quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A IGREJA MEDIEVAL


A Igreja Católica exerceu uma influência marcante sobre a população medieval, ultrapassando em muito sua função religiosa e espiritual. Sua ação manifestava-se nos setores assistencial, pedagógico, econômico, político e mental, tornando-se o principal centro irradiador de cultura da Idade Média. Em uma sociedade fragmentada, a Igreja católica garantia não só a unidade religiosa, mas também política e a cultural. Com o controle da fé, ela ditava a forma de nascer, morrer, festejar, pensar, enfim, de todos os aspectos da vida dos seres humanos no mundo medieval.

A origem do poder da Igreja

O cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano a partir do governo de Teodósio (391), devido à força que conquistou. Esse poder ampliou-se e solidificou-se durante o período das invasões bárbaras, quando a Igreja conseguiu aliar-se a muitas tribos invasoras, convertendo-as ao cristianismo. Dessas alianças resultou que muitos membros da Igreja passaram a exercer funções administrativas nos governos bárbaros, consolidando a importância do clero, que passou a ocupar um lugar de destaque na sociedade que se formava. O prestígio e o poder do clero aumentava na medida em que um número cada vez maior de indivíduos convertia-se ao cristianismo, e a Igreja recebia doações de terras de reis conquistadores e nobres, configurando-se num dos maiores proprietários de terras do período.

A hierarquia da Igreja

A base do corpo clerical era composta pelos padres, ou presbíteros, responsáveis pela vida espiritual dos cristãos. Os diáconos, por sua vez, zelavam pela vida material das comunidades religiosas, as quais eram chamadas paróquias. O conjunto de paróquias compunha a diocese, a qual achava-se subordinada ao poder do bispo. Ao conjunto de dioceses chamou-se arquidiocese, sendo o arcebispo a maior autoridade abaixo do papa. O papado surgiu quando Leão I (440-461) com a ajuda do imperador romano, estabeleceu seu predomínio sobre os demais membros da Igreja. O papa seria, então, o sucessor de São Pedro a quem Jesus Cristo havia encarregado de zelar pela unidade da Igreja. A hierarquia que acabamos de descrever refere-se ao clero secular, aquele que devia zelar pelas coisas da vida – saeculum.

Havia ainda o clero regular, composto por monges que habitavam os mosteiros, dedicando suas vidas à oração e a obediência a algumas regras com caridade, castidade e pobreza. O clero regular, oriundo da necessidade de valorização da espiritualidade, foi o principal responsável pelo trabalho de conversão dos bárbaros e pela preservação e desenvolvimento cultural nos mosteiros. A cristianização do mundo rural foi facilitada pela expansão de mosteiros, abadias e conventos, instituições fundadas por grupos de padres que procuravam o isolamento do mundo para se dedicar a Deus. Os sacerdotes que faziam parte dessas instituições formavam ordens religiosas, constituindo o clero regular da Igreja.

Os mosteiros

Nem todos cristãos eram a favor de a Igreja acumular riquezas e criticavam a vida luxuosa que muitos bispo e padres levavam. Procurando retomar os ensinamentos e a vida pobre de Cristo, muitos religiosos optaram por uma vida mais simples, recusando os bens materiais. Surgiram assim as ordens monásticas.

Os mosteiros se multiplicaram a partir da experiência de São Bento de Núrsia, que fundou, no século VI, o Mosteiro de Monte Cassino, na Itália. A regra monástica de São Bento era “ora et labora” - ore e trabalhe. “O ócio é inimigo da alma. Assim, os irmãos devem estar ocupados, em tempos determinados, no trabalho manual e em horas determinadas também, à leitura divina”. Mais tarde, surgiram outras ordens como a franciscana, criada por São Francisco de Assis, e a dominicana por São Domingos.

A ordem dos beneditinos defendia que os monges deveriam levar uma vida simples, rezando, trabalhando, estudando e obedecendo a seus superiores. Os membros dessa ordem eram eruditos. Foram eles que transcreveram a maior parte das obras literárias gregas e romanas, sendo, em grande parte, responsáveis por sua preservação. Inspirados no Evangelho, os franciscanos procuravam ajudar os pobres e professavam votos de pobreza, castidade e obediência. O mesmo ocorria com os membros da ordem dominicana. Desta forma, essas ordens passaram a representar uma oposição às práticas do alto clero medieval.

Nos mosteiros e nas abadias, tudo era partilhado: a oração, as refeições e o trabalho manual, valorizado e elevado à categoria de oração a serviço de Deus. Os monges trabalhavam nas bibliotecas, nas oficinas e nos campos, onde desenvolveram técnicas avançadas tornando cultiváveis bosques e terrenos baldios, servindo de exemplo aos camponeses. Os monges realizaram também vasta obra de ação social, distribuindo esmolas aos mendigos, hospedagem aos peregrinos e abrigo aos camponeses fugidos dos domínios. Nas amplas bibliotecas das abadias, conseguiram preservar e transmitir os textos dos autores clássicos da Antiguidade, executando traduções, transcrições e cópias de livros e documentos históricos.

A ação econômica e política da Igreja

Os monarcas francos, através das capitulares (decretos do rei), contribuíram decisivamente para a consolidação da Igreja na Europa. Grande proprietária de terras e de riquezas doadas pelos reis e pelos fiéis, a Igreja manteve forte poder econômico durante a Idade Média. À frente dos domínios eclesiásticos, encontravam-se bispos e cardeais, que agiam como senhores feudais, sem muito espírito cristão.

Obtinha também grandes rendimentos através do dízimo, cujo pagamento obrigatório se generalizou na época carolíngia. Equivalia 1/10 dos frutos da terra, portanto, cristãos e não cristãos estavam sujeitos a ele. A Igreja medieval criou normas econômicas condenando o lucro e os empréstimos de dinheiro a juros. Ao contrário da nobreza – que tinha seus bens repartidos por heranças, casamentos, lutas pela posse da terra, etc. – a Igreja só acumulava riquezas, já que os bens não pertenciam aos religiosos, mais a própria instituição. Assim, usufruindo do poder que tinha sobre as consciências, a Igreja católica pôde acumular grande riqueza material. A medida que essa riqueza crescia, o alto clero, constituídos por aqueles que ocupavam cargos mais elevados na hierarquia interna da Igreja, distanciava-se dos assuntos religiosos. Controlando o poder espiritual e material, a Igreja foi responsável por manter, em grande parte, a ordem social da Idade Média.

Ao papa, chefe supremo da Igreja Católica, cabia as funções de presidir as cerimônias de coroação e sagração dos monarcas medievais. Como representante direto de Deus na terra, o papa se considerava superior aos reis e imperadores da cristandade. “Deus, criador do mundo, pôs no firmamento dois grandes astros para o iluminar: o Sol que preside ao dia, e a Lua que preside à noite. Do mesmo modo, no firmamento da Igreja universal instituiu Ele duas altas dignidades: o Papado, que reina sobre as almas, e a Realeza, que domina os corpos. Mas o primeiro é muito superior à segunda. (Pronunciamento do papa Inocêncio III. Citado por FREITAS, G., op. cit. p.204.) Essa concepção, a medida em que os reis foram recuperando sua autoridade, no decorrer da Idade Média, trouxe sérios conflitos entre as duas esferas do poder.

A mentalidade medieval

Transformações na mentalidade da população européia ocorreram lenta e claramente a partir da cristianização do Império Romano. O racionalismo e o humanismo, que caracterizaram a cultura greco-romana, foram substituídos por uma inabalável fé em Deus (o Bem) todo-poderoso, criador do Universo. Somente a fé podia explicar o confuso mundo que cercava os homens, envolvidos com a violência de salteadores e invasores de origens diversas. Era através dela que se conseguia proteção para vencer o Demônio (o Mal) e alcançar a salvação após a morte.

A existência e o quotidiano do homem medieval eram regulados pela religião. Durante sua vida, recebia os sacramentos: ao nascer, o batismo, ao se casar, o matrimônio, ao morrer, a extrema-unção, e era enterrado no cemitério da Igreja mais próxima. As estações do ano estavam marcadas pelas grandes festas religiosas (Natal, Páscoa, etc) e as semanas, pelos ofícios e missas dos domingos. A Igreja estabeleceu também o tempo político: a Paz de Deus, fixando onde e quando se poderia combater.

A fé popular revelava-se nas concorridas peregrinações aos lugares sagrados, no brilho das festas religiosas, na arte (pinturas e esculturas) inspirada em temas bíblicos e no culto dos santos, da Virgem e das relíquias que serviam para combater o diabo e os demônios, facilitando a obtenção da salvação. Nos períodos de calamidades e de fome, tão comuns na Idade Média, a ação dos padres e monges, distribuindo esmolas e pão aos pedintes, aumentava a autoridade moral da Igreja.

Atormentado pelo temor de ser condenado à danação no Inferno, os cristãos submetiam-se às penas e ameaças de caráter religioso impostas pela Igreja, como jejuns, flagelações, peregrinações a lugares longínquos, entrada para o convento, etc. Em caso de falta muito grave, o culpado sofria a pena máxima – a excomunhão – isto é, ficava privado de receber os sacramentos e era evitado como se estivesse com a peste.

A vida do ser humano encontrava-se, portanto, nas mãos de Deus, porque sua existência devia-se a ele. Assim, a máxima grega “o homem é a medida de todas as coisas’, transformou-se para o homem medieval em “Deus é a medida de todas as coisas”. A ação cultural e pedagógica da Igreja Na época carolíngia, foram criadas escolas nas paróquias, nas catedrais (igrejas dos bispos) e nos mosteiros. Ministrava-se um ensino imbuído de características religiosas, isto é, a herança cultural greco-romana era transmitida devidamente interpretada e adaptada aos ideais cristãos, revelados pela Bíblia. As crianças da área rural, que tinham acesso às escolas das paróquias, aprendiam Gramática (língua latina) e Canto. Nas escolas das dioceses e dos mosteiros, os futuros padres e os jovens nobres estudavam Gramática, Lógica, Retórica, Aritmética, Música, Geometria e Astronomia. A partir do século XIII, a Igreja regulamentou a organização das Universidades, sobressaindo-se as localidades em Paris (Sorbone), Bolonha, Salamanca, Oxford, Cambridge, Salerno, Roma e Coimbra.

Decadência do poder eclesiástico

O poder desfrutado pela Igreja cresceu progressivamente até o século X, quando surgiram as primeiras contestações significativas. No século IX, no mosteiro de Cluny, na França, seus monges iniciaram um movimento pela moralização da Igreja, questionando o modo de vida de muitos clérigos que levavam uma existência mundana. Os monges de Cluny condenavam, por exemplo, a venda de objetos e relíquias sagradas e a intromissão de autoridades temporais (nobres ou reis) em assuntos religiosos.

Em 1073, um dos monges deste mosteiro foi escolhido para ser papa. Adotando o nome de Gregório VII, procurou fazer valer em toda a Igreja os princípios defendidos pela ordem de Cluny.

A atitude papal não foi aceita pelo poderoso imperador do Sacro Império Romano Germânico, Henrique IV, habituado a usar seu poder para escolher e empossar (investir) os bispos que melhor conviesse aos seus interesses. Iniciaram-se sérios desentendimentos entre Igreja e Estado, até que o imperador germânico foi excomungado pelo papa (1075). Seguiram-se várias guerras, que só cessaram em 1122 com a Concordata de Worms, que determinava a escolha dos bispos conjuntamente pelo papa e pelo rei. O papa cuidaria da investidura espiritual e o imperador, após o juramento de fidelidade, da temporal. Algum tempo depois, entretanto, reacenderam-se os conflitos entre o papado e o Sacro Império.

Se, de um lado, a Questão das Investiduras, como ficou conhecido o episódio, demonstrara o imenso poder da Igreja na Europa feudal, de outro, evidenciava-se a existência de forças dispostas a contestar tal situação, prenunciando novos enfrentamentos. Mas seria somente no século XIV que se estabeleceria o enfraquecimento do poder da Igreja. O conflito ocorrido entre o papa BonifácioVIII e o rei francês Filipe, o Belo, arruinou o poder papal. Desse confronto resultou o surgimento de vários papas, quebrando a unidade da Igreja, no que foi chamado de Cisma do Ocidente (1378-1417).

Além disso, não foi só a autoridade papal a ser questionada. A partir do século X, a própria visão que a Igreja tinha da vida e do mundo começou a mudar. Surgiram inúmeras heresias (movimentos ou atos que se opunham ao ideário católico), as quais centravam fogo especialmente na riqueza que a Igreja possuía. Exemplos dessas heresias foi o movimento iniciado no século XIII por Pedro Valdo de Lyon, na França, o qual pregava a pobreza, não admitia o culto aos santos, nem a existência do purgatório. Além disso, os valdenses, como eram chamados os seus seguidores, defendiam a autonomia dos fiéis frente aos clérigos. Também os albigenses constituíam uma heresia, concentrada na cidade de Albi, na França. Estes hereges contestavam não só alguns dos ensinamentos da Igreja como também o modo de vida da maioria do clero.

Para fazer frente à expansão dos movimentos heréticos, além da fundação das ordens monásticas – beneditinos, gregorianos e dominicanos –, a Igreja organizou verdadeiros exércitos, chamados Cruzadas para levar os ensinamentos cristãos oficiais aos povos não-cristãos e combater os que não quisessem aceita-los.

Criou ainda, em 1231, quando o papa era Gregório IX, o Santo Ofício da Inquisição, cujo tribunal tinha a incumbência de prender, processar, julgar e punir todo aquele que fosse considerada uma ameaça para a fé católica.

O imenso poder adquirido pela Igreja permitiu-lhe representar, melhor que qualquer outra instituição do período, a ordem teocêntrica feudal e fornecer a base ideológica da época medieval. Seus membros, únicos indivíduos letrados numa sociedade predominantemente analfabeta, pregavam a resignação e o conformismo diante do sofrimento e a preocupação quase exclusiva com a vida após a morte, contribuindo, assim, para a manutenção da ordem vigente.

Um comentário:

Peristilo peris disse...

Oi, professor. Muito útil esse seu artigo! Encontrei nele algumas respostas que procurava sobre a igreja na idade média.