sábado, 5 de abril de 2008

Parte 1 - QUE É HISTÓRIA? - Edward Hallet Carr


Sumário

I. O historiador e seus fatos

II. A sociedade e o indivíduo

III. História, ciência e moralidade

IV. A causa na história

V. História como progresso

VI. O alargamento do horizonte


Nota Introdutória

E. H. Carr reuniu uma grande quantidade de material para a segunda edição de Que é história?, mas à época de sua morte, em novembro de 1982, apenas o prefácio para esta nova edição havia sido terminado.

Esta edição póstuma começa com este prefácio e um novo capítulo, “Dos arquivos de E. H. Carr: anotações para uma segunda edição de Que é história?”, no qual tentei apresentar um pouco do material e das conclusões contidas numa grande caixa de aponta­mentos, rascunhos e anotações de Carr. Estes são seguidos pelo texto não revisto da primeira edição.

As frases colocadas entre colchetes dentro de citações no novo capítulo foram inseridas por mim. Agradeço a Catherine Merridale por cotejar cuidadosamente as referências de Carr, e a Jonathan Haslam e Tamara Deutscher por seus comentários. As anotações de Carr para a segunda edição de Que é história? serão guardadas com seus documentos na Biblioteca da Universidade de Birmingham.

Novembro de 1984

R. W. Davies


Prefácio à Segunda Edição

Em 1960, quando completei o primeiro rascunho de minhas seis conferências, Que é história?, o mundo ocidental ainda estava abalado pelos choques de duas guerras mundiais e duas grandes revoluções, a russa e a chinesa. A era vitoriana de ingênua autocon­fiança e crença automática no progresso ficara decididamente para trás. O mundo era um lugar conturbado e até mesmo ameaçador. Contudo, começaram a se multiplicar os indícios de que estávamos começando a sair de alguns de nossos problemas. A crise econômica mundial, amplamente prognosticada como uma seqüela da guerra, não aconteceu. Nós calmamente dissolvemos o Império Britânico, quase sem perceber. A crise da Hungria e do Suez fora superada, ou esquecida. A desestalinização da União Soviética e a desmacarthização nos Estados Unidos progrediam de forma salutar. A Alemanha e o Japão se recuperaram rapidamente da ruína total de 1945 e reali­zavam espetaculares avanços econômicos. A França, sob De Gaulle, renovava suas forças. Nos Estados Unidos, terminava a praga Eisenhower; a era de esperança Kennedy estava prestes a se iniciar. Áreas hostis - África do Sul, Irlanda, Vietnã - ainda podiam ser mantidas sob controle. Os intercâmbios comerciais se expandiam por todo o mundo.

Estas condições deram, de qualquer forma, uma justificativa superficial para a expressão de otimismo e crença no futuro com que terminei minhas conferências em 1961. Os vinte anos seguintes frus­traram estas esperanças e este contentamento. A guerra fria recome­çou com intensidade redobrada, trazendo consigo a ameaça da destruição nuclear. A adiada crise econômica começou impetuosamen­te, devastando os países industrializados e espalhando o câncer do desemprego através da sociedade ocidental. Hoje, raro é o país que está livre da hostilidade da violência e do terrorismo. A revolta dos países produtores de petróleo do Oriente Médio provocou uma im­portante mudança de poder, em prejuízo das nações industrializadas do Ocidente. O “Terceiro Mundo” transformou-se de um elemento passivo em um fator concreto e perturbador nos assuntos mundiais. Nestas condições, qualquer expressão de otimismo pode parecer absurda. Os profetas da desgraça têm tudo a seu favor. O quadro da destruição iminente, laboriosamente desenhado por escritores e jor­nalistas sensacionalistas e transmitido através dos meios de comuni­cação de massa, penetrou no vocabulário do discurso cotidiano. Nunca a antiga previsão popular do fim do mundo pareceu tão apro­priada.

Também neste ponto o bom-senso indica duas restrições im­portantes. Em primeiro lugar, a diagnose de desesperança em relação ao futuro, embora pretenda estar baseada em fatos irrefutá­veis é uma construção teórica abstrata. A grande maioria das pessoas simplesmente não acredita nela e esta descrença é evidenciada por seu comportamento. As pessoas fazem amor, engravidam, têm e criam filhos com grande dedicação. Grande atenção, privada e pú­blica, é dada à saúde e à educação, a fim de promover o bem-estar da próxima geração. Novas fontes de energia são constantemente exploradas. Novas invenções aumentam a eficiência da produção. Multidões de “pequenos poupadores” investem em cadernetas de poupança, em sociedades de construção e em fundos mútuos. O en­tusiasmo geral é visível na preservação da herança arquitetônica e artística nacional, em benefício das gerações futuras. É tentador con­cluir que a crença numa destruição próxima está limitada a um grupo de intelectuais descontentes, responsáveis pela maior parte da propa­ganda atual.

Minha segunda restrição se relaciona às fontes geográficas destas previsões de catástrofe mundial, que emanam predominante­mente - eu estaria inclinado a dizer, exclusivamente - da Europa ocidental e de suas extensões ultramarinas. Isto não é surpreendente. Há cinco séculos estes países têm sido os incontestáveis senhores do mundo. Eles poderiam pretender, com alguma plausibilidade, representar a luz da civilização em meio a um mundo externo de bárbara escuridão. Uma época que crescentemente desafia e rejeita esta pretensão certamente deve construir a catástrofe. Também não é surpreendente que o epicentro da inquietação, a sede do pessimis­mo intelectual mais profundo, se encontre na Inglaterra, pois em nenhum outro lugar o contraste entre a glória do século XIX e a monotonia do século XX, entre a supremacia do século XIX e a inferioridade do século XX, é tão marcante e tão dolorosa. Esse estado de espírito se propagou pela Europa ocidental e - talvez em menor grau - América do Norte. Todos estes países participaram ativamente na grande era expansionista do século XIX. Mas não tenho nenhuma razão para supor que esse estado de espírito predo­mina em outras partes do mundo. O estabelecimento de insuperáveis barreiras à comunicação, de um lado, e o fluxo incessante da propa­ganda de guerra fria, de outro, torna difícil qualquer avaliação sensata da situação na União Soviética. Mas dificilmente alguém pode acreditar que a desesperança generalizada em relação ao futuro se propagou em um país em que uma grande maioria da população deve estar consciente de que, quaisquer que sejam suas reivindica­ções atuais, as coisas estão muito melhor do que estavam há vinte e cinco ou cem anos atrás. Na Ásia, tanto o Japão quanto a China, em seus diferentes caminhos, trabalham na perspectiva de um futuro. No Oriente Médio e na África, mesmo em áreas que atualmente estão num estado de conflito, nações emergentes estão lutando por um futuro no qual, ainda que cegamente, elas acreditam.

Minha conclusão é que a atual onda de ceticismo e desespero, que não vislumbra nada, a não ser destruição e decadência, e rejeita como absurda qualquer crença no progresso ou qualquer proba­bilidade de outro avanço da raça humana, é uma forma de elitismo - o produto de grupos sociais de elite cuja segurança e privilégios foram os mais visivelmente corroídos pela crise, e de países de elite, cuja incontestável dominação anterior sobre o resto do mundo foi abalada. Os principais líderes deste movimento são os intelectuais, os fornecedores das idéias do grupo social dominante a que servem (“As idéias de uma sociedade são as idéias de sua classe dominan­te”). É irrelevante o fato de alguns dos intelectuais em questão per­tencerem originalmente a outros grupos sociais, pois, ao se tornarem intelectuais, automaticamente se incorporaram à elite intelectual. Os intelectuais, por definição, constituem um grupo de elite.

No entanto, o que é mais importante no contexto atual é que todos os grupos numa sociedade, por mais coesos que sejam (e o historiador muitas vezes tem razão em tratá-los como tal), geram um certo número de extravagantes ou dissidentes. Isto está particular­mente sujeito a acontecer entre os intelectuais. Não me refiro aos argumentos comuns entre os intelectuais, guiados pelo princípio fundamental de uma aceitação comum dos principais pressupostos da sociedade, mas de desafios a estes pressupostos. Nas sociedades democráticas ocidentais, tais desafios, desde que confinados a um punhado de dissidentes, são tolerados, e aqueles que os apresentam podem encontrar leitores e uma audiência. O cínico pode dizer que eles são tolerados porque não são nem numerosos nem influentes o bastante para serem perigosos. Por mais de quarenta anos carreguei o rótulo de “intelectual” e, nos últimos anos, cada vez mais passei a me ver, e a ser visto, como um intelectual dissidente. Uma explica­ção está à mão. Devo ser um dos muito poucos intelectuais que ainda escrevem que se desenvolveu, não em pleno auge, mas na decadên­cia da grande era vitoriana de fé e otimismo, e é difícil para mim, mesmo hoje, pensar em termos de um mundo em permanente e irremediável declínio. Nas páginas seguintes tentarei me distanciar das tendências dominantes entre os intelectuais ocidentais e, espe­cialmente, das deste país hoje, para mostrar como e por que penso que eles se perderam e esboçar uma pretensão, se não de uma perspectiva otimista, de qualquer forma de uma perspectiva mais saudável e mais equilibrada para o futuro.

E. H. Carr


Dos Arquivos de E. H. Carr:

anotações para uma segunda edição de

Que é História?

R. W. Davies

Nos poucos últimos anos antes de sua morte em novembro de 1982, Carr estava preparando uma edição substancialmente nova de Que é história? Não desanimado pelos reveses ao progresso humano que caracterizaram os vinte anos decorridos desde a primeira edição em 1961, Carr declara em seu Prefácio que a intenção do novo trabalho era “esboçar uma pretensão, se não de uma perspectiva otimista, de qualquer forma de uma perspectiva mais saudável e mais equilibrada para o futuro”.

Apenas o prefácio foi terminado. Mas entre os documentos de Carr uma grande caixa contém, junto com um pacote cheio de resenhas e correspondências relativas à edição de 1961, meia dúzia de pastas marrons com papel-almaço ostentando os títulos: “História - Geral; Causalidade - Determinismo -Progresso; Literatura e Arte; Teoria da Revolução e Violência; Revolução Russa; Marxismo e História; Futuro do Marxismo”. Ele obviamente pretendia trabalhar muito mais antes de completar a segunda edição. As pastas conti­nham os títulos de muitos livros e artigos sobre os quais ele ainda não fizera anotações. Mas também continham material que já fora parcialmente processado: separatas selecionadas, artigos recortados de jornais e numerosos apontamentos manuscritos em pedaços de papel de rascunho de vários tamanhos. As cartas trocadas com Isaac Deutscher, Isaiah Berlin, Quentin Skinner e outros, sobre filosofia e metodologia da história, também estão incluídas nas pastas, evi­dentemente com a intenção de utilizá-las para a nova edição. Anotações eventuais datilografadas ou manuscritas são claramente rascunhos iniciais de sentenças ou parágrafos. Não se tem nenhum plano para a nova edição proposta, mas um apontamento registra:

Desordem da História

Investidas da Estatística

Psicologia

Estruturalismo

Desordem da Literatura

Lingüística

Utopia etc.

[um outro papel de rascunho registra:

“Último capítulo

Utopia

Significado da História”]

Carr evidentemente pretendia escrever novas seções ou capí­tulos tratando de tópicos negligenciados ou inadequadamente tratados na primeira edição, assim como ampliar os capítulos exis­tentes de Que é história? com respostas aos críticos e material adicional ilustrando e algumas vezes corrigindo seu raciocínio. Al­gumas vezes um livro inteiramente novo sobre nossas inquietações e o mundo pelo qual deveríamos trabalhar parece estar lutando para emergir de suas extensas anotações e apontamentos. Certamente ele pretendia produzir um capítulo final, ou capítulos, talvez uma versão totalmente reescrita da Conferência n° 6, sobre “O Horizonte Amplia­do”, que apresentaria sua própria opinião sobre o significado da história e sua visão do futuro, mais diretamente relacionada às preocupações políticas atuais do que qualquer de seus escritos anteriores.

Carr evidentemente viu pouca razão para modificar o argu­mento de suas duas primeiras conferências sobre o historiador e seus fatos e o historiador e a sociedade. Como um exemplo das falsas pre­tensões da abordagem empirista dos fatos históricos, ele cita Roskill, o eminente historiador naval, que exaltou “a moderna escola de historiadores”, que “consideram sua função como não mais que reunir e registrar os acontecimentos de um período com precisão escrupulosa e imparcialidade”. Para Carr, esses historiadores, se realmente se comportavam como pretendiam, se assemelhariam ao herói de um conto do escritor argentino Borges (traduzido para o inglês como “Funes the Memorious”), que nunca esquecia nada do que havia vis­to, ouvido ou vivenciado, mas admitia que, conseqüentemente, “Mi­nha memória é um amontoado de restos”. Funes não era “muito ca­paz de pensar”, já que “pensar é esquecer diferenças, generalizar, fa­zer abstrações”.1 Carr definiu e repudiou o empirismo em história e nas ciências sociais como “crença em que todos os problemas podem ser resolvidos pela aplicação de algum método científico isento de valores, isto é, que existe uma solução correta objetiva e o caminho para alcançá-la - as supostas pretensões da ciência transferidas para as ciências sociais”. Carr observa que Ranke, um talismã para os historiadores empíricos, foi considerado por Lukács como anti-his­tórico, no sentido de que apresentou uma reunião de eventos, sociedades e instituições mais do que um processo de avanço de um para outro. “A história”, escreveu Lukács, “torna-se uma coleção de ane­dotas exóticas.”2

As anotações de Carr fornecem um apoio significativo para es­te ataque ao empirismo. Gibbon acreditava que a melhor história só poderia ser escrita por um “historiador-filósofo”, que distinguisse aqueles fatos que dominam um sistema de relações:3 ele proclamou seu débito a Tácito como “o primeiro dos historiadores que aplicou a ciência da filosofia ao estudo dos fatos”.4 Vico distinguiu il certo (o que é fatualmente correto) de il vero; il certo, o objeto de coscienza, era particular ao indivíduo, il vero, o objeto de scienza, era co­mum ou geral.5 Carr atribuiu a “escassez e perda de profundidade em muitos dos recentes escritos políticos e históricos ingleses” à diferença no método histórico que “tão fatalmente separou Marx dos pensadores do mundo de língua inglesa”:

“A tradição do mundo de língua inglesa é profundamente em­pírica. Os fatos falam por si. Um problema particular é discutido ‘em seus méritos’. Temas, episódios e períodos são isolados para estudo histórico à luz de algum padrão de importância não declarado, e prova­velmente inconsciente... Tudo isso teria sido um anátema para Marx. Marx não era empirista. Estudar a parte sem referência ao todo, o fato sem referência à sua significação, o acontecimento sem referência à causa ou conseqüência, a crise particular sem referência à situação ge­ral, teria parecido a Marx um exercício infrutífero.

A diferença tem suas raízes históricas. Não é por nada que o mundo de língua inglesa permaneceu tão obstinadamente empírico. Numa ordem social firmemente estabelecida, cujas credenciais nin­guém quer questionar, o empirismo serve para efetuar os consecuti­vos reparos... De tal mundo a Inglaterra do século XIX forneceu o modelo perfeito. Mas numa época em que todos os princípios são desafiados e nós nos debatemos de crise em crise na ausência de quaisquer diretrizes, o empirismo não é suficiente”.6

Seja como for, a máscara do assim chamado empirismo serve para esconder princípios inconscientes de seleção. “A história”, es­creve Carr, “é uma concepção particular do que constitui a raciona­lidade humana: todo historiador, quer saiba disso ou não, tem essa concepção.” Em Que é história? Carr dedicou muita atenção à in­fluência do ambiente histórico e social na seleção e interpretação de fatos pelo historiador, um aspecto da condição humana que o fasci­nou desde a época de estudante. Suas anotações para a nova edição, além disso, exemplificam a relatividade do conhecimento histórico. Heródoto encontrou uma justificativa moral para a dominação dos atenienses no papel que ela desempenhou nas guerras pérsicas; e as guerras, demonstrando que os gregos pensadores deveriam ampliar seus horizontes, persuadiram Heródoto a estender sua pesquisa a mais povos e lugares.7 A visão árabe da história foi fortemente influenciada pela afinidade com o modo de vida nômade. Os árabes viam a história como um processo contínuo ou cíclico em que os ha­bitantes nas cidades ou oásis eram aniquilados por nômades do de­serto, que se estabeleciam e eram então, por sua vez, aniquilados por novas ondas do deserto; para os historiadores árabes, a vida sedentá­ria produziu a luxúria, que enfraqueceu o povo civilizado em relação aos bárbaros. Em contraste, Gibbon, na Inglaterra do século XVIII, viu a história não como um avanço cíclico, mas como um progresso triunfante: em sua famosa frase, “toda época aumentou, e ainda au­menta, a riqueza real, a alegria, o conhecimento e talvez a virtude da raça humana”. E Gibbon viu a história do ponto de vista privile­giado de uma classe dominante autoconfiante em uma civilização sedentária estabelecida há tempos. Ele afirmou que a Europa estava a salvo dos bárbaros, uma vez que “antes que eles possam conquis­tar, precisam deixar de ser bárbaros”. Carr observa que as eras revo­lucionárias exercem uma influência revolucionária no estudo da his­tória: não há “nada como uma revolução para criar um interesse pe­la história”. Os historiadores ingleses do século XVIII apareceram no contexto da vitória da “Revolução Gloriosa” de 1688. A Revolução Francesa solapou a “perspectiva a-histórica do iluminismo francês, que dependia de uma concepção de natureza humana imu­tável”. Nessas épocas de mudança rápida, a relatividade do conhe­cimento histórico foi amplamente reconhecida. Macaulay estava simplesmente afirmando o óbvio a seus contemporâneos quando de­clarou que “o homem que mantinha exatamente a mesma opinião sobre a Revolução em 1789, em 1794, em 1804, em 1814 e em 1834, teria sido um profeta divinamente inspirado ou um obstinado imbe­cil”.8

Dada a relatividade do conhecimento histórico, em que sentido pode-se dizer que a história objetiva existe? Em Que é história? Carr afirmava que embora nenhum historiador possa reivindicar por seus próprios valores uma objetividade além da história, um historiador “objetivo” pode ser considerado “com uma capacidade para se colo­car acima da visão limitada de sua própria situação na sociedade e na história”, e com “a capacidade de projetar sua visão no futuro de tal forma que lhe dê uma compreensão mais profunda e mais dura­doura do passado”. Muitos críticos de Que é história? contestaram fortemente este tratamento da “objetividade” e defenderam a visão tradicional de que o historiador objetivo é alguém que elabora jul­gamentos baseado em evidência, apesar de suas próprias preconcepções. Carr não considerou isso como uma crítica séria. Sua His­tory of Soviet Russia freqüentemente revela um grau extraordiná­rio de “objetividade” no sentido tradicional, apresentando evidências a que outros historiadores muitas vezes recorreram para apoiar inter­pretações que conflitam com as de Carr. Mas ele considerou essa conscienciosidade como a obrigação necessária de um historiador competente; isto não significa que a abordagem da evidência pelo historiador estivesse livre da influência de seu ambiente social e cul­tural.

Não obstante, Carr estava preparado para admitir, um tanto cau­telosamente, que o progresso ocorre no estudo da história assim co­mo no desenvolvimento da sociedade, e que o progresso em conheci­mento histórico está associado à objetividade crescente. Em Que é história? ele reconheceu os grandes avanços feitos pela história nos últimos dois séculos e saudou o alargamento de nossos horizontes da história de elites para a história dos povos do mundo todo. Refe­rindo-se, como exemplo, à avaliação dos feitos de Bismarck por ge­rações sucessivas de historiadores, afirmou (ou admitiu) “que o historiador dos anos 20 estava mais próximo do julgamento objetivo do que o historiador de 1880, e que o historiador de hoje está mais próximo do que o historiador dos anos 20”. Mas ele então qualificou esta aceitação aparente de um elemento absoluto no padrão de obje­tividade do historiador, insistindo em que “a objetividade em história não repousa e não pode repousar em algum padrão de julgamento fixo e inalterável existente aqui e agora, mas apenas num padrão que está depositado no futuro e evoluiu conforme o processo de avanços da história”. O problema da objetividade em história evidentemente continuou a perturbá-lo depois que completou Que é história? Em suas anotações, embora rejeite a “objetividade absoluta e eterna” co­mo “uma abstração irreal”, ele escreve: “A história exige a seleção e ordenação de fatos sobre o passado à luz de algum princípio ou nor­ma de objetividade aceito pelo historiador, que necessariamente inclui elementos de interpretação. Sem isso, o passado se dissolve em uma confusão de inumeráveis incidentes isolados e insignificantes, e a história não pode ser escrita de modo algum”.

Em Que é história? Carr também abordou a questão da obje­tividade histórica de outro ângulo (embora sem usar o termo “objetividade” neste contexto). Ele examinou as semelhanças e dife­renças de método entre a história e as ciências naturais. As semelhanças provaram ser maiores que as diferenças. Os cientistas naturais não mais se vêem como estabelecendo leis universais por indução de fatos observados, mas empenhando-se em descobertas através da interação de hipóteses e fatos. E a história, como as ciências naturais, diz respeito não, como se supõe algumas vezes, aos acontecimentos únicos, mas à interação entre o único e o geral. O historiador está comprometido com a generalização, e de fato “o historiador não está realmente interessado no único, mas no que é geral no único”.

Para a nova edição, Carr reuniu extensas anotações sobre me­todologia da ciência. A tendência de seu pensamento emerge em suas anotações e reproduzo uma seleção delas sem tentar impor minha própria versão do argumento não-escrito de Carr sobre elas (numerei cada apontamento separado individualmente):

(1) Critério formal ou lógico de verdade científica; Popper acre­ditava que a ciência “genuína” se distinguia por um princípio racional eterno...

T. Kuhn rejeitou um método científico simples em favor de uma sucessão de métodos relativistas...

Transição de uma visão estática da ciência para uma vi­são dinâmica, da forma para a função (ou objetivo).

Relativismo (não simples “método científico”) leva Feyerabend, em Against method (1975), à total rejeição do racionalismo.9

(2) Platão, Ménon, levantou a questão de como é possível prosse­guir uma pesquisa ignorando o que estamos procurando (para 80d).

“Enquanto não tivermos reunido durante muito tempo, de forma não sistemática, observações para servir como materiais de construção, seguindo a orientação de uma idéia oculta em nossas mentes, e realmente só depois de termos gasto muito tempo na disposição técnica destes materiais, pela primeira vez nos tornamos capazes de visualizar a idéia de uma forma mais clara, e de esboçá-la arquitetonicamente como um todo.”

Kant, Critique of pure reason, 1781, p. 835.

A tese de Popper de que uma hipótese que fracassa para produzir conclusões testáveis não tem nenhuma importância, não pode ser mantida (Seleção Natural).

[Ver] M. Polanyi, Encounter, janeiro de 1972, do qual o que se segue [é também] tirado...

Em 1925 Einstein observou para Heisenberg que “Se você pode ou não observar uma coisa, depende da teoria que você usa. É a teoria que decide o que pode ser observado”.

(3) [Observado por Carr em uma conferência de W. F. Weisskopf]

“Compreendemos a formação de tais cadeias [de monta­nhas] pelas atividades tectônicas da crosta terrestre, mas não podemos explicar por que o Monte Branco tem a forma espe­cífica que vemos hoje, nem podemos prever que lado do Monte Santa Helena desabará na próxima erupção...

A ocorrência de acontecimentos imprevisíveis não signi­fica que as leis da natureza sejam violadas.”

(4) D. Struik, Concise history of mathematics (1963), mostra a radicação social da matemática.

(5) A teoria de que o universo começou de alguma forma aleatória com uma grande explosão e está destinado a se dissolver em buracos negros é um reflexo do pessimismo cultural da época. A casualidade é uma entronização da ignorância.

(6) A crença na importância dominante da hereditariedade foi pro­gressista enquanto você acreditou que características adquiri­das foram herdadas.

Quando isto foi rejeitado, a crença na hereditariedade tor­nou-se reacionária.

Ver argumento em C. E. Rosenberg, No Other Gods: On Science and american social thought, 1976 [especialmen­te p. 10].

A partir destas anotações é evidente que Carr chegou à conclu­são de que a relatividade do conhecimento científico era maior do que ele sugeriu anteriormente. Tempo e lugar exercem grande in­fluência na teoria e prática do cientista natural. A interação entre hi­pótese e material concreto na ciência natural se assemelha rigorosamente à interação entre generalização e fato em história. As hipó­teses científicas válidas não possuem necessariamente a capacidade de predição exata que freqüentemente é atribuída a elas; em algumas ciências naturais elas rigorosamente se assemelham às generaliza­ções do historiador.

Na conferência sobre “A Causa na História”, em Que é histó­ria?, Carr examinou a natureza da generalização histórica mais rigorosamente. O historiador se depara com uma multiplicidade de causas de um evento histórico e procura estabelecer “alguma hierar­quia de processos que fixariam a relação delas entre si”. Em suas anotações para a nova edição. Carr reproduz passagens de Montesquieu e Tocqueville, que adotam um ponto de vista semelhante. As causas, escreveu Montesquieu, “tornam-se menos arbitrárias quando têm um efeito mais geral. Assim sabemos melhor o que dá um determinado caráter a uma nação do que o que dá uma mentalidade particular a um indivíduo... o que constitui o espírito das sociedades que têm adotado um modo de vida do que o que constitui o caráter de uma simples pessoa”.10 E sobre a distinção de Tocqueville entre “causas antigas e gerais” e “causas particulares e recentes”,11 Carr comentou: “Isto é sensato; geral iguala-se a longo prazo; o historia­dor está fundamentalmente interessado no longo prazo”.

Para o historiador experiente, a tentativa de explicar eventos históricos em termos de causas de longo prazo, gerais ou importantes imediatamente levanta o problema do acidente em história. Em Que é história? Carr admitiu que as casualidades podem modificar o curso da história, mas argumentou que elas não deveriam entrar na hierarquia de causas importantes do historiador. A casualidade da morte prematura de Lênin desempenhou um papel na história da União Soviética nos anos 20, mas não foi uma causa “real” do que aconteceu, no sentido de que era uma explicação racional e histori­camente significante que poderia ser aplicada a outras situações históricas. Ao desenvolver esta idéia adiante, depois da publicação de Que é história?, ele escreveu em suas anotações que “a história está de fato submetida a regularidades suficientes para torná-la um estudo sério, embora estas regularidades sejam de tempos em tem­pos desordenadas por eventos externos”.

A questão da casualidade mostrou-se particularmente difícil naquele caso especial de casualidade, o papel do indivíduo na histó­ria. Carr voltou muitas vezes a esta questão, que, é claro, pareceu indistintamente ampla em seu próprio estudo do desenvolvimento da União Soviética nos anos da ascensão de Stalin ao poder. Sua pasta “Indivíduo na História” coloca o problema num amplo contex­to histórico. Ele sugere que o culto do indivíduo é “uma doutrina elitista”, porque o “individualismo pode significar somente a colo-, cação do agente individual contra o background de uma massa impessoal”. Uma insistência extrema nos direitos absolutos do indi­víduo livre encontrou apoio generalizado entre os intelectuais. Aldous Huxley, o principal proponente britânico deste ponto de vista nos anos 20 e 30, reivindicava, em seu apropriadamente intitulado Do As You Will, que “O sentido da vida... é o sentido que nós lhe atribuímos. Seu significado é qualquer coisa que podemos escolher para chamar seu significado... Todo homem tem um direito inalie­nável à principal premissa de sua filosofia de vida”.12 Nos anos 30, o influente O ser e o nada de Sartre distinguia entre o ser “por si mesmo” - consciência pura do indivíduo, liberdade absoluta e responsabilidade - e o ser “em si mesmo”, o mundo material, objetivo, não-consciente. Neste nível ele era antimarxista, com “traços de anarquismo (nunca ausente em Sartre)”. E em 1960, embora a Crí­tica da razão dialética pretendesse reconhecer o marxismo como “a última filosofia de nossa época”, de fato, segundo Carr, “sua marca de existencialismo, liberdade total, individualidade e subjetividade era incompatível com o marxismo”. Da mesma forma Adorno, em­bora influenciado pelo marxismo, “queria livrar o indivíduo da sub­missão total num mundo de tecnocracia e burocracia e também num mundo de sistemas de filosofia fechados (idealismo de Hegel, materialismo de Marx)”. E para Freud a liberdade do indivíduo não era o produto da civilização; pelo contrário, o efeito da civilização era restringir o indivíduo.13

A alegação de que o indivíduo era limitado pela sociedade e deveria ser libertado de suas limitações é em parte cognata e está parcialmente em conflito com a alegação igualmente há muito esta­belecida de que alguns indivíduos são verdadeiramente capazes de agir livres da sociedade, o que aparece freqüentemente na forma de uma insistência sobre a esmagadora importância dos Grandes Ho­mens na História. Andrew Marvell reivindicou enfaticamente tal papel para Cromwell:

‘Tis he the force of scattered time contracts

And in one year the work of age acts:

Em contraste Samuel Johnson declarou:

How small of all that human hearts endure

That part that kings or laws can cause or cure.

Mas a de Johnson era uma mera “ação de retaguarda”, escreve Carr, “contra a crença de que reis e leis provocam e curam males”.

Contra aqueles que reivindicam um papel decisivo para a von­tade individual, que é independente ou autônoma em relação à so­ciedade, Marx argumentou que a visão que “considera o homem iso­lado como seu ponto de partida” é “absurda” (abgeschmackt). O homem “originalmente aparece como um ser genérico, um animal num rebanho”, que “se individualiza através do processo da história”; “a própria troca é o agente principal desta individualização”.14 Macau­lay, escrevendo sobre Milton, observou que “na medida em que os homens sabem mais, e pensam mais, menos se parecem com indi­víduos e mais com classes”15. E Tocqueville, em 1852, deu expres­são clássica à noção de que as ações de políticos individuais são de­terminadas por forças exteriores a eles:

“Entre todos os povos civilizados as ciências políticas criam ou no mínimo dão forma a idéias gerais; e destas idéias gerais são constituídos os problemas em meio aos quais os políticos devem lutar, e também as leis que eles imaginam que criaram. As ciências políticas constituem um tipo de atmosfera intelectual respirada por governantes e governados na sociedade, e ambos inconscientemente derivam dela os princípios de sua ação.

Tolstoi, conseqüentemente, deu expressão extrema à visão de que os indivíduos desempenham um papel insignificante na história: num dos rascunhos do epílogo de Guerra e paz, ele afirma aspera­mente que “as personagens históricas são produtos de sua época, emergindo da conexão entre acontecimentos contemporâneos e precedentes”.16 Sua visão já estava totalmente concluída em 1867:

“O zemstvo [governo local russo], as cortes, a guerra ou a au­sência de guerra etc. são todos manifestações do organismo social - o organismo de um enxame (como com abelhas): qualquer um pode manifestá-lo e, de fato, os melhores são aqueles que não sabem o que estão fazendo e por quê - e o resultado de seu trabalho comum é sempre uma atividade uniforme e familiar às leis da zoologia. A atividade zoológica do soldado, do imperador, do marechal da pe­quena nobreza ou do camponês é a mais humilde forma de atividade, uma atividade na qual - os materialistas estão certos - não há nenhuma arbitrariedade”.17

E trinta anos depois, na eclosão da Guerra dos Bôeres, ele es­creveu que não era bom ficar indignado com “os Chamberlains e os Vilhelms”; “toda a história é uma série de atos exatamente seme­lhantes de todos os políticos”, que resultam do esforço para manter a excepcional riqueza dos poucos com novos mercados, “enquanto as massas são submetidas pelo trabalho pesado”.18

Carr partilhou claramente a abordagem de Marx e Tocqueville. Observou que “Os Indivíduos na História têm ‘papéis’; em certo sentido, o papel é mais importante que o indivíduo”. Ele comentou de Ramsay Macdonald que sua “vacilação era o resultado não tanto de seu caráter pessoal (importante apenas na medida em que o preparou para a liderança), mas do dilema básico do conjunto do grupo representado pelo Partido Trabalhista”. Mais geralmente, ele afirmou estar interessado não tanto em avaliar políticos individuais como “em analisar os interesses de grupos e atitudes que moldassem seu pensamento”. A forma como as mentes individuais trabalham, escreveu, “não é tudo o que importa para um historiador” e é melhor “olhar para a história menos em termos de comportamento pessoal consciente e mais em termos de atitudes e situações de grupo sub­conscientes”. Nesse sentido, ele observou estranhamente que um livro sobre Hitler “começa atribuindo tudo à personalidade de Hi­tler e termina falando da instabilidade e incapacidade do regime de Weimar”.19

Mas Carr não defendeu a posição extrema de Tolstoi: seus tra­balhos como historiador produtivo constantemente o levaram de vol­ta ao “nariz de Cleópatra”. Observando que o problema da casuali­dade em história “ainda me interessa e me desconcerta”, insistiu no­vamente em suas anotações, como fez em Que é história?, que, embora a morte de Lênin fosse devida a causas estranhas à história, afetou seu curso. Ele prosseguiu acrescentando que “mesmo que vo­cê sustente que a longo prazo tudo teria terminado da mesma forma, há um curto prazo que é importante e faz uma grande diferença para muitos povos”. Há aqui uma marcante mudança de ênfase em comparação com sua discussão da casualidade histórica em Que é história? Esta era um prelúdio a seus notáveis comentários sobre o pa­pel de Lênin e Stalin em sua entrevista com Perry Anderson, por ocasião da conclusão de sua História. Ele insistiu que “Lênin, se ti­vesse sobrevivido nos anos 20 e 30 na plena posse de suas faculda­des, teria se defrontado exatamente com os mesmos problemas” e teria se envolvido na criação de uma agricultura mecanizada de larga escala, na industrialização acelerada, no controle do mercado e no controle e direção do trabalho. Mas teria sido capaz de “minimizar e mitigar o elemento de coerção”:

“Sob Lênin a passagem poderia não ter sido totalmente sua­vizada, mas não teria sido nada como o que aconteceu. Lênin não teria tolerado a falsificação dos relatórios que Stalin constante­mente perdoava... A URSS sob Lênin nunca teria se tornado, na frase de Ciliga, ‘a terra da grande mentira’. Estas são minhas especula­ções”.20

Carr atribui aqui um papel substancial à casualidade no período crucial da história soviética. Esta foi uma declaração oral, mais do que um julgamento cuidadosamente considerado. Mas, na lingua­gem mais temperada de sua História, ele também escreveu que “a personalidade de Stalin, combinada com as tradições primitivas e cruéis da burocracia russa, deu à revolução de cima uma qualidade particularmente brutal”.21 A “revolução de cima” foi largamente determinada por causas de longo prazo, que deveriam ser a principal consideração do historiador, mas a amplitude da coerção usada era uma casualidade da história.

Em várias anotações e cartas em suas pastas, Carr avalia o es­tado atual dos estudos históricos. Ele aponta as influências marxistas como a principal nova tendência dos últimos sessenta anos:

“Desde a Primeira Guerra Mundial o impacto da concepção materialista da história nos escritos históricos tem sido muito forte. Realmente, poder-se-ia dizer que todo o trabalho histórico sério rea­lizado neste período foi moldado por sua influência. O sistema desta mudança foi a substituição, na opinião geral, de batalhas, manobras diplomáticas, argumentos constitucionais e intrigas políticas como os principais tópicos de história - “história política” no sentido am­plo - pelo estudo de fatores econômicos, de condições sociais, da estatística da população, da ascensão e decadência de classes. A po­pularidade crescente da sociologia foi um outro traço do mesmo de­senvolvimento; a tentativa de tratar a história como um ramo da so­ciologia foi feita algumas vezes.”

Em Que é história? Carr já observara a influência positiva da sociologia sobre a história, notando que “quanto mais sociológica a história se torna, e quanto mais histórica a sociologia se torna, me­lhor para ambas”. Em suas anotações para a nova edição, declarou mais enfaticamente: “A história social é o leito de rocha. Estudar o leito de rocha isolado não é bastante; e se torna entediante; talvez seja isso o que aconteceu com os Annales. Mas você não pode pres­cindir dele”.

Embora reconhecendo esses desenvolvimentos positivos, Carr insiste que em termos de tendências gerais e predominantes, tanto a história quanto as ciências sociais estão em crise. Carr aponta o em­pirismo superficial do “movimento a partir da história para a espe­cialização setorial” (que ele condena como “uma forma de automutilação”) e a tendência dos historiadores procurarem abrigo na me­todologia (ele observa que o “culto da história ‘quantitativa’, que faz da informação estatística a fonte de toda pesquisa histórica, talvez conduza a concepção materialista da história ao ponto da insensa­tez”). E esta crise dentro da própria história tem sido acompanhada pelo movimento a partir da história para as ciências sociais, que Carr também considera como uma tendência conservadora ou mesmo reacionária:

“A história está preocupada com os processos fundamentais de mudança. Se você é alérgico a estes processos, abandona a história e procura abrigo nas ciências sociais. Hoje a antropologia, a sociolo­gia, etc. florescem. A história está doente. Mas nesse caso nossa so­ciedade também está doente”.

Ele também destaca que “evidentemente, a ‘procura de abrigo’ também atua dentro das ciências sociais - economistas em econometria, filósofos em lógica e lingüística, crítica literária em análise de técnicas estilísticas”. Talcott Parsons dá um exemplo óbvio de um sociólogo que “levou a abstração tão longe que perdeu todo contato com a história”.

Carr dedica muita atenção ao estruturalismo (ou “funcionalis­mo estrutural”). Ele observou certa vez numa conversa que os estruturalistas tinham, no mínimo, o mérito de tratar o passado como um todo, evitando as armadilhas da especialização excessiva. Mas acreditava que, no conjunto, o estruturalismo exerceu uma influên­cia prejudicial no estudo da história. Ele compara a abordagem estrutural ou “horizontal”, “que analisa a sociedade em termos de inter-relação funcional ou estrutural de suas partes ou aspectos”, e a abordagem histórica ou “vertical”, “que a analisa em termos de onde ela vem e para onde ela está indo”. Ele sugere que “todo historiador sensível concordará que ambas as abordagens são neces­sárias” (uma anotação mais áspera rabiscada num pedaço de papel observa que “a distinção entre história narrativa e história estrutural é tapeação”):

“Mas ela faz uma certa diferença que atrai a principal ênfase e interesse [do historiador]. Isto depende em parte, sem dúvida, de seu temperamento, mas amplamente do ambiente em que trabalha. Vivemos em uma sociedade que pensa em mudança principalmente como mudança para o pior, teme esta mudança e prefere a visão ‘horizontal’, que requer apenas pequenos ajustamentos”.

Em outra parte Carr observa que “a primeira abordagem é con­servadora, no sentido de que examina uma condição estática, e a úl­tima, radical, no sentido de que visa a mudança”:

“Por mais que LS [Lévi-Strauss] possa citar Marx em seu be­nefício... suspeito que o estruturalismo seja a filosofia da moda de um período conservador”.

As anotações de Carr incluem vários itens sobre Lévi-Strauss, principalmente uma entrevista no Le Monde, cujo título parece confirmar as piores suspeitas de Carr: “L’ideologie marxiste, comuniste et totalitaire n’est qu’une ruse de l’histoire”.22

A profunda crítica de Carr e avaliação em geral negativa do atual estágio dos estudos históricos é acompanhada por uma afirma­ção positiva da importância da disciplina da história por direito nato. Ele proclama a necessidade da “história geral”, que reúne a história legal, militar, demográfica, cultural e outros ramos, e examina as interconexões entre eles. Da mesma forma, insiste em que a história não é uma mera servidora das ciências sociais, que vai a elas pela teoria e as supre com materiais:

“Reconheço que muitos historiadores de hoje estão mortos porque não têm teoria. Mas a teoria de que eles necessitam é uma teoria da história e não uma resgatada de fora. O que é necessário é um trânsito de mão-dupla... O historiador precisa aprender dos especialistas econômicos, demográficos, militares, etc., etc. Mas o economista, o demógrafo, etc., etc. também morrerão, a não ser que trabalhem dentro de um padrão histórico mais amplo, que apenas o historiador ‘geral’ pode fornecer. O problema é... que as teorias históricas são por natureza teorias de mudança, e que nós vivemos numa sociedade que quer ou relutantemente aceita apenas mudan­ças secundárias ou ‘especializadas’ num equilíbrio histórico estabili­zado”.

Mas Carr evidentemente acreditava que a perspectiva do his­toriador dependia de seu ambiente social; e na Inglaterra dos anos 70 não poderia esperar que sua opinião fosse bem aceita por mais do que uma minoria de historiadores radicais ou dissidentes:

“Para uma sociedade que está cheia de confusão em relação ao presente e perdeu a fé no futuro, a história do passado parecerá uma mistura sem sentido de acontecimentos sem relação. Se nossa socie­dade recuperar seu domínio do presente e sua visão do futuro, ela também, em virtude do mesmo processo, renovará sua compreensão do passado”.

Esta passagem foi escrita em 1974, vários anos antes da irrup­ção na Inglaterra de doutrinas conservadoras e de uma nova confiança num futuro conservador. Desde então, e desde a morte de Carr, uma alternativa emergiu da falta de fé no futuro e do empirismo a ela associado, que eram previamente a ortodoxia predominante entre os historiadores britânicos. Esforços notáveis têm sido feitos por políticos conservadores e historiadores para estimular a confian­ça no futuro através do restabelecimento da história britânica no centro do currículo histórico. Sir Keith Joseph, ministro da Educação, ajudado por Lord Hugh Thomas, pediram às escolas que concedessem mais atenção à história britânica e menos à história mundial. O professor G. R. Elton, em sua conferência inaugural como Regius Professor de História Moderna, condenou as influên­cias prejudiciais das ciências sociais no ensino de história na graduação em Cambridge e insistiu em que o estudo da história inglesa deveria ocupar uma posição dominante nos exames finais. A história inglesa mostraria “a maneira pela qual esta sociedade conseguiu civilizar o poder e ordenar-se por meio de mudanças constantes”: “uma era de incerteza, atacada por crenças falsas e pelos profetas da inovação constante, necessita urgentemente conhecer suas raízes”.23 Estes acontecimentos teriam parecido, para Carr, sintomáticos de uma sociedade enferma que procurava consolo na lembrança de um passado glorioso e para fornecer uma admirável demonstração da extensão em que os historiadores refletem as ten­dências dominantes numa sociedade.

Carr pretendia que a nova edição de Que é história? conside­rasse a crise dos estudos históricos no amplo contexto da crise social e intelectual de nosso tempo. Para esse fim montou uma pasta sobre Literatura e Arte, que não foram discutidas como tópicos separados em suas conferências originais. Esta pasta inclui notas tanto sobre a própria literatura quanto sobre crítica literária e de arte. O trabalho está num estágio muito preliminar. O fio de seu argumento é que a literatura e a crítica Literária, como a história e as ciências naturais e sociais, são influenciadas ou moldadas pelo ambiente social. Duas citações contrastantes saltam aos olhos em suas anotações. Enquanto Orwell declarou que “Toda arte é propaganda”,24 Marx, que deixou muitas anotações sobre a influência da sociedade nas artes, não obstante advertiu, na Introdução à crítica da economia política, que “quanto à arte, sabe-se que alguns de seus apogeus de modo algum correspondem ao desenvolvimento da sociedade; nem contribuem eles, portanto, para a estrutura material, de certo modo, o esqueleto de sua organização”.25

Na avaliação de Carr, as reservas de Marx não se aplicavam ao século XX, que era fundamentalmente caracterizado pelo pessi­mismo, inércia e desesperança. Para Carr, Hardy era “o romancista de um mundo que não faz nenhum sentido, que é fundamentalmente errado, não que tem caminhado errado, ou pode ser corrigido, mas de um mundo de erro e insensatez eternos - por isso um pessimismo absoluto”. A. E. Housman observou que “Raramente escrevo poesia, a não ser que esteja adoentado”,26 e T. S. Eliot comentou com simpa­tia: “Creio que entendo esta afirmação”. “Ambos escreveram poesia ‘doente’”, comenta Carr rispidamente, “Nenhum dos dois é um rebelde”. Uma série de citações nas anotações de Carr ilustram a falta de esperança e o pessimismo de Eliot. Enquanto o Soneto n° 98 de Shakespeare era uma celebração de abril, The Waste Land de Eliot mostra abril como o mês mais cruel. Em Gerontion, escrito em 1920, Eliot queixou-se que a história “engana com ambições murmurantes, guia-nos por vaidades”27 The Waste Land trata as multidões de trabalhadores atravessando a Ponte de Londres como um povo mor­to, enquanto Wyndham Lewis descreve o “povo semimorto”, cujo extermínio não importaria.28 Em seu testamento, Kafka, o profeta da decadência, expressivamente ordenou a destruição de seus es­critos; nosso mundo, Kafka disse uma vez, é uma das “más dispo­sições” de Deus; fora de nosso mundo havia “abundância de espe­rança - para Deus... apenas, não para nós”.29 E mesmo Orwell, se­gundo Carr, “chega à mesma posição de Eliot, de desesperança so­bre a raça humana, especialmente na forma de aversão pelas classes subalternas - uma forma de elitismo”. Dois clássicos modernos com uma significativa coincidência de título, o poema “À espera dos bárbaros” de Kaváfis e “Esperando Godot” de Beckett, apresentam, ambos, uma “desamparada inércia esperançosa”. E o culto de Hermann Hesse celebra um escritor que Carr descreveu como “um solipsista refugiado de um mundo no qual tinha cessado de acredi­tar”.

Um outro conjunto de anotações procura colocar a crítica literária do século XX em seu contexto social. F. R. Leavis “resta­beleceu a visão de Matthew Arnold de uma classe de intelectuais desinteressados constituindo a flor de uma sociedade e se colocan­do acima dela”. A nova crítica literária “começou com I. A. Richards, que fazia distinção entre elementos objetivos (científicos) e subjetivos (emotivos) em literatura”; seus sucessores “tentaram equiparar o crítico literário aos observadores científicos, aplicando critérios objetivos ao texto e ignorando todas as questões relativas à origem ou ao contexto”. Sobre estes desenvolvimentos Carr co­menta:

“Os formalistas dos anos 30, 40 e 50, e os estruturalistas dos anos 60 e 70 procuraram isolar a literatura como uma entidade ‘pura’, confinada dentro dos limites da linguagem e incontaminada por qualquer outra realidade.

Mas a crítica literária não pode estar baseada exclusivamente na literatura, desde que o próprio crítico é externo à literatura e traz com ele elementos de outras esferas.”

E quanto à “filosofia lingüística” (uma designação incorreta, por assim dizer uma fuga da filosofia tal como tradicionalmente considerada), como “arte pela arte”, ela não tem compromisso com qualquer idéia.30 Ela não tem nenhuma aplicação à ética ou à política e não presta nenhuma atenção à história: “mesmo a idéia de que palavras mudam seu significado estava ausente”.

Nos últimos capítulos da nova edição de Carr, ele pretendia, em oposição ao pessimismo predominante dos últimos anos, reafir­mar que o passado do homem tinha sido em geral uma história de progresso e proclamar sua confiança no futuro humano. Em Que é história? ele observou que a visão da história como progresso, instituída pelos racionalistas do Iluminismo, alcançou sua maior influência quando a autoconfiança e o poder britânicos estavam no auge. No século XX, entretanto, a crise da civilização ocidental levou muitos historiadores e outros intelectuais a rejeitarem a hipó­tese do progresso. Em suas anotações para a nova edição, ele distingue três aspectos da Era do Progresso: a Expansão do Mundo, que começou em 1490; o Crescimento Econômico, começando talvez no século XVI; e a Expansão do Conhecimento, de 1600 em diante. O período elisabetano, consciente da expansão do mundo, foi a primeira fase brilhante da Era do Progresso. Macaulay, o maior historiador whig, descreveu a história como um progresso triunfante culminando na Carta da Reforma.31 A partir das anotações de Carr, fica claro que ele pretendia apresentar maior evidência na nova edição de Que é história?, da medicina e outros campos, de que o progresso dependia e resultava fundamentalmente da transmissão de habilidades adquiridas de geração a geração.

Desde a Primeira Guerra Mundial a crença na história como progresso se tornou crescentemente fora de moda. A queda em profundo desespero foi algumas vezes um tanto prematura: “Karl Kraus celebrou o colapso do Império Austro-Húngaro com uma extravaganza dramática chamada Os últimos dias da humanidade”. Mas o ceticismo em relação ao progresso no passado e o pessimismo em relação às expectativas para o futuro se tornaram mais poderosos e mais agressivos à medida que o século XX se transformou. Popper, que proferiu uma conferência um quarto de século atrás intitulada “A História de Nossos Tempos: Uma Visão Otimista”, em 1979 proferiu uma outra conferência na qual observou: “Acontece que não acredito no progresso”.32 Para alguns historiadores, a idéia de progresso é uma brincadeira antiquada: Richard Cobb escreveu de Lefebvre que “ele era um homem muito ingênuo, que acreditava no progresso humano”.33

Carr acreditava no progresso humano no passado e que “uma compreensão do passado... carrega com ela uma compreensão acen­tuada no futuro”. Ele, assim, concordava com Hobbes, para o qual “de nossas concepções do passado fazemos um futuro”.34 Mas acres­centou a importante observação de que “o inverso seria quase igualmente verdadeiro”: nossa visão do futuro influencia nossa con­cepção de passado. Havia força no aforismo com o qual Ernst Bloch conclui Das Prinzip Hoffnung: “a verdadeira gênese não está no começo mas no fim”.35

Numa época de dúvida e desespero, Carr considerou que era particularmente importante para ele como um historiador examinar e expor sua própria compreensão do presente e visão do futuro. Durante quarenta anos ele afirmara anteriormente que Utopia e realidade eram duas facetas essenciais da ciência política, e que o “pensamento político e a vida política sérios serão encontrados apenas onde ambos tivessem seu lugar”.36 No curso dos anos, ele adquiriu a reputação de um realista austero. Mas na breve memória autobiográfica que preparou alguns anos antes de sua morte, ele comentou: “Talvez o mundo esteja dividido entre cínicos, que não acham nenhum sentido em nada, e Utópicos, que dão sentido às coisas baseados em alguma magnífica suposição não-verificável sobre o futuro. Prefiro os últimos”. Um apontamento nas pastas de Carr intitulado “Esperança” comenta: “A função da Utopia é tornar concreto o sonho diário... A Utopia reconciliará o indivíduo com o interesse universal. A verdadeira Utopia se distingue do otimismo inútil (desmotivado)”.

Na visão de Carr sobre os dois grandes estudiosos do capita­lismo britânico clássico, Adam Smith e Karl Marx, cada um com­binava uma profunda compreensão da sociedade com uma Utopia subjacente:

“A. Smith, que escreveu uma Teoria dos sentimentos morais, em A riqueza das nações isolou a propensão à troca de bens e ao comércio” como a principal força condutora da ação humana.

Este foi um insight de gênio, não na natureza humana como tal, mas no caráter da sociedade que estava quase para se desenvol­ver na Europa ocidental (e nos Estados Unidos); e, como tal, promoveu aquele desenvolvimento.

O mesmo é verdadeiro para o insight de Marx de que o capitalismo entraria em colapso sob o peso da recusa do trabalhador de tolerar o grau de exploração que ele implicava.

Mas a Utopia de Smith do mundo do poder invisível e a ditadura do proletariado de Marx desenvolveram aspectos desagra­dáveis logo que se fez a tentativa de realizá-las na prática.”

Já em 1933 Carr referiu-se a Marx como tendo “uma pretensão de ser considerado o gênio mais perspicaz do século XIX e um dos mais bem-sucedidos profetas na história”.37 Suas pastas sobre “Mar­xismo e História” e “Marxismo e o Futuro” contêm muitas anotações de Marx, Engels, Lênin e seus principais seguidores, a partir dos quais é evidente que ele pretendia basear sua própria avaliação do presente e futuro numa avaliação cuidadosa de Marx e do marxismo. Em vários de seus escritos recentes ele deixou claro que, como seu amigo Herbert Marcuse, ele acreditava que “no Ocidente, hoje, o proletariado - significando, como Marx denotava pelo termo, os trabalhadores organizados na indústria - não é uma força revolucio­nária, talvez até uma força contrarevolucionária”.38 Ele observou que o ceticismo sobre a incapacidade do proletariado governar resultou na “reincidência final de Trotsky no pessimismo”39 e que uma avaliação negativa do proletariado sustentava o pessimismo de Marcuse:

“Razão e Revolução. O poder da negação está personificado no proletariado.

Interessado na liberação da personalidade individual da socie­dade repressiva - Freud.

Em Eros e civilização [de Marcuse] - dúvida sobre a capaci­dade do proletariado produzir uma sociedade não-repressiva.

Marxismo Soviético. A história soviética demonstrou o fracas­so do proletariado russo para produzir uma sociedade não-repressiva — fracasso devido ao fracasso do proletariado em países avançados.

O Homem Unidimensional mostra que o proletariado tem sido engolido na sociedade industrial, de modo que a sociedade se torna um princípio imutável.

O resultado é o pessimismo total - divórcio da teoria da Es­querda da realidade: ‘Não há nenhuma área na qual teoria e prática, pensamento e ação se encontrem.”40

Carr no geral aceitou essas críticas de Marx, mas não tirou tais conclusões pessimistas. Em sua memória autobiográfica declarou:

“Não posso realmente prever para a sociedade ocidental, na sua forma atual, qualquer probabilidade, a não ser declínio e deca­dência, talvez, mas não necessariamente, terminando em colapso dramático. Mas acredito que novas forças e movimentos, cuja forma não podemos ainda adivinhar, estão germinando sob a superfície, aqui ou em outra parte. Esta é a minha utopia não verificável... Suponho que deveria chamá-la ‘socialista’, e nesta medida sou marxista. Mas Marx não definiu a essência do socialismo, exceto em poucas frases utópicas; e nem eu posso”.

Como então o próprio Carr avaliou o desenvolvimento e a decadência do sistema capitalista; que “novas forças e movimentos” ele detectou? Parte de sua resposta foi dada num rascunho inacabado em suas anotações intituladas “Marxismo e História”, que parecem ter sido escritas por volta de 1970. Embora este estivesse incomple­to, e certamente teria sido revisado de modo considerável antes da publicação, transmite bem o espírito da visão de Carr de presente e futuro:

“A forma do mundo tem, assim, mudado fora de reconheci­mento nos últimos cinqüenta anos. As primeiras colônias das Potências Européias ocidentais - Índia, África, Indonésia - declara­ram sua total independência. Dos países latino-americanos apenas o México e Cuba tomaram o caminho da revolução; mas em outros lugares o desenvolvimento econômico aponta o caminho para a mais completa independência. O acontecimento mais espetacular deste período foi o avanço da URSS - o anterior Império Russo - e, mais recentemente, da China para posições de poder e importância mun­diais. O sentimento de incerteza criado por estas mudanças, cujas conseqüências ainda se encontram no futuro, contrasta duramente com a estabilidade relativa e a segurança do modelo mundial do século XIX. É fora desta atmosfera de incerteza e insegurança que as atuais visões da nova sociedade nascem.

É um fato da mais alta importância que a revolução russa - e, depois dela, as revoluções chinesa e cubana - declarava basear-se no ensinamento de Karl Marx. Marx foi o mais poderoso profeta da decadência e queda do sistema capitalista do século XIX, ainda em seu auge na época em que ele escreveu. É natural que aqueles que procuraram desafiar este sistema e exultaram com sua ruína, deve­riam ter apelado para a autoridade de Marx. Também é natural que visões de uma nova sociedade para substituir o capitalismo do século XIX deveriam se inspirar no marxismo. Estas visões são, em parte, necessariamente utópicas; os escritos de Marx sobre a sociedade futura eram inadequados e freqüentemente de caráter utópico. Al­gumas destas predições foram frustradas ou se demonstraram inexeqüíveis, e isso já levou à controvérsia e confusão entre seus seguidores. Mas o poder de sua análise é inegável; e qualquer quadro que possa ser traçado, embora especulativamente, de uma sociedade futura deve conter uma ampla inspiração de concepções marxistas.

Marx foi o profeta da produtividade, da industrialização como caminho para as mais altas formas de produtividade, da moderni­zação através do uso das mais desenvolvidas formas de tecnologia. Seus escritos, do Manifesto Comunista em diante, estão cheios de elogios às realizações do capitalismo, que libertou os processos de produção dos grilhões feudais e pôs em movimento através do mundo uma moderna economia tecnicamente desenvolvida e exten­siva. Mas Marx acreditava ter demonstrado por sua análise que o capitalismo burguês, baseado nos princípios da empresa privada individual, estava criando, através de seu genuíno sucesso, novos grilhões que levariam a uma paralisação da futura expansão da produção, que tirariam o controle da produção das mãos do capita­lismo burguês e seriam substituídos por alguma forma de controle social pelos próprios trabalhadores. Apenas assim a expansão da produtividade poderia ser mantida e intensificada. Um dos poucos quadros oferecidos por Marx de uma sociedade comunista futura era aquele em que ‘as fontes de riqueza fluirão mais abundantemente’.

Num mundo em que grandes massas de pessoas ainda não desfrutam nem mesmo dos mais elementares benefícios materiais da civilização moderna, não é surpreendente que estas doutrinas devem ter influenciado poderosamente a visão popular de uma nova sociedade. Nem é surpreendente (embora seja o oposto do que Marx esperava) que estas doutrinas devem ter feito seu apelo mais con­vincente não em países avançados, cujos povos desfrutavam no passado das grandes realizações do capitalismo burguês e acham difícil acreditar que as potencialidades deste sistema já estão mesmo exauridas, mas nos países atrasados, onde o capitalismo burguês apareceu como uma força estranha e sobretudo opressiva. A revo­lução russa ocorreu num país tecnicamente atrasado, onde a transformação capitalista burguesa da economia e da sociedade apenas começara; sua função primeira, como disse Lênin, era ‘com­pletar a revolução burguesa’ antes que ela pudesse passar para a revolução socialista. Desde a Segunda Guerra Mundial, a revolução se espalhou para países onde uma revolução burguesa ainda não havia começado. A visão de uma sociedade futura que, ultrapassando a agora obsoleta revolução capitalista burguesa, atingirá a industrialização e a modernização da economia, e a mais alta pro­dutividade que a acompanha, através de alguma forma de controle social e planificado da produção, domina hoje todo o mundo que se estende fora da esfera das nações européias ocidentais”.

Carr prosseguiu acrescentando que “os aspectos políticos desta visão permanecem, entretanto, obscurecidos e incompreensíveis. O marxismo pouco ajuda. A concepção de uma sociedade controlada pelos trabalhadores provou ter pouca relevância na Rússia, onde o proletariado era pequeno; não tem nenhuma importância em países menos avançados, onde não existe um proletariado”. Contudo, a revolução nestes países era adequada para levar o sistema capitalista a um fim e fornecer a possibilidade de alcançar a “Utopia não verificável” de Carr:

“Penso que temos de considerar seriamente a hipótese [ele declarou em setembro de 1978] de que a revolução mundial da qual [a revolução bolchevique] era o primeiro estágio, e que completará o declínio do capitalismo, provará ser a revolta dos povos coloniais contra o capitalismo sob a máscara do imperialismo”.41

1. J. L. Borges, A Personal Anthology, 1972, pp. 32-3.

2. G. Lukács, The Historical novel, 1962, pp. 176, 182.

3. Edward Gibbon, Essai sur l’étude de la litterature, 1761.

4. Gibbon, Decline and fall of the Roman Empire, Bury (ed.), 1909, cap. 9, p. 230.

5. G. Vico, Principj di scienza nuovo, 1744, Livros I, DC e X, traduzido para o inglês como New Science of G. Vico, 1968, §§ 137, 321.

6. Esta passagem, datilografada em suas anotações, aparece no ensaio de Carr sobre Lukács em From Napoleon to Stalin, 1980, p. 250.

7. The greek historians, M. I. Finley (ed.), 1959, Introdução, pp. 4, 6.

8. G. Macaulay, Works, 1898, viii, 431 (de um ensaio sobre Sir James Mackintosh).

9. P. Feyerabend, Against method: outline of an anarchistic theory of knowledge, 1975, conclui, do “rico material fornecido pela história”, que apenas um princípio pode ser defendido em todas as circunstâncias e épocas: “anything goes” (p. 27).

10. “An Essay on Causes Affecting Minds and Characters”, in Montesquieu, The spirit of laws, ed. D. W. Carruthers, 1977, p. 417.

11. Ver A. de Tocqueville, De 1’ancien regime, trad. S. Gilbert, 1966, II, EI, especialmente p. 160.

12. A. Huxley, Do as you will, 1929, p. 101. 24

13. S. Freud, Civilization and its discontents, 1975, p. 32; outro dos apontamentos de Carr observava que “o inconsciente de Freud é individual; nada a ver com o ‘inconsciente coletivo’ de Jung”.

14. Grundrisse, Berlim, 1953, pp. 395-6.

15. Works, 1898, vii, 6.

16. L. Tolstoi, Polnoe sobranie sochinenii, XV, 1955, p. 279.

17. Carta a Samarin, 10 de janeiro de 1867, in Tolstoy’s letters, R. F. Christian (ed.), i, 1978, 211.

18. Carta a Volkonsky, 4/16 de dezembro de 1899, ibid, ii, 585.

19. Esta era uma referência a Sebastian Haffner, The meaning of Hitler, 1979.

20. From Napoleon to Stalin, 1980, pp. 262-3 (entrevista com Perry Anderson, setembro de 1978).

21. A history of Soviet Russia, 1978, xi, p.448.

22. Le Monde, 21-22 de janeiro de 1979. “A ideologia marxista, comunista e totalitária não passa de uma astúcia da história.” (N. do T.)

23. G. R. Elton, The history of England: inaugural lecture delivered 26 january 1984, Cambridge, 1984, especialmente pp. 9-11, 26-9; ver também seu ataque da história de família em New York Review of Books, 14 de junho de 1984.

24. G. Orwell, Collected essays, journalism and letters, 1968, i, p. 448 (apareceu originalmente em Inside the whale, 1940).

25. Traduzido em K. Marx, The german ideology, C. J. Arthur (ed.), 1970, p. 149.

26. A. E. Housman, The name and nature of poetry, 1933, p. 49.

27. T. S. Eliot, Collected poems 1909-1962, 1963, p. 40.

28. D. B. Wyndham Lewis, Blasting and bombardiering, 1937, p. 115.

29. Max Brod, Kafka: a biography, 1947, p. 61.

30. Ver J. Sturrock, Structuralism and Science, 1979. 34

31. Works, 1898, xi, pp. 456-8 e cf. pp. 489-91; mas Carr também pergunta: “A visão de Macaulay do neozelandês (Essay on Ranke’s history of the popes) é incompatível com a crença no progresso?”; Macaulay imaginou um neozelan­dês do futuro em pé sobre o braço quebrado da Ponte de Londres para esboçar a ruína de St. Paul, mas no mesmo parágrafo se referira à grandeza futura do Novo Mundo (Essays de Macaulay, selecionados e introduzidos por H. Trevor-Roper, 1965, p. 276).

32. Encounter, novembro de 1979, p. 11; em sua conferência, Popper, no entanto, ainda pretende ser um otimista.

33. A Second Identity, 1969, p. 100.

34. Thomas Hobbes on Human Nature, Works, 1840, iv, p. 16.

35. Ernst Bloch, Das Prinzip Hoffnung, 1956, iii, p. 489.

36. The twenty years’ crisis, 1919-1939, 1939.

37. Fortnightfy Review, março de 1933, p. 319.

38. From Napoleon to Stalin, 1980, p. 271.

39. Ver Knei-Paz, The social and political thought of Leon Trotsky, 1978, p. 423.

40. H. Marcuse, One dimensional man, 1968, pp. 11-12. 38

41. From Napoleon to Stalin, 1980, p. 275.


I. O Historiador e seus Fatos

Que é história? Para que ninguém pense que a pergunta é sem sentido ou supérflua, farei referência neste texto a duas passagens que apareceram, respectivamente, na primeira e na segunda publi­cações da Cambridge Modern History. Citarei Acton no seu relató­rio de outubro de 1896 para os membros do Conselho da Cambrid­ge University Press sobre o trabalho que ele se comprometera a diri­gir:

“É uma oportunidade única de registrar, da maneira mais útil para o maior número, a abundância de conhecimentos que o século XIX está em vias de legar... Pela divisão criteriosa do trabalho, deveríamos ser capazes de fazê-lo e levar ao conhecimento de todos o documento mais recente e as conclusões mais amadurecidas da pesquisa internacional.

Não podemos ter nesta geração a história definitiva, mas po­demos dispor da história convencional e mostrar o ponto a que che­gamos entre uma e outra, agora que todas as informações estão ao nosso alcance e que cada problema tem possibilidade de solução.”1

Quase 60 anos mais tarde, o professor Sir George Clark, na sua introdução à segunda Cambridge Modern History, comentou sobre a convicção de Acton e seus colaboradores de que um dia seria possível produzir “a história definitiva”, e continuou:

“Historiadores de uma geração posterior não parecem desejar qualquer perspectiva desse tipo. Eles esperam que seu trabalho seja superado muitas e muitas vezes. Eles consideram que o conhecimen­to do passado veio através de uma ou mais mentes humanas, foi ‘processado’ por elas e portanto, não pode compor-se de átomos elementares e impessoais que nada podem alterar... A pesquisa parece ser interminável, e alguns eruditos impacientes refugiam-se no ceticismo, ou pelo menos na doutrina segundo a qual, desde que todos os julgamentos históricos envolvem pessoas e pontos de vis­ta, um é tão bom quanto o outro, e não há verdade histórica ‘objetiva’.2

Quando os ilustres professores se contradizem tão flagrante­mente, o campo fica aberto para investigação. Espero estar suficientemente atualizado para reconhecer que qualquer coisa es­crita nos anos de 1890 deve ser tolice. Mas ainda não sou bastante avançado para expressar a opinião de que qualquer coisa escrita nos anos de 1950 obrigatoriamente faça sentido. Aliás, já lhe deve ter ocorrido que esta investigação está sujeita a ultrapassar a própria natureza da história. O choque entre Acton e Sir George Clark é o reflexo da mudança de nossa visão global da sociedade no intervalo entre dois pronunciamentos. Acton fala da convicção positiva, da autoconfiança límpida, do fim da era vitoriana; Sir George Clark repercute a perplexidade e o ceticismo aturdido da geração beat. Quando tentemos responder à pergunta “Que é história?” nossa resposta, consciente ou inconscientemente reflete nossa própria po­sição no tempo, e faz parte da nossa resposta a uma pergunta mais ampla: que visão nós temos da sociedade em que vivemos? Não tenho medo de que meu tema possa, em exame mais detalhado, parecer trivial. Receio apenas que eu possa parecer presunçoso por ter levantado uma questão tão vasta e tão importante.

O século XIX foi uma grande época para fatos. “O que eu quero”, disse o sr. Gradgrind em Hard Times, “são fatos... Na vida só queremos fatos.” Os historiadores do século XIX em geral con­cordavam com ele. Quando Ranke, por volta de 1830, num protesto legítimo contra a história moralizante, acentuou que a tarefa do historiador era “apenas mostrar como realmente se passou” (wie es eigentlich gewesen), este aforisma não muito profundo teve um êxito espantoso. Três gerações de historiadores alemães, ingleses e mes­mo franceses marcharam para a batalha entoando as palavras mágicas “Wie es eigentlich gewesen” como um encantamento - destinado, como a maioria dos encantamentos, a poupá-los da obri­gação cansativa de pensarem por si próprios. Os positivistas, an­siosos por sustentar sua afirmação da história como uma ciência, contribuíram com o peso de sua influência para este culto dos fatos. Primeiro verifique os fatos, diziam os positivistas, depois tire suas conclusões. Na Grã-Bretanha, esta visão da história se adequava perfeitamente à tradição empirista que era a corrente dominante na filosofia britânica de Locke a Bertrand Russel. A teoria empírica do conhecimento pressupõe uma separação completa entre sujeito e objeto. Fatos, como impressões sensoriais, impõem-se, de fora, ao observador e são independentes de sua consciência. O processo de recepção é passivo: tendo recebido os dados, ele então atua sobre eles. O Oxford Shorter English Dictionary, um trabalho útil mas tendencioso da escola empírica, enfatiza claramente a separação dos dois processos definindo um fato como “dados de experiência dis­tintos das conclusões”. Isto é o que se pode chamar visão “senso comum” da história. A história consiste num corpo de fatos verifi­cados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos docu­mentos, nas inscrições, e assim por diante, como os peixes na tábua do peixeiro. O historiador deve reuni-los, depois levá-los para casa, cozinhá-los, e então servi-los da maneira que o atrair mais. Acton, cujo gosto culinário era austero, queria que fossem servidos simples. Na sua carta de instruções para os colaboradores da primeira Cam­bridge Modern History, deixou clara a exigência de que “nosso Waterloo deve ser tal, que satisfaça franceses e ingleses, alemães e holandeses da mesma maneira; que ninguém possa dizer sem exa­minar a lista de autores, onde o bispo de Oxford parou de escrever e onde Fairbairn ou Gasquet, Liebermann ou Harrison continua­ram”3. Até mesmo Sir George Clark, crítico como era às atitudes de Acton, contrapôs “o caroço dos fatos” na história à “polpa envolvente da interpretação discutível”4 - esquecendo-se talvez de que a parte polpuda da fruta é mais compensadora do que o caroço. Primeiro, acerte os fatos; só então corra o risco de mergulhar nas areias movediças da interpretação. Esta é a derradeira sabedoria da escola empírica e do senso comum da história. Lembra-me o ditado favorito do grande jornalista liberal C. P. Scott: “Os fatos são sagrados, a opinião é livre.”

Mas isto claramente não satisfaz. Não vou entrar numa discus­são filosófica sobre a natureza do nosso conhecimento do passado. Vamos presumir, para os propósitos atuais, que o fato de César ter atravessado o Rubicão e o fato de existir uma mesa no meio da sala são fatos da mesma ordem ou de uma ordem comparável, que ambos estes fatos entram em nossa consciência da mesma maneira ou de maneira comparável; e que ambos têm o mesmo caráter objetivo em relação à pessoa que os conhece. Mas mesmo nesta suposição arrojada e não muito plausível, nosso argumento logo encontra a dificuldade de que nem todos os fatos sobre o passado são fatos históricos, ou tratados como tal pelo historiador. Qual o critério que distingue fatos da história de outros fatos do passado?

Que é um fato histórico? Esta é urna questão crucial que devemos olhar mais de perto. De acordo com a visão do senso comum, há certos fatos básicos que são os mesmos para todos os historiadores e que formam, por assim dizer, a espinha dorsal da história - o fato, por exemplo, de que a Batalha de Hastings acon­teceu em 1066. Mas esta maneira de ver, requer duas observações. Em primeiro lugar, não são fatos como este que interessam primor­dialmente ao historiador. Sem dúvida é importante saber que a grande batalha foi disputada em 1066 e não em 1065 ou 1067, e que foi disputada em Hastings e não em Eastbourne ou Brighton. O historiador não deve errar nessas coisas. Mas quando pontos deste tipo são levantados, fazem lembrar a observação de Housman de que “exatidão é um dever, não uma virtude”5. Elogiar um historiador por sua exatidão é o mesmo que elogiar um arquiteto por usar a madeira mais conveniente ou o concreto adequadamente misturado. Trata-se de uma condição necessária do seu trabalho, mas não sua função essencial. É precisamente para assuntos deste tipo que é permitido basear-se no que se tem chamado de “ciências auxiliares” da história - arqueologia, epigrafia, numismática, cronologia e ou­tras. Não é exigido do historiador ter a perícia especial que capacita o especialista a determinar a origem e o período de um fragmento de cerâmica ou mármore, a decifrar uma inscrição obscura, ou a fazer elaborados cálculos astronômicos necessários para estabelecer a data exata. Estes tão chamados fatos básicos, que são os mesmos para todos os historiadores, normalmente pertencem mais à catego­ria de matéria-prima do historiador do que à própria história. A segunda observação é que a necessidade de estabelecer estes fatos básicos repousa não em qualquer qualidade dos próprios fatos, mas numa decisão a priori do historiador. A despeito do moto de C. P. Scott, todo jornalista sabe hoje que a maneira mais eficaz de influen­ciar a opinião pública é através da seleção e disposição dos fatos apropriados. É comum dizer-se que os fatos falam por si. Natural­mente isto não é verdade. Os fatos falam apenas quando o his­toriador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vêm à cena e em que ordem ou contexto. Acho que foi um dos personagens de Pirandello quem disse que um fato é como um saco - não ficará de pé até que se ponha algo dentro. A única razão por que estamos interessados em saber que a batalha foi disputada em Hastings em 1066 é que os historiadores olham-na como um grande acontecimen­to histórico. É o historiador quem decide por suas próprias razões que o fato de César atravessar aquele pequeno riacho, o Rubicão, é um fato da história, ao passo que a travessia do Rubicão, por milhões de outras pessoas antes ou desde então não interessa a ninguém em absoluto. O fato de você ter chegado neste edifício meia hora atrás a pé, ou de bicicleta, ou de carro, é exatamente tanto um fato do passado quanto o fato de César ter atravessado o Rubicão. Mas provavelmente será ignorado pelos historiadores. O professor Tal­cott Parsons uma vez designou ciência como “um sistema seletivo de orientações cognitivas para a realidade”6. Talvez isto possa ser colocado de maneira ainda mais simples. Mas história é, entre outras coisas, isto. O historiador é necessariamente um selecionador. A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem obje­tiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de erradicar.

Vamos nos deter um pouco no processo pelo qual um mero fato do passado é transformado num fato da história. Em Stalybridge Wakes, em 1850, um vendedor de pão de gengibre, em conseqüência de uma pequena briga, foi morto a pontapés por uma multidão enfurecida. Isto é um fato da história? Há um ano eu teria dito sem hesitar: “não”. O fato fora relatado por uma testemunha local em algum livreto de memórias desconhecido7; mas eu nunca o vira julgado digno de menção por qualquer historiador. Um ano atrás, o Dr. Kitson Clark citou-o nas suas conferências Ford em Oxford8. Isto o transforma num fato histórico? Não, eu continuo achando que não. Seu status atual, creio, é que ele foi proposto para membro de um clube seleto de fatos históricos e agora espera que alguém o apóie e patrocine. Pode ser que, no curso dos próximos anos, vejamos este fato aparecendo primeiro em notas de pé de página, depois em textos de artigos e livros sobre a Inglaterra do século XIX, e que ao fim de 20 ou 30 anos possa ser um fato histórico bem estabelecido. Por outro lado, ninguém pode presumir em que caso ele será relegado ao limbo dos fatos não históricos sobre o passado do qual o Dr. Kitson Clark tentou galantemente salvá-lo. O que decidirá qual das duas coisas vai acontecer? Dependerá, acho, da tese ou interpretação - em apoio da qual o Dr. Kitson Clark citou este incidente - ser aceita por outros historiadores como válida e significativa. Seu status como um fato histórico dependerá de um problema de inter­pretação. Este elemento de interpretação entra em todo fato de histórias.

Posso permitir-me uma lembrança pessoal? Quando estudei história antiga nesta universidade muitos anos atrás, tinha como assunto especial “a Grécia no período das Guerras Pérsicas”. Juntei quinze ou vinte volumes na estante e fiquei certo de que ali, regis­trados nesses volumes, eu tinha todos os fatos relativos ao meu tema. Vamos supor - era bem próximo da verdade - que aqueles livros contivessem todos os fatos já conhecidos sobre o assunto ou que podiam ser conhecidos. Nunca me ocorreu investigar por que aci­dente ou processo de desgaste aquela minuciosa seleção de fatos, de toda a miríade de fatos que um dia podem ter sido conhecidos por alguém, havia sobrevivido para se tornar os fatos da história. Sus­peito que mesmo hoje um dos fascínios da história antiga e medieval é que nos dá a ilusão de termos todos os fatos disponíveis dentro de limites manejáveis: a distinção aborrecida entre os fatos da história e outros fatos sobre o passado desaparece, porque os poucos fatos conhecidos são todos fatos de história. Como disse Bury, que tra­balhou em ambos os períodos, “os registros da história antiga e medieval são semeados de lacunas”9. A história tem sido vista como um enorme quebra-cabeças com muitas partes faltando. Mas o problema principal não consiste em lacunas. Nossa imagem da Grécia no século V a.C. é incompleta, não porque tantas partes se perderam por acaso, mas porque é, em grande parte, o retrato feito por um pequeno grupo de pessoas de Atenas. Nós bem sabemos como a Grécia do século V era vista por um cidadão ateniense; mas não sabemos praticamente nada de como era vista por um espartano, um corintiano, ou um tebano - para não mencionar um persa, ou um escravo ou outro não-cidadão residente em Atenas. Nossa imagem foi pré-selecionada e predeterminada para nós, não tanto por acaso mas por pessoas que estavam consciente ou inconscientemente im­buídas de uma visão particular e que consideravam os fatos que sustentavam esta visão dignos de serem preservados. Da mesma maneira, quando leio num livro recente de história da Idade Média que as pessoas da Idade Média se interessavam profundamente por religião, fico imaginando como nós podemos saber isto e se isto é verdade. O que nós conhecemos como fatos da história medieval foram quase todos selecionados para nós por gerações de cronistas que se ocupavam profissionalmente com a teoria e a prática da religião, que, portanto, consideravam-na de extrema importância, registravam tudo em relação a ela e pouca coisa a mais. A figura dos camponeses russos como profundamente religiosos foi destruída pela Revolução de 1917. A figura do homem medieval como devo­tamente religioso, se verdadeira ou não, é indestrutível, porque praticamente todos os fatos conhecidos sobre ele foram pré-selecionados para nós por pessoas que acreditavam nisto, que queriam que outros acreditassem, e uma quantidade de outros fatos em que possivelmente teríamos encontrado evidências do contrário perdeu-se irrevogavelmente. A mão morta de gerações de historiadores que desapareceram, escribas e cronistas, determinou, sem possibilidade de apelação o padrão do passado. “A história que nós lemos”, escreve o professor Barraclough, ele próprio medievalista, “embora baseada em fatos, não é, para dizer a verdade, absolutamente factual, mas uma série de julgamentos aceitos”10.

Passemos, no entanto, a verificar a situação difícil, embora diferente, em que se defronta o historiador face à história moderna. O especialista em história antiga ou medieval tem a seu favor o fato de poder contar com um conjunto de fatos históricos selecionados através de um longo processo. Como Lytton Strachey disse, na sua maneira maliciosa, “a ignorância é o primeiro requisito do historia­dor, ignorância esta que simplifica e esclarece, que seleciona e omite”11. Quando sou tentado, como por vezes ocorre, a invejar a grande competência de colegas engajados em escrever história an­tiga ou medieval, consolo-me achando que eles são tão competentes assim sobretudo porque não têm tanto conhecimento como se pensa do seu assunto. O historiador dos tempos modernos não leva qual­quer vantagem desta ignorância intrínseca. Ele deve cultivar para si mesmo esta ignorância necessária - tanto mais quanto maior a proximidade de sua própria época. Ele tem a dupla tarefa de desco­brir os poucos fatos importantes e transformá-los em fatos da história e de descartar os muitos fatos insignificantes como não históricos. Mas isto é exatamente o inverso da heresia do século XIX segundo a qual a história consiste na compilação de um número máximo de fatos irrefutáveis e objetivos. Qualquer um que se entre­gue a esta heresia ou terá de desistir da história, por ser um mau negócio, e se dedicar a colecionar selos ou algum outro passatempo antiquado, ou terminar num hospício. É esta heresia que, durante os últimos cem anos, vem provocando tamanhos efeitos devastadores no historiador dos tempos modernos, produzindo na Alemanha, Grã-Bretanha e nos Estados Unidos uma enorme e crescente massa de histórias factuais, fragmentadas e pulverizadas, de monografias minuciosamente especializadas de pretensos historiadores; que sa­bem cada vez mais sobre cada vez menos, mergulhados sem vestígios num oceano de fatos. Suspeito que tenha sido esta heresia - mais do que o alegado conflito entre a lealdade ao liberalismo e ao catolicismo - que frustrou Acton enquanto historiador. Num de seus primeiros ensaios disse de seu professor Dollinger: “Ele ja­mais escreveria com dados imperfeitos e para ele os dados eram sempre imperfeitos”12. Acton estava certamente pronunciando um veredicto antecipado de si mesmo que constituiu um estranho fenômeno como historiador, pois era considerado por muitos como o mais notável ocupante da Regius Chair of Modern History que esta universidade jamais teve - mas que não escreveu história. E Acton escreveu seu próprio epitáfio, na nota introdutória do primeiro vo­lume da Cambridge Modern History, publicado logo depois de sua morte, onde lamentou que as exigências que pressionavam o histo­riador “ameaçassem transformá-o de homem de letras em com­pilador de enciclopédias”13. Alguma coisa tinha saído errado. O que andou errado foi a convicção nesta incansável e interminável acu­mulação de fatos difíceis como fundamento da história, a convicção de que os fatos falam por si mesmos e que nós não podemos ter fa­tos demais. Uma convicção naquela época tão inquestionável que poucos historiadores de então consideraram necessário - e alguns ainda hoje julgam desnecessário - colocar a pergunta “Que é his­tória?”

O fetichismo dos fatos do século XIX era completado e justi­ficado por um fetichismo de documentos. Os documentos eram sacrário do templo dos fatos. O historiador respeitoso aproximava-se deles de cabeça inclinada e deles falava em tom reverente. Se está nos documentos é porque é verdade. Mas o que nos dizem esses documentos - decretos, tratados, registros de arrendamento, publi­cações parlamentares, correspondência oficial, cartas e diários particulares - quando nos ocupamos deles? (Nenhum documento pode nos dizer mais do que aquilo que o autor pensava - o que ele pensava que havia acontecido, o que devia acontecer ou o que aconteceria, ou talvez apenas o que ele queria que os outros pensas­sem que ele pensava, ou mesmo apenas o que ele próprio pensava pensar. Nada disso significa alguma coisa, até que o historiador trabalhe sobre esse material e decifre-o. Os fatos, mesmo se encon­trados em documentos, ou não, ainda têm de ser processados pelo historiador antes que se possa fazer qualquer uso deles: o uso que se faz deles é, se me permitem colocar dessa forma, o processo do processamento.

Darei um exemplo do que estou tentando dizer citando algo que conheço bem. Quando Gustav Stresemann, ministro do Exterior da República de Weimar, morreu em 1929, deixou atrás de si uma enorme massa - 300 caixas cheias - de papéis oficiais, semi-oficiais e particulares, quase todos relacionados com os seis anos de seu mandato como ministro do Exterior. Seus amigos e parentes natu­ralmente pensaram em fazer uma obra monumental em homenagem a um homem tão ilustre. Seu dedicado secretário Bernhard pôs-se a trabalhar, em três anos foram publicados três volumes maciços, com cerca de 600 páginas cada, de documentos selecionados daquelas 300 caixas, com o título pomposo de Stresemanns Vermächtnis. Normalmente os documentos se teriam desfeito em pó em algum porão ou sótão e desaparecido para sempre; ou talvez em cem anos ou mais algum literato curioso tê-los-ia encontrado e se disposto a compará-los com o texto de Bernhard. O que aconteceu foi ainda mais dramático. Em 1945, os documentos caíram nas mãos dos governos inglês e americano, que os fotografaram e colocaram as cópias fotostáticas à disposição dos estudiosos no Public Record Office em Londres e nos Arquivos Nacionais de Washington, de maneira que, se tivermos paciência e curiosidade suficientes, pode­mos descobrir exatamente o que Bernhard fez. O que ele fez não foi muito comum nem muito chocante. Quando Stresemann morreu, sua política ocidental parecia ter sido coroada por uma série de sucessos brilhantes - Locarno, a admissão da Alemanha na Liga das Nações, os planos Dawes e Young e os empréstimos americanos, a retirada dos exércitos de ocupação aliados das terras do Reno*.




* N.R. Os planos Dawes e Young, respectivamente de 1924 e 1929, foram patro­cinados pelos Aliados vencedores e impostos à Alemanha vencida na Guerra de 1914-1918, com o objetivo de cobrar “reparações”, estabelecendo, sobretu­do pelo primeiro plano, rigorosos controles sobre as finanças internas alemãs.

Isto parecia a parte importante e compensadora da política externa de Stresemann; não era estranho que tivesse sido super-representada na seleção de documentos de Bernhard. A política oriental de Stresemann, por outro lado, suas relações com a União Soviética, não foi particularmente bem sucedida; além disso, uma vez que massas de documentos sobre negociações que apenas produziram resultados triviais não eram muito interessantes e nada acrescentavam à repu­tação de Stresemann, o processo de seleção podia ser mais rigoroso. Stresemann, na verdade, dedicou uma atenção muito mais constante e ansiosa às relações com a União Soviética, e elas desempenharam um papel muito maior na sua política externa como um todo, do que o leitor da seleção de Bernhard suporia. Mas os volumes de Ber­nhard ganham em comparação, imagino eu, com muitas coleções de documentos publicadas em que o historiador comum se fia implici­tamente.

Este não é o fim da minha história. Logo depois da publicação dos volumes de Bernhard, Hitler subiu ao poder. O nome de Strese­mann ficou esquecido na Alemanha e os volumes saíram de circulação: muitos dos exemplares, talvez a maioria, devem ter sido destruídos. Hoje, Stresemanns Vermächtnis é um livro raro. Mas a reputação de Stresemann no Ocidente permaneceu elevada. Em 1935 um editor inglês publicou uma tradução resumida do trabalho de Bernhard - uma seleção da seleção de Bernhard; talvez um terço do original tenha sido omitido. Sutton, tradutor de alemão bastante conhecido, fez seu trabalho muito bem e com competência. A versão inglesa, explicou ele no prefácio, era “ligeiramente condensada, mas apenas pela omissão de uma certa quantidade daquilo que, sentia-se, era assunto mais efêmero... de pequeno interesse para leitores ou estudantes ingleses”14. Mais uma vez é natural. Mas o resultado é que a política oriental de Stresemann, já sub-representada em Ber­nhard, retira-se ainda mais do panorama, e a União Soviética, aparece nos volumes de Sutton meramente como uma intrusa oca­sional e muito mal recebida na política externa predominantemente ocidental de Stresemann. Ainda assim é a opinião geral, salvo para alguns especialistas, que Sutton e não Bernhard - e ainda menos os próprios documentos - representa para o mundo ocidental a voz autêntica de Stresemann.

Tivessem os documentos sucumbido no bombardeio de 1945 e tivessem os volumes restantes de Bernhard desaparecido, a auten­ticidade e autoridade de Sutton nunca teriam sido questionadas. Muitas coleções de documentos impressas, largamente aceitas por historiadores na falta dos originais, repousam em bases não mais seguras do que esta.

Quero, porém, levar a história mais além. Deixemos de lado Bernhard e Sutton e reconheçamos que podemos, se quisermos, consultar os documentos autênticos de alguém que teve um papel importante na história européia recente. O que nos dizem estes documentos? Entre outras coisas, contêm registros de algumas cen­tenas das conversas de Stresemann com o embaixador soviético em Berlim e de uma vintena ou mais com Chicherin. Estes registros têm uma característica em comum. Eles descrevem Stresemann como tendo a parte do leão nas conversas, e revelam seus argumentos como invariavelmente bem colocados e convincentes, enquanto os de seu interlocutor são na maioria estreitos, confusos e não muito convincentes. Esta é uma característica familiar de todos os registros de conversações diplomáticas. Os documentos não nos contam o que aconteceu, mas somente o que Stresemann pensou que aconteceu, ou o que ele queria que outros pensassem, ou talvez o que ele próprio queria pensar que tivesse acontecido. Não foi Sutton nem Bernhard, mas o próprio Stresemann, quem começou o processo de seleção. Se nós tivéssemos, digamos, os registros de Chicherin destas mesmas conversas, assim mesmo apreenderíamos delas o que Chicherin pensou, e o que realmente aconteceu ainda teria de ser reconstruído na mente do historiador. Naturalmente, os fatos e os documentos são essenciais ao historiador. Mas que não se tornem fetiches. Eles por si mesmos não constituem a história; não fornecem em si mesmos respostas pronta a esta exaustiva pergunta: “Que é história?”

Neste ponto eu gostaria de dizer algumas palavras sobre por­que os historiadores do século XIX eram em geral indiferentes à filosofia da história. A expressão foi inventada por Voltaire e tem sido, desde então, usada em diferentes sentidos; caso eu a utilize será para responder à pergunta “Que é história?” O século XIX foi, para os intelectuais da Europa ocidental, um período confortável, trans­pirando confiança e otimismo. Os fatos eram em conjunto satisfatórios; a inclinação para perguntar e responder questões difí­ceis sobre eles era respectivamente fraca. Ranke acreditava piamente que a Divina Providência cuidaria do significado da his­tória, caso ele tomasse conta dos fatos; Burckhardt, com um toque mais moderno de cinismo, observou que “nós não somos iniciados nos propósitos da sabedoria eterna”. O professor Butterfield, por volta de 1931, notou com aparente satisfação que “os historiadores refletem pouco sobre a natureza das coisas e mesmo sobre a natu­reza de seus próprios assuntos”15. Mas meu antecessor nestas con­ferências, Dr. A. L. Rowse, mais precisamente crítico, escreveu sobre World crisis de Sir Winston Churchill - seu livro sobre a Primeira Guerra Mundial - que, enquanto competia com a História da Revolução Russa de Trotski em personalidade, brilhantismo e vigor, era inferior num aspecto: não apresentava “uma filosofia da história”16.

Os historiadores britânicos recusaram-se a ser persuadidos, não porque acreditassem que a história não tinha significado, mas porque acreditavam que seu significado era implícito e evidente por si próprio. No século XIX, a visão liberal da história tinha uma afinidade próximo à doutrina econômica do laissez-faire - também produto de uma visão serena e autoconfiante do mundo. Que cada um trate de si, e a mão oculta cuidará da harmonia universal. Os fatos da história eram eles próprios uma demonstração do fato supremo de um progresso benéfico e aparentemente infinito em direção a coisas mais altas. Esta era a idade da inocência e os historiadores caminhavam no Jardim do Paraíso, sem um fragmento de filosofia para cobri-los, nus e sem vergonha diante do deus da história. Desde então conhecemos o Pecado e experimentamos a Expulsão do Paraíso; os historiadores que hoje fingem prescindir da filosofia da história estão meramente tentando, inútil e auto-conscientemente, como membros de uma colônia nudista, recriar o Jardim do Paraíso em seu subúrbio ajardinado. Hoje esta difícil pergunta não pode mais ser evitada.

Nos últimos 50 anos muitos foram os trabalhos sérios feitos sobre a pergunta “Que é história?” Partiu da Alemanha, o país que estava prestes a fazer tanto para abalar o confortável reinado do liberalismo do século XIX, o primeiro desafio, nas décadas de 1880 e 1890, à doutrina da primazia e da autonomia de fatos na história. Os filósofos que fizeram o desafio são agora pouco mais do que nomes: Dilthey é o único deles que recentemente recebeu algum reconhecimento tardio na Grã-Bretanha. Antes da passagem do século, prosperidade e confiança eram ainda grandes demais na Inglaterra para que qualquer atenção fosse prestada aos hereges que atacavam o culto dos fatos. Mas logo no princípio do novo século a tocha passou para a Itália, onde Croce começou a propor uma filo­sofia da História que obviamente devia muito aos mestres alemães. Toda história é “história contemporânea”, declarou Croce17, queren­do assim dizer que a história consiste essencialmente em ver o passado através dos olhos do presente e à luz de seus problemas, que o trabalho principal do historiador não é registrar mas avaliar; porque, se ele não avalia, como pode saber o que merece ser regis­trado? Em 1910 o historiador americano Carl Becker argumentou, em linguagem deliberadamente provocadora, que “os fatos da his­tória não existem para qualquer historiador até que ele os crie”18. Estes desafios foram pouco notados naquela época. Foi somente após 1920 que Croce começou a ficar em grande moda na França e na Grã-Bretanha. Isto não foi talvez porque Croce era um pensa­dor mais sutil ou melhor estilista do que seus antecessores alemães, mas porque, após a Primeira Guerra Mundial, os fatos pareciam sorrir para nós menos favoravelmente do que nos anos anteriores a 1914 e estávamos, portanto, mais acessíveis a uma filosofia que procurava diminuir o seu prestígio. Croce foi uma influência impor­tante no filósofo e historiador de Oxford Collingwood, o único pensador britânico no século atual que fez uma abalizada contri­buição à filosofia da história. Ele não viveu o suficiente para escre­ver a exposição sistemática que planejou; mas seus artigos publicados e notas não publicadas sobre o assunto foram reunidos, após sua morte, num volume intitulado The idea of history, editado em 1945.

As opiniões de Collingwood podem ser reunidas como se segue. A filosofia da história não é relacionada com “o passado em si” nem com “o pensamento do historiador sobre o passado em si mesmo”, mas com “as duas coisas em suas relações mútuas”. (Esta opinião reflete os dois significados correntes da palavra “história” -a pesquisa conduzida pelo historiador e as séries de acontecimentos passados em que ele investiga.) “O passado que o historiador estuda não é um passado morto mas um passo que, em algum sentido, está ainda vivo no presente.” Mas um ato passado está morto, isto é, sem significado para o historiador, a menos que ele possa apreender o pensamento que está por trás deste passado, desde que “toda história é a história do pensamento” e “a história é a revalidação da mente do historiador do pensamento cuja história ele está estudando”. A reconstituição do passado na mente do historiador está na dependência da evidência empírica. Mas não é em si mesmo um processo empírico e não pode consistir de uma mera narração de fatos. Ao contrário, o processo de reconstituição governa a seleção e interpre­tação dos fatos: isto, aliás, é o que faz deles fatos históricos. “História”, diz o professor Oakeshott, que neste ponto se aproxima de Collingwood, “é a experiência do historiador. Ela não é ‘feita’ por ninguém exceto pelo historiador: escrever história é a única maneira de fazê-la”19.

Esta crítica aguda, embora requeira algumas reservas sérias, revela certas verdades negligenciadas.

Em primeiro lugar, os fatos da história nunca chegam a nós “puros”, desde que eles não existem nem podem existir numa forma pura: eles são sempre refratados através da mente do registrador. Como conseqüência, quando pegamos um trabalho de história, nos­sa primeira preocupação não deveria ser com os fatos que ele con­tém, mas com o historiador que o escreveu. Exemplificarei com o grande historiador que é o patrono das aulas que ora ministro e em cuja homenagem foram instituídas. G. M. Trevelyan, como nos conta em sua autobiografia, foi “educado em casa numa tradição um tanto exuberantemente whig”20; ele não repudiaria o título, imagino, se o descrevesse como o último, e não o menor, dos grandes histo­riadores liberais ingleses da tradição whig.* Não é por acaso que ele reconstitui sua árvore genealógica, desde o grande historiador whig, George Otto Trevelyan até Macaulay, que foi, incomparavelmente, o maior dos historiadores whigs. O mais admirável e maduro trabalho de Trevelyan, England under queen Anne, foi escrito levando em conta as suas origens e somente terá sentido e importância para o leitor se levar em conta o background do historiador. De fato, o autor não deixa outra saída para o leitor, pois se você seguir a técnica dos amantes dos romances policiais e ler primeiro o fim, encontrará nas últimas páginas do terceiro volume o melhor resumo que conhe­ço daquilo que é hoje chamado de interpretação whig da história; verá então que o que Trevelyan está tentando fazer é investigar a origem e o desenvolvimento da tradição whig, vinculando as suas raízes firmemente aos anos que se seguiram à morte de seu fundador Guilherme III. Embora esta não seja, talvez, a única interpretação concebível dos acontecimentos no reinado da rainha Ana, é uma interpretação válida e, nas mãos de Trevelyan, frutífera. Mas, a fim de apreciá-la em todo seu valor, o leitor tem de entender o que o historiador está fazendo. Pois como diz Collingwood, o historiador deve reviver no pensamento o que se passou na mente de seus “dramatis personae”, a fim de que o leitor, por sua vez, possa reviver o que se passa na mente do historiador. Estude o historiador antes de começar a estudar os fatos. Isto não é, afinal, muito obscuro. É o que já é feito pelo estudante inteligente que, quando recomendado a ler um trabalho de Jones, aquele grande humanista de St. Jude, vai procurar um colega em St. Jude para perguntar que tipo de cara é Jones e o que ele tem na cabeça. Quando você lê um trabalho de história, procura saber o que se passa na cabeça do historiador.




* N.R. Whig foi a denominação dada em oposição a tory, ambas de cunho pejora­tivo na sua origem (final do século XVII), ao partido que advogava a exclusão de Jaime, duque de York, da linha de sucessão ao trono. Com a evolução da Inglaterra nos séculos XVIII e XIX, ambos os nomes passaram a designar os partidos políticos dominantes, cabendo aos whigs defender os interesses e o poder da nobreza, representados no Parlamento, face ao absolutismo da Coroa. As mudanças econômicas, operadas sobretudo a partir do final do século XVIII, tiveram nos whigs os seus defensores. Da sua ala radical emergiu o Partido Liberal em oposição aos tories conservadores. A tradição associa aos whigs a vitória do parlamentarismo e a garantia das liberdades individuais.

Se não conseguir, o defeito é seu ou dele. Os fatos na verdade não são absolutamente como peixes na peixaria. Eles são como peixes na­dando livremente num oceano vasto e algumas vezes inacessível; o que o historiador pesca dependerá parcialmente da sorte, mas prin­cipalmente da parte do oceano em que ele prefere pescar e do molinete que ele usa - fatores estes que são naturalmente determi­nados pela qualidade de peixes que ele quer pegar. De um modo geral, o historiador conseguirá o tipo de fatos que ele quer. História significa interpretação. De fato, se, utilizando as palavras de Sir George Clark, eu chamasse história de “um caroço duro de interpre­tação cercado por uma polpa de fatos discutíveis”, minha afirmação seria, sem dúvida, parcial e desorientadora, mas não tanto quanto ousaria pensar a opinião original.

O segundo ponto, que é o mais conhecido, diz respeito à necessidade por parte do historiador de usar a imaginação para compreender a mente das pessoas com as quais está lidando e o pensamento que conduz os seus atos: digo “compreensão com ima­ginação” e não “simpatia”, com receio de que simpatia possa significar concordância implícita. O século XIX foi fraco em história medieval porque repudiava demasiadamente as crenças supersticio­sas da Idade Média e as barbaridades que elas inspiravam, não podendo ter qualquer compreensão imaginativa do povo da Idade Média. Ou tomemos o comentário crítico de Burckhardt sobre a Guerra dos Trinta Anos: “É escandaloso que um credo, seja católico ou protestante, coloque a sua salvação acima da integridade da nação”21. Era extremamente difícil para um historiador liberal do século XIX, educado para acreditar que é certo e louvável matar em defesa do próprio país mas é errado e perverso matar em defesa da própria religião, colocar-se no estado de espírito daqueles que luta­ram na Guerra dos Trinta Anos. Tal dificuldade é particularmente aguda no campo em que estou trabalhando agora. Muito do que tem sido escrito nos países de língua inglesa nos últimos dez anos sobre a União Soviética e, na União Soviética, sobre os países de língua inglesa tem sido invalidado por esta inabilidade de alcançar mesmo a medida mais elementar de compreensão imaginativa do que se passa na mente do outro lado, de tal maneira que palavras e ações do outro são sempre feitas de modo a parecerem malignas, sem sentido ou hipócritas. A história não pode ser escrita a menos que o historiador possa atingir algum tipo de contato com a mente daque­les sobre quem está escrevendo.

O terceiro ponto é que nós podemos visualizar o passado e atingir nossa compreensão do passado somente através dos olhos do presente. O historiador pertence à sua época e a ela se liga pelas condições de existência humana. As próprias palavras que usa - tais como democracia, império, guerra, revolução - têm conotações presentes das quais ele não se pode divorciar. Historiadores voltados para a antigüidade adotaram palavras como polis e plebs no original, exatamente para mostrar que não caíram nesta armadilha. Isso não os ajuda. Eles também vivem no presente e não podem enganar a si mesmos sobre o passado usando palavras pouco familiares ou ob­soletas, do mesmo modo que não se tornariam melhores historia­dores da Grécia ou de Roma se fizessem suas conferências vestindo chlamys ou toga. Os nomes pelos quais sucessivos historiadores franceses descreveram as multidões parisienses que desempenha­ram um papel tão proeminente na Revolução Francesa - les sans-culottes, le peuple, la canaille, les brasmus - são todos, para aqueles que conhecem as regras do jogo, manifestos de uma afiliação política e de uma interpretação particular. Ainda assim, o historiador é obrigado a escolher; o uso da linguagem impede-o de ser neutro. Também não é um problema apenas de palavras. Nos últimos cem anos, a mudança do equilíbrio do poder na Europa inverteu a atitude de historiadores britânicos em relação a Frederico, o Grande. A mudança do equilíbrio do poder entre catolicismo e protestantismo alterou profundamente suas atitudes em relação a figuras tais como Loyola, Lutero e Cromwell. Basta um conheci­mento superficial da obra dos historiadores franceses dos últimos 40 anos, sobre a Revolução Francesa, para reconhecer o quanto a visão sobre ela foi profundamente afetada pela Revolução Russa de 1917. O historiador pertence não ao passado mas ao presente. O professor Trevor-Roper nos diz que o historiador “deve amar o passado”22. Esta é uma injunção dúbia. Amar o passado pode facilmente ser uma expressão do romantismo nostálgico de homens velhos e socie­dades velhas, um sintoma de perda de fé e interesse no presente ou no futuro23. Clichê por clichê, eu preferiria um sobre libertar-se da “mão-morta do passado”. A função do historiador não é amar o passado ou emancipar-se do passado, mas dominá-lo e entendê-lo como a chave para a compreensão do presente.

Se, entretanto, estes são alguns dos discernimentos do que eu me permito chamar de a visão da história de Collingwood, é tempo de se levar em consideração alguns dos perigos. O fato de se enfatizar o papel do historiador na elaboração da história tende, se pressionado à sua conclusão lógica, a rejeitar todo e qualquer obje­tivo da história: a história é o que o historiador faz. Collingwood parece aliás, num momento, em nota inédita citada por seu editor, ter atingido esta conclusão:

Santo Agostinho via a história do ponto de vista dos primeiros cristãos; Tillamont, do ponto de vista de um francês do século XVII; Gibbon, daquele de um inglês do século XVIII; Mommsen, daquele de um alemão do século XIX. Não há por que perguntar qual era o ponto de vista correto. Cada um era o único possível para o homem que o adotou.24.

Isto eleva-se ao ceticismo total, como o comentário de Froude de que história é “uma caixa de letras para criança com a qual nós podemos soletrar qualquer palavra que nos agrade”25. Collingwood, em sua reação contra a “história do tipo tesoura e cola”, contra a visão da história como uma mera compilação de fatos, chega peri­gosamente quase a tratar a história como algo tecido pelo cérebro humano e retorna à conclusão a que Sir George Clark se referiu na passagem que citamos anteriormente, de que “não há verdade his­tórica objetiva”. Em lugar da teoria segundo a qual a história não tem significado, aqui nos oferecem a teoria de uma infinidade de significados, nenhum mais certo do que o outro - o que, no fundo, dá no mesmo. A segunda teoria é certamente tão insustentável quanto a primeira. Não podemos concluir que, porque uma monta­nha parece tomar diferentes formas de acordo com os diversos ângulos de visão, não tem objetivamente ou nenhuma forma em absoluto ou uma infinidade de formas. Não podemos concluir que, porque a interpretação desempenha um papel necessário no estabe­lecimento dos fatos da história e porque nenhuma interpretação é completamente objetiva, qualquer interpretação é tão boa quanto outra e que os fatos da história não são, em princípio, responsáveis pela interpretação objetiva. Terei de considerar num estágio mais avançado o que exatamente quero definir como objetividade em história.

Mas um perigo ainda maior esconde-se na hipótese de Colling­wood. Se o historiador necessariamente observa o período da histó­ria que lhe está interessando com os olhos de seu próprio tempo e estuda os problemas do passado como uma chave para os problemas do presente, não cairá numa visão puramente pragmática dos fatos e sustentará que o critério para uma interpretação correta é a sua adequabilidade a algum propósito atual? Desta hipótese, os fatos da história não são nada, a interpretação é tudo. Nietzsche já enunciara o princípio: “A falsidade de uma opinião não é para nós qualquer objeção a ela... A questão é o quanto ela é promotora de vida, preservadora de vida, preservadora da espécie e talvez criadora de espécie”26: Os pragmatistas americanos se moveram menos explíci­ta e sinceramente ao longo da mesma linha. Conhecimento é conhecimento para algum fim. A validade do conhecimento depende da validade do propósito. Mas mesmo onde tal teoria não foi pro­fessada, a prática tem sido com freqüência não menos inquietante. No meu próprio campo de estudo tenho visto exemplos demasiados de interpretações extravagantes vagamente baseadas em fatos e que não parecem ligar a isso. Não surpreende que a leitura de alguns dos produtos mais extremos da historiografia das escolas soviética e anti-soviética deva provocar às vezes uma certa nostalgia da segu­rança ilusória que advinha da história puramente factual do século XIX.

Como então, no meio do século XX, devemos definir o com­promisso do historiador para com seus fatos? Reconheço que gastei muitas horas nos últimos anos procurando e examinando documen­tos e recheando minha narrativa histórica com fatos devidamente anotados com explicações de pé de página, para escapar à imputação de tratar fatos e documentos com demasiado desdém. O dever do historiador de respeitar seus fatos não termina ao verificar a exatidão deles. Ele deve procurar focalizar todos os fatos conhecidos, ou que possam ser conhecidos, e que tenham alguma importância para o tema em que está empenhado e para a interpretação a que se propôs. Se ele procura descrever o inglês vitoriano como um ser moral e racional, não deve esquecer o que aconteceu em Stalybridge Wakes em 1850. Mas isto, por sua vez, não significa que ele possa eliminar a interpretação, que é o sangue vivo da história. Alguns leigos - quero dizer, amigos não acadêmicos ou amigos de outras disciplinas acadêmicas - perguntam-me às vezes de que forma o historiador trabalha quando escreve história. A suposição mais comum parece ser a de que o historiador divide seu trabalho em duas fases ou períodos rigidamente distintos. Primeiramente, ele leva muito tempo lendo suas fontes e enchendo seus cadernos de anotações com fatos. Depois então, quando esta fase está acabada, ele deixa de lado suas fontes, pega seu caderno de anotações e escreve seu livro do prin­cípio ao fim. Este quadro não me é convincente nem plausível. Quanto a mim, tão logo termino com algumas das fontes que con­sidero mais importantes, o desejo se torna forte demais e eu começo a escrever - não necessariamente do início, mas a partir de qualquer ponto. Daí em diante, leitura e escrita continuam simultaneamente. Na medida em que vou lendo, faço acréscimos à leitura, ou subtrações, reformulo ou cancelo. A leitura é guiada, dirigida, e tornada proveitosa pela escrita: quanto mais escrevo, mais sei o que estou procurando, compreendo melhor o sentido e a relevância daquilo que descubro. Alguns historiadores provavelmente fazem todo este trabalho preliminar de escrita mentalmente, sem usar caneta, papel ou máquina de escrever, da mesma maneira corno algumas pessoas já jogam xadrez “de cabeça”, sem recorrer o tabuleiro e a outro enxadrista: este é um talento que invejo mas não posso imitar. Entretanto, estou convencido de que, para qualquer historiador dig­no do nome, os dois processos que os economistas chamam de imput e output desenrolam-se simultaneamente e são, na prática, partes de um processo único. Se você tenta separá-los ou dar a um prioridade sobre o outro, cairá numa das seguintes heresias: ou escreve história do tipo tesoura e cola, sem significado ou expressão, ou escreve propaganda ou ficção histórica, usando os fatos do passado como meros enfeites de um tipo de relato que nada tem a ver com a história.

Ao examinarmos a relação do historiador com os fatos da história, encontramo-nos, portanto, numa situação aparentemente precária, navegando cuidadosamente entre Sila, de um lado, uma insustentável teoria da história como sendo uma compilação objetiva de fatos, de inqualificável primado, do fato sobre a interpretação e, de outro lado, Caribde, uma igualmente insustentável teoria da história como um produto subjetivo da mente do historiador, que estabelece os fatos da história e domina-os através do processo de interpretação, entre uma visão da história cujo centro de gravidade é o passado, e outra, cujo eixo gira em torno do presente*. Mas nossa situação é menos precária do que parece. Encontraremos a mesma dicotomia entre fato e interpretação mais adiante, sob outras formas - a particular e a geral, a empírica e a teórica, a objetiva e a subjetiva. O dilema do historiador é um reflexo da natureza do homem. O ho­mem, salvo nos primeiros anos da infância e nos últimos da velhice, não é totalmente envolvido pelo seu meio ou incondicionalmente sujeito a ele. Por outro lado, ele nunca é totalmente independente dele nem o domina incondicionalmente. A relação do homem com seu meio é a relação do historiador com seu tema. O historiador não é um escravo humilde nem um senhor tirânico de seus fatos. A re­lação entre o historiador e seus fatos é de igualdade e de reciproci­dade. Como qualquer historiador ativo sabe, se ele pára para avaliar o que está fazendo enquanto pensa e escreve, o historiador entra num processo contínuo de moldar seus fatos segundo sua interpretação e sua interpretação segundo seus fatos. É impossível determinar a pri­mazia de um sobre o outro.

O historiador começa com uma seleção provisória de fatos e uma interpretação também provisória, a partir da qual a seleção foi feita - tanto pelos outros quanto por ele mesmo. Enquanto trabalha, tanto a interpretação e a seleção quanto a ordenação de fatos passam por mudanças sutis e talvez parcialmente inconscientes, através da ação recíproca de uma ou da outra.




* N.R. Entre Sila e Caribde (respectivamente, recife e turbilhão do estreito de Messina), i.e., estar entre dois perigos ou escapar de um mal para cair em outro maior.

Essa ação mútua também envol­ve a reciprocidade entre presente e passado, uma vez que o historiador faz parte do presente e os fatos pertencem ao passado. O historiador e os fatos históricos são necessários um ao outro. O historiador sem seus fatos não tem raízes e é inútil; os fatos sem seu historiador são mortos e sem significado. Portanto, minha primeira resposta à pergunta “Que é história?” é que ela se constitui de um processo contínuo de interação entre o historiador e seus fatos, um diálogo interminável entre o presente e o passado.

1.The Cambridge Modern History: its origin, authorship and production, 1907, PP. 10-12.

2. The New Cambridge Modem History, introdução, 1957, pp. xxiv-xxv. 44

3. Acton, Lectures on modern history, 1906, p. 318.

4. Citado em Listener, 19 de junho de 1952, p. 992.

5. M. Manilii Astronomicon: liber primus, 2ª ed., 1937, p. 87.

6. T. Parsons e E. Shils, Towards a general theory of action, 3ª ed., 1954, p. 167.

7. Lord George Sanger, Seventy years a showman, 2ª ed., 1926, pp. 188-9.

8. Dr. Kitson Clark, The making of victorian England, 1962.

9. J. B. Bury, Selected essays, 1930, p. 52.

10. G. Barraclough, History in a Changing world, 1955, p. 14.

11. Lytton Strachey, prefácio de Eminent victorians.

12. Citado em G. P. Gooch, History and Historians in the nineteenth Century, p. 385; mais tarde, Acton disse de Dollinger que “lhe fora dado formar sua filosofia da história a partir da maior indução que jamais coube ao homem”. In History of freedom and other essays, 1907, p. 435.

13. Cambridge Modern History, introdução, 1902, p. 4.

14. Gustav Stresemann, his diaries, letters and papers, introdução, 1935, nota do editor inglês.

15. H. Butterfield, The whig interpretation of history, 1931, p. 67.

16. A. L. Rowse, The end of an epoch, 1947, pp. 282-3.

17. O contexto deste aforisma célebre é o seguinte: “As exigências práticas que suportam todo julgamento histórico dá a toda história o caráter de ‘história contemporânea’, porque, mesmo que os eventos assim recontados possam parecer remotos no tempo, a história na verdade refere-se a necessidades presentes e situações presentes, onde aqueles acontecimentos vibram.” In B. Croce, History as the story of liberty, tradução inglesa de 1941, p. 19.

18. Atlantic Monthly, outubro de 1910, p. 528.

19. M. Oakeshott, Experience and its modes, 1933, p. 99.

20. G. M. Trevelyan, An autobiography, 1949, p. II.

21. J. Burckhardt, Judgements on history and historians, 1959, p. 179.

22. Introdução a J. Burckhardt, Judgements on history and historians, 1959,p. 17.

23. Compare-se a visão da história de Nietzsche: “À velhice pertence a ocupação do homem velho de olhar para trás e calcular suas contas, de procurar consolo nas lembranças do passado, na cultura histórica.” In Thoughts out of season, tradução inglesa, 1909, ii, pp. 65-6.

24. R. Collingwood, The idea of history, 1946, p. xii.

25. A Froude, Short Studies on great subjects, introdução, 1894, p. 21.

26. Beyond good and evil, capítulo i.


II. A Sociedade e o Indivíduo

A pergunta sobre o que vem primeiro - a sociedade ou o indi­víduo - é como a pergunta sobre o ovo e a galinha. Quer se considere a pergunta do ponto de vista lógico ou histórico, quer não, o fato é que nada se pode afirmar, de uma maneira ou de outra, sem que logo surja um ponto de vista oposto e igualmente parcial. A sociedade e o indivíduo são inseparáveis; eles são necessários e complementares um ao outro e não opostos. “Nenhum homem é uma ilha na sua totalidade”, segundo a frase famosa de Donne: “cada homem é um pedaço do continente, uma parte do principal”1. Esse é um aspecto da verdade. Por outro lado, tomemos a expressão de J. S. Mill, o individualista clássico: “Os homens, quando são colocados juntos, não se convertem em outra espécie de substância”2. É claro que não. Mas a falácia está em supor que eles existiam, ou que tinham uma espécie de substância antes de serem “colocados juntos”. Logo que nascemos, o mundo começa a agir sobre nós e a transformar-nos de unidades meramente biológicas em unidades sociais. Todo ser hu­mano em qualquer estágio da história ou da pré-história nasce numa sociedade e, desde seus primeiros anos, é moldado por essa socie­dade. A língua que ele fala não é uma herança individual, mas uma aquisição social do grupo no qual ele cresce. Ambos, língua e meio, ajudam a determinar o caráter de seu pensamento: suas primeiras idéias são provenientes de outras. Conforme já se afirmou, o indi­víduo, desligado da sociedade, seria incapaz de falar e de pensar. A fascinação persistente do mito de Robinson Crusoé deve-se à sua tentativa de imaginar o indivíduo independente da sociedade. A ten­tativa não resiste. Robinson não é um indivíduo abstrato mas um inglês de York; ele carrega sua bíblia consigo e reza para seu deus tribal. O mito rapidamente lhe outorga seu homem, Sexta-Feira; a construção de uma nova sociedade começa. Outro mito relevante é o Kirilov, em Demônios de Dostoievski, que se mata a fim de demonstrar sua liberdade perfeita. O suicídio é o único ato perfeita­mente livre franqueado ao homem individual; qualquer outro ato envolve, de uma maneira ou de outra, sua situação de membro da sociedade3.

Os antropólogos afirmam, geralmente, que o homem primitivo é menos individual e mais completamente moldado por sua socie­dade do que o homem civilizado. Reside aí um elemento de verdade. As sociedades mais simples são mais uniformes, no sentido de que elas requerem e fornecem oportunidades, para uma diversidade de habilidades e ocupações individuais, muito menor do que a de sociedades mais complexas e avançadas. A crescente individualiza­ção neste sentido é um produto necessário da sociedade moderna avançada e percorre todas as suas atividades, do alto para baixo. Mas seria uma falta grave estabelecer uma antítese entre este processo de individualização e a força e a coesão crescentes da sociedade. O desenvolvimento da sociedade e o desenvolvimento do indivíduo caminham de mãos dadas e condicionam-se um ao outro. Aliás, o que nós queremos significar por uma sociedade complexa e avan­çada é a sociedade em que a interdependência de indivíduos entre si assumiu formas complexas e avançadas. Seria perigoso supor que o poder de que dispõe uma comunidade nacional moderna para modelar o caráter e o pensamento de seus membros individuais e para produzir um certo grau de concordância e uniformidade entre eles é, em qualquer nível, menor do que o de uma comunidade tribal primitiva. O velho conceito de caráter nacional baseado em diferen­ças biológicas há muito foi desacreditado; mas diferenças de caráter nacional resultantes de diferentes formações nacionais de sociedade e educação são dificilmente negadas. A “natureza humana” como entidade evasiva variou tanto segundo o país e de acordo com o século, que difícil se torna deixar de encará-la como um fenômeno histórico formado pelas condições e convenções sociais predomi­nantes. Há muitas diferenças entre, digamos, americanos, russos e indianos. Mas algumas - talvez as mais importantes - destas diferenças tomam a forma de atitudes diferentes nas relações sociais entre indivíduos ou, em outras palavras, na maneira em que a sociedade deveria ser constituída, de tal forma que o estudo das diferenças entre as sociedades americana, russa e indiana como um todo possa vir a ser a melhor maneira de estudar as diferenças entre indivíduos americanos, russos e indianos. O homem civilizado, como homem primitivo, é modelado pela sociedade tão eficazmente quanto a sociedade é modelada por ele. Não se pode mais ter o ovo sem a galinha, assim como não se pode ter a galinha sem o ovo.

Não nos teríamos detido em verdades tão óbvias caso elas não nos tivessem sido ocultadas pelo notável e excepcional período da história do qual o mundo ocidental está apenas emergindo. O culto do individualismo é um dos mais penetrantes mitos da história moderna. De acordo com Burckhardt, na sua conhecida obra A cultura do Renascimento na Itália, cuja segunda parte tem como subtítulo “O Desenvolvimento do Indivíduo”, o culto do indivíduo começou com o Renascimento, quando o homem, que até então fora “consciente de si mesmo apenas como membro de uma raça, de um povo, destacamento, família ou corporação”, afinal “tornou-se um indivíduo espiritual e reconheceu-se como tal.” Mais tarde, o culto foi relacionado com a ascensão do capitalismo e do protestantismo, com as origens da revolução industrial e com as doutrinas do lais­sez-faire. Os direitos do homem e do cidadão proclamados pela Revolução Francesa eram os direitos do indivíduo. O individualismo foi a base da grande filosofia do século XIX, o utilitarismo. O ensaio de Morley On compromise, documento característico do liberalismo vitoriano, chamava individualismo e utilitarismo de “a religião da felicidade humana e do bem-estar.” “Individualismo vigoroso” era a tônica do progresso humano. Esta pode ser uma análise perfeita­mente sólida e válida da ideologia de uma época histórica particular. Mas o que quero deixar claro é que a individualização crescente, que acompanhou o surgimento do mundo moderno, foi um processo normal da civilização em progresso. Uma revolução social trouxe novos grupos sociais para posições de poder. Ela funcionou, como sempre, através de indivíduos e pela oferta de oportunidades ao desenvolvimento individual; e, desde que nos estágios iniciais do capitalismo as unidades de produção e distribuição estavam em grande parte nas mãos de indivíduos isolados, a ideologia da nova ordem social enfatizou fortemente o papel da iniciativa individual na ordem social. Mas todo o processo foi um processo social repre­sentando um estágio específico no desenvolvimento histórico e não pode ser explicado em termos de uma revolta de indivíduos das limitações sociais.

Há muitos indícios de que esse período da história está encer­rado, mesmo no mundo ocidental, onde se localizava o foco deste desenvolvimento e desta ideologia. Não é preciso insistir aqui no surgimento da chamada democracia de massa nem na substituição gradativa das formas de produção e organização econômicas predominantemente individuais pelas predominantemente coletivas. Mas a ideologia gerada por este período longo e frutífero é ainda uma força dominante na Europa ocidental e em todos os países de língua inglesa. Quando falamos em termos abstratos da tensão entre liber­dade e igualdade, ou entre liberdade individual e justiça social, somos levados a esquecer que não há lutas entre idéias abstratas. Não são disputadas propriamente entre indivíduos e a sociedade, mas entre grupos de indivíduos em sociedade, cada grupo esforçan­do-se por promover políticas sociais que lhes sejam favoráveis e procurando frustrar políticas sociais, que lhe sejam contrárias. O individualismo, no sentido não mais de um grande movimento so­cial mas de uma falsa oposição entre indivíduos e sociedade, tornou-se hoje o slogan de um grupo interessado e, por causa de seu caráter controvertido, uma barreira para nossa compreensão do que se passa no mundo. Nada tenho a dizer contra o culto do indivíduo como um protesto contra a perversão que trata o indivíduo como um meio e a sociedade ou o Estado como um fim. Mas não chegaremos a qual­quer compreensão real, quer do passado quer do presente, se tentarmos operar com o conceito de um indivíduo abstrato perma­necendo fora da sociedade.

Finalmente, chego ao âmago de minha longa digressão. A visão da história ditada pelo senso comum é a de que algo é escrito por indivíduos sobre indivíduos. Esta visão foi sem dúvida assumida e encorajada pelos historiadores liberais do século XIX e não é substancialmente incorreta. Mas hoje parece supersimplificada e inadequada e precisamos investigá-la mais profundamente. O co­nhecimento do historiador não é sua propriedade individual e ex­clusiva: na acumulação desse conhecimento participaram homens, de muitas gerações e de muitos países diferentes. Os homens cujas ações os historiadores estudam não foram indivíduos isolados agin­do no vácuo: eles agiram no contexto e sob o estímulo de uma sociedade passada. Na minha última conferência descrevi a história como um processo de interação, um diálogo entre o historiador localizado no presente e os fatos do passado. Agora quero examinar o peso relativo dos elementos individuais e sociais em ambos os lados da equação. Até que ponto são os historiadores indivíduos isolados e até que ponto constituem produtos de suas sociedades e de sua época? Até que ponto constituem os fatos da história fatos sobre indivíduos isolados e até que ponto são eles fatos sociais?

O historiador é, então, um ser humano individual. Como outros indivíduos, ele também é um fenômeno social, tanto o produto como o porta-voz consciente ou inconsciente da sociedade à qual pertence; é nesta situação que ele aborda os fatos do passado histórico. Fala­mos, às vezes, do curso da história como uma “procissão em movimento”. A metáfora é bastante razoável contanto que não incite o historiador a se considerar como uma águia observando a cena de um penhasco solitário ou como um VIP no palanque. Nada disso!

O historiador nada mais é do que um figurante caminhando com dificuldade no meio da procissão. E à medida que a procissão serpenteia, desviando-se ora para a direita e ora para a esquerda, algumas vezes dobrando-se sobre si mesma, as posições relativas das diferentes partes da procissão estão constantemente mudando, de maneira que pode perfeitamente fazer sentido coerente dizer, por exemplo, que nós estamos mais próximos hoje da Idade Média do que nossos bisavós estavam há cem anos atrás ou que a época de César está mais próxima de nós do que a época de Dante. Novas perspectivas, novos ângulos de visão constantemente aparecem à medida que a procissão - e o historiador com ela - se desloca. O historiador é parte da história. O ponto da procissão em que ele se encontra determina seu ângulo de visão sobre o passado.

Este truísmo não é menos verdadeiro quando o período tratado pelo historiador está mais longínquo do seu próprio tempo. Quando estudei história antiga, os clássicos na matéria eram - e provavel­mente ainda são - História da Grécia de Grote e História de Roma de Mommsen. Grote, ilustrado banqueiro radical, escrevendo por volta de 1840, incorporou as aspirações da crescente e politicamente progressista classe média inglesa num quadro idealizado da demo­cracia ateniense, no qual Péricles figurou como um reformador inspirado em Bentham e Atenas adquiriu um império num acesso de distração do espírito. Não será fantasioso alvitrar que o esqueci­mento de Grote, quanto ao problema da escravidão em Atenas, refletia a falência do grupo, ao qual pertencia, em enfrentar o pro­blema da nova classe operária inglesa. Mommsen era um liberal alemão, desiludido com as confusões e humilhações da Revolução Alemã de 1848-9. Escrevendo por volta de 1850 - a década que viu o nascimento do nome e conceito de Realpolitik -, Mommsen estava imbuído do sentimento de que era necessário um homem forte para ordenar a balbúrdia deixada pelo fracasso do povo alemão em con­cretizar suas aspirações políticas; e nunca apreciaremos a história de Mommsen com o devido valor se não percebermos que sua conhecida idealização de César é um produto desta sua ansiedade pelo homem forte que deveria salvar a Alemanha da ruína e que o político-advogado Cícero, aquele tagarela ineficiente e procrastina-dor escorregadio, saiu diretamente dos debates do Paulikirche em Frankfurt em 1848. De fato, não seria demasiadamente paradoxal dizer-se que a História da Grécia de Grote diz-nos hoje tanto sobre o pensamento da filosofia dos radicais ingleses dos anos de 1840 quanto sobre a democracia ateniense do século V a.C. ou, ainda, que quem desejasse compreender as conseqüências de 1848 sobre os liberais alemães deveria adotar a História de Roma de Mommsen como um manual básico. Nem por isto deixam de ser grandes trabalhos históricos. Não tenho paciência para com a moda, estabe­lecida por Bury na sua conferência inaugural, de atribuir a grandeza de Mommsen não à sua História de Roma, mas às suas inscrições e seu trabalho sobre direito constitucional romano: isto é reduzir a história ao nível de compilação. Escreve-se a grande História preci­samente quando o historiador tem do passado uma visão que penetra nos problemas do presente, tornando-se, portanto, mais iluminada. Surpreende que Mommsen não tenha continuado sua história além da queda da república. Não lhe faltou tempo, nem oportunidade, nem saber. Mas quando Mommsen escreveu sua história, o homem forte ainda não tinha surgido na Alemanha. Durante sua carreira ativa, o problema de saber o que aconteceu com a tomada do poder pelo homem forte ainda não se fizera realidade. Nada inspirou Mommsen a projetar este problema na cena romana do passado - e a história do império ficou sem ser escrita.

Seria fácil multiplicar exemplos deste fenômeno entre histo­riadores modernos. Na minha última conferência prestei homena­gem a England under queen Anne, de G. M. Trevelyan, como um monumento à tradição whig na qual ele fora criado. Consideremos agora a realização grandiosa e importante de alguém que a maioria de nós olharia como o maior historiador britânico a surgir no cenário acadêmico desde a Primeira Guerra Mundial: Sir Lewis Namier. Namier foi um verdadeiro conservador - não um típico conserva­dor inglês que, no fundo, é 75 por cento liberal, mas um conservador como não vemos há mais de cem anos entre historiadores britânicos. Entre os meados do século passado e 1914, o historiador britânico praticamente só concebia a mudança histórica como uma mudança para melhor. Nos anos 20, entramos num período em que a mudan­ça começava a ser associada ao medo do futuro e podia ser consi­derada como mudança para pior - período esse de renascimento do pensamento conservador. Como o liberalismo de Acton, o conser­vadorismo de Namier derivava tanto da força como da profundidade de ser enraizado num background continental4. Diferentemente de Fisher ou de Toynbee, Namier não tinha raízes no liberalismo do século XIX não morria de saudade por ele. Depois que a Primeira Guerra Mundial e a paz abortada revelaram a bancarrota do libera­lismo, a reação somente podia vir numa de duas formas - o socialismo ou o conservadorismo. Namier apareceu como o histo­riador conservador. Ele trabalhou em dois campos escolhidos e a escolha de ambos foi importante. Na história inglesa voltou-se ao último período em que tinha sido possível à classe dominante enga­jar-se na procura racional de posição e poder numa sociedade ordenada e principalmente estática. Namier foi acusado de retirar a mente da história5. Talvez não seja uma frase muito feliz, mas pode-se ver o ponto que o crítico estava tentando atingir. No mo­mento da ascensão de Jorge III, a política ainda estava imune ao fanatismo das idéias, bem como daquela crença apaixonada no progresso, que iria desabar sobre o mundo com a Revolução Fran­cesa e introduzir-se no século do liberalismo triunfante. Sem idéias, sem revolução, sem liberalismo: dessa forma Namier nos deu um retrato brilhante de uma era ainda segura - embora não fosse per­manecer segura por muito tempo e livre de todos estes perigos.

Mas Namier escolheu um segundo tema igualmente importan­te. Namier passou por cima das grandes revoluções modernas - a inglesa, a francesa e a russa - e nada escreveu de importante sobre qualquer uma delas: preferiu nos dar um estudo penetrante da Re­volução Européia de 1848 - uma revolução que fracassou, um retrocesso em toda a Europa para as nascentes esperanças de libe­ralismo, uma demonstração da vacuidade de idéias diante da força das armas, de democratas quando confrontados com soldados. A intromissão das idéias no assunto sério da política é perigosa e não leva a nada: Namier bateu na tecla da moral chamando a este humilhante fracasso de “a revolução dos intelectuais”. A nossa conclusão não é uma questão de simples dedução; embora Namier não tivesse escrito algo de sistemático sobre filosofia da história, expressou-se num ensaio publicado há poucos anos com sua habitual clareza e maneira incisiva. “Portanto”, escreveu ele, “quanto menos o homem sobrecarrega o livre exercício de sua mente com doutrina e dogma políticos, tanto melhor para seu pensamento”. E, após men­cionar, e não rejeitar, a acusação de que suprimira a atuação da mente na história, continuou:

“Alguns filósofos políticos lamentam-se de um ‘marasmo’ e da atual ausência de debate sobre política geral neste país; soluções práticas são procuradas para problemas concretos enquanto progra­mas e ideais são esquecidos por ambos os partidos. Mas para mim esta atitude parece indicar uma maior maturidade nacional e posso apenas desejar que ela consiga continuar por mais tempo, não perturbada pelas atividades da filosofia política”6.

Não quero no momento levantar as questões que esta visão suscita: reservá-las-ei para uma conferência posterior. Meu propósito aqui é meramente ilustrar duas verdades importantes: primeiro, que não se pode compreender ou apreciar completamente o trabalho do historiador a menos que se aprenda antes o ponto de vista que determinou a sua abordagem; segundo, que aquele ponto de vista está ele mesmo enraizado num background social e histórico. Não esqueçamos que, como disse Marx, o próprio educador tem de ser educado; no jargão moderno, o cérebro do lavador de cérebros foi ele próprio lavado. O historiador, antes de começar a escrever história, é o produto da história.

Os historiadores de quem acabei de falar - Grote e Mommsen, Trevelyan e Namier - foram cada um deles, moldados, por assim dizer, num único modelo social e político; nenhuma mudança de perspectiva marcante ocorre entre o trabalho inicial e final desses historiadores. Mas, alguns historiadores, em períodos de mudança rápida, refletiram em seus escritos não uma sociedade e uma ordem social, mas uma sucessão de ordens diferentes. O melhor exemplo deste tipo que conheço é o grande historiador alemão Meinecke, cuja amplitude de vida e de trabalho foi extraordinariamente longa e cobriu uma série de transformações revolucionárias e catastróficas no destino de seu país. Temos, de fato, três diferentes Meineckes, cada um porta-voz de uma época histórica diferente e cada um falando através de um dos seus três maiores trabalhos. O Meinecke de Welbürgerthum and Nationalstaat, publicado em 1907, vê, com toda segurança, a realização dos ideais nacionais alemães no Reich de Bismarck e - como muitos pensadores do século XIX, de Mazzini em diante - identifica o nacionalismo com a mais alta forma de universalismo: este é o produto da seqüela barroca dos Guilhermes da era bismarquiana. O Meinecke de Die Idee der Staatsräson, pu­blicado em 1925, fala da República de Weimar com a mente dividida e desnorteada: o mundo da política tornou-se uma arena do conflito não resolvido entre raison d’état e uma moralidade externa à política mas que não pode, em último recurso, por de lado a vida e segurança do Estado. Finalmente, o Meinecke de Die Entstehung des Historismus, publicado em 1936, quando já havia sido destituído de suas posições acadêmicas pela torrente nazista, exprime um grito de desespero, rejeitando um historicismo que parece reconhecer que “Seja o que for, é certo” e balançando-se sem jeito entre o relativo histórico e um absoluto super-racional. Por fim, quando Meinecke em sua velhice viu seu país sucumbir a uma derrota militar mais esmagadora do que aquela de 1918, recaiu irremediavelmente, em Die Deutsche Katastrophe, de 1946, na crença de uma história à mercê do acaso cego e inexorável7. O psicólogo ou biólogo estaria interessado aqui no desenvolvimento de Meinecke como um indiví­duo: o que interessa ao historiador é a maneira pela qual Meinecke reflete três - ou mesmo quatro - períodos sucessivos e agudamente contrastantes do tempo presente para o passado histórico.

Vamos tomar um exemplo famoso mais próximo de nós. Nos anos iconoclastas de 1930, quando o Partido Liberal apenas acabara de morrer como força eficaz na política britânica, o professor But­terfield escreveu um livro chamado The whig interpretation of history, que desfrutou de grande e merecido êxito. Foi um livro notável de vários modos - em parte porque, embora denunciasse a interpretação whig em mais de 130 páginas, não nomeou (tanto quanto posso descobrir sem a ajuda de um índice remissivo) um único whig, exceto Fox, que não fosse historiador, nem um único historiador, salvo Acton, que não fosse whig8. Mas o que faltava ao livro em detalhe e precisão era compensado pela brilhante imagina­ção. Ao leitor não restava dúvida de que a interpretação whig era ruim; e uma das acusações feitas a esta interpretação era de que ela “estuda o passado tendo o presente como referência”. Neste ponto o professor Butterfield foi categórico e severo:

“O estudo do passado com um olho, por assim dizer, sobre o presente é a fonte de todos os pecados e sofismas em história... É a essência do que queremos significar pela palavra ‘anti-histórico’.”9

Transcorreram doze anos. A moda do iconoclasmo desapare­ceu. O país do professor Butterfield estava engajado numa guerra da qual freqüentemente se dizia ser disputada em defesa das liber­dades constitucionais corporificadas na tradição whig, sob um grande líder que constantemente invocava o passado “com um olho, por assim dizer, sobre o presente”. Num pequeno livro chamado The englishman and his history, publicado em 1944, o professor Butter­field não apenas decidiu que a interpretação whig da história era a interpretação “inglesa” por excelência mas falava entusiasticamente da aliança dos “ingleses com sua história” e do “casamento entre o presente e o passado”10. Chamar a atenção para estas inversões de perspectiva não é uma crítica hostil. Não é meu propósito refutar o proto-Butterfield com o deutero-Butterfield, ou confrontar o profes­sor Butterfield bêbedo com o professor Butterfield sóbrio. Estou completamente cônscio de que, se alguém tiver o trabalho de exa­minar algumas coisas que escrevi antes, durante e depois da guerra, não teria absolutamente dificuldade em convencer-me de contradi­ções e inconsistências pelo menos tão claras quanto qualquer uma das que detectei nos outros. Aliás, não estou certo de que deveria invejar qualquer historiador que pudesse honestamente proclamar ter vivido através dos acontecimentos que abalaram a terra nos últimos 50 anos sem algumas modificações radicais de sua perspec­tiva. Meu propósito é apenas mostrar com que proximidade o traba­lho do historiador reflete a sociedade na qual trabalha. Não são apenas os acontecimentos que estão em fluxo. O próprio historiador está em fluxo. Quando se pega um trabalho histórico, não basta pro­curar o nome do autor na capa do livro: procura-se também a data de publicação ou em que época foi escrito - às vezes é inclusive mais revelador. Se o filósofo está certo ao dizer-nos que não pode­mos caminhar no mesmo rio duas vezes, talvez seja igualmente verdade, e pelas mesmas razões, que dois livros não podem ser escritos pelo mesmo historiador.

E se nos deslocarmos por um momento do historiador indivi­dual para o que pode ser chamado de tendências amplas da historio­grafia, a extensão em que o historiador é o produto de sua sociedade torna-se muito mais aparente. No século XIX, os historiadores bri­tânicos, com raras exceções, viam o curso da história como uma demonstração do princípio do progresso: eles expressavam a ideo­logia de uma sociedade numa situação de progresso notavelmente rápido. A história estava cheia de significado para os historiadores britânicos, tanto quanto ela parecia estar caminhando a nosso favor; agora, que tomou uma direção errada, a crença no significado da história tornou-se uma heresia. Após a Primeira Guerra Mundial, Toynbee fez uma tentativa desesperada de substituir uma visão linear da história por uma teoria cíclica - a ideologia característica de uma sociedade em declínio11. Desde o fracasso de Toynbee, os historiadores britânicos têm na sua maior parte se contentando em entregar os pontos e declarar que não há em absoluto um padrão geral da história. Um comentário banal de Fisher quanto a isto12 alcançou uma popularidade quase tão ampla quanto o aforisma de Ranke no século passado. Se alguém me disser que os historiadores britânicos dos últimos 30 anos passaram por esta mudança como o resultado de profunda reflexão individual e de trabalho até altas horas da noite em seus sótãos afastados, não acharei necessário contestar o fato. Mas continuarei a ver todo este pensamento indi­vidual e o trabalho até altas horas como um fenômeno social, o produto e expressão de uma mudança fundamental no caráter e perspectiva de nossa sociedade desde 1914. Não há indicador mais significativo do caráter de uma sociedade do que o tipo de história que ela escreve ou deixa de escrever.

Geyl, o historiador holandês, na sua fascinante monografia traduzida para o inglês sob o título Napoleon for and against, mostra como os sucessivos julgamentos de historiadores franceses do sécu­lo XIX sobre Napoleão refletiam os padrões mutáveis e conflitantes da vida e do pensamento políticos franceses através do século. O pensamento de historiadores, como de outros seres humanos, é modelado pelo ambiente do tempo e lugar. Acton, que reconheceu esta verdade plenamente, procurou uma fuga na própria história:

“A história - escreveu ele - deve não apenas nos livrar da influência indevida de outros tempos, mas também da influência indevida do nosso próprio tempo, da tirania do meio e da pressão do ar que respiramos”13.

Isto pode parecer uma avaliação demasiadamente otimista do papel da história. Mas atrevo-me a acreditar que o historiador mais consciente de sua própria situação é também o mais capaz de trans­cendê-la e mais capaz de apreciar a natureza essencial das diferenças entre sua própria sociedade e perspectiva e aquelas de outras épocas e outros países, mais do que o historiador que afirma ruidosamente que ele é um indivíduo e não um fenômeno social. A capacidade do homem de erguer-se acima de sua situação social e histórica parece estar condicionada pela sensibilidade com que reconhece a extensão de seu envolvimento nela.

Na minha primeira conferência disse: antes de estudar a história, estude o historiador. Agora acrescentaria: antes de estudar o historiador, estude seu meio histórico e social. O historiador, sendo um indivíduo, é também um produto da história e da sociedade; e é sob este duplo aspecto que o estudante de história deve aprender a considerá-lo.

Deixemos agora o historiador e consideremos o outro lado da minha equação - os fatos da história - sob o ponto de vista do mesmo problema. O que constitui o objeto da investigação do historiador, o comportamento dos indivíduos ou a ação das forças sociais? Aqui estou caminhando em terreno bem conhecido. Quando Sir Isaiah Berlin publicou há poucos anos um brilhante e popular ensaio intitulado Historical inevitability - cuja tese principal tratarei mais tarde nestas conferências -, encabeçou-o com um mote, tirado das palavras de T. S. Eliot, “vastas forças impessoais”; e por todo o ensaio ele zomba das pessoas que acreditam nas “vastas forças impessoais” mais do que nos indivíduos como o fator decisivo da história. O que chamarei de teoria da “história Rei João, o Mau” - a visão de que o que importa na história é o caráter e o comporta­mento dos indivíduos - tem uma longa linhagem. O desejo de colocar o gênio individual como a força criadora da história é característico dos estágios primitivos da consciência histórica. O grego antigo gostava de designar os feitos do passado com nomes de heróis epônimos supostamente responsáveis por eles, de atribuir seus épicos a um bardo chamado Homero e suas leis e instituições a um Licurgo ou a um Sólon. A mesma tendência reaparece no Renascimento, quando Plutarco, biógrafo e moralista, foi uma figura muito mais popular e influente do renascimento clássico do que os historiadores da antigüidade. Neste país, em particular, todos nós aprendemos esta teoria, por assim dizer, no colo de nossa mãe; hoje, deveríamos provavelmente reconhecer que há algo infantil - ou, em alguma medida, uma infantilidade - a este respeito. Teve alguma plausibilidade nos dias em que a sociedade era mais simples e os negócios públicos pareciam ser dirigidos por um punhado de indi­víduos conhecidos. Evidentemente isto não cabe na sociedade mais complexa de nossos tempos, e o nascimento, no século XIX, da no­va ciência da sociologia foi uma resposta a essa crescente comple­xidade. Entretanto, a velha tradição morre com dificuldade. No começo deste século, a frase “a história é a biografia dos grandes homens” era ainda um dito respeitável. Há apenas dez anos um conhecido historiador americano acusou seus colegas, talvez não muito seriamente, do “assassinato em massa dos personagens históricos”, tratando-os como “marionetes das forças sociais e econô­micas”14. Pessoas que aderiram a esta teoria parecem agora envergonhadas; mas, após alguma pesquisa, encontrei uma excelen­te afirmativa contemporânea na introdução de um dos livros de Miss Wedgwood.

“O comportamento dos homens como indivíduos”, escreveu ela, “é mais interessante para mim do que seu comportamento como grupos ou classes. A história pode ser escrita com qualquer uma destas tendências pré-concebidas; não é mais nem menos desorien­tadora... Este livro... é uma tentativa de entender como estes homens sentiam e por que, segundo eles próprios, assim agiram”15.

Esta afirmativa é precisa e, uma vez que Miss Wedgwood é uma escritora popular, muitas pessoas pensam como ela. O Dr. Rowse nos diz, por exemplo, que o sistema elisabetano desfez-se porque Jaime I foi incapaz de entendê-lo e que a Revolução Inglesa do século XVII foi um acontecimento “acidental” devido à estupidez dos dois primeiros reis Stuart16. Mesmo Sir James Neale, um histo­riador mais austero que o Dr. Rowse, algumas vezes parece mais ávido em expressar sua admiração pela rainha Elisabete do que em explicar o que a monarquia Tudor representou; e Sir Isaiah Berlin, no ensaio que acabei de citar, está terrivelmente preocupado pela possibilidade de que os historiadores possam fracassar em denunciar Genghis Khan e Hitler como homens maus17. A teoria do Mau Rei João e da Boa Rainha Bess está especialmente viva quando chega­mos a épocas mais recentes. É mais fácil chamar o comunismo de “produto do cérebro de Karl Marx” (tirei esta fina flor de uma re­cente circular de corretores de valores) do que analisar sua origem e seu caráter: é mais fácil atribuir a Revolução Bolchevique à estupidez de Nicolau II ou ao ouro alemão do que estudar suas causas sociais profundas, como também é mais fácil ver nas duas guerras mundiais deste século o resultado da perversidade individual de Guilherme II e Hitler do que um colapso, que vinha se armando de longa data, no sistema de relações internacionais.

A afirmativa de Miss Wedgwood, então, combina duas pro­porções. A primeira é que o comportamento dos homens como indi­víduos é distinto do seu comportamento como membros de grupos ou classes e que o historiador pode legitimamente escolher deter-se mais num que no outro. A segunda é que o estudo do comportamento dos homens como indivíduos consiste no estudo dos motivos cons­cientes de suas ações.

Depois do que já foi dito não é preciso esmiuçar o primeiro ponto. Não é que a visão do homem como indivíduo seja mais ou menos desorientadora do que a sua visão como membro do grupo; é a tentativa de traçar uma distinção entre as duas que é desorienta­dora. O indivíduo é por definição membro de uma sociedade ou, provavelmente, de mais de uma sociedade - chamemo-la de grupo, classe, tribo, nação ou o que quer que seja. Os primeiros biólogos contentavam-se em classificar espécies de pássaros, quadrúpedes e peixes em gaiolas, aquários e vitrinas e não procuravam estudar a criatura viva em relação ao seu meio ambiente. Talvez as ciências sociais hoje ainda não tenham emergido completamente daquele estágio primitivo. Algumas pessoas fazem distinção entre a psico­logia como a ciência do indivíduo e a sociologia como a ciência da sociedade; o nome “psicologismo” foi dado à visão de que todos os problemas sociais são, em última instância, redutíveis à análise do comportamento humano individual. Mas o psicólogo que deixe de estudar o meio social do indivíduo não vai muito longe18. É tentador fazer uma distinção entre biografia, que trata o homem como uma individualidade, e história, que trata o homem como parte de um todo, e sugerir que a boa biografia faz a má história. “Nada causa mais engano e infidelidade na visão histórica do homem”, escreveu Acton certa vez, “do que o interesse que é inspirado pelos caracteres individuais”19. Mas esta distinção também é irreal. Nem quero me abrigar atrás do provérbio vitoriano colocado por G. M. Young na página de rosto de seu livro Victorian England: “Os criados falam sobre pessoas, a nobreza discute coisas”20. Algumas biografias são contribuições sérias para a história: no meu próprio campo, as bio­grafias de Stálin e de Trotski por Isaac Deutscher são exemplos proe­minentes. Outros pertencem à literatura, como o romance histórico. “Para Lytton Strachey”, escreve o professor Trevor-Roper, “proble­mas históricos eram sempre, e somente, problemas do comporta­mento individual e da excentricidade individual... Problemas histó­ricos, os problemas da política e da sociedade, ele nunca procurou responder ou mesmo perguntar”21. Ninguém é obrigado a escrever ou ler história; e podem-se escrever excelentes livros sobre o passa­do sem que sejam de história. Acho, porém, que por mera convenção - como me proponho a fazer nestas conferências - temos o direito de reservar a palavra “história” ao processo de exame do passado do homem em sociedade.

O segundo ponto, isto é, o de que a história tem por fim inves­tigar por que os indivíduos, “na sua própria opinião, agiram dessa forma”, parece à primeira vista muito estranho; suspeito que Miss Wedgwood, como outras pessoas sensíveis, não pratica o que prega. Se o faz, deve escrever alguma história muito extravagante. Todo mundo sabe hoje que os seres humanos não agem sempre, ou talvez menos habitualmente, por motivos de que tenham plena consciência ou que estejam querendo confessar; excluir o discernimento dos motivos inconscientes ou inconfessados é certamente uma maneira de tratar o trabalho de alguém com um olho deliberadamente fecha­do. Isto é, entretanto, de acordo com algumas pessoas, o que o historiador deve fazer. A questão se coloca dessa forma. Na medida em que alguém se contenta em dizer que a ruindade do rei João consistia na sua avidez ou estupidez ou ambição em desempenhar o papel de tirano, está falando em termos de qualidades individuais que são compreensíveis mesmo ao nível de conto da carochinha. Mas a partir do momento em que se começa a dizer que o rei João era o instrumento inconsciente de interesses adquiridos opostos à ascensão dos barões feudais, introduz-se não apenas uma visão mais complicada e sofisticada da ruindade do rei João, como também dá-se a entender que os acontecimentos históricos são determinados não pelas ações conscientes dos indivíduos e, sim, por algumas forças estranhas e todo-poderosas, guiando os desejos inconscientes desses indivíduos. Isto não faz sentido. Quanto a mim, não acredito em providência divina, espírito do mundo, destino manifesto, His­tória com H maiúsculo ou em qualquer outra das abstrações que muitas vezes imaginaram guiar o curso dos acontecimentos. Eu deveria endossar sem maiores explicações o comentário de Marx:

“A história nada faz, não possui riquezas imensas, não entra em batalhas. É, antes, o homem, o homem realmente vivo, que faz tudo, que possui e que luta”22.

Os dois comentários que tenho a fazer sobre esta questão não têm nada a ver com qualquer visão abstrata da história e são basea­dos em observação puramente empírica.

O primeiro é que a história é, em grande parte, uma matéria de números. Carlyle foi responsável pela asserção infeliz de que a “história é a biografia dos grandes homens”. Mas ouçamo-lo no seu maior e mais eloqüente trabalho histórico:

“A fome, a nudez e a opressão aterradora pesando sobre 25 milhões de corações: aí reside, e não na vaidade ferida ou nas filosofias contraditórias de advogados filosóficos, de ricos negociantes, da nobreza rural, o motor primordial da Revolução Francesa; como da mesma forma será em todas as revoluções deste tipo, em todos os países”23.

Ou, como disse Lênin: “A política começa onde estão as mas­sas; a política séria começa não onde há milhares, mas onde há mi­lhões”24. Os milhões de Carlyle e Lênin eram milhões de indivíduos: neles nada havia de impessoal. Discussões sobre esta questão às vezes confundem o anônimo com o impessoal. As pessoas não deixam de ser pessoas ou os indivíduos deixam de ser indivíduos porque não sabemos seus nomes. “As vastas forças impessoais” de Eliot eram os indivíduos que Clarendon, um conservador mais ousado e mais franco, chama de “pessoas sujas, sem nome”25. Estes milhões de sem-nome foram indivíduos que, juntos, agiram mais ou menos inconscientemente e constituíram uma força social. O histo­riador não precisará, em circunstâncias comuns, tomar conheci­mento de um camponês insatisfeito isolado ou de uma aldeia insa­tisfeita. Mas milhões de camponeses insatisfeitos em milhares de aldeias são um fator que nenhum historiador ignorará. As razões que impedem Jones de se casar não interessam ao historiador, a menos que as mesmas razões também impeçam milhares de outros indiví­duos da geração de Jones de fazerem o mesmo - acarretando, assim, uma queda substancial na taxa de casamento: neste caso, elas podem ser historicamente significativas. Nem precisamos nos deixar levar pela opinião trivial de que são as minorias que dão início aos movimentos. Todos os movimentos eficazes têm poucos líderes e uma multidão de adeptos; mas isto não significa que a multidão não é essencial ao seu êxito. Números contam para a história.

Minha segunda observação confirma-se ainda mais. Autores de diferentes escolas de pensamento têm concordado em destacar que as ações dos seres humanos individuais dão muitas vezes resul­tados não intencionais nem desejados pelos atores, nem mesmo por qualquer outro indivíduo. O cristão acredita que o indivíduo, agindo conscientemente para seus próprios fins quase sempre egoístas, é o agente inconsciente do desígnio divino. A sátira de Mandeville de que “os vícios particulares trouxeram vantagens públicas” constitui um primeiro e deliberado paradoxo desta descoberta*. A “mão oculta” de Adam Smith e a “astúcia da razão” de Hegel são muito conhecidas e dispensam citação; segundo eles, os indivíduos são levados a trabalhar para o público e atingir seus objetivos, embora acreditem que estejam realizando seus próprios desejos pessoais.




* N.R. No original “Mandeville’s ‘private vices public benefits’”. Bernard de Mandeville, filósofo e escritor satírico inglês, embora holandês de nascimento, faleceu em 1733 e celebrizou-se na sua época pela publicação em várias versões da “Fábula das Abelhas ou Vícios Privados fizeram Benefícios Públicos”. Foi originariamente escrita em 1705, como sátira política no momento em que Marlborough estava sendo acusado de fazer a guerra contra a França por motivos pessoais. Segundo ele, os vícios favorecem as invenções e a circulação das riquezas, servindo de estímulo ao processo geral.

“Na produção social de seus meios de produção”, escreveu Marx no prefácio da Crítica da economia política, “os seres humanos en­tram em relações definidas e necessárias que independem da sua vontade”. “O homem vive conscientemente para si mesmo”, escre­veu Tolstoi em Guerra e paz, repercutindo Adam Smith, “mas é um instrumento inconsciente para atingir os objetivos históricos univer­sais da humanidade”26. E aqui, para encerrar esta antologia que já está bastante longa, citemos o professor Butterfield: “Há algo na natureza dos acontecimentos históricos que torce o curso da história numa direção jamais pretendida pelo homem”27.

Desde 1914, após cem anos de pequenas guerras localizadas, tivemos duas grandes guerras mundiais. Não seria uma explicação plausível deste fenômeno dizer que, na primeira metade do século XX mais do que nos últimos 75 anos do século XIX, um número maior de indivíduos queria a guerra ou que um número menor queria a paz. É difícil acreditar que qualquer indivíduo quisesse ou dese­jasse a grande depressão econômica dos anos 30. Ainda assim ela foi indubitavelmente produzida pela ação de indivíduos, cada um conscientemente procurando algum objetivo totalmente diferente. Nem os diagnósticos de uma discrepância entre as intenções do indivíduo e os resultados da sua ação têm sempre de esperar pela retrospectiva do historiador. “Ele não tem intenção de entrar na guer­ra”, escreveu Lodge a respeito de Woodrow Wilson em março de 1917, “mas acho que ele será levado pelos acontecimentos”28. Re­siste à comprovação insinuar que a história se escreve tendo por base as “explicações em termos de intenções humanas”29, ou os relatos de seus motivos feitos pelos próprios participantes explicando “de que modo eles vêem a sua própria ação”. Os fatos da história, são, alias, fatos sobre indivíduos, mas não sobre ações de indivíduos desempenhadas em separado e não sobre os motivos, reais ou ima­ginários, segundo os quais os próprios indivíduos supõem ter agido. São fatos sobre as relações de indivíduos entre si em sociedade e sobre as forças sociais que, a partir das ações individuais, produzem resultados que nem sempre concordam e, às vezes, se opõem aos resultados que pretendiam.

Um dos erros graves da visão histórica de Collingwood, que discuti na minha última conferência, foi supor que o pensamento por trás do ato, que o historiador era chamado a investigar, era o pensa­mento individual do ator. Trata-se de um pressuposto. O que o historiador é levado a investigar é o que fica por trás do ato; neste caso, talvez não terá grande importância o pensamento consciente ou o motivo do ator individual.

Eu deveria agora dizer algo sobre o papel do rebelde ou dissidente na história. Seria reintroduzir aqui a falsa antítese entre a sociedade e o indivíduo se empunhássemos a imagem popular do indivíduo em revolta contra a sociedade. Nenhuma sociedade é completamente homogênea. Toda sociedade é uma arena de confli­tos sociais e aqueles indivíduos que se enfileiram contra a autoridade existente não são menos produtos e reflexos da sociedade do que aqueles que a sustentam. Ricardo II e Catarina, a Grande representaram forças sociais poderosas na Inglaterra do século XIV e na Rússia do século XVIII; mas o mesmo representaram Wat Tyler e Pugachev*, o líder da grande rebelião dos servos. Monarcas e rebel­des da mesma forma são o produto de condições específicas de sua época e de seu país. Descrever Wat Tyler e Pugachev como indiví­duos em revolta contra a sociedade é uma simplificação que conduz ao erro. Se tivessem sido apenas isso, o historiador jamais teria ouvido falar deles. Eles devem seu papel na história à massa de seus seguidores e são ou não importantes como fenômenos sociais. Ora, vejamos um rebelde proeminente e individualista num nível mais sofisticado. Poucas pessoas reagiram mais violentamente e mais radicalmente contra a sociedade de seu tempo e país do que Nietzs­che. No entanto, Nietzsche foi um produto direto da sociedade européia, mais especificamente da sociedade alemã - um fenômeno que não poderia ter ocorrido na China ou no Peru. Uma geração após a morte de Nietzsche, tornou-se mais claro do que havia sido para seus contemporâneos o quanto as forças sociais européias eram fortes, sobretudo as alemãs, de que ele fora a expressão: Nietzsche tornou-se uma figura mais importante para a posteridade do que para sua própria geração.

O papel do rebelde na história tem algumas analogias com o papel do grande homem. A teoria do grande homem na história -um especial exemplo da escola da Boa Rainha Bess - saiu de moda recentemente, embora vez por outra ainda coloque a cabeça do lado de fora. O editor de uma série popular de manuais de história, come­çada após a Segunda Guerra Mundial, convidou seus autores “a abri­rem-na com um tema histórico importante através de uma biografia de um grande homem” A. J. P. Taylor disse-nos num de seus ensaios de menor valor que “a história da Europa moderna pode ser escrita em termos de três titãs: Napoleão, Bismarck e Lênin”30, embora em seus escritos mais sérios ele não tenha levado avante esse projeto tão irrefletido.

* N.R. Wat Tyler, famoso rebelde inglês que liderou a grande revolta camponesa de 1381. Pugachev, rebelde russo e chefe cossaco, pretendente ao trono russo, liderou uma revolta contra Catarina II e foi executado em 1775.

Qual é o papel do grande homem na história? O grande homem é um indivíduo e, sendo um indivíduo de destaque, é tam­bém um fenômeno social de importância destacada. “É uma verdade óbvia”, observou Gibbon, “que os tempos devem ser adaptados aos personagens extraordinários e que o gênio de Cromwell ou de Retz poderiam agora expirar na obscuridade”31. Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, diagnosticou o fenômeno inverso: “A luta de classes na França criou circunstâncias e relações que possibilitaram uma mediocridade vulgar a pavonear-se com garbo de herói”. Ti­vesse Bismarck nascido no século XVIII - uma hipótese absurda, pois então não teria sido Bismarck -, ele não unificaria a Alemanha e não seria absolutamente um grande homem. Mas acho que não se precisa fazer como Tolstoi, que desvalorizou os grandes homens considerando-os nada mais que “rótulos dando nomes a aconteci­mentos”. Algumas vezes, naturalmente, o culto do grande homem pode ter implicações sinistras. O super-homem de Nietzsche é uma figura repelente. Não é necessário lembrar aqui o caso de Hitler ou as duas conseqüências do “culto da personalidade” na União Soviética. Mas não é meu propósito reduzir a magnitude dos grandes homens; nem quero subscrever a tese de que “grandes homens são quase sempre homens maus”. A visão que eu esperaria desencorajar é a que coloca os grandes homens fora da história e olha-os como impondo-se à história em virtude de suas grandezas, como “palhaço em caixa de surpresa que emerge miraculosamente do desconhecido para interromper a continuidade real da história”32. Mesmo hoje não sei se podemos fazer melhor que a descrição clássica de Hegel:

“O grande homem de uma época é aquele que sabe pôr em palavras a vontade de sua época, aquele que diz à sua época qual é a sua vontade e a realiza. O que ele faz é o centro e a essência de sua época; ele atualiza sua época”33.

O Dr. Leavis quer dizer aproximadamente a mesma coisa quando afirma que os grandes escritores são “expressivos em termos da consciência humana que eles promovem”34. O grande homem é sempre representativo tanto das forças existentes quanto das forças que ele ajuda a criar através do desafio à autoridade existente. O mais alto grau de criatividade, entretanto, pode talvez ser destinado aos grandes homens que, como Cromwell ou Lênin, ajudaram a modelar as forças que os levaram à grandeza, e não aos homens que, como Napoleão ou Bismarck, marcharam para a grandeza apoiados em forças já existentes. Nem deveríamos esquecer os grandes ho­mens que estiveram tão à frente de seu próprio tempo a ponto de sua grandeza só ter sido reconhecida pelas gerações seguintes. O que me parece essencial é reconhecer no grande homem um indivíduo proeminente que é ao mesmo tempo um produto e um agente do processo histórico, ao mesmo tempo representativo e criador de forças sociais que mudam a forma do mundo e os pensamentos dos homens.

A história, então, em ambos os sentidos da palavra - signifi­cando tanto o exame conduzido pelo historiador quanto os fatos do passado que ele examina -, é um processo social em que os indiví­duos estão engajados como seres sociais; a antítese imaginária entre a sociedade e o indivíduo nada mais é do que uma pista falsa atravessada no nosso caminho para confundir nosso pensamento. O processo recíproco de interação entre o historiador e seus fatos, o que denominei diálogo entre presente e passado, é um diálogo não entre indivíduos abstratos e isolados, mas entre a sociedade de hoje e a sociedade de ontem. A história, nas palavras de Burckhardt, “é o registro daquilo que uma época encontra em outra digno de nota”35. O passado é inteligível para nós somente à luz do presente; só podemos compreender completamente o presente à luz do passa­do. Capacitar o homem a entender a sociedade do passado e aumen­tar o seu domínio sobre a sociedade do presente é a dupla função da história.

1. Devotions upon emergent occasions, n° xvii

2. J. S. Mill, A System of logic, vii, 1.

3. Durkheim, em seu famoso estudo sobre o suicídio, inventou a palavra “anomia” para denotar a condição do indivíduo isolado de sua sociedade - um estado que conduz especialmente ao distúrbio emocional e ao suicídio; mas mostrou também que o suicídio não independe das condições sociais.

4. Talvez seja válido acentuar que o outro escritor conservador britânico impor­tante do período de entre guerras, T. S. Eliot, também desfrutou da vantagem de uma formação não britânica. Ninguém educado na Grã-Bretanha antes de 1914 poderia escapar completamente às influências inibidoras da tradição liberal.

5. A primitiva crítica, publicada num artigo anônimo em The Times Literary Supplement de 28 de agosto de 1953, sob o título “A visão histórica de Namier”, foi a seguinte: “Darwin foi acusado de suprimir o papel da idéia no universo; Sir Lewis foi o Darwin da história política - em mais de um sentido.”

6. L. Namier, Personalities and powers, 1955, pp. 5-7.

7. Baseamo-nos numa excelente análise do Dr. W. Stark sobre a evolução de Meinecke, feita na sua introdução a uma tradução inglesa de Die Idee der Staatsräson, publicada sob o título Machiavellism em 1957; o Dr. Stark talvez exagere o elemento super-racional no terceiro período de Meinecke.

8. H. Buttrfield, The whig interpretation of history, 1931; na página 67 o autor confessa ter “uma saudável espécie de desconfiança” para com “argumentações vazias”.

9. H. Butterfield, The whig interpretation of history, 1931, pp. II, 31-2.

10. H. Butterfield, The englishman and Us history, 1844, pp. 2, 4-5.

11. Marco Aurélio, no declínio do império romano consolou-se refletindo “como todas as coisas que estão acontecendo agora aconteceram no passado e acon­tecerão no futuro” (To himself, x, p. 27); como é bem conhecido, Toynbee inspirou-se em Decline of the west de Spengler.

12. Prefácio, datado de 4 de dezembro de 1934, para A history of Europe.

13. Acton, Lectures on modern history, 1906, p. 33.

14. American Historical Review, Ivi, n° 1, janeiro de 1951, p. 270.

15. C. V. Wedgwood, The king’s peace, 1955, p. 17.

16. A. L. Rowse, The England of Elizabeth, 1950, pp. 261-2 e 382. É justo apontar que num ensaio anterior Rowse censurou “os historiadores que pensam que os Bourbon fracassaram em restabelecer a monarquia na França após 1870 apenas por causa da fidelidade de Henrique V a uma pequena bandeira branca” (The end of an epoch, 1949, p. 275); talvez ele reserve tais explicações pessoais para a história inglesa.

17. I. Berlin, Historical inevitability, 1954, p. 42.

18. Não obstante, psicólogos modernos têm sido condenados por esta falta: “Os psicólogos como um grupo não têm tratado o indivíduo como uma unidade num sistema social em funcionamento, mas antes como o ser humano concreto que foi então concebido como passando a formar sistemas sociais. Eles assim não levaram em conta adequadamente o sentido peculiar em que suas catego­rias são abstratas” (Talcott Parsons na introdução a Max Weber, The theory of social and economia organization, 1947, p. 27). Ver também os comentários sobre Freud, p. 138 embaixo.

19. Home and Foreign Review, janeiro de 1863, p. 219.

20. Esta idéia foi elaborada por Herbert Spencer, no seu estilo mais solene, em The study of sociology, capítulo 2: “Se você quiser avaliar aproximadamente a capacidade mental de alguém, nada melhor do que observar a proporção que há entre generalidades e personalidades em sua conversa - em que extensão verdades simples sobre indivíduos são substituídas por verdades abstraídas de numerosas experiências de homens e coisas. Quando assim já tiver medido muitas pessoas, você encontrará apenas algumas dispostas a aceitar um pouco além da visão biográfica dos assuntos humanos.”

21. H. R. Trevor-Roper, Historical essays, 1957, p. 281.

22. Marx-Engels, Gesamtausgabe, I, iii, p. 625. 84

23. History of the French Revolution, III, iii, capítulo I.

24. Lênin, Selected works, vii, p. 295.

25. Clarendon, A brief view & survey of the dangerous & pernicious errors to Church & State in Mr. Hobbe’s book entitled Leviathan, 1676, p. 320.

26. L. Tolstoi, War and peace, ix, capítulo I.

27. H. Butterfield, The englishman and Ms history, 1944, p. 103.

28. Citado em B. W. Tuchman, The Zimmerman telegram, Nova York, 1958, p. 180.

29. A frase é citada de I. Berlin, Historical inevitability, 1954, p. 7, onde ele parece recomendar que se escreva história em tais termos.

30. A. J. P. Taylor, From Napoleon to Stalin, 1950, p. 74.

31. Gibbon, Decline and fall of the roman empire, capítulo lxx.

32. V. G. Childe, History, 1947, p. 43.

33. Philosophy of right, tradução inglesa de 1942, p. 295.

34. F. R. Leavis, The great tradition, 1948, p. 2.

35. J. Burckhardt, Judgements on history and on historians, 1959, p. 158. 90

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