quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A Reforma Religiosa


A Reforma religiosa foi o movimento que, dividindo os cristãos do Ocidente no século XVI, originou diversas novas igrejas chamadas protestantes, as quais não mais seguiram o comando e a orientação do papa de Roma. Quebrando a unidade religiosa cristã, a Reforma protestante estabeleceu o fim da quase milenar supremacia eclesiástica na Europa. Pode-se mesmo dizer que a Reforma foi, no plano espiritual, aquilo que o Renascimento representou nas transformações culturais que inauguraram o novo mundo do capitalismo comercial.

As Origens do Movimento Reformista

Diversos fatores conjugaram-se para dar início à Reforma religiosa do século XVI. Um deles era a posição que a Igreja conservava de maior proprietária de terras em toda Europa: controlava, por exemplo, perto de 1/3 das terras francesas e mais de 40% das terras férteis alemãs.
A Igreja representava muito do que restava da ordem feudal medieval. Dessa forma, tudo o que se opunha à velha estrutura feudal, colocava-se contrário ao poder de Roma.
Em cada reino do da Idade Moderna, o papa era visto como um estrangeiro que arrecadava os impostos cobrados em seus feudos, além de diversos outros tributos extraídos de todos os cristãos, para enviá-los a Roma, dificultando as finanças nacionais. Os reis fortalecidos com o desenvolvimento dos Estados nacionais, opunham-se a tal situação, favorecendo atitudes contrárias à Igreja e seus eclesiásticos.
Outro fator que contribuiu para o movimento reformista foi a existência de dois sistemas teológicos, dado significativo para a divisão espiritual dos cristãos. A Igreja de Roma continuava seguindo a teologia de São Tomás de Aquino (tomismo), típica da Baixa Idade Média, com seus clérigos defendendo o princípio do livre arbítrio, ou seja, a concepção de que cada indivíduo escolhe a sua salvação ou o caminho da perdição. Assim, o tomismo dava ao homem o poder de fazer o bem e evitar o mal, cabendo aos sacerdotes a tarefa de fornecer os sacramentos e orientar seus fiéis na escolha do caminho da salvação. Já os reformadores basearam suas na teologia agostiniana, sustentada na predestinação e na fé do indivíduo.
Nas relações econômicas, a Igreja defendia o “justo preço”, ou seja, o valor de um produto não deveria incluir lucro, apenas os seus custos. Condenava a prática da usura e a obtenção de lucros. Essa postura descontentava profundamente o seguimento burguês da sociedade européia que retirava seu meio de vida das atividades lucrativas.
Finalmente, o desregramento moral que predominava sobre a hierarquia eclesiástica aumentou a descrença da população mais humilde com relação à Igreja e a seus representantes. Era uma prática constante a venda de cargos eclesiásticos, levando sacerdotes, bispos, arcebispos e até papas a exercerem seus cargos pela ambição do título e da posição, estimulando o mau comportamento dos clérigos e o descrédito entre os fiéis.
A venda de indulgência, por parte das autoridades da Igreja, intensificou a desmoralização. A fim de manter o luxo dos eclesiásticos, especialmente da corte pontificial, a Igreja comercializou o perdão a pecados cometidos, com promessas de redução das penas do purgatório. Além disso, vendia cargos religiosos e até “relíquias sagradas”, como milhares de “lascas da cruz de Cristo” ou “ossos do burrico de São José”. Essa comercialização desregrada transformou-se no estopim do movimento protestante.

Os Precursores da Reforma

Antes que o prestígio da Igreja atingisse uma feição separatista, alguns intelectuais e membros da Igreja apresentaram propostas reformistas que visavam conter os abusos.
John Wyclif, professor da Universidade de Oxford, condenava a venda de indulgências e defendia a formação de uma Igreja nacional. Essas propostas foram retomadas pelo professor da Universidade de Praga, John Huss.
Tanto Wyclif quanto Huss foram perseguidos e excomungados pela Igreja de Roma. Suas idéias, porém, foram assimiladas por muitos cristãos que passaram a contestar enfaticamente a autoridade do papa.

O Reformismo de Lutero

Em 1517, na Alemanha, o monge e professor da universidade de Wittenberg, Martinho Lutero, rebelou-se contra o vendedor de indulgências João Tetzel, dominicano a serviço do papa Leão X, que recolhia recursos para a construção da Basílica de São Pedro.
Lutero, revoltado com a desmoralização da Igreja, fixou na porta de sua igreja as 95 teses, onde criticava ferozmente a Igreja papal.
Em 1520, Leão X ordenou a sua retratação, sob pena de ser considerado um herege. Lutero queimou em praça a orem papal, sendo excomungado (1521).
Apesar de consideradas heréticas pelo clero romano, as idéias luteranas espalharam-se rapidamente por toda a Alemanha, onde encontraram condições particularmente favoráveis para a sua difusão. Nobres e camponeses apoiaram Lutero; os nobres ambicionando apoderar-se das terras da Igreja e ampliar seus poderes abalados com a decadência feudal; os camponeses, desejando escapar da situação de miséria em que viviam.
Parte destes camponeses, conhecidos por anabatistas e comandada por um seguidor de Lutero, chamado Thomas Müntzer, reivindicava a divisão das terras da Igreja entre os mais pobres. Lutero acusou-os de radicais e apoiou violenta repressão da nobreza sobre eles, resultando na morte de mais de 100 000 camponeses.
O imperador alemão, Carlos V, inquieto com a evolução reformista, apoiou o papa, pois julgava o luteranismo um fortalecedor dos nobres. Depois de muitos confrontos entre as tropas imperiais e os luteranos alemães liderados pela nobreza, Carlos V convocou uma dieta (assembléia), realizada em Spira (1529). Nela o imperador tentou fazer valer sua autoridade e determinou a submissão dos luteranos.
Os partidários de Lutero, contudo, protestaram contra a decisão imperial, passando, a partir de então, a ser chamados de protestantes.
Somente em 1555 os príncipes alemães ganharam o direito de escolher a religião que desejavam em suas terras, confirmando o triunfo do luteranismo na Alemanha. Essa decisão foi alcançada graças a um acordo assinado entre o imperador católico e os nobres protestantes, o que foi chamado de Paz de Augsburgo.
Em meio à expansão luterana na Alemanha e aos conflitos com o imperador Carlos V, em 1530, Felipe de Melanchton, discípulo de Lutero, redigiu a Confissão de Augsburgo, definindo o credo dos protestantes. A doutrina tinha por base a teologia agostiniana, defendendo a fé, como única fonte de salvação, e o princípio da predestinação. Afirmava que o homem vinha ao mundo predestinado por Deus à salvação ou à perdição, e a fé era a prova divina dos bem-escolhidos. Para os luteranos a Bíblia era a autêntica base da religião e, portanto, o culto devia reduzir-se à leitura e ao comentário das Sagradas Escrituras. Também só deviam ser conservadas as práticas instituídas por Cristo e por ele transmitidas através do Novo Testamento.
Na mesma ordem de idéias, foi negada a existência de sete sacramentos, reconhecendo apenas dois: batismo e eucaristia. Não aceitavam o culto da Virgem e dos santos e negavam a existência do purgatório. Nos cultos religiosos adotaram a língua nacional no lugar do latim e os ministros religiosos deveriam integrar-se o mais possível na comunidade dos fiéis, abolindo o celibato clerical.

A Reforma Calvinista

Inspirado no luteranismo alemão, o francês João Calvino publicou, em 1536, uma obra chamada Instituição Cristã, na qual se acham apresentados os pontos centrais do que, mais tarde, viria a constituir-se na doutrina calvinista.
Suas pregações obtiveram rápido sucesso em Genebra, Suíça, onde conquistou a posição de chefe político e religioso. Governando Genebra como senhor absoluto e de forma intransigente. Calvino criou o Consistório, órgão que controlava a política, a economia e os costumes dos seus cidadãos.
O culto e as práticas religiosas estabelecidos pelos calvinistas eram simples, resumindo-se apenas no comentário da Bíblia, preces e cantos. Também não se admitiam imagens e só se aceitavam os sacramentos da eucaristia e do batismo. Os pastores (ministros do culto) não eram tidos como intermediários entre Deus e os homens, mas simples fiéis, encarregados da pregação e das preces.
Defendendo a predestinação, Calvino via no sucesso econômico a indicação divina dos escolhidos para a salvação eterna. Para ele, a miséria era a fonte de todos os males e pecados. Reconhecendo e exaltando o lucro e o trabalho, passou a ser considerado o pregador espiritual do ideal burguês. A doutrina calvinista, adequada às expectativas capitalistas, conseguiu rápida assimilação pelo segmento burguês em toda a Europa.
Os seguidores de Calvino na Escócia tiveram como principal pregador John Knox e adotaram o nome de presbiterianos, por organizarem sua Igreja a partir de conselhos, chamados presbíteros.
Na Inglaterra os calvinistas foram chamados de puritanos, os predestinados, e na França, huguenotes. Em outros países, como Holanda e Dinamarca, o calvinismo ganhou inúmeros adeptos, confirmando o sucesso da doutrina diante do progresso econômico capitalista.

Henrique VIII e o Anglicanismo

O líder da reforma protestante na Inglaterra foi o próprio rei, Henrique VIII. Desejando apoderar-se das terras da Igreja inglesa, retirando, assim, a base de seu poder temporal, o monarca inglês rompeu com o papa.
O pretexto usado para isso foi o fato de o rei precisar casar-se novamente, pois, do casamento com Catarina de Aragão, não tivera filhos para sucedê-lo no trono. Isso não podia ser autorizado pela Igreja, que defendia a indissolubilidade do sacramento do matrimônio. Diante de tal situação, Henrique VIII proclamou-se, por meio do Ato de Supremacia, em 1534, chefe da Igreja inglesa suprimindo os mosteiros católicos e confiscando os bens eclesiásticos, que foram incorporados ao Estado.
Muito parecida com a Igreja católica em sua estrutura eclesiástica e no cerimonial, a Igreja inglesa, chamada anglicana, só se consolidaria durante o reinado de Elizabeth. Em 1563 organizou-se a lei dos 39 artigo, a verdadeira carta do anglicanismo, incorporando muitos princípios da doutrina calvinista.

A Contra-reforma ou a Reforma Católica

A expansão do protestantismo abalou seriamente a tradicional hegemonia religiosa de Roma sobre o continente europeu. Para conter a difusão das idéias protestantes surgiu um movimento denominado Contra reforma, que ao mesmo tempo buscava fortalecer a Igreja papal e moralizá-la, adotando medidas que compuseram a reforma católica. Assim, verifica-se que também o catolicismo foi obrigado a adequar-se aos novos valores, decorrentes do desenvolvimento do capitalismo comercial.
Uma arma eficaz da reação católica foi a criação da Companhia de Jesus, idealizada pelo espanhol Ignácio de Loyola. Os jesuítas seguiam disciplina militar, constituindo um grupo bem formado e disciplinado, cuja missão principal era combater infiéis e protestantes. A importância que esses religiosos atribuíram à educação fez com que monopolizassem as instituições de ensino de diversas regiões, visando primordialmente difundir a ideologia católica romana.
O Concílio de Trento (1545-1563), convocado pelo Papa Paulo III, no qual se discutiram os problemas do cristianismo e se definiu a atuação da Igreja diante da expansão protestante, também fez parte do movimento contra-reformista e a Reforma católica.
A partir do Concílio de Trento reafirmaram-se os dogmas e preceitos tomistas do catolicismo, como o livre arbítrio – a salvação decorre da conjugação da fé do indivíduo e das obras que realiza –, e a infabilidade do papa. Em contraposição, proibiu-se a venda de indulgências e, visando a melhor formação dos clérigos, determinou-se a criação de seminários e a proibição da venda de cargos eclesiásticos.
Em Trento, também ficou estabelecido o fortalecimento do Santo Ofício da Inquisição, no sentido de vigiar e normatizar a fé e a vida dos fiéis. A perseguição inquisitorial a todos os que, de acordo com seus critérios, pusessem em risco a fé em Cristo assumiu muitas vezes um caráter de tortura e morte de milhares de pessoas.
Finalmente, com a elaboração do Índex (relação de livros proibidos aos católicos), a Igreja católica buscava impedir a difusão das idéias protestantes e das vozes discordantes do seu ideário religioso. Dele constavam as bíblias luterana, calvinista e anglicana, e diversas obras de intelectuais da época, como Galileu Galilei, Giordano Bruno, Isac Newton, etc. O lado censor do index ao longo do tempo revelou-se um sério entrave ao progresso cultural e científico da Idade Moderna.

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