quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A expansão marítimo-comercial européia


Nos séculos XV e XVI, os europeus lançaram-se por mares e oceanos desconhecidos, em embarcações pequenas e frágeis. Nessas viagens, conheceram e dominaram imensos territórios e centenas de povos em três grandes continentes: África, Ásia e América. Esse processo de expansão foi liderado por portugueses e espanhóis e desenvolveu-se durante a lenta passagem do feudalismo para o capitalismo.

Fatores que levaram à Expansão

Um dos estímulos para a expansão marítimo-comercial foi o desejo de mercadores e de reis de vários países da Europa de participarem do lucrativo comércio de especiarias (pimenta, cravo, canela etc.) e artigo de luxo (marfim, porcelanas, seda, perfumes, tapetes) com o Oriente. Desde o século XI, quando as cruzadas reabriram o Mediterrâneo, reanimando as relações entre Oriente e Ocidente, o comércio de produtos orientais era totalmente controlado pelas cidades do norte da Itália, especialmente Gênova e Veneza. Os mercadores dessas cidades buscavam tais produtos nos portos do mediterrâneo, sobretudo Constantinopla (atual Istambul), Trípoli e Alexandria, e os revendiam com um grande lucro na Europa.
Em 1453, os turcos otomanos conseguiram tomar Constantinopla e passaram a cobrar pesadas taxas sobre os produtos orientais comercializados através daquele porto. Por causa disso as especiarias revendidas pelos italianos na Europa foram ainda mais caras, levando os europeus a evitarem o Mediterrâneo. Para esse problema, a solução era buscar um caminho marítimo que levasse ao Oriente através do Atlântico.
Outra boa razão para as expedições marítimas era a necessidade de obter ouro e prata. Naquela época, as jazidas de prata e ouro da Europa estavam se esgotando e não produziam mais o necessário para a fabricação de moedas. A escassez de moedas dificultava o crescimento do comércio, impedindo que as burguesias européias aumentassem seus lucros e que os reis ampliassem seus rendimentos por meio da cobrança de impostos.
Portanto, embora fosse um empreendimento caro e arriscado, a expansão marítima e comercial interessava tanto às burguesias quanto aos reis da Europa. Por isso, eles se aliaram para se realizá-la. A burguesia forneceu capital e o rei ofereceu proteção e ajuda aos negócios. Essa aliança entre o poder central (rei) e a burguesia mercantil foi fator decisivo para a expansão européia.
O progresso técnico e científico também colaborou muito para que os europeus se arriscassem a navegar em mar aberto. São exemplos desse progresso o aperfeiçoamento do uso da bússola e do astrolábio (instrumentos que auxiliam na indicação do rumo); o uso bélico da pólvora; a invenção da caravela (mais leve e veloz que a galera) e o desenvolvimento da cartografia.

A expansão marítima portuguesa

Portugal surgiu como país durante a luta dos cristãos para reconquistar as terras perdidas para os árabes na península Ibérica. Durante essa luta, conhecida como Reconquista Cristã, o nobre guerreiro Henrique de Borgonha conseguiu diversas vitórias e, como recompensa, recebeu a posse do Condado Portucalense.
Com a morte de Henrique de Borgonha, seu filho e herdeiro, Afonso Henriques, continua a luta contra os árabes. Depois de vencê-los na batalha de Ouriques, em 1139, proclamou a independência do Condado Portucalense, que passou a se chamar, então, Reino de Portugal, Afonso Henriques, sagrou-se rei, o primeiro de Portugal, dando início à dinastia de Borgonha (1139-1383).
Durante a dinastia de Borgonha, Portugal conquistou o Algarves, completando a formação do seu território. Gradativamente, Portugal deixou de ser um país essencialmente agrícola, passando a praticar também intensa atividade marítima e comercial.
Essa mudança ocorreu devido ao fato de que, aos poucos, desenvolveram-se no litoral português a pesca e o lucrativo comércio de sardinha, atum e bacalhau. Com isso, as cidades litorâneas portuguesas como Porto, Setúbal e Lisboa cresceram e enriqueceram.
A partir do século XIV, um fato novo contribuiu para aumentar ainda mais o brilho comercial dessas cidades: tornaram-se parada obrigatória de navios italianos que vinham do mediterrâneo abarrotados de especiarias e se dirigiam para a região de Flandres, no norte da Europa. Como importantes entrepostos comerciais, essas cidades cresceram e passaram a abrigar um número cada vez maior de pessoas dedicadas ao comércio, às finanças e à construção naval.

Razões do pioneirismo português

Portugal foi o primeiro país europeu a se lançar as Grandes Navegações. E o pioneirismo português deveu-se, principalmente, ao fato de que Portugal foi o primeiro Estado Moderno da Europa. Isto é, foi o primeiro país europeu a centralizar o poder nas mãos de um rei.
Um acontecimento que muito contribuiu para isso foi a Revolução de Avis (1383-1385), quando a burguesia portuguesa, apoiada pelas populações humildes do campo e das cidades, pegou em armas para evitar que Portugal fosse anexado ao Reino de Castela, e perdesse a sua independência.
Vencendo a Revolução de Avis, a burguesia colocou no trono D, João I (o primeiro da dinastia de Avis) um rei disposto a se associar a ela a fim de promover a expansão marítima e comercial portuguesa. Os que o sucederam continuaram a praticar a política de incentivo ao comércio e à navegação, fortalecendo a aliança entre o Estado português e os mercadores.
Contribuiu também para o pioneirismo português o fato de que, no século XV, Portugal era um país sem guerras e, ao mesmo tempo, empenhado em desenvolver e sistematizar técnicas e conhecimentos necessários à navegação em alto-mar.

“Por mares nunca dantes navegados”

As viagens marítimas do início do século XV eram empreendimentos arriscados, tanto do ponto de vista econômico quanto em relação às possibilidades de sobrevivência dos navegadores,
Eram viagens longas, que exigiam grandes recursos, as embarcações eram bastantes precárias, movidas a remo ou a vela, o navio mais rápido era a caravela, aperfeiçoada pelos portugueses.
O oceano Atlântico era totalmente desconhecido pelos europeus. Eles acreditavam tratar-se de um mar povoado de monstros e plantas diabólicas, com águas que ferviam em determinados pontos e se precipitavam num abismo, como uma grande cachoeira. Por isso, era chamado de Mar Tenebroso. Enfrentar os desafios foi tarefa pioneira de Portugal.
O infante D. Henrique, filho do rei D. João I, compreendendo a importância de sua modernização tecnológica para o desenvolvimento comercial português, fundou a Escola de Sagres, na qual se realizaram importantes avanços na arte de navegar. Desfrutando de uma localização privilegiada, os navegadores lusos lançaram-se ao oceano Atlântico visando, primordialmente, romper com o com o monopólio comercial italiano sobre as especiarias orientais.
Em 1415, os portugueses estabeleceram se domínio sobre Ceuta, um importante entreposto comercial árabe no norte da África. A partir de então, Portugal deu início à conquista progressiva de toda costa atlântica africana. Passo a passo os portugueses foram contornando a África, estabelecendo feitorias e fortificações militares por toda a costa dando início ao périplo africano.
Durante o reinado de D. João II (1485-1495), os portugueses alcançaram o extremo sul africano, o Cabo da Boa Esperança (1488), com a viagem de Bartolomeu Dias, definindo a rota a ser seguida para se atingir às Índias, o principal celeiro das tão desejadas especiarias. Finalmente, em 1498, Vasco da Gama desembarcou em calicute, na Índia, passando Portugal a deter o controle sobre o comércio das mercadorias orientais. Dois anos depois, em 1500, Pedro Álvares Cabral e sua esquadra chegavam ao Brasil.

A expansão marítima espanhola

Os espanhóis estavam atrasados em relação aos portugueses, no processo de expansão marítimo-comercial. Sua unidade política só foi conseguida em 1469, graças ao casamento de Fernando, herdeiro do trono de Aragão, com Isabel, irmã do rei de Leão e Castela.
Em 1492, o navegador italiano Cristóvão Colombo ofereceu ao rei e à rainha da Espanha o projeto de alcançar as Índias navegando para o ocidente. Com isso, ele pretendia acabar com o monopólio português no Oriente e comprovar que a Terra era esférica. Mas em sua viagem para atingir o Oriente, navegando sempre em direção ao ocidente, Colombo encontrou, no meio do caminho, novas terras, que ele pensou serem as Índias. A conclusão de que as terras que Colombo descobrira era um novo continete só veio em seguida, a partir dos estudos do cartógrafo Américo Vespúcio, cujo nome serviu para batizar as novas terras: América.
Entre 1519 e 1522, o navegador espanhol Fernão de Magalhães empreendeu a primeira viagem de navegação ao redor do mundo.
No século XVI, a descoberta e exploração de metais preciosos no Novo Mundo, em terras pertencentes aos reis espanhóis, transformou a Espanha na grande potência européia da época.

A expansão inglesa, francesa e holandesa

As guerras internas, como a das Duas Rosas, na Inglaterra, e a dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, além do demorado pro¬cesso de centralização do poder nas mãos do rei, atrasaram e dificultaram a conquista de novas terras por parte desses dois países. Mas, estimulados pelo êxito de portugueses e espanhóis, vários navegadores a serviço dos reis da França e da Inglaterra exploraram a costa atlântica da América do Norte. Contudo, a ocupação e exploração econômica dessas terras só aconteceria nos inícios do século XVII.
Os holandeses, enfim, puderam iniciar sua participação no processo de expansão marítima européia quando, no século XVI, obtiveram sua independência em relação à Espanha. Entretanto, o papel mais importante que desempenhou a Holanda foi o de financiar a empresa oficial portuguesa no Brasil e o comércio de especiarias do Oriente.
Tratado de Tordesilhas

A ambição expansionista de Portugal e Espanha no século XV trouxe a ameaça de uma guerra, que foi evitada pela assinatura do Tratado de Tordesilhas, primeiro acordo internacional definido por vias diplomáticas. Endossado pela Igreja Católica, o tratado foi rejeitado por outros países.
Várias nações européias mostraram-se totalmente insatisfeitas com as determinações do Tratado de Tordesilhas, celebrado entre Portugal e Espanha. O rei Francisco I da França, por exemplo, deixou claro que não respeitaria o Tratado de Tordesilhas, dizendo: “Desconheço a clausula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha”.
O Tratado de Tordesilhas estabeleceu que seriam de propriedade de Portugal as terras descobertas e a descobrir situadas a leste de um meridiano, traçado de pólo a pólo, a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde, enquanto as terras situadas a oeste desse meridiano pertenceriam à Espanha. O mesmo se aplicava às terras conquistadas a povos não cristãos e àquelas ainda por conquistar. O acordo foi assinado em 7 de junho de 1494 na cidade espanhola de Arévalo, província de Tordesilhas, entre o rei de Portugal, D. João II, e os Reis Católicos, Isabel e Fernando de Castela e Aragão. Representou o fim oficial de uma longa série de disputas, negociações e bulas papais a respeito da posse das novas terras. O meridiano de Tordesilhas, no entanto, nunca foi de fato demarcado e motivou várias disputas de fronteira.

Efeitos da expansão européia

• O extraordinário crescimento do valor e do volume do comércio internacional. Nesse mesmo contexto, o tráfico de escravos tornou-se uma fonte importantíssima de acumulação de capital.
• A mudança do eixo econômico do mediterrâneo para o Atlântico. Com, inicia-se o declínio econômica das cidades italianas e a ascensão comercial de países banhados pelo Atlântico, tais como Portugal, Espanha, França, Holanda e Inglaterra.
• Sujeição de povos africanos, asiáticos e americanos aos europeus. Estes organizaram vastos impérios coloniais e se apropriaram das riquezas dos povos subjugados.

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