença de nossos antepassados canonizados..."61

Evidentemente, não estou sugerindo que o parentesco biológi­co, ou o parentesco fictício ou simbólico, seja a única noção que vin­cula uma sociedade a seu passado; ou que em épocas de crise recor­remos sempre a nosso próprio passado. A Revolução Francesa, co­mo disse Marx na introdução do Dezoito Brumário, "tomou alter-nadamente a forma da República Romana e do Império Romano". Contudo, todos nós temos experiência pessoal do modo como, em vários grupos, os laços internos se fortalecem pelo senso de continui­dade oriundo de um conhecimento (ou pretenso conhecimento) co­mum de figuras-chave e incidentes do passado. E o mesmo ocorre com a unidade política. Se os historiadores são incapazes de ir além de algumas observações superficiais e triviais, ou se limitam-se a es­peculações gratuitas — o que, em muitos casos, é mera conseqüência do desinteresse deles —, os psicólogos sociais têm também sua dose de responsabilidade, visto que demonstram o mesmo desinteresse quanto a esse aspecto do comportamento e valores sociais. Eu pelo menos não consegui encontrar uma análise séria dessa questão.

Pode-se replicar que o psicólogo social nada tem a examinar porque o mundo ocidental contemporâneo afastou-se de seu passa­do, tornou-se um mundo de avanço técnico na vida prática e de nou-velles vagues incessantes na cultura. Isso me foi dito numa conversa particular; quando contra-argumentei, alegando Jefferson e o New Deal, responderam-me que os Estados Unidos são um caso à parte. E assim é. Num ensaio intitulado The Search for a Usable Past, Henry Steele Commager assinalou dois elementos-chave62. Os Es­tados Unidos tornaram-se um Estado antes de serem uma Nação, desprovido de "história, tradição e memória". Essa deficiência foi rapidamente suprida na primeira metade do século XIX, sobretudo pelos literatos da Nova Inglaterra. Depois vieram as ininterruptas


46 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

levas de imigrantes, que tiveram que ser incorporados psicologica­mente, o que foi conseguido por meio da repetição constante dos "denominadores comuns facilmente compreendidos", selecionados do agora bem estabelecido "passado utilizável".

Mas a União Soviética também é um caso à parte. Resultado de uma revolução que aceitou consciente e explicitamente suas raízes no passado, no sentido marxista, enfatizando, assim, sua ruptura dialéti-ca com o passado, a União Soviética do fim da década de trinta para­doxalmente redescobriu seus heróis (russos) ancestrais: Kutuzov, Pe­dro, o Grande, e mesmo Ivan, o Terrível. Israel, também, é peculiar — basta mencionar a conversão de Masada em santuário nacional.

O que mais nos frustra, porém, é tentar avaliar a eficácia de um argumento político baseado no passado ancestral. Que influên­cia teve ele sobre a opinião pública, opinião de qualquer que fos-se o público que tivesse importância na época; em que fortaleceu ou confundiu a opinião enquanto apelo distinto - e, para alguns, o-pos­to - dos argumentos baseados na razão e na utilidade? Não creio que dispomos de instrumentos de análise para responder essa per­gunta sobre uma era passada, mas os especialistas em opinião pú­blica contemporânea poderiam ter-nos fornecido um modelo; até hoje, porém, não fui capaz de encontrá-lo. O modelo não seria au­tomaticamente utilizável: fatores como o aumento radical da vi-da média e mudanças na natureza e papel da família constituiriam va­riáveis importantes63. Entretanto, mesmo um modelo falho seria melhor do que nenhum. Enquanto isso, estamos limitados a um exa­me do lugar do argumento na história das idéias, especificamente em teoria política e em historiografia.

Com a restauração da democracia em Atenas no fim do século V a.C., a oligarquia deixou de ser uma questão prática. Todavia, a oposição intelectual à democracia continuou, e nesses círculos (sal­vo Platão e seus discípulos próximos) o apelo à constituição ances­tral manteve a vitalidade. Agora, todos concordavam que Sólon fo­ra o fundador do Estado ateniense moderno; portanto, quem escre­veria sua biografia seria Plutarco, visto que Clístenes estava desa­parecendo gradualmente de cena. Mas que espécie de Estado? Uma constituição "sortida", disseram os panfletistas, que preferiam a oli­garquia (tanto quanto a rejeitavam), tendo em Isócrates seu princi­pal porta-voz, incansáveis em exigir a volta dos bons tempos anti­gos64. Os democratas, naturalmente, discordavam, e Demóstenes, por seu lado, nunca se preocupou sequer em debater o caso.

É inútil procurarmos em todos esses escritos uma teoria políti­ca propriamente dita. Sentimentos, disposições, argumentos, con­ceitos políticos, talvez — isso é o máximo que podemos reivindicar.



A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 47

A teoria política grega começou com os sofistas, que são muito va­gos para uma análise precisa nesse contexto. Mas Platão não deixa dúvidas a respeito. Contando cerca de dezoito anos quando Clito-fon propôs a emenda que iniciou o debate, Platão gozava de estrei­tas ligações pessoais com alguns dos protagonistas e estava atento aos acontecimentos; e, no momento oportuno, ele repudiou toda a discussão "histórica" com um solene desprezo. Sólon é mencio­nado umas dezoito vezes na obra de Platão; Teseu apareceu seis ve­zes; Drácon e Clístenes, porém, nem uma vez, o que já é um indício da irrelevância da história constitucional65. As referências a Sólon são casuais mas amistosas: ele é um dos velhos sábios, um bom le­gislador como Licurgo de Esparta, o homem que transmitiu o mito da Atlântida, um poeta gnômico que devia ser citado. Não existe nenhum argumento sério nessas observações casuais; elas simples­mente fazem parte do estilo discursivo de Platão, que citava cons-tantemente as atividades e referências familiares a todo ateniense comum.

Na República, é desnecessário dizer, não poderia haver lugar para a constituição ancestral e nem razão alguma para mencioná-la. Nas Leis Platão mostra, de fato, certo respeito para com ta pa­tria como tal, mas não de modo relevante para nosso assunto: são discutidas a pintura e a música (II 656E), a nutrição dos bebês des-de a concepção (VII 793A-D), e outros temas semelhantes. É verda­de que Platão revela, sem dúvida, uma tendência "arcaica", mas sua filosofia nunca se fundamentou em argumentos ancestrais, e no Político, ou o Estadista, ele expressa seu repúdio cabal. Tendo esta­belecido que a habilidade política é uma ciência (episteme) e que o único exame cabível a uma constituição verdadeira ou correta é se ela é estabelecida e administrada cientificamente ou não (e não se ela é oligárquica, timocrática, democrática ou qualquer outra coisa igualmente irrelevante), o Estrangeiro Eleata demonstra (293B-299A) a "difícil doutrina" de que assim a legislação formal seria desne­cessária, até mesmo uma coisa má. Para tanto, ele recorre abusiva­mente à conhecida analogia platônica do médico e o piloto, que chega a seus clímax numa paródia hilariante da prática legislativa atenien­-se contemporânea. Um projeto de lei apresentado na assembléia con­vida todas as pessoas, independentemente de suas qualificações, para formular regras detalhadas para a prática da medicina e da navega­ção; especificando que as regras serão escritas; determinando que "durante todo tempo" não se poderá seguir nenhuma outra lei; es­tipulando a seleção de funcionários (não-qualificados) para dirigi­rem navios e curarem as doenças de acordo com a lei e o controle popular sobre esses "magistrados" através dos métodos usuais.


48 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

Nem Sólon nem a constituição ancestral são mencionados nes­sas páginas, mas a passagem tem indícios cuidadosamente distribuí­dos que não teriam escapado a nenhum ateniense letrado. As novas leis devem ser inscritas em kyrbeis e stelai, e todos sabiam que as leis de Sólon eram inscritas em kyrbeis, e as modernas em stelai; repete-se regularmente que a assembléia e os jurados devem ser es­colhidos ou entre o demos todo ou somente entre os ricos, mas sabia-se muito bem como os terameneanos insistiam que a constituição solônica era timocrática. O professor Skemp deve ter razão quando observa que a "resposta de Platão é: a deterioração é mais profun­da... e afeta a democracia 'solônica' tanto quanto qualquer ou­tra"66. Essa é sempre a resposta de Platão com respeito a todas as constituições existentes; mesmo as melhores são meras imitações da constituição verdadeira; o debate sobre a constituição ancestral é, no mínimo, uma perda de tempo; as constituições não podem ser julgadas por suas referências a tal ou qual herói ou a constituições do passado. A imitação de Trasímaco é uma bela ironia.

O método radicalmente diferente de Aristóteles levou-o à mes­ma conclusão fundamental, embora ele não o tenha dito tão expres­samente, e apesar de haver aspectos de sua obra que parecem suge­rir superficialmente outra coisa. Podemos ser induzidos a erro pelo temperamento de Aristóteles; dotado de uma brilhante virtuosida­de, ele nem sempre podia resistir à tentação de demonstrá-la, como no longo trecho da Política (1313a34ff.), onde expõe sistematica­mente os meios pelos quais a tirania podia ser preservada, ou no breve trecho (1273b35-74a21) em que corrige os erros factuais "da­queles" que sustentam que Sólon "estabelecera a democracia an­cestral". Tanto em política quanto em biologia, Aristóteles fez uma incansável coleta de dados e buscou informações políticas no passa­do e no presente, no exterior e em sua própria terra. A leitura da história possibilitou-lhe aumentar o alcance e o número das expe­riências disponíveis para estudo; isso não tinha valor por si só. Se­gundo as palavras do professor Guthrie, a abordagem "na verdade não era absolutamente genética, mas analítica"67. A "constituição ancestral" de Atenas interessou-o por ser uma constituição que ou­tros estavam discutindo, não por ser ancestral. Escrevendo sobre pro­postas para introduzir a igualdade de propriedade, ele diz (Política, 1266bl6-19): "entre os antigos..., por exemplo, havia a legislação de Sólon e alhures há uma lei que proíbe um homem de adqui-rir o quanto deseje; há, igualmente, leis que proíbem a venda de pro­priedade; por exemplo, em Locris há uma lei..." A discordância de tempos verbais, a indiferença quanto ao tempo, lugar e mesmo cir­cunstâncias são típicas do método.


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 49

Essa é uma história paradigmática, que não deve ser confundida nem com historiografia nem com o argumento político baseado no pas­sado e na tradição68. Os paradigmas serviam para exemplificar prin­cípios que eram elaborados por meios racionais (e também revelam que Aristóteles, diferentemente de Platão, sempre teve em mente, co­mo objetivo, tanto o possível quanto o ideal). Agora, qualquer pre­tensão de que a historiografia é uma episteme, uma disciplina, nunca foi repudiada de modo mais peremptório do que no famoso nono ca­pítulo da Poética: "A poesia é mais filosófica e séria do que a histó­ria, pois fala mais do universal e a história do particular. Por 'univer­sal' entendo que determinado indivíduo dirá ou fará determinadas coi­sas segundo a verossimilhanca ou necessidade; esse é o objetivo da poe­sia, acrescentar os devidos nomes às suas personagens. Por 'particu­lar' refiro-me ao que Alcibíades fez e pelo que passou."

Depois de Aristóteles o pensamento político grego, na medida em que ainda se pode falar dele, desviou-se das realidades da cidade-Estado e da política; por isso, de nada valeria persistir nessa dire-ção em relação à pesquisa. Roma é um outro caso, mas evitei incluí-la em minhas histórias-casos porque tal questão exigiria um estudo com­pleto exclusivo. Mencionarei apenas que na frustrada união tenta­-da por Cícero entre a razão natural ou a lei natural da segunda stoa e a do mos maiorum romano, quando ele, como era previsível, des­cobre que a "constituição ancestral" romana era a corporificação da razão natural, foram os conceitos estóicos que mantiveram sua obra De Republica viva para as gerações posteriores, e não a histó­-ria adulterada.

Quando nos voltamos para a teoria política na Inglaterra, o im­pacto do debate do século XVII é tão insignificante que uma dis­cussão extensa torna-se desnecessária. Hobbes era muito culto e, co­mo Aristóteles, não pôde resistir à oportunidade de corrigir erros históricos. Exatamente como Aristóteles, ele também não reconhe­cia mais que um valor paradigmático para a história, a qual, como ele afirmou em Behemoth, só pode fornecer "exemplos de fato", não "argumento de direito"69. Quanto a Locke, não é preciso pro­var que ele pensava de outra forma sobre o argumento ancestral. Devemos ocupar-nos apenas de Burke.

Burke não é fácil. Ele não era um pensador sistemático70; na maior parte de sua enorme produção literária tratou de uma ou ou­-tra situação política em que esteve envolvido emocionalmente, sem­pre procurando promover seu partido e a causa deste. Nenhum pen­sador político é alvo mais óbvio para a recente afirmação do sr. Dunn de que a história das idéias seja considerada "como a história de uma atividade"71. Um pequeno número de sentimentos simples rea-


50 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

parece com razoável coerência, mas o que eles implicam exatamente não fica claro, como o demonstram as divergências internas do gru­po americano neoconservador concentrado em torno de Burke News-letter (conhecido desde 1966 como Studies in Burke and His Time). É difícil evitar um certo subjetivismo, especialmente no que tange à escolha da citação correta, e eu tampouco tenho essa pretensão.

Observo, de início, que a maior parte dos textos de Burke men­cionados nas discussões modernas sobre nosso tema específico é ex­traída de Reflections on the Revolution in France, e, em minha opi­nião, não é inteiramente irrelevante lembrar que essa polêmica polí­tica foi de uma causticidade e eloquência raramente, ou nunca, igua­lada, que Burke depositou muita esperança no resultado do debate sobre a política dos Whig em relação à França, e que ele possuía ple­na consciência de todas as implicações. A fúria do ataque não dei-xa de ser surpreendente; nada na correspondência ou nas atividades pú­blicas de Burke anteriores a 1790 indica que ele estava a ponto de divulgar repentinamente seu extenso manifesto, onde clamava por uma contra-revolução pan-européia72; nada na carreira de Burke, per-mea­da de demonstrações de antipatia pela França, sugere antecipada-mente sua tentativa de ajudar a organizar a contra-revolução ou a adulação a Luís XVI, por quem revela todo seu servilismo na obra que suce­deu as Reflections, o abominável Appeal from the New to the Old Whigs73. O que causou isso? Uma leitura da correspondên-cia indica que a causa encontra-se em três temas abordados regular-mente por Burke: o confisco em grande escala da propriedade, o ataque ao cle­ro e o medo, que se converteu em pânico, de que a revo-lução se espa­lhasse até a Inglaterra, especialmente através das ativi-dades do dr. Richard Price e seu grupo de dissidentes74.

Poucas são as dúvidas quanto a essa questão ou quanto ao resul­tado, a formulação, nas Reflections, da aprimorada doutrina do conservadorismo75. Mas há uma importante questão de ênfase. Num artigo já considerado clássico, o professor Pocock afirma que Burke estava identificando-se deliberadamente com a tradição do direito con-suetudinário, que "uma doutrina de tradicionalismo, muito semelhante à do próprio Burke, originou-se do conceito da constituição antiga", que, nas Reflections, Burke "voltou, de fato, à posição cuja adoção anteriormente censurara a [Sir Matthew] Hale"76. É verdade que há passagens nas Reflections e em outros escritos que Pocock citou justi-ficadamente para corroborar sua argumentação. Mas terá ele adotado a ênfase correta? Acho que não, por duas razões principais (afora o fato de que pode-se compilar um número igualmente impressionante de citações com o fim de corroborar a afirmação de que o mais im­portante para Burke era a proteção da propriedade)77.


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 51

A primeira razão é que, embora Burke nunca tivesse abando­nado a crença de que os juristas do século XVII especializados em direito consuetudinário haviam se fiado na história falsa, que uma história correia do direito inglês podia e devia ser escrita78, seus pró­prios apelos à constituição antiga e costumes imemoriais nas Reflec-tions são vagos e atemporais, salvo na medida em que ele baseia sua argumentação na Revolução de 1688. Essa diferença na ênfase dos argumentos que estamos examinando, com sua referência a ances­trais específicos e eventos ancestrais determinados, parece-me subs­tancialmente significativa.

A segunda razão é que Burke, afinal, afirmava que a Revolu­ção Francesa era ruim porque eliminou tradições e costumes fran­ceses, entre os quais incluíam-se principalmente todos os direitos de propriedade e o poder e propriedades do clero, mas nada — nem é preciso ressaltar — que sequer remotamente se parecesse com o direito consuetudinário inglês. Burke, em resumo, estava estabele­cendo princípios conservadores universais. Dirigindo-se a um deter­minado tipo de ouvintes ingleses, ele empregou uma retórica que lhes era familiar. Quanto à história da teoria política, o que interessa é que, dentre as figuras mais eminentes, apenas Burke não rejeitou sumariamente o argumento da constituição ancestral, mas igno­rou-o, o que também não deixa de ser uma rejeição.

É inútil prosseguir nessa questão com meu terceiro caso-estudo, dada a situação problemática da teoria política no momento; e por razões diferentes mas igualmente óbvias, a síndrome do New Deal de Jefferson tampouco ajuda-nos no problema do nascimento da historiografia, ao qual dedico-me agora. A Grécia do século V é, naturalmente, fundamental para qualquer discussão dessa questão, mas a Inglaterra do século XVII ainda tem algo com que contribuir, graças ao hiato medieval. A isso chamo deliberadamente de "pro­blema", porque não acho que esteja claro o modo como a historio­grafia nasceu do conhecimento do passado que todas as sociedades humanas de alguma forma revelam. Por "historiografia" entendo uma pesquisa crítica sistemática de alguma parte ou aspecto do pas­sado, crítica não só no sentido de avaliação crítica da evidência co­mo também no sentido mais amplo de um exame racional e cons­ciencioso de determinado assunto, suas dimensões e implicações, libertando-nos tanto quanto possível da aceitação automática de opi­niões, abordagens e hábitos de pensamentos herdados79.

Antes do nascimento de Heródoto, os gregos já sabiam do pas­sado tudo o que era necessário saber; sabiam, através de seus mi­tos, lendas e contos transmitidos oralmente, o que era essencial pa­ra as várias funções que o passado mais distante desempenhava no


52 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

presente. E mesmo depois de Heródoto eram poucos os gregos que pensavam ter alcançado um conhecimento qualitativamente melhor em virtude do que ele fizera, por mais que a obra do historiador os tivesse entretido. Tucídides, afinal, fez imediatamente duas críti­cas fundamentais: a história, insinuou ele, tratava de política, e es­ta só podia ser estudada no presente, não no passado.

Pouco antes da morte de Tucídides, um escritor prolífico, He-lânico de Lesbos, publicou uma Crônica de Atenas, obra que se es­tendia desde o nascimento da cidade até a época do escritor80. O período mítico não recebeu tratamento distinto do histórico, e os fragmentos que chegaram até nós indicam que ele explorou ampla­mente o passado ateniense. Seu empenho não se originou da políti­ca ou dos debates políticos, e é decisivo para nós que por meio sécu­lo nenhum ateniense tenha tentado sobrepujá-lo, precisamente o meio século em que o panfletismo político esteve em plena atividade com a polêmica sobre a constituição ancestral. Ninguém quis se mani­festar — tentarei resolver essa controvérsia sobre o passado através de um exame sistemático das evidências —, nem mesmo depois que Heródoto e Tucídides, cada um a seu modo, haviam assumido a pa­ternidade da história, enquanto outros continuavam a escrevê-la81. Em Aeropagiticus (7.19), Isócrates pedia que seus leitores acompa­nhassem-no atentamente para que pudessem escolher, "a partir do conhecimento exato", entre a boa democracia ancestral de Sólon e a corrupta sob a qual eles estavam vivendo então. O conhecimen­to exato, afinal, vem a ser várias páginas de retórica sentenciosa so­bre como o jovem costumava ser treinado adequadamente e sobre outros assuntos que tais, intercalados com muito poucas afirmações precisas, e menos ainda exatas, sobre a constituição de Sólon. Por que ninguém o contradisse por meio da averiguação histórica?

Minha pergunta retórica torna-se mais incisiva quando nota­mos que, justamente por volta da época em que Isócrates produziu o Aeropagiticus, alguém chamado Clidemo finalmente substituiu He-lânico com uma Crônica de Atenas escrita por um ateniense; que Clidemo foi imitado durante um século por mais cinco pessoas (co­nhecidas coletivamente desde a Antiguidade como os atidógrafos); que, embora assemelhem-se a história e revelem uma certa erudi­ção, essas obras não possuem o elemento essencial, o exame crí­tico82. Os atidógrafos, explicou Felix Jacoby, "escrevem... com ba­se em sua própria experiência (como o fizeram os grandes historia­dores); quando essa experiência passa a ser insuficiente, eles se va­lem de narrativas dos predecessores, e onde essa narrativa não exis­te, baseiam-se no conceito geral aceito em seus círculos sobre o de-senvolvimento do Estado Ático"83. Isócrates nos dá uma ideia exata


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 53

desse conceito geral. Inevitavelmente, a constituição ancestral foi incluída na crônica, mas não consistiu nem no maior estímulo nem no tema central; tampouco os desacordos que existiam entre eles so­bre os feitos de Sólon ou Clístenes repousam sobre algo mais subs­tancial do que suas opiniões políticas pessoais. Para a pesquisa ge­nuína, Atenas (e os gregos em geral) teve de se voltar para Aristóte-les e sua escola, e o interesse deles, como vimos, embora crítico, não era historiográfico (nem nós devemos exagerar, dados nosso inte­resse e o fato acidental de ser a Constituição de Atenas a única das 158 compilações produzidas pela escola que chegou até nossos dias, o grau de atenção que Aristóteles pôde ou quis dar à história consti­tucional ateniense). Em suma, o debate político, em Atenas, sobre a constituição ancestral não ofereceu uma contribuição significati­va para a história ou a historiografia.

Tampouco o fez o debate do século XVII na Inglaterra, salvo negativamente, a menos que se considere historiografia a história adulterada e as conversas infindáveis sobre o passado. Isso é tanto mais surpreendente quanto o fato de no século XVII terem-se dis­tinguido as pesquisas inglesas da Antiguidade, das quais poucas ti­veram uma ligação visível com o direito ou os juristas. Dentre as raríssimas pessoas da época que escreveram sobre história do direi­-to, Matthew Hale não publicou sua History, Henry Spelman esteve na Escola de Direito de Lincoln durante um curto tempo, mas nun­-ca foi advogado praticante e Robert Brady, Mestre de Caio, era ca­tedrático de Física. Por outro lado, clérigos como George Hickes, Thomas Gale ou Henry Wharton, ou arqueólogos profissionais cus­teados por instituições como bibliotecas e o Heralds' College ou por patronos particulares — William Dugdale, Humphrey Wanley, Tho­mas Hearne, por exemplo — estavam primordialmente interessados não em história do direito, e sim no passado da igreja, na lingua­gem anglo-saxônica, na história local84. A Reforma foi um estímu­lo muito mais significativo para a pesquisa séria dos documentos do passado do que o debate da constituição ancestral; essa não foi a primeira vez na história da Igreja Cristã que o cisma, ou a ameaça do cisma, teve igual consequência85.

Paradoxalmente, a insistência na continuidade ininterrupta do direito consuetudinário deixou a história do direito inglês no limbo. O jovem Burke reclamou no século XVIII, Bagehot repetiu a recla­mação em 1867 e outra vez em 187286, Maitland em 1904. Rese­nhando a grande obra de Felix Liebermann na Quarterly Review, Maitland saudou-o calorosamente, mas acrescentou uma triste ob­servação: "as leis anglo-saxônicas, que doravante conheceremos co­mo Die Gesetze der Angelsachsen" 81. O contraste com a aparência


54 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

primitiva e a continuidade ininterrupta da história do direito no con­tinente tem sido notado freqüentemente; a origem da diferença encontra-se na luta européia entre os sistemas legais rivais, com o renascimento do direito romano. Tampouco isso é o fim da influência negativa do debate da constituição ancestral: o professor Skinner chamou enfaticamente atenção para o fato de que a "rejeição fac­ciosa da Conquista normanda passaria a ser venerada como a tradi­ção aceita academicamente. O erro, apesar de evidente, só foi erra­dicado através das revisões mais polêmicas do conhecimento mo­derno"88 (os grifos são meus).

Se estou certo nessa avaliação negativa quando se podia ter es­perado o inverso, torna-se necessário perguntar que função (no sen­tido descritivo, não no normativo) a história crítica, a história pro­fissional, desempenha de fato. Em outras palavras, conside-rando-se a existência, em todas as sociedades humanas, de alguma ima­gem do passado, de alguma identificação com ele, quem deseja tro­car o passado tradicional - mítico, se me permitem - por um no­vo passado não-mítico, e por quê? Vimos que todos os envolvidos na controvérsia política a qual a constituição ancestral foi invocada não quiseram fazer a troca, e esse não é um caso à parte.

Numa digressão famosa, irada e, no sentido estrito, irrelevan­te, Tucídides (6.54-9) demoliu a opinião oficial dos tiranicidas de 514 a.C., para "mostrar que os atenienses não são mais precisos do que os outros acerca de seus tiranos e dos fatos de sua história"89. (Com "os outros" ele provavelmente quis se referir à Crônica de Atenas, de Helânico, recentemente publicada.) Tucídides, assim co­mo Heródoto nesse ponto em particular, estava historicamente cor-reto, mas causou pouco impacto quer na opinião popular quer na oficial. A esse respeito ou a qualquer outro: as alusões históricas feitas pelos oradores do século IV eram vagas, inexatas, fáceis e co­nhecidas. Isócrates foi, talvez, o pior transgressor, mas não o úni­co: Demóstenes usava de "extrema cautela para não pretender ter mais conhecimento do que esperava que seus ouvintes possuíssem"90.

Demóstenes é merecedor de compreensão. As tradições que ele e seus colegas oradores invocavam — e refiro-me à tradição apenas nesse sentido mais estrito —, mais do que um passado ou uma me­mória comum, eram "uma interpretação comum do passado"91. O que Tucídides pedia aos atenienses é que eles abandonassem a inter­pretação comum dos tiranicidas, uma interpretação que para eles tornara-se o mito de sua hostilidade coletiva à tirania e de sua apai­xonada devoção coletiva à liberdade, sua (dos atenienses) "visão whig da história". Em lugar dessa interpretação comum, ele oferecia fa-


A CONSTITUIÇÃO ANCESTRAL 55

tos desagradáveis: que os tiranicidas eram motivados por nada além de um miserável caso de amor homossexual, que foram os esparta­nos que libertaram Atenas da tirania, não os próprios atenienses — o "jugo normando" deles. Demóstenes poderia ter dito, como o in­signe Regius Professor* de história desta universidade, que "deve­mos dar-nos por felizes pelo fato de os nossos... antepassados... não terem ressuscitado e imposto a nós a verdadeira Idade Média"92.

Uma pesquisa crítica, a historiografia profissional, é portanto um perigo em potencial para a "sublime e poderosa ausência de his­toricidade" da tradição93. Além do mais, essa pesquisa crítica é ter­rivelmente complicada: acumulando dados, documentos, inúmeros eventos, impedindo o que o professor Barnes chamou alegremente de "amnésia estrutural"94, oferecendo demasiadas explicações par­ciais (isso quando não se recusa a explicar), ela pode solapar uma interpretação comum do passado e, portanto, os limites sociais que são fortalecidos por uma identificação comum com o passado95. Ela ameaça tornar inútil o passado. Não existe a menor complica­-ção na idéia mesma de um processo histórico. A memória indivi­dual trabalha com ocorrências concretas e, entre estas, uma varie­dade de associações. O sentido de identidade e continuidade pessoal não requer mais do que isso. Tampouco o requerem os mitos do passado. "Na acepção popular", observou Marc Bloch, "uma ori­gem é um começo que explica. Pior ainda, um começo que é uma explicação completa."96 A simplicidade é igualmente a chave para o sucesso popular de tudo que foi escrito por Oswald Spengler e Ar-nold Toynbee, apesar da volumosa obra de ambos; cada um, a seu modo, produziu "uma história do mundo unificada e universal, or­ganizada em torno de um simples e geral princípio ou lei — o prin­cípio dos ciclos de Spengler e uma combinação entre o princípio cí­clico e a lei do desafio e reação de Toynbee"97.

Embora possa desagradar aos historiadores profissionais, esse sucesso é um fato importante de nosso tempo. Alguns encontraram refúgio no mandarinato — o professor Oakeshott com sua distin­ção entre o passado prático e o histórico, que não nos permite ler a história com vistas ao passado nem usar a palavra "causa" em nosso discurso98; o professor Elton, na medida em que afirma que o "principal serviço" da atividade do historiador "reside em sua essência", embora em seguida ele acrescente que "certamente seria falso supor que a história não pode dar lições práticas"99; Ernst Cassirer, que nos apresenta uma boa analogia de uma área parale-

* Titular de uma cátedra nas universidades mais antigas da Inglaterra, que re­cebem subvenção da coroa. (N. T.)


56 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

la: "Está além do poder da filosofia destruir os mitos políticos. Um mito, em certo sentido, é invulnerável... Mas a filosofia pode prestar-nos outro serviço importante; pode fazer com que compreendamos o adversário"100; e muitos outros, dos quais nem todos foram tão explícitos a respeito de suas opiniões sobre o assunto. Não desejo su­bestimar ou denegrir a busca da verdade por amor a ela ou pelo que o professor Elton chama de "papel cultural" do historiador — "ele contribui para o complexo das atividades não-práticas que compõem a cultura de uma sociedade"101. Nem mesmo insisto que esta última seja uma cultura superior; há um lugar para a história como entrete­nimento, como bisbilhotice, como trivialidade. Mas se rejeitarmos a distinção de Oakeshott, impõe-se seriamente a questão de verifi­carmos se estamos de fato alcançando bons resultados. Em sua aula inaugural, Lord Acton declarou que desde a Renascença "o historiador tem obtido uma ascendência crescente" sobre os ho­mens102. A investigação da constituição ancestral suscita dúvidas. Talvez seja hora de acrescentar, diante da considerável atividade in­trospectiva que no momento está sendo conduzida entre (e sobre) os historiadores, às perguntas: o que é história?, o que é explicação his­tórica?, uma terceira: qual é a finalidade do estudo da história? Eu poderia reformulá-la: Cui bono? Quem escuta? Por que não escuta?

Sr. Vice-Chanceler, de modo algum eu poderia faltar à minha lealdade ancestral. Sem a menor dificuldade, invoquei o nome de 25 cambridgeanos, alguns dos quais, decididamente, ainda jovens demais para se habilitarem à condição de ancestrais. Encerro com o 26o., Hugo Jones, cuja morte prematura há um ano foi uma amarga perda para Cambridge e para o mundo internacional do saber his­tórico. Não me estenderei sobre a perda pessoal, mesmo depois de quinze anos de grande cooperação e amizade. A conferência de ho­-je talvez não o tivesse interessado muito: ele sempre preferiu o estu­do das instituições ao estudo das idéias sobre elas. Mas ele certa­mente teria concordado que a história antiga é uma matéria prática*.

* O estudo mais recente do debate ateniense sobre a patrios politeia — K. R. Walters, "The 'Ancestral Constitution' and Fourth-Century Historiograph in Athens", American Journal ofAncient History I (1976), 129-44 — apresenta a mesma falha, já observada em meu relato (nos 8, 10, 14, 16), qual seja, a de presumir que as afir­mativas gregas sempre se baseiam em documentos antigos específicos e informações precisas.


3

Generalizações em história antiga*

I

O tom crítico que permeia este ensaio não é nem acidental nem "inconsciente". Seu tema é metodológico — a natureza e o problema das generalizações —, não histórico. Não me dedico aqui ao con­teúdo, verdadeiro ou falso, de qualquer generalização específica na história antiga; ocupo-me, sim, do modo como os historiadores da Antiguidade empreendem seu trabalho, do que dizem ou deixam de dizer, do que presumem ou negligenciam. Adotei deliberadamente a forma expositiva da polêmica, mas não visei a estudos atípicos e heterodoxos, nem procurei uma distração pueril e alvos fáceis. Ge­neralizações tolas são inescapáveis; a história antiga está sujeita à incúria como qualquer outra disciplina. Procurei extrair meus pou­cos exemplos de escritos típicos e responsáveis de autoria de histo-

* Quando, em 1960, fui incumbido pelo Comitê de Análise Histórica do Con­selho de Pesquisa de Ciência Social (dos EUA) de fazer este ensaio, foi-me fornecido o texto de um ensaio sobre o mesmo tema já escrito por C. G. Starr, e as instruções que recebi foram de dar minha opinião, "tendo em mente o trabalho de Starr". As­sim, nossas duas contribuições foram publicadas como introdução a Generalization in the Writing of History, ed. Louis Gottschalk (Chicago, 1963). Ao revisar conside-ravelmente meu texto para republicação, não julguei necessário eliminar as referên­-cias aos pontos em que discordo de Starr, referências cujo propósito não era um de­bate pessoal, mas sim um comentário, reconhecidamente severo, sobre uma visão amplamente compartilhada. Sou grato a Quentin Skinner pelas valiosas sugestões.

Copyright © 1963 by the University of Chicago; reproduzido com autorização da University of Chicago Press.


58 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

riadores bem conhecidos. As escolhas são arbitrárias, mas só no sen­tido de que as ilustrações são aquelas que me são mais familiares por causa de meus interesses específicos. Não tenho a intenção de insinuar que os assuntos e áreas específicos selecionados para ilustra­ção exemplifiquem melhor (ou pior) do que quaisquer outros o que está sendo feito, tampouco que os exemplos não possam ser pron­tamente contestados por historiadores com outras tendências e abor­dagens. Acredito, todavia, que o problema da generalização muitas vezes não é estudado com o rigor necessário pelos historiadores da Antiguidade, e que as concepções vagas, inadequadas e mesmo errô­neas são comuns o bastante para garantir uma discussão polêmica.

Geralmente há o consenso de que os historiadores da Antigui­dade raramente discutem questões de método (salvo questões de téc­nica em disciplinas auxiliares como a arqueologia ou a crítica de tex­tos). Seria difícil, por exemplo, e talvez impossível, compilar sequer uma curta antologia nessa área que fosse comparável aos Debates with Historians1, de Pieter Geyl. Max Weber e Eduard Meyer certa vez debateram problemas de método e o centenário de Mommsen estimulou alguma análise, mas quem estudou as suposições e métodos inevidentes de Rostovtzeff, Glotz, Tenney Frank, Beloch ou Bury*? Decididamente, muitos historiadores acham que o assunto está muito melhor sem essa discussão. Fala-se o tempo todo que os histo­riadores devem cuidar de sua própria matéria, a investigação das ex­periências concretas do passado, e deixar a "filosofia da história" (que, afinal, é uma atividade enfadonha, abstrata e praticamente inú­til) para os filósofos. Infelizmente, o historiador não é um mero cro­nista, e de modo algum pode fazer seu trabalho sem suposições e juí­zos, sem generalizações, em outras palavras. Na medida em que não está disposto a discutir explicitamente as generalizações — o que sig­nifica que ele não reflete sobre elas —, ele corre sérios riscos.

O primeiro aspecto vulnerável é uma concepção errônea da na­tureza e extensão do problema da generalização. "A perversão da natureza humana é tal que generalizamos", escreve Starr. Quanto deve generalizar o historiador? Muito ou pouco? Essa é a questão que ele coloca, e "perversidade" (mesmo se tomada no sentido irô­nico) sugere, como a maior parte de sua argumentação, que o as­sunto é moral ou, pelo menos, que existe uma opção livre e pessoal de generalizar ou não. "Generalizações... geralmente são a soma, feita pelo historiador, das opiniões sobre interpretação e causalida-

* A resposta óbvia para minha pergunta retórica é Arnaldo Momigliano, so­bre cujo trabalho leia adiante neste capítulo e, mais extensivamente, no capítulo 4. Veja também K. Christ, Von Gibbon zu Rostovtzeff (Darmstadt, 1972), e cf. minha Ancient History: Evidence and Models (Londres e Nova York, 1985).


GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 59

de históricas que ele apresentou de modo menos óbvio na seleção e ordenação de seus fatos." Diferentemente das "afirmações fac­tuais", as generalizações "parecem perigosamente maleáveis ao im­pulso subjetivo da mente que as produz"2.

Existe, sem dúvida, uma dose de verdade nessas observações. E certamente elas obterão amplo consenso — são bastante conheci­das de qualquer pessoa que já tenha lido sobre o assunto. Mas elas começam a discussão pelo lado errado. Algumas generalizações são a soma, após um longo estudo, das opiniões de um historiador so­-bre um ou mais aspectos do comportamento humano, na forma de propostas, hipóteses ou leis gerais. Contudo, essas não são as úni­-cas generalizações, nem as mais comuns: a maioria dos estudos his­tóricos, de fato, não tem justificativa para chegar a essa conclusão. São os outros tipos — as generalizações iniciais, as generalizações (freqüentemente) inexpressas, que são pressupostas nas tentativas de explicação histórica e igualmente nas narrativas convencionais, que aparentemente evitam as afirmações gerais — que tendem a es­capar à apreciação e, no mínimo, não podem ser analisadas provei­tosamente em termos de "deve" ou "pode", em termos de fragi­lidade, subjetividade e perversidade humanas. A questão pertinen­-te, portanto, é analisar não a freqüência com que se emprega a ge­neralização, mas sim seus tipos e níveis.

II

Tratarei primeiramente do mais elementar dos instrumentos do historiador: os termos e conceitos comuns de seu discurso. Em si mesmos, eles não são generalizações, mas descrições ou rótulos abre­viados, classificações. Todavia, eles raramente são empregados de modo "neutro": seu uso ou pressupõe proposições gerais ou pode levá-los a cumprir uma infundada função explicativa.

Consideremos a palavra "grego", quer como substantivo quer como adjetivo. É literalmente impossível fazer qualquer afirmação com a palavra "grego" que exclua algum tipo de generalização. Além do mais, é impossível fazer essa afirmação que seria verdadeira sem maiores ou menores restrições (salvo truísmos como "Todos os gre­gos precisam comer"). Em primeiro lugar, não há nenhuma defini­ção significativa de "grego" que não diferencie no tempo um grego miceniano de um grego contemporâneo, para dar o exemplo mais ex­tremo. Em segundo lugar, aplicada ao mundo antigo, qualquer defi­nição deve levar em conta o fato das populações mistas, em parte grega, em parte outro povo qualquer. Em terceiro, qualquer afirma-


60 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

cão significativa, mesmo quando restrita aos gregos "genuínos" em determinado momento do tempo, deve permitir variações nas idéias ou práticas, quer por região, por classe ou por alguma outra razão.

Todas essas asserções são lugares-comuns, mas cumpre ressaltá-las desde o início porque, por exemplo, quando acham necessário mencionar a (possível) origem "semita" de Zenão, fundador do es­toicismo (cuja cultura era indiscutivelmente grega), alguns historia­dores da filosofia antiga insinuam (e alguns vão além da insinua­ção) uma relação entre "raça" e aptidão filosófica que serve de ex­plicação para a mudança radical que Zenão introduziu na filosofia grega. Efetivamente, o mesmo processo serve de base a afirmações como: "As concepções básicas do direito de família grego já esta­vam elaboradas na época de Homero."* Um "reles" termo classi-ficatório foi convertido em proposta geral, tomado como um axioma.

A mesma situação prevalece nos termos institucionais especifi­camente gregos como polis ("cidade-Estado") ou "meteco" (não-cidadão livre), os quais não discutirei. Todavia, o caso é mais com­plicado com uma categoria especial de termos, os que transcendem toda a história antiga: comércio, investimento, classe, império, de­mocracia, nação, escravidão e assim por diante**. Um exemplo ser­virá de indicador. Num trabalho sobre a escravidão no mundo greco-romano, Lauffer escreveu: "A palavra Sklave, esclave, schiavo, ori­ginada na Idade Média, e que a princípio designava os cativos da guerra eslava da Europa oriental, só pode ser transferida para a An­tiguidade de um modo anacrônico, o que suscita equívocos. Além do mais, essa palavra lembra a escravidão negra da América do Norte e das regiões coloniais nos séculos mais recentes, o que dificulta ainda mais sua aplicação nas relações da Antiguidade. O 'escravo' antigo é um tipo social completamente diferente."3

Poucos (ou nenhum) dos historiadores da Antiguidade que par­ticiparam da discussão do trabalho de Lauffer viram com bons olhos essa sugestão radical de abandonar a palavra "escravo", o que, na verdade, representa uma omissão diante das dificuldades, não uma solução. Se um rótulo induz a sérios erros, ele talvez possa ser subs­tituído por um outro, neutro. A opção óbvia para o historiador da Grécia é a palavra grega doulos, que não dá margem a associações não-gregas. Mas isso é pretensão. Todas as palavras ensejam asso­ciações, e estas não podem ser eliminadas por decreto. Mesmo síla­bas ou símbolos algébricos sem significação, que presumivelmente passaram a existir isentos de associações adquirem-nas necessaria-

* Veja capítulo 8.

** Sobre nação, veja capítulo 7.


GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 61

mente quando usados num contexto real. Doulos, como palavra isolada, pode não ter sentido para um historiador moderno, mas assim que lê e pensa sobre os douloi em Atenas, ele, sendo hu­mano, inevitavelmente a associará à servidão, e daí a escravos. Ele pode continuar a chamá-los rigorosamente de douloi, nunca de escravos, mas tudo o que ele conseguirá com esse procedimento artificial será impedir que suas afirmações mais gerais sejam devi­damente claras, que sejam examinadas sistematicamente (por ele mes­mo ou por seus leitores). Lauffer enunciou uma conclusão radical­mente negativa sobre a escravidão antiga, não um método mais se­guro de trabalho.

E qual é o desfecho lógico desse processo? "O 'escravo' da An­tiguidade é um tipo social completamente diferente" pressupõe que o escravo da Antiguidade é um tipo social. Mas os gregos usavam regularmente a palavra doulos (e o substantivo abstrato douleia) para abranger uma ampla gama de condições sociais. Mesmo se ignorar­mos os usos mais metafóricos — "os aliados tornaram-se douloi dos atenienses" —, ainda nos resta o famoso problema dos hilotas es­partanos. Os gregos contemporâneos não tinham escrúpulos em chamá-los de douloi. A maioria dos historiadores, hoje, opõe-se à tradução de "escravos" por hilotas, embora empreguem-na para os douloi de Atenas e, curiosa e incoerentemente, para o escravo por dívida da Ática pré-solônica ou da Roma primitiva. São inegáveis as diferenças significativas existentes entre essas categorias sociais antigas. Portanto, devemos questionar a linha de raciocínio de Lauf­fer e concluir que o escravo da Antiguidade não é absolutamente um tipo social único, e sim apenas um escravo no sentido geral. De­vemos insistir na eliminação desse conceito, usando palavras dife­rentes para hilota, escravo por dívida, e assim por diante.

Esse processo, levado a extremos, tornaria impossível todo dis­curso histórico: mesmo o analista mais parcimonioso encontraria problemas, pois ele seguramente não poderia mais dizer que o indi­víduo X executou a ação Y em determinado lugar e em certo dia. Tal procedimento pelo menos seria coerente. O que ocorre com fre­qüência na prática corrente não tem nem essa virtude nem outra qual­quer. Em vez de enfrentarem as dificuldades que Lauffer observou — e elas são sérias —, os estudiosos da Antiguidade esquivam-se freqüentemente delas abrigando-se na segurança ilusória do termo "servo", que em geral aplicam aos hilotas espartanos, chegando mes-mo a empregá-lo para os escravos por dívida da Ática pré-solônica e a outros grupos que não eram de escravos propriamente ditos. De­veria ser óbvio que esse procedimento simplesmente transfere o pró-


62 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

blema de um termo para outro, de "escravo" para "servo". Não soluciona nada. Em conclusão, podemos demonstrar que, atualmen-te, com relação a este tópico em particular, o uso de rótulos e con- ceitos classificatórios encontra-se num estágio insatisfatório, no qual a terminologia incongruente reflete uma confusão mais profunda quanto à interpretação das próprias instituições4.

Falhas análogas são evidentes também na classificação por pe­ríodos. A prática corrente não é totalmente uniforme. "Clássico" e "helênico" tornaram-se termos padrões na história da Grécia, mas há menos unanimidade quanto aos primeiros períodos, para os quais são usados vários rótulos, emprestados quase que inteiramente da arte e da arqueologia, tais como "arcaico", "Geométrico", até mes-mo "sub-Geométrico" e "proto-Geométrico". A história romana, por outro lado, é dividida tradicionalmente segundo os sistemas po­líticos — reinado, república, império (com subdivisões: alto e bai­-xo, principado e domínio). As razões pelas quais a prática distingue a história grega da romana são óbvias. A prática da periodização também apresenta dificuldades — e justificativas — óbvias, mas es­tas são essencialmente as mesmas na história medieval e na moder­na. Cabe-me aqui apenas exemplificar a situação que prevalecia na história antiga.

A validade da esquematização em períodos (ou seus pontos es­senciais, o que dá no mesmo) raramente é discutida. A esquemati­zação romana tradicional, em particular, é aceita habitualmente sem análise, como se fosse evidente por si mesma. Não pretendo contes-tá-la aqui, mas devo salientar que ela pressupõe uma generalização mui­to grande, qual seja, a de que a forma da organização politica é a instituição central; a forma, sobretudo, em seu sentido mais básico de monarquia ou não-monarquia. Assim que nos preocupamos com outros aspectos da história romana, essa generalização é posta à pro­va e as dificuldades surgem. Por exemplo, ainda há incerteza entre os especialistas sobre o modo correto de dividir a história do direito romano em períodos, sem levar em conta a distinção entre direito clássico e pós-clássico que supostamente ocorreu no século III de nossa era. Na medida em que essa falta de consenso nada mais é do que outro exemplo das dificuldades usuais impostas por qual­quer periodização histórica, ela não requer comentários. Mas tam­bém há uma dificuldade específica dessa situação, que é a aparente falta de sincronização entre a história legal e a história política. O que se deve fazer?

Como exemplo precedente, escolho a excelente Historical In-troduction to the Study of Roman Law, de H. F. Jolowicz, uma obra modelar desde 19325. No capítulo introdutório, intitulado


GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 63

"Periods in the History of Rome and in the History of Her Law", Jolowicz esboça e caracteriza os períodos em seis páginas, primeiro "em história" (uma classificação que deveria ser examinada) e de­pois "em história do direito". Esta última ele divide do seguinte mo­do: 1) o período de conjectura até as Doze Tábuas, 2) das Doze Tá­-buas até o fim da República, 3) o primeiro século do Império, 4) o período clássico, desde Adriano até os Severos, 5) o período pós-clássico até o reinado de Justiniano, e 6) o reinado de Justiniano.

Em princípio, essa classificação é deficiente, visto que sua fun­damentação oscila entre o estágio do nosso conhecimento e o está­-gio do direito. Ela também é deficiente em sua essência, porque em­prega o método procrustiano* de impor a periodização política à história do direito. Apesar da afirmação de Jolowicz referente ao período 2, de que "é impossível achar uma interrupção óbvia nesse longo período de cerca de quatrocentos anos", seu livro não deixa dúvidas de que uma interrupção deve ser feita (isso fica mais evi­-dente em seus capítulos sobre as fontes do direito e sobre o procedi­mento legal). Quanto aos períodos 3 e 4, ele mesmo os destrói assim que os cria. "A mudança da República para o Império", escreve ele, "não fez nenhuma diferença imediata para o direito privado" — isso por um lado; quanto ao outro, "esse período [3] de fato se funde" ao período 4. E tudo o que se supõe ter acontecido durante o período 3 é o seguinte: "Trazendo a paz após cerca de um século de tumulto, a nova ordem era propícia ao desenvolvimento do di­reito. Talvez seja possível afirmar também que a essa altura, sendo necessariamente poucas as oportunidades de destaque na política, restou o direito como o principal caminho para os homens que as­piravam a uma carreira pública."

Há a cautela usual: "se é difícil dividir a história geral em pe­ríodos sem introduzir a falsa idéia de que um povo progride aos ar­rancos e não de modo contínuo, isso é ainda mais difícil em relação à história do direito, pois são raras as rupturas violentas". Entretanto, Jolowicz não só procura fazê-lo no capítulo introdutório co­mo também, a seguir, organiza todo seu livro dessa forma. Agir de outro modo seria impossível. Eis por que é importante salientar: a) que a organização é estabelecida do modo mais casual, sem qual­-quer justificativa ou explicação significativa, sem uma apresenta-

* Relativo a Procrusto, legendário ladrão da antiga Grécia que forçava suas vítimas a deitarem numa cama de ferro onde as amarrava e mutilava — cortando ou esticando suas pernas — para que se ajustassem a ela. Assim, "método pro-crus­tiano" significa ignorar as diferenças individuais ou circunstâncias específicas e, de modo arbitrário ou violento, adequá-las a algo (como um sistema, política, doutri­na, etc.). (N. T.)


64 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

cão séria dos critérios ou das implicações; b) que dois desenvol­vimentos possivelmente distintos são fundidos arbitrariamente, sendo que o desenvolvimento político é colocado na primeira posição, e aqui também sem nenhum empenho em apresentar justificativas; e c) que, nessas seis páginas, há uma quantidade de generalizações ra­dicais que não são essenciais para a periodização, que abrangem o direito em geral, não apenas o direito romano, e que são afirmadas ex cathedra. Algumas dessas generalizações são as seguintes: 1) "é falsa a idéia de que o povo progride aos arrancos e não de modo contínuo"; 2) a paz, e não o "tumulto", é "propícia ao desenvolvi­mento do direito"; 3) por serem poucas as "oportunidades de des­taque na política" — "necessariamente" poucas porque a Repúbli­ca fora substituída pelo Império — "restou o direito [por que 'res­tou'?] como o principal caminho para os homens que aspiravam a uma carreira pública". Nenhuma dessas propostas é evidente por si mesma. Na verdade, a que trata da paz é posta em dúvida na pá­gina seguinte, quando Jolowicz observa que da vez seguinte em que houve uma "restauração da ordem" precedida de uma "era de con­fusão" — qual seja, a ascensão de Diocleciano —, "a literatura ju­rídica não ganhou novo impulso". Nenhuma explicação é sugerida*. Todavia, existe uma, também dada ex cathedra, na History of Ro-man Legal Science, de Fritz Schulz, ou seja, a completa "vitória da burocracia"6. Schulz indica algumas obras na bibliografia para jus­tificar o rótulo de "clássico", mas nenhuma para justificar sua pro­posta essencial sobre o efeito da burocracia na jurisprudência clás­sica (que ele também chama de "aristocrática")**.

III

Essas considerações, por fim, levam-me ao tipo de generaliza­ção na qual geralmente concentramos nossa atenção: as afirmações gerais sobre as inter-relações dos acontecimentos, ou implícitas nos relatos destes, e, além disso, às causas, às respostas ao "por quê?".

O mínimo que o historiador pode fazer é ordenar os aconteci­mentos numa seqüência temporal. Se não fizesse nada mais, se fos-

* O problema é tratado no capítulo final do livro, mas mesmo ali não se pode encontrar uma explicação clara e, seguramente, nenhuma que lance luz sobre a apa­rente contradição existente no próprio capítulo inicial.

** Nessa discussão não me preocupei com a escolha particular de rótulos. As implicações de uma palavra como "clássico" são interessantes, mas o que escrevi não seria absolutamente afetado se essa palavra fosse substituída por outra coisa — datas, por exemplo (séculos V e IV a.C. na história grega).


GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 65

se um cronista na pura acepção da palavra, ele não teria outro pro­blema senão o de colocar as datas na ordem correta. Mas ele sem­-pre faz muito mais, mesmo quando está trabalhando numa área mui­to restrita. Quando escolheu os incidentes de Corcira e Potidéia — e não qualquer outro acontecimento dos anos de 433-432 a.C. para uma narrativa detalhada —, Tucídides baseou-se numa conclusão a que chegara a respeito das causas. Depois de revelar explicitamen­te essa conclusão ele frisou-a ainda mais ao dedicar poucas palavras aos decretos megários, recusando-se até mesmo a mencionar uma crença contemporânea de que Péricles provocara deliberadamente a Guerra do Peloponeso a fim de desviar a atenção de seus pecula­tos. Tucídides não precisava ter-se referido, em absoluto, à questão das causas; a exclusão de algumas orações e frases de seu texto teria convertido seu relato numa narrativa propriamente dita, deixando a questão das causas, em qualquer formulação explícita, para o lei­tor. Esse é o procedimento habitual dos historiadores. Contudo, não há uma diferença fundamental entre os dois procedimentos, por mais diferentes que eles possam parecer no resultado final, estética ou psicologicamente. A escolha dos acontecimentos que devem ser or-de­nados numa seqüência temporal, que devem ser interrelaciona-dos, reside necessariamente no juízo de uma ligação inerente entre eles, quer esse juízo seja ou não expresso em muitas palavras: um juízo, além do mais, se origina da compreensão que tem o historia-dor "das relações com fatores mais duradouros que em si mesmos não cons­tituem elos da cadeia seqüencial de eventos que compõem a 'his­tória' "7.

A fase seguinte do argumento nos leva a um ponto que geral­mente escapa à observação nas discussões relevantes. A guerra sem­pre foi um tema central na historiografia ocidental — suas causas, os principais acontecimentos e os resultados. A Guerra do Pelopo­neso isoladamente talvez seja tema de tantos livros e artigos quanto qualquer outro tópico específico da história antiga. O que foi ini­ciado por Tucídides nunca terminou. Portanto, é um surpreendente paradoxo que nos lembrem — como Momigliano tentou lembrar-nos poucos anos atrás — de que há "uma grande dose de verdade" na antiga e desprezada tese de Conford, segundo a qual Tucídides "não estava interessado em causas".

"Os gregos chegaram a aceitar a guerra como um fato tão na­tural quanto o nascimento e a morte, sobre o qual nada podia ser feito. Eles estavam interessados nas causas das guerras, não nas cau­sas da guerra em si. Sim, a era do ouro fora uma época sem guer­ras, mas foi 'do ouro' exatamente por isso. Na vida comum podia-se adiar uma guerra, mas não a guerra...


66 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

"Acho que há uma certa verdade em dizer que os escritos his­tóricos desde a Renascença até o começo deste século têm tido mui­to mais êxito ao tratar das causas de revoluções políticas do que das causas de guerras externas, justamente porque eles sofreram grande influência da historiografia grega e romana."8

A herança da historiografia grega é a diferença entre as causas e os pretextos, entre as causas remotas e as imediatas, entre "episó­dios isolados da história passada" (os grifos são meus) e outros epi­sódios que se achavam mais disponíveis e, portanto, mais obvia-mente ligados a uma guerra em particular. O século XX, prosseguia Momigliano, finalmente rompeu com a "interpretação clássica da guer­ra" para procurar "os fatores econômicos, sociais, religiosos e psi­cológicos que a tudo impregnam". Não obstante, já na metade do século, ele foi compelido a encerrar sua obra enumerando dez tópi­cos principais, ligados às guerras antigas, que não haviam sido in­vestigados sistematicamente: a idéia de uma guerra justa, "a pro­pensão para atribuir razões estritamente pessoais — por vezes tolas — às declarações de guerra", o papel da opinião pública, a idéia do delito de guerra, e assim por diante.

Mesmo se Momigliano estivesse certo em sua opinião cautelo­samente expressa de que a inadequacidade da historiografia ociden­tal nesse campo pode ser explicada pela influência da historiografia grega e romana — não discuto isso —, restaria uma questão cru­-cial. É raro o mês em que não se publica um novo artigo sobre as causas de tal ou qual guerra antiga, mas mesmo assim nenhum (ou quase nenhum) dedica-se aos "fatores que a tudo impregnam"9. A questão da generalização está na raiz dessa negligência. Um estudo completo, digamos, do papel da opinião pública deve terminar com conclusões, generalizações, e pode até começar com elas. As causas de uma guerra isolada, por outro lado, habitualmente são estuda­das em episódios separados e, assim, presume-se que o tema é um estudo concreto de acontecimentos específicos, um tema próprio do historiador, pois não está sujeito a generalizações — dadas as pre­cauções usuais contra o preconceito — a respeito de todo homem ser um produto de seu tempo e outras semelhantes. Em minha opi­nião, há aqui um engano elementar, que por trás da correlação me­ticulosamente "objetiva" de acontecimentos numa série linear, se­qüencial, com os quais não se estabelece outras ligações que não as ditadas pelo "senso comum", ocultam-se generalizações tão radi­-cais quanto as que são evitadas assiduamente, inclusive a maior de todas, a de que a guerra é "um fato natural como o nascimento e a morte". Essas generalizações não são menos radicais pelo fato de não serem expressas ou discutidas; elas são meramente menos de-


GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 67

fensáveis, e provavelmente não se baseiam em fatores econômicos, sociais, religiosos e psicológicos da Grécia ou de Roma, e sim em fatores reconhecidos atualmente pelo historiador individual (por há-bito, não por reflexão) em seu papel de indivíduo em sua sociedade (não em seu papel de historiador que reflete); e, portanto, elas são menos objetivas que as generalizações explícitas, as quais o histo- riador rejeita, considerando-as subjetivas e inverificáveis.

A alternativa - que por vezes é insinuada, mas que em geral é colocada incisivamente, sobretudo em resenhas de livros - entre generalização e não-generalização (ou "pouca generalização") afi­nal não é uma alternativa. Toda tentativa, por mais cautelosa que seja, de ordenar os eventos únicos da história de alguma forma — por classificação ou por inter-relação —, envolve tanta generaliza­ção quanto qualquer tentativa de estabelecer explicitamente pro-postas gerais sobre opinião pública e guerra, ou sobre as conse-quências da escravidão ou o declínio do Império Romano. Afora considerações epistemológicas e metafísicas, todo historiador lança-se em explica­ções, em generalizações, tão logo deixe de se limitar a denominar, inventariar ou datar. A ilusão de que ele pode traçar distinções do tipo das que venho contestando serve apenas para anular seu traba­lho, ao invés de torná-lo mais objetivo, mais circunspecto, mais (e, certamente, um melhor) historiador.

IV

Nada do que eu disse até aqui refere-se especificamente à his­tória antiga como história distinta de qualquer outra, medieval ou moderna, oriental ou ocidental. Terá o estudo da história antiga qua­lidades ou características especiais que de alguma forma modifiquem o problema da generalização ou exijam abordagens especiais?

Starr diz que "as qualidades peculiares da história antiga... pro­vavelmente levam os estudiosos dessa área a generalizar mais fre­qüentemente do que seria necessário em áreas onde as evidências fac­tuais são mais abundantes e menos condensadas". Nem Starr nem qualquer outro juntou evidências estatísticas sobre essa questão e, portanto, seria fútil tentar defender ou contestar a afirmação sobre a pergunta se é fato que os historiadores da Antiguidade generali­zam com mais freqüência que os historiadores da era moderna. Em minha opinião, porém, essa afirmação deve ser contestada em sua lógica. É inegável que os historiadores da Antiguidade dispõem de um conjunto menor de material oriundo de fontes de informação do que a maioria dos historiadores, e que precisam confiar muito



68 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

mais em achados literários e arqueológicos e, proporcionalmente, me­nos em documentos. Portanto, eles estão mais preocupados com a crítica textual e com objetos materiais, têm freqüentemente menos controle sobre a confiabilidade de uma fonte, têm de depender mui­tas vezes de uma única afirmação feita por um único autor, encon­tram maiores lacunas na cadeia de dados — em resumo, na maioria das vezes têm de pressupor, hesitar, qualificar e terminar com um non liquet. Mas o que qualquer dessas coisas tem a ver com a fre­qüência das generalizações enquanto distintas da maior ou menor pro­babilidade de estarem certas? Formulam os historiadores da Antigui­dade mais generalizações sobre a escravidão, por exemplo, do que os historiadores da América do Sul? Pelo contrário, acho que eles tendem a formular menos — e algumas vezes piores — generaliza­ções justamente por causa das limitações impostas pelas evidências.

Não se deve confundir extrapolação e inferência com generali­zação. Ao lidar com fatores como população ou preços, o historia­dor da Antiguidade encontra material escasso para formar uma se­qüência. Portanto, ele extrapola mais livremente. De outro modo — ainda como no caso da escravidão —, a tendência é levantar-se as mãos em desespero diante da falta de provas. Consideremos o seguinte exemplo de inferência: sabemos que na Ática, no início do século VI a.C., houve uma profunda crise agrária que Sólon procu­rou debelar, enquanto que no século V a classe dos pequenos agri­cultores era numerosa e, senão próspera, pelo menos relativamente estável; alguns historiadores acreditam que Sólon fracassou, e daí inferem que o tirano Pisístrato redistribuiu uma boa quantidade de terras, embora não haja uma única fonte que afirme isso. Certa ou errada (e eu acho que é errada), essa inferência não é mais do que uma espécie de extrapolação, elaborada de um episódio isolado pa­ra outro, muito semelhante a uma discussão sobre as causas da Guer­ra do Peloponeso. É provável que os historiadores da Antiguidade sejam forçados a esse tipo de raciocínio mais freqüentemente do que os outros. Mas uma inferência como essa não é uma generalização; na medida em que está baseada em generalizações, a situação não difere da que discuti anteriormente. Nada há de peculiar à história antiga no processo de raciocínio.

Só num aspecto, talvez, o historiador da Antiguidade enfrenta um problema um tanto especial, embora não único. Os lapsos nas evidências levam-no (posso até dizer que deveriam levá-lo mais ve­zes do que o fazem) a outras sociedades e períodos para obter algu­ma orientação. Esse é um procedimento legítimo mesmo para his­toriadores com material muito mais abundante, e ele suscita os pro­blemas comuns inerentes a toda análise social comparativa. Estes


GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 69

eu não discutirei, mas acho que existe algo um tanto especial no cam­po da história antiga, ou seja, que os conceitos e os pressupostos subjacentes são derivados, em grande parte, de uma experiência mais ou menos recente. Quantos escritos sobre economia antiga, por exem­plo, pressupõem sem discussão que o comércio e o dinheiro têm ca­racterísticas e impactos que são universalmente os mesmos, salvo por diferenças de quantidade ou escala? A resposta será óbvia para qualquer pessoa que tenha lido a literatura moderna a respeito, di­gamos, da breve discussão de Aristóteles sobre troca no quinto li­vro de Ética a Nicômaco10.

Trinta anos atrás, Johannes Hasebroek, influenciado por Max Weber, insistiu na reconsideração dos pressupostos aceitos sobre a economia antiga. Seu trabalho apresentava sérios lapsos, mas não foi nem corrigido nem contestado nos temas centrais; ele foi reduzi­do a pó e repudiado, desaparecendo quase sem deixar vestígios. As observações de A. W. Gomme são típicas: "Hasebroek tem de ad­mitir, naturalmente, que Atenas importava a maioria dos cereais e quase a totalidade de sua madeira. Ele frisa muitas vezes que essas eram necessidades; e, de uma forma ou de outra, convence-se de que há uma diferença essencial entre comércio de artigos necessá­rios, de artigos de primeira necessidade, e outro tipo de comércio... Na verdade, podemos ir mais longe: um dos principais argumentos de Hasebroek é que a política dos Estados antigos nunca foi deter­minada por considerações comerciais — nem a política interna nem a externa; contudo, podemos supor que um país que dependesse do exterior para obter produtos absolutamente necessários provavelmen­te teria o comércio em maior conta do que outro que negociasse com mercadorias não essenciais... Os gregos sabiam muito bem que as importações e exportações devem se equilibrar, de alguma forma, com o correr do tempo."11

Se há alguma dúvida sobre a fonte das idéias econômicas de Gomme, ela é eliminada poucas páginas depois, quando ele apre­senta uma longa argumentação tirada, fundamentalmente, de Adam Smith, para sustentar a alegação, certamente errônea, de que os gre­gos "estavam perfeitamente familiarizados com o princípio da sub­divisão do trabalho". O argumento de Gomme é exatamente o tipo do argumento moderno que sua única fonte, Xenofonte, não sus­tentava. Os poucos escritores antigos que mencionam, de alguma forma, a divisão do trabalho, fazem-no num contexto e a partir de um ponto de vista que são essencialmente diferentes dos de Adam Smith. Eles estavam interessados na qualidade da manufatura, não em quantidade ou eficiência. Na verdade, a própria noção de "efi­ciência" é um dos melhores exemplos de um conceito moderno que,


70 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

embora considerado evidente por si mesmo, está ausente (nesses con­textos) em toda a Antiguidade12.

Se estou certo quanto à hipótese de que muitas generalizações subjacentes aplicadas à história antiga vêm, por assim dizer, de fo­ra, então o historiador da Antiguidade tem sobre os ombros um fardo particular, que se torna ainda mais pesado devido a um fator con­tingente. A história antiga é única na história ocidental (mas tem paralelos na história do Oriente Médio e do Extremo Oriente) quanto ao fato de seus profissionais, em decorrência de uma longa tradi­ção, serem freqüentemente homens cuja formação não é histórica, e sim lingüística e literária, que se autodenominam classicistas (ou helenistas) e filologistas clássicos, epigrafistas e papirologistas. Ao levantar esse ponto, não estou sugerindo que existe algo de enigmá­tico acerca da história ou mesmo que seja necessário um treinamen­to técnico no mesmo sentido do exigido pelas ciências naturais. As implicações encontram-se em dois outros sentidos.

Primeiro, há uma inequívoca tendência de os classicistas, tão imersos na literatura da Grécia e de Roma, seguirem a linha dos es­critores da Antiguidade, e particularmente dos escritores de história da Antiguidade. O exemplo das causas das guerras já foi apresenta­do. Outro exemplo é a observação característica feita por Starr de que, por ser preciso "confiar... sobretudo em Tucídides para um re­lato da Guerra do Peloponeso... a generalização independente torna-se difícil". Concordo que os classicistas possam achá-la difícil, mas acre­dito que a razão não é a alegada, e sim uma inclinação mental, um juízo de valor profundamente enraizado que, conscientemente ou não, inibe e até mesmo impede a "generalização independente" (isto é, uma explicação diferente). A percepção tardia é mais do que um te­ma para brincadeira de mau gosto; é o caminho mais curto para a verdade de que uma experiência maior pode trazer — e freqüente­mente traz — uma compreensão que faltou aos contemporâneos, em outras palavras, para novas e melhores generalizações.

Segundo, os classicistas, por definição, habitualmente só pen­sam em história e problemas históricos nas ocasiões em que se dedi­cam aos seus próprios trabalhos, e geralmente sequer fazem leituras sérias da história que não seja a antiga. Suas opiniões gerais sobre história, assim como suas idéias econômicas, são concebidas, em cer­to sentido, durante o curso universitário, e a partir delas eles elabo­ram seus pressupostos básicos, suas generalizações subjacentes, nas quais se baseiam para classificar e ordenar os acontecimentos e ins­tituições do mundo antigo. Seu estudo independente limita-se à su­perestrutura e raramente é verificado por meio de um reexame da subestrutura que veio de fora. Não foi sem razão que E. R. Dodds


GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 71

escreveu no prefácio de The Greeks and the Irrational: "Talvez eu deva algumas explicações a meus colegas de profissão sobre o uso que fiz em outros lugares de recentes observações e teorias antropo­lógicas e psicológicas... Vejo aqui uma boa razão para ser cautelo­so ao recorrer às generalizações gregas baseadas em evidências não-gregas, mas nenhuma para a colocação do conhecimento grego num isolamento assumido voluntariamente. Os estudiosos do classicis­mo têm ainda menos justificativas para continuar usando — como muitos deles o fazem — conceitos antropológicos obsoletos."13

À objeção de que Dodds está se referindo a outro assunto — a relação entre história e outras disciplinas —, respondo que para muitos classicistas a história é de fato uma outra disciplina. Sem dú­vida, poucos irão tão longe a ponto de fazer uma apologia como esta: "Compreendo que a matéria tratada neste livro pertence a um campo de pesquisa mais adequado a um jurista formado do que a um estudioso geral da Antiguidade helênica... Não obstante, ao es­tudar o direito privado ateniense o principiante tem uma vantagem que é negada ao profissional. Ele pode abordar o tema independen­temente de todas as noções preconcebidas derivadas de outros siste­mas legais."14 Mas, à parte a insinuação de uma surpreendente con­cepção do conhecimento humano (as coisas aprendidas são conde­nadas como preconceitos que induzem a erro), essa afirmação re-flete muito a prática real. O que é "um estudioso geral da Antigui­dade helênica"? É improvável que algum historiador da França (ou da Alemanha) ignore suas próprias qualificações profissionais e se autodenomine "um estudioso geral da Antiguidade francesa (ou ale­mã)". A diferença expressa a situação peculiar da história antiga.

O senso comum não substitui o profissionalismo. Quando es­creveu "Não houve graves revoltas de escravos durante o período de 500-320 a.C., o que é um comentário significativo sobre o trata­mento geralmente brando dado aos escravos durante esse tempo", Westermann deixou subentendida uma generalização de senso co­mum, qual seja, a de que os escravos se revoltam quando são trata­dos com rudeza, e não com brandura15. Essa generalização muito provavelmente é falsa, segundo o revela um estudo da escravidão em outras sociedades. Naturalmente, não posso recapitular o pro­cesso mental de Westermann quando ele escreveu essa frase, mas a prática é bastante comum. Todos nós fazemos isso. Dado o fato A — neste caso, a ausência quase total de revolta de escravos du­rante dois séculos —, o fato B é imediatamente ligado a ele como uma explicação óbvia. Por "profissionalismo" refiro-me, entre ou­tras coisas, ao hábito mental, que vem da experiência com o estudo e reflexão históricos, que acende uma luz de alerta toda vez que se


72 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

faz uma ligação dessas. O profissionalismo diz a um historiador que perguntas fazer, não que respostas dar.

V

Obviamente, não se pode exigir de nenhum historiador que es­clareça cada termo, conceito, pressuposto ou inter-relação que em­prega, e muito menos que faça um estudo pessoal sistemático dos mesmos. Se ele o fizesse, nunca poderia realizar nada. As conclu­sões que extraio do que acabei de afirmar são simplesmente: 1) os historiadores nunca deixam de generalizar, nem no início nem du­rante todo o estudo que fazem, e quanto mais conscientes disso, mais cuidadosos serão com suas generalizações; 2) visto que a generali­zação é inerente ao trabalho do historiador, é absurdo e até contra­ditório que ele se torne repentinamente "cauteloso" e se recuse a generalizar ao fim de um estudo, o que significa uma recusa em ex­plicar de um modo adequado as mesmas instituições e acontecimen­tos a cujo estudo ele se dedicou.

Em última análise, a questão em foco é a natureza da função do historiador. Limitar-se-á essa função a recapturar os aconteci­mentos isolados e concretos de uma época passada, como num es­pelho, de modo que o progresso da história seja meramente o re-descobrimento de dados perdidos e a construção de refletores maiores e melhores? Se for assim, então a crónica é a única forma correta para o trabalho do historiador. Mas se a função deste é com­preender — seja qual for a definição que se dê a essa palavra —, logo, é também generalizar, pois toda explicação é ou implica uma ou mais generalizações. Há uma curiosa idéia errônea, muito difun­dida, de que toda essa questão é conseqüência dos fins do século XIX, estimulada simultaneamente pela ciência da física moderna, por um lado, e pelo marxismo, do outro. Admitamos o impacto de ambos na história e em outras disciplinas. Mas mesmo a familiari­dade mais casual com historiadores anteriores ao século XIX, des­de Heródoto até Vico ou Herder, não pode deixar dúvida de que, cada um a seu modo, os historiadores importantes, os que ainda le­mos como historiadores (e não simplesmente como possíveis fontes de informações concretas), estavam profundamente preocupados com verdades gerais e com as dificuldades tanto em estabelecê-las quanto em comunicá-las, muitas vezes de modo explícito; no caso de Tucídides, de modo obsessivo.

O que a ciência moderna e o marxismo realizaram em conjun­to foi infundir temores desnecessários à situação. Os argumentos



GENERALIZAÇÕES EM HISTÓRIA ANTIGA 73

prosseguem: o comportamento humano não se presta à análise quan­titativa e ao reexame repetido sob condições idênticas e, portan­to, todas as generalizações são duvidosas; o marxismo distorce o comportamento humano quando o reduz a uma teoria monista; pior ainda, como todas as variedades de "historicismo" (no senti­do de Popper), ele é moralmente pernicioso. A resposta a esses ar­gumentos é fácil demais. Será preciso que toda disciplina que não seja física seja abandonada? Que todas as generalizações sejam dei­xadas de lado porque algumas delas são comprovadamente inverí-dicas ou supostamente perigosas? Será que uma confiabilidade li­mitada não passa de algo inútil? A verificação das generalizações históricas é extremamente difícil e aparentemente, na melhor das hi­póteses, restringe-se a estabelecer uma maior ou menor probabili­dade. O historiador, tanto o do século XIX quanto o da Antiguida­de, só pode empregar, dentro de limites instáveis, as técnicas de pes­quisa e a análise quantitativa que estão ao alcance do estudioso do panorama social atual. Esses são aspectos do problema das genera­lizações históricas que requerem uma consideração detalhada e cui­dadosa. Mas essa análise não precisa ser feita — e provavelmente será feita com menor eficácia — no campo da história antiga. As questões metodológicas referentes a um determinado período histó­rico não são essencialmente diferentes das de outro.


4

A tradição histórica:

os Contributi de Arnaldo

Momigliano*

Em minha opinião, o professor Momigliano nunca escreverá um livro com o título "O que é história?". Contudo, nenhum con­- temporâneo devotou tanta energia nem contribuiu tanto para o es­tudo e a compreensão da tradição historiográfica ocidental desde seus primórdios até nossos dias. Sua tesi di laurea na Universidade de Turin, em 1930, versou sobre a composição da história de Tucí-dides. No início desse mesmo ano ele completou seu Prime Linee di Storia delia Tradizione Maccabaica1. E seu interesse (bem como a característica comparação entre o clássico e o hebraico) nunca es­moreceu desde então. Com a publicação do Quarto Contributo,

* Essa é uma versão um tanto abreviada de um ensaio crítico sobre A. Momi­gliano, Terzo Contributo alia Storia degli Studi Classici e dei Mondo Antico (2 vols., Roma, 1966), que foi publicado na History and Theory 7 (1968, 355-67).

O primeiro dos Contributi foi publicado em 1955, e agora chegam a sete, em dez volumes. Afora alguns ensaios anteriores não publicados, os Contributi consis­tem em artigos e críticas publicados, todos reeditados, sem modificações, no idioma original (inglês ou italiano, com umas poucas críticas de livros em alemão), freqüen­temente com adendos, sobretudo bibliográficos. O sistema que usei para fazer as ci­tações compõe-se de um algarismo romano para indicar o número do Contributo e números arábicos para indicar as páginas. Treze das contribuições também foram publicadas como Studies in Historiography (Londres, 1966), onde três são traduzi­das do italiano; outras 21, quatro em versão inglesa, como Essays in Ancient and Modern Historiography (Oxford, 1977). Ao fazer citações delas usei a edição tradu­zida (síc.).

Copyright © 1968 by Wesleyan University; reproduzido com a autorização da Wesleyan University Press.


76 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

os artigos e críticas tratando explicitamente de historiografia que fo­ram reunidos em forma de livro chegam a mais de cem. E esse nú­mero não explica toda a questão, pois em seus "importantes" estu­dos Momigliano raramente deixa de considerar a investigação da his­toriografia e da tradição histórica.

A oeuvre é densa e abrangente demais para ser apreciada numa única resenha de tamanho razoável. Eu me concentrarei numa úni­ca pergunta, repetida com frequência: por que os historiadores es­crevem suas histórias da forma como o fazem?

A pergunta se repete não porque Momigliano tenha um inte­resse apaixonado por ela, mas porque ela torna a ser repetida a ca­da geração e a cada época. "Muita pesquisa histórica", escreveu ele em 1953, "está sendo feita por pessoas que não sabem por que a fazem, e que não levam em conta os limites impostos pelas evidên­cias." (I 373) Para o funcionalista cabe indagar não o que é história — pergunta que exige respostas epistemológicas ou metafísicas — e sim, por que esse tipo de história? sobre esse tema específico? — pergunta que suscita respostas históricas. O historiador, nesse tipo de discurso, tem como objeto de estudo seus contemporâneos e seus predecessores (e a si mesmo), assim como analisa instituições, mo­narcas ou relações internacionais.

I

É lugar-comum dizer que o conceito (consciente ou subcons­ciente) que todo historiador tem de sua função está baseado na si­tuação social e política de sua própria época e na tradição literária e moral que ele herdou. E nada há de incomum no estudo que os grandes historiadores do passado realizaram segundo suas forma­ções intelectuais ou políticas. São muitas as publicações existentes sobre Heródoto e Péricles, Tucídides e os sofistas, Tácito e a oposi­ção do senado à autocracia, sobre Gibbon, Macaulay e Burckhardt. Ò que confere à obra de Momigliano sua marca inequívoca (além da cultura prodigiosa, capacidade intelectual, prazer que extrai do trabalho e sagacidade) é o complexo e persistente contraponto que ele tece entre idéias e realidade social, entre o tópico que está sendo examinado e sua historiografia, entre o mundo antigo e o moderno, inclusive o nosso. Este último merece uma elucidação muito maior, pois nenhum outro estudioso clássico é tão consciente da importân­cia — nem está tão disposto a aceitar a responsabilidade — de ana­lisar os escritos de seus colegas e contemporâneos com os mesmos métodos — e segundo os mesmos princípios — que todos nós em-


A TRADIÇÃO HISTÓRICA... 77

pregamos regularmente ao examinar os escritores de história gregos e romanos.

Beloch, De Sanctis e Rostovtzeff foram, obviamente, produ­tos da tradição e da sociedade tanto quanto Heródoto, Tucídides ou Tácito. Mas sabemos muito dos primeiros como indivíduos e pra­ticamente nada dos últimos, a não ser o pouco que se pode deduzir de seus próprios escritos. Não se pode desprezar essa diferença; va­le citar novamente a queixa de Momigliano sobre o hábito de se es­crever história "sem levar em consideração os limites impostos pe­las evidências"2. Não obstante, enquanto que o impacto do nacio­nalismo sobre a historiografia da Primeira Guerra Mundial, ou do nazismo sobre a historiografia alemã em geral, tornou-se um tema de investigação histórica perfeitamente respeitável, parece existir um tabu contra investigações semelhantes que ultrapassem uma gama restrita de homens e acontecimentos, um tabu ausente em outras dis­ciplinas como a filosofia, economia e sociologia. Um homem preci­sa estar morto no mínimo há uma geração. Em 1946, quando um jovem classicista norte-americano, Meyer Reinhold, escreveu um ar­tigo, favorável e arguto mas crítico, sobre Rostovtzeff3, foi seve­ramente repreendido em sigilo por seu "mau gosto" e ignorado em público, embora não por Momigliano (I 343 e III 791)4.

Como outro tipo de exemplo, consideremos a observação de Ehrenberg — que foi expulso de sua cátedra na universidade alemã em Praga — em sua crítica ao Doriens et Ioniens. Essai sur la Va-leur du Critère Ethnique appliqué à 1'Étude de l'Histoire et de la Civilisation Grecques, de Edouard Will: "Os trechos de alguns es­critores alemães dos anos trinta e quarenta que ele cita são, na ver­dade, tristes revelações de uma prostituição de conhecimento da qual os autores devem sentir-se profundamente envergonhados hoje. Will diz: scripta manent. O mesmo fazem eles — até certo ponto. Foi bom mostrar o que era possível; mas agora será melhor deixar que tudo isso caia no esquecimento."5

Como programa político, "escrever e perdoar" tem muitos de­fensores. Para historiadores não é tão simples — ou pelo menos não deve ser. Quando urna tradução italiana de Griechische Geschichte apareceu em 1959, sob os melhores auspícios intelectuais, Momi­gliano encerrou sua crítica mordaz (III 699-708) com a questão de os classicistas italianos não se terem interessado pelo "estudo da in­fluência do nazismo na história antiga". Dois fatores, ele sugere, interferiram: "Um, é a tradição do encômio académico que deseja manter o silêncio sobre qualquer coisa desagradável, mesmo que es­sencial. Outro, é o hábito de considerar a história da historiografia como um passatempo de fim de semana, quando se está cansado


78 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

de trabalhos genuinamente históricos e não se tem forças para ler livros, só para folheá-los." (III 708)

Afinal, o que está sendo considerado é o fio condutor da histo­riografia ocidental desde seus primórdios. Ninguém negará as se­guintes afirmações: "Nenhuma outra civilização antiga absorveu a historiografia grega e fez desta a sua como a romana. Através dos romanos a historiografia grega tornou-se a base de nossa prática (abi-tudini) historiográfica." (III 55) Mas a contribuição dessa tradição historiográfica para a Renascença não é tão bem apreciada, e me­nos ainda o é o notável feito dos alemães no começo do século XIX, quando inventaram uma disciplina chamada "filologia clássica", que passaram a equiparar ao ensino humano em geral, persuadindo en­tão a maior parte da Europa a aceitar sua criação, por mais axio­mática que fosse. Os benefícios daí resultantes para o conhecimen­to não devem ser subestimados: pode-se avaliá-los nas histórias do conhecimento clássico. O que não encontraremos nesses relatos é seu significado mais profundo. Uma forte corrente, a escola român­tica de historiadores cujo pai espiritual foi Wilhelm von Humboldt, visava a algo além da mera techne e são suas preocupações weltans-chauliche políticas — que giram em torno de conceitos como "espí­rito", "essência", "nação" — que uma investigação funcional pro­cura elucidar e avaliar6. Momigliano, por exemplo, nunca arrefe­ceu em sua aversão e desconfiança por essas "abstrações" (um de seus termos pejorativos prediletos)7. Numa "época de desagregação política" essas abstrações estavam à mão, facilmente convertidas em armas ideológicas a serviço dos inimigos da humanidade que elas supostamente favoreciam.

"A corrente antijurídica, à qual atribuo efeitos a longo prazo, é a representada, na história grega, pela Paideia, de W. Jaeger, e, em menor grau, pelo Der Hellenische Mensch, de Max Pohlenz (tra­duzido recentemente para o italiano com o título de L 'Uomo gre-co)... Em todas essas obras as situações concretas, as relações eco­nômicas e jurídicas, as instituições, são deixadas de lado. Jaeger fa­la de Paideia, mas a história do ensino na Antiguidade foi escrita por um historiador muito diferente, o francês H. I. Marrou...

"Seria errado dizer que essa historiografia é fruto do nazismo: isso seria contrário não só à cronologia como também ao fato de que eruditos ilustres como W. Jaeger foram vítimas do nazismo. Tampouco devemos nos esquecer da notável contribuição de Jae­ger, Henze e alguns de seus discípulos para a compreensão da ética grega e romana. Mas essa historiografia, com sua escassa compreen­são da realidade, traz a marca de uma época de desagregação políti­ca... Que essa historiografia podia degenerar em nazismo era um


A TRADIÇÃO HISTÓRICA... 79

perigo, o que foi confirmado por alguns discípulos de Jaeger que haviam continuado na Alemanha." (III 300-301)

Werner Jaeger, para minha geração, foi a figura central — e ambígua — do último capítulo dessa história. Grande erudito, foi muito influente na Alemanha antes da guerra, não só por seus es­critos e suas aulas na universidade (especialmente como sucessor de Wilamowitz em Berlim), como também pelo jornal Die Antike, que editou até deixar a Alemanha em 1936 para aceitar um convite dos Estados Unidos. Embora Jaeger também fosse bastante respeitado nesse país, onde permaneceu até sua morte em 1961, seu ideal "hu-manístico" continuou a produzir maior impacto na Alemanha — "uma carreira verdadeiramente triunfal, incólume às catástrofes da época", esse foi o resumo da vida de Jaeger feito por um classicista alemão8. Momigliano discutiu sua importância várias vezes, embora nunca em toda sua extensão; na aula inaugural de Londres em 1952, por exemplo, Momigliano apontou os três volumes da Paideia co­mo símbolo de um aspecto da "crise" por que passam os estudos gregos, qual seja, a do divórcio entre o estudo das idéias políticas gregas e o estudo da política (I 230); mais recentemente, numa con­ferência sobre a "Perspectiva 1967 da História Grega" (IV 43-58), ele, num rápido comentário, considerou o objetivo programático da Paideia como uma ideia educacional aristocrática.

Vale a pena prosseguirmos nesse assunto, apresentando duas citações extraídas da introdução ao livro de Jaeger: "Estamos acos­tumados a usar a palavra 'cultura' não para descrever o ideal que só o mundo helenocêntrico possui, mas num sentido muito mais tri­vial e geral, para denotar algo inerente a todas as nações do mundo, mesmo as mais primitivas... Portanto, a palavra ficou limitada a um único conceito antropológico, não um conceito de valor, um ideal perseguido conscientemente. Nesse vago sentido analógico, é per-missível falar de uma cultura chinesa, indiana, babilônica, judia ou egípcia, embora nenhuma dessas nações tenha uma palavra ou um ideal que corresponda à verdadeira cultura... E, por fim, o hábito de falar de várias 'culturas' pré-helênicas foi criado pela paixão po­sitivista em reduzir tudo aos mesmos termos: um ponto de vista que aplica descrições européias hereditárias mesmo a coisas não-euro-péias, e desconsidera o fato de que o método histórico é falsificado por uma tentativa de se aplicar nossas concepções a um mundo es­tranho a elas. Podemos agora definir o caráter específico do hele-nismo, contrapondo-o ao Oriente. Ao descobrirem o homem, os gre­gos não descobriram o eu subjetivo, mas compreenderam as leis uni­versais da natureza humana."9


80 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

Essa "separação entre o mundo grego e o oriental como dois mundos opostos" para Momigliano é o "elemento primeiro e es­sencial" (dentre oito) na herança do helenismo germânico da gera­ção anterior (outro é a convicção de que "para compreender os gre­gos é necessário pensar em grego ou, alternativamente, em ale-mão"). Daí suas conclamações, na "Perspectiva 1967", para esten-der o pro­cesso de "descolonização" ao estudo da história antiga na Italia. No final, suas próprias pesquisas na atual historiografia da Anti­guidade são sempre programáticas, não no nível estritamente polí­tico, como algumas vezes imaginou-se que fossem, em oposição a "perdoar e esquecer"10, mas no nível educacional, enten-dido no sentido amplo. A conclamação de 1967 para a "descoloni-zação" vai muito além da exigência de emancipação por parte da auctoritas alemã, incluindo entre outras coisas um apelo para a mo-dernização do estudo da antropologia na Itália e para uma maior in-teração, nesse país, entre os estudos clássicos, a sociologia e a an-tropologia. Não é por acaso que esse último interesse parece ter sur-gido depois da transferência de Momigliano para a Inglaterra e ter-se tornado mais forte com o passar dos anos aqui. "Afinal de contas, nós somos contemporâneos de Lévi-Strauss, e assim temos que aprender algo de sua análise das culturas pseudo-arcaicas." (III 292) O que temos de aprender, metodologicamente, formulou ele breve-mente no "In­terim Report on the Origins of Rome", "é que a antro-pologia com­parativa mais provavelmente indique possibilidades alternativas para a interpretação das evidências que temos do que suplemente as que não temos". (III 581)

A outra parte da preocupação programática de Momigliano, portanto, refere-se imediatamente ao objeto de estudo da história antiga, e não ao treinamento dos que a estudam — se é que essa distinção pode ser legitimamente traçada, pelo menos para fins de análise —, e uma consideração de Momigliano sobre Rostovtzeff que leve em conta esse aspecto talvez ajude na elaboração desta parte de minha resenha. Dois necrológios elegantemente escritos por Momigliano11 incluem os habituais ingredientes biográficos, empre­gados de modo superlativo para lançar luz sobre as duas maiores obras de Rostovtzeff, a história social e econômica primeiro do Im­pério Romano e depois do mundo helênico.

"Nascido num país onde a burguesia era incomum, ele acabou por idealizar a burguesia helênica e romana... Escravos e campone­ses só atraíam a atenção de Rostovtzeff na medida em que ajuda­vam ou interferiam na atividade dos construtores da cidade. A his­tória agrária, à qual Rostovtzeff dedicava uma pesquisa tão impor­tante enquanto residiu na Rússia e nos primeiros anos de seu exílio,


A TRADIÇÃO HISTÓRICA... 81

desempenhou apenas um papel secundário nas duas grandes histó­rias... Ele não é historiador da sociedade romana e helênica como um todo. Ele é, antes de mais nada, historiador de seus comercian­tes, senhores de fazendas e especialistas em alguma atividade." (I 350)

Todavia, "o triunfo da burguesia helênica e romana foi com­parativamente pequeno e incompleto"*, e Rostovtzeff tentou, de­sesperada e infrutiferamente, encontrar em sua própria experiência os fundamentos para uma explicação. Uma primeira tentativa para atribuir o declínio de Roma a um Exército Vermelho de campone­ses foi frustrada por outros estudiosos e abandonada, sendo substi­tuída por uma combinação de fatores — intervenção excessiva do Estado na economia, o aviltamento da cultura por meio de seu gra­dual acesso para as massas e as invasões dos bárbaros (desempenhan­do o mesmo papel que a própria Roma desempenhou contra os Es­tados helênicos). No fim, o foco restrito da visão de Rostovtzeff foi responsável, mesmo em sua maior obra, por um "hiato" que Mo-migliano identificara imediatamente como uma característica estru­tural do livro helênico. Esse livro revelou-se um esforço maciço pa-ra lidar com dois temas isolados que Rostovtzeff não pôde "fun­dir", "as duas histórias da conquista romana e da façanha helêni­ca" (I 335-39). Momigliano, então, formulou o nexo histórico: "As duas histórias eram necessárias de há muito... Elas refletem um dua­lismo que seria um erro suprimir. Se olharmos para a Grécia como uma organização política, Roma será o passo seguinte: o helenismo é apenas uma transição entre Grécia e Roma. Se olharmos para a Grécia à procura de uma fé, a fase seguinte será o cristianismo, sen­do o helenismo o período no qual, por seus contatos com o Oriente, o mundo clássico prepara-se para o cristianismo. Ainda dentro de uma superesquematização, se queremos explicar o Império Roma­no, temos de seguir a primeira abordagem; se queremos entender a Igreja, o segundo caminho é o melhor." (I 338)

Assim, estamos mergulhados no complexo desenrolar do con­ceito de helenismo que segue em diferentes cursos desde Droysen até Wilamowitz e Tarn, sobre o qual Momigliano tanto escreveu. E é a isso que me refiro ao chamar sua crítica dos historiadores con­temporâneos de programática: ele sempre está voltado para a fase seguinte na investigação histórica, estabelecendo os problemas a se­rem pesquisados, apontando para as possíveis evidências (ou falta delas), chamando atenção para as armadilhas, sempre insistindo em manter o "contato com a realidade".

* No presente contexto é desnecessário discutir o emprego do termo "bour-geoisie" por Rostovtzeff, que ele nunca definiu, como Momigliano não foi o único a assinalar (I 353-54).


82 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

II

Os perigos inerentes à história das ideias são bem conhecidos. Um é o engano genealógico, isto é, a noção de que a descoberta de um elo genealógico entre dois pensadores ou escolas de pensamento é suficiente por si mesmo para explicar o que o "tomador" acredi­tava, sentia ou pretendia. Outro, que não deixa de ter relação com o anterior, é a tendência de limitar a discussão ao estabelecimento de conexões. Nem mesmo Momigliano escapa a isso, e às vezes te­mos a impressão de que, fascinado em "situar" Timeu ou Josefo, ele se esquece momentaneamente de colocar a questão da credibili­dade. Não durante muito tempo, todavia. Seu "contato com a rea­lidade", sua percepção das realidades de uma situação histórica, é forte demais. Um exemplo disso é o aparte seguinte: "Para nós pa­rece natural que exista algo em comum entre os judeus que morre­ram defendendo a velha Jerusalém e os cristãos que morreram quan­do estavam erigindo a nova Jerusalém, vítimas do mesmo Império Romano. Os estudiosos modernos acharam fácil provar que, na for­ma e no conteúdo, o judeu mártir é o protótipo do cristão mártir. Essas descobertas acadêmicas têm pouca relevância para as realida­des do século IV. Os discípulos odiavam seus mestres, e esse ódio era recíproco. Com uma exclamação de júbilo, Euzébio, possivel­mente um homem de ascendência judia, narra novamente a versão de Josefo da história da queda de Jerusalém: assim os inimigos de Cristo podem perecer." (III 88)

Essa passagem aparece na introdução do artigo sobre "Pagan and Christian Historiography in the Fourth Century A.D.", ao qual passo a me referir como o primeiro dos três exemplos (tirado do Ter-zo Contributo) ilustrativos de como Momigliano aplica a análise his­tórica aos antigos escritores de história e com que resultados.

l. O desenvolvimento de impérios de grandes territórios — per­sa, helênico, romano — levou à incorporação e subsequente coexis­tência de povos ou "nações" civilizados, cada um dos quais tinha uma considerável tradição histórica própria. Embora não se possa torcer as respostas resultantes para classificá-las sob um padrão úni­co, parece verdade que, sob o aspecto global, o grupo dominante demonstrou pouco interesse em conhecer os que dominava e suas crenças sobre seu passado, enquanto que entre estes últimos a cu­riosidade sobre seus dominadores era inevitável, embora criasse pro­blemas difíceis12. Se compararmos o que Heródoto escreveu sobre a Pérsia com o trabalho de outro nativo de Halicarnasso, Dionísio, que quase 300 anos mais tarde escreveu uma longa Antiguidade Ro­mana, em grego, passaremos a perceber a complexidade da situa-



A TRADIÇÃO HISTÓRICA... 83

cão e a variedade das respostas. Consideremos Josefo. Os antigos hebreus criaram "o famoso paradoxo... que em algumas gerações as nações antigas mais preocupadas com a história tornaram-se as mais indiferentes a ela... Os eventos históricos perderam sua impor­tância em comparação com a Tora eterna". (III 237-38)

Depois que os Reis e as Crónicas foram compilados não houve mais nenhum escrito judeu importante sobre o passado na Antigui­dade, salvo a Antiguidade Judaica, uma obra apologística compos­ta depois da queda de Jerusalém por Joseph ben Mathias — que torna-se Flavio Josefo —, escrita em grego para "qualquer grego... que tenha a curiosidade de conhecer nossa história".

Pode-se duvidar que muitos tivessem tal curiosidade. "Normal­mente os pagãos instruídos do Império Romano não sabiam coisa alguma nem da história dos judeus nem da dos cristãos. Se quises­sem obter alguma informação sobre os judeus, serviam-se aleatoria­mente de distorções de segunda-mão como as que lemos em Tácito. Por conseqüência, o conhecimento direto da história judaica ou da cristã era concomitante à conversão ao judaísmo ou ao cristianismo. As pessoas aprendiam uma nova história porque abraçavam uma nova religião. Conversão significava literalmente descobrir uma nova his­tória desde Adão e Eva até os eventos contemporâneos."

Assim, os cristãos viram-se diante de um problema, especial­mente depois da conversão de Constantino. De um lado, a própria história deles era de perseguições externas e conflitos doutrinários internos que precisavam ser compreendidos corretamente — daí a "ênfase de Euzébio sobre a luta contra perseguidores e hereges e, portanto, sobre a pureza e a continuidade da tradição doutrinária". (III 100) De outro lado, os cristãos estavam dispostos a assumir o controle do Império e sua história e, com a conversão de grande nú­mero de homens mais instruídos do Oriente, a parte grega do Impé­rio, fazia-se necessário transmitir-lhes ao menos um resumo dessa história. Para esse fim, as sinopses ou breviaria pagãs, notadamen-te a de Eutrópio, serviam muito bem. Elas eram "neutras" em sua religião e moralidade, e não ofereciam perigo algum para os cris­tãos. Era desnecessário "cristianizar a história política comum", vis­to que a história mais importante, a doutrinária, estava sob absolu­to controle.

Os cristãos, em resumo, não fizeram nenhum esforço para com­petir nas "formas tradicionais da historiografia superior". Eles sentiam-se satisfeitos em deixar isso para os pagãos que, na ocasião, foram incapazes ou não desejaram aceitar o presente, preferindo ler e imitar historiadores pagãos do passado como Salustiano, Lívio e Tácito. O elemento novo na historiografia cristã era sua cronologia


84 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

universal, o trabalho preparatório para o que foi feito nos séculos II e III, sua contribuição para a biografia (as hagiografias), sobre­tudo, o "novo tipo de exposição histórica" introduzido por Euzé-bio, "caracterizado pela importância atribuída ao passado remoto, pela posição central das controvérsias doutrinárias e pelo pródigo uso de documentos". (III 101)

Terá havido, então, uma "escola" medieval que serviu de liga­ção para o início do período moderno? "Do século XVI ao XVIII a história eclesiástica (especialmente da Igreja primitiva) foi tratada com uma demonstração muito maior de erudição, com uma preo­cupação bem maior com a análise minuciosa das evidências do que qualquer outro tipo de história... Talvez todos nós tenhamos subes­timado o impacto da história eclesiástica sobre o desenvolvimento do método histórico. Um novo capítulo da historiografia começa com Euzébio, não só porque ele inventou a história eclesiástica, co­mo também porque escreveu-a com uma documentação que é total­mente diferente daquela dos historiadores pagãos." (III 101)

2. O Império Persa anterior, atingindo as costas orientais do mar Mediterrâneo, teve um impacto diferente, em parte porque sua estrutura diferia da romana e em parte porque a situação social e intelectual de seus súditos e dos que estavam em contato com os per­sas não era a mesma que a condição helênica posterior. Tanto os hebreus quanto os gregos reagiram com um "aguçamento da cons­ciência nacional" (III 814), expresso de modos muito divergentes. Hecateu e Heródoto foram levados a uma "redescoberta crítica da tradição nacional quando defrontaram-se com outras tradições". O contato com o Império Persa "tornou os gregos mais conscientes do mundo a seu redor e também de sua própria herança cultural: esse foi um dos estímulos que criaram a historiografia grega". (III 818) Contudo, Heródoto não tinha modelos orientais. A história foi criação sua. Por outro lado, Ezra e Nehemias, embora tivessem a tradição historiográfica hebraica à sua disposição, não lhe deram continuidade. Eles também criaram algo novo, um relato em forma autobiográfica de uma atividade comunitária político-religiosa. Pa­ra Heródoto, o episódio central foi a vitória grega nas guerras per­sas, que merecia ser lembrada pelas gerações futuras, além de uma indicação das qualidades superiores que possibilitaram o triunfo dos gregos; mas, para os "escribas" hebreus do pós-exílio, a questão consistia na formação de uma nova comunidade, de um "novo pacto entre Deus e Israel".

Durante a vida de Heródoto houve uma mudança de interesse à medida que o Império Ateniense tornava-se o fator dominante nas questões políticas gregas; a maior e mais completa expressão dessa


A TRADIÇÃO HISTÓRICA... 85

mudança, naturalmente, é encontrada em Tucídides, com sua his­tória da longa luta entre Atenas e Esparta. A derrota de Atenas em 404 a.C. e o subseqüente insucesso de Esparta em manter seu pró­prio império como sucessor do Império Ateniense trouxeram a Pér­sia de volta à cena, e a historiografia posterior a Tucídides foi rápi­-da em responder. Infelizmente, quanto a todo o período transcorri­do entre Xenofonte, que escreveu na primeira metade do século IV a.C., e Políbio, duzentos anos depois, nada restou da produção his­tórica grega — que está longe de ser desprezível —, salvo alguns frag­mentos citados ou parafraseados (e às vezes distorcidos ou falsamente atribuídos) por escritores posteriores. Qualquer tentativa de elabo­rar um relato detalhado ou sistemático de, digamos, Éforo ou Teo-pompo é, portanto, arriscada. Mas a tentativa deve ser feita para compreendermos o papel decisivo desses séculos na formação da tra­dição historiográfica ocidental. Num longo artigo publicado em 1931 (III 367-92), Momigliano sustenta persuasivamente que um dos ob-jetivos visados por Teopompo ao empenhar-se na continuação da história inacabada de Tucídides era avaliar corretamente a ameaça pérsica, o que Tucídides deixara de fazer. Toda a Hellenica de Teo­pompo, conclui Momigliano, "em seus ideais políticos" pode ser vista como uma "contínua polêmica implícita contra Tucídides" (III 375). Daí a admiração pelo espartano Lisandro, assim como, poste­riormente, por Filipe da Macedônia; eles perceberam, cada qual a seu modo, a necessidade "de uma sólida união das forças gregas como a única coisa eficaz e prática para deter o poder da Pérsia".

3. Se me fosse dado o poder miraculoso de recuperar alguma das histórias perdidas da Antiguidade, no alto da minha lista esta­riam as obras de dois escritores do século III a.C., Timeu de Taor-mina, na Sicília, e o senador romano Fábio Pictor. O primeiro, fi­lho de uma dinastia que governou sua cidade natal, foi exilado por Agatocles, tirano de Siracusa, no fim do século IV; transferindo-se para Atenas, dedicou-se durante cinqüenta anos exclusivamente a investigar e escrever a história dos gregos ocidentais, seguida de um relato da invasão da Itália e Sicília por Pirro de Épiro nos anos 280-275, que veio a ser uma das narrativas cruciais da história euro­péia, a conclusão da conquista da Itália por Roma e a primeira das guerras contra Cartago. Muitas coisas sobre Timeu são inescapa-velmente obscuras, mas pode-se tirar algumas conclusões dos frag­mentos, corroboradas por certas afirmações explícitas de escritores posteriores, para uma avaliação plausível de suas qualidades e seu lugar na tradição. Para começar, ele nunca titubeou em sua aversão pelos tiranos, entre os quais incluía os novos monarcas helênicos, a começar por Alexandre, o Grande. Sua capacidade de detestar era


86 USO E ABUSO DA HISTÓRIA

infinita; entre os alvos de suas críticas estavam Tucídides, Isócra-tes, Teopompo, Éforo, Platão, Aristóteles e Teofrasto. Mas não se deve concluir dessa lista (incompleta) que ele possuísse algum inte­resse genuíno pela filosofia, passada ou contemporânea, apesar do fato de a Atenas em que ele viveu ter sido o centro de quatro escolas notáveis. Platão passou a ser sua vítima por causa do estranho epi­sódio no qual a Academia fora associada aos tiranos de Siracusa, Aristóteles e sua escola por causa de sua ligação com Alexandre e seus sucessores. Os pitagóricos, em contrapartida, possuíam o mé­rito de ter vivido e trabalhado na época das cidades-Estados do Sul da Itália e da Sicília.

Afora esses lampejos de indignação, Timeu voltou as costas para o mundo grego antigo, agora o odioso mundo helênico. Foi sua ob­sessão pelo oeste que o tornou uma figura central. "Um pedante com imaginação", ele aprendera algumas de suas técnicas essenciais com Heródoto, inclusive a curiosidade de pesquisar sobre os povos não-gregos do oeste, suas lendas, tradições e costumes. Assim, "ele fez pelo oeste o que Heródoto fizera pelo leste mais de um século e meio antes" (III 61), e nesse processo ele "descobriu" Roma. His­toriadores gregos anteriores já haviam demonstrado um certo inte­resse por Roma e suas origens, mas "Timeu foi o primeiro a entrar em detalhes... Além do mais, ele foi o primeiro a compreender as conseqüências da situação [corrente] e a devotar uma monografia especial a uma guerra na qual Roma derrotará um exército grego". (III44) Dois fatos atestam sua influência: Políbio julgou necessário destruir a reputação de Timeu, e os romanos da época de Varrão e Cícero ainda o liam com prazer. Portanto, é "razoável conjectu­rar" que na Roma do século III ele tenha se tornado uma leitura obrigatória para a crescente minoria de aristocratas cultos que sa­bia grego (III 50).

Entre estes — isso pode ser demonstrado com absoluta certeza — estava Fábio Pictor, membro de uma das mais aristocráticas gentes de Roma. Nos dias críticos das guerras púnicas, ele escreveu a pri­meira história de Roma. Duas perguntas se impõem. O que o inspi­rou a algo tão inusitado? Por que ele preferiu escrever em grego e não em latim? Mais uma vez, Momigliano apresenta respostas per­suasivas, embora necessariamente hipotéticas. Sabemos que os ro­manos, levados por seus sacerdotes, estavam invocando insisten­temente os poderes sobrenaturais para que estes os salvassem. Esses rituais tinham várias formas, inclusive o enterro de dois prisionei­ros, um grego e um gaulês, vivos, e certas atividades de culto espe­cífico que despertaram "um interesse supersticioso pelo passado de Roma" para atender necessidades da época. Fábio Pictor, devoto



A TRADIÇÃO HISTÓRICA... 87

e patriótico, preferiu adotar outra linha: "pelo simples fato de es­crever história... ele transformou um interesse nebuloso e quase má­gico num esforço de compreensão intelectual". (III 58) E, ao esco­lher o grego, ele optou deliberadamente por "inserir-se diretamente na historiografia em língua grega".

Fábio teve êxito total. O caminho futuro estava traçado. "A história em Roma, devidamente helenizada, permaneceu sob o con­trole da classe governante" (III 67) e, por intermédio desta (embora tenha passado para o latim), a historiografia grega tornou-se a base de nossa prática histórica.

Nenhum comentário: