domingo, 9 de novembro de 2008

República Velha ou Primeira República

O período republicano começa com a derrubada do Império e a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e se estende até hoje. Costuma ser dividido em cinco fases distintas: Primeira República ou República Velha, Era Vargas, Segunda República, Regime Militar e Redemocratização.


Primeira República

O período da história republicana brasileira que vai de 1889 a 1930 costuma ser chamado de diferentes modos: Primeira República, República do “café-com-leite”, república Velha etc.

Por sua vez, esse período costuma ser dividido em duas fases:

*República da Espada (1889-1894) – corresponde aos governos militares de Deodoro da Fonseca e de Floriano Peixoto, responsáveis pela instalação e consolidação do regime republicano. A cena política logo após a Proclamação da República é dominada por uma acirrada luta pelo poder entre centralistas e federalistas. Os centralistas, em geral militares, têm a liderança do marechal Deodoro da Fonseca. Identificados com as idéias positivistas de um Estado forte, são apoiados pelas antigas elites agrárias. Os federalistas reúnem uma maioria de civis que representam as forças políticas e econômicas dominantes nos Estados, principalmente São Paulo e Minas, os mais ricos do país. Defendem a descentralização do poder sob a forma de república federativa e o controle do governo pelo Congresso, onde as oligarquias regionais estariam representadas.

*República Oligárquica (1894-1930) – corresponde à fase em que o país foi governado por civis ligados à oligarquia rural, sobretudo de São Paulo e Minas Gerais. Passado os primeiros momentos de afirmação da República, os cafeicultores paulistas, que já detêm a hegemonia econômica, conseguem também a hegemonia política. A chamada República das Oligarquias consolida-se a partir do governo de Prudente de Morais. Os Estados de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente os maiores produtores de café e de leite do país, passam a dominar o governo central na chamada "política do café-com-leite". A Presidência da República é ocupada alternadamente por representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM). No governo Campos Sales, acordos políticos feitos com as oligarquias locais dão origem a um outro apelido do período, o de "política dos governadores".

Governo Provisório

Instalado na noite de 15 de novembro de 1889, o governo provisório é dirigido pelo marechal Deodoro da Fonseca. Instaura o regime republicano federalista, transforma as Províncias em Estados da Federação e o país passa a chamar-se Estados Unidos do Brasil. Os estrangeiros residentes no Brasil têm a opção de se naturalizar e adquirir a cidadania brasileira.

O governo provisório é uma composição entre militares, que ficam com a Presidência, e civis, a maioria nos ministérios. As crises entre centralistas e federalistas expressam-se dentro do próprio governo, pelo enfrentamento entre o presidente e seu ministério. Os militares pretendiam implantar no Brasil um regime republicano centralizado, isto é, um regime de governo forte onde os estados (com a República, as províncias passaram a ser denominadas estados) não tivessem autonomia e o Poder Executivo pudesse controlar o Legislativo e Judiciário. Um regime de “ordem e progresso”, em que as reformas políticas e econômicas favorecem as classes médias urbanas, pois a maioria dos oficiais do Exército vinha dessas camadas.

Os fazendeiros pretendiam um regime republicano federativo, no qual os estados seriam autônomos e sua economia manobrada por eles sem interferência do governo central. Os cafeicultores, particularmente, viam o governo como mero instrumento de defesa de seus interesses econômicos e pretendiam forçá-lo a criar uma política que garantisse sempre o lucro do café.

Autoritário e centralista, Deodoro desperta nos civis o temor de uma ditadura militar. O governo provisório termina em 25 de fevereiro de 1891, com a promulgação da primeira Constituição.

Assembléia Constituinte

As eleições para a Assembléia Constituinte, em 15 de setembro de 1890, são consideradas fraudulentas e manipuladas pelos militares alinhados com Deodoro da Fonseca. Abertas às urnas, em muitos Estados os eleitos são completamente desconhecidos dos eleitores. Mesmo assim, o governo provisório fica em minoria. Sua bancada reúne militares, monarquistas adesistas e positivistas. A maioria é formada pelos chamados "republicanos objetivos", representantes da oligarquia cafeeira.

Constituição de 1891

Promulgada em 24 de fevereiro de 1891, a Constituição define os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário como independentes, separa o Estado e a Igreja e permite a liberdade de culto. Institui o federalismo, o presidencialismo e o regime representativo. Nas disposições transitórias, determina que a própria Assembléia Constituinte se transforme em Congresso, com poder para eleger o primeiro presidente de forma indireta.

*Federalismo – O presidente é o chefe da nação e tem poderes para intervir nos Estados em caso de movimentos separatistas, invasão estrangeira ou conflitos com outras unidades da Federação. Os 20 Estados têm autonomia para elaborar sua Constituição, eleger governadores, realizar empréstimos no exterior, decretar impostos e formar suas próprias forças militares.

*Representação restrita – Os chefes do Executivo e os membros do Legislativo são eleitos diretamente. O voto não é secreto. Analfabetos, mulheres, soldados e menores de 18 anos não têm direito a voto – restrições que reduzem o eleitorado a cerca de 6% da população do país.

Governo Deodoro da Fonseca

O novo Congresso elege Deodoro da Fonseca para a Presidência sob pressão militar, em 25 de fevereiro de 1891. Para demonstrar sua insatisfação, os congressistas escolhem para vice-presidente o candidato da oposição, Floriano Peixoto, inimigo de Deodoro. Hostilizado pelo Congresso e sem o apoio de São Paulo e do PRP, Deodoro procura aproximar-se dos demais governos estaduais, sem resultado. Isolado, tenta um golpe de estado e a dissolução do Congresso, em 3 de novembro. Floriano Peixoto desencadeia um movimento legalista, apoiado pelo PRP, pela Marinha e Exército, obrigando Deodoro a renunciar ao cargo.

Governo Floriano Peixoto

As primeiras medidas de Floriano Peixoto ao assumir o governo, em 23 de novembro de 1891, são anular o decreto de dissolução do Congresso, assinado por Deodoro, e derrubar os governos estaduais que apoiaram a tentativa de golpe. Preocupado em garantir suas bases de sustentação, toma decisões de grande apelo popular: controla a especulação financeira, que vem provocando alta generalizada do custo de vida, e inaugura o tabelamento de preços no Brasil; fixa valores máximos para os gêneros alimentícios; e congela os preços dos aluguéis. Ao mesmo tempo, estimula a economia e apóia os interesses dos cafeicultores paulistas.

A oposição a Floriano reivindica a convocação de nova eleição presidencial. A Constituição prevê a realização de eleições para o caso de vacância dos cargos de presidente ou vice antes de decorridos dois anos de mandato. Ele argumenta que esse dispositivo só se aplicaria aos casos de eleitos por voto direto e não por eleição indireta, como ocorrera com o marechal Deodoro. Apoiado por setores populares e cafeicultores paulistas, consegue terminar seu mandato, mas enfrenta motins e rebeliões militares e civis em vários pontos do país. As mais importantes são a Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul, e a Revolta da Armada, no Rio de Janeiro. Trata seus opositores com grande violência e ganha o apelido de Marechal de Ferro.

A Constituição da República Oligárquica

Vimos anteriormente que a República tornou-se possível, em grande parte, graças à aliança entre militares e fazendeiros de café. Esses dois grupos tinham, entretanto, dois projetos distintos em relação à forma de organização do novo regime: os primeiros eram centralistas e os segundos, federalistas. Os militares não eram suficientemente poderosos para impor o seu projeto nem contavam com aliados que pudessem lhes dar o poder de que precisavam.

Os cafeicultores, ao contrário, contavam com um amplo arco de aliados potenciais e compunham, economicamente, o setor mais poderoso da sociedade. A partir de Prudente de Morais, que, em 1894, veio a suceder Floriano, o poder passou definitivamente para esses grandes fazendeiros. Mas foi com Campos Sales (1898-1902) que uma fórmula política duradoura de dominação foi finalmente elaborada: a "política dos governadores”.

A "política dos governadores"

Criada por Campos Sales (1898-1902), a "política dos governadores" consistia no seguinte: o presidente da República apoiava, com todos os meios ao seu alcance, os governadores estaduais e seus aliados (oligarquia estadual dominante) e, em troca, os governadores garantiriam a eleição, para o Congresso, dos candidatos oficiais. Desse modo, o poder Legislativo, constituído por deputados e senadores aliados do presidente - poder Executivo -, aprovava as leis de seu interesse. Estava afastado assim o conflito entre os dois poderes.

O fundamento do pacto oligárquico, envolvendo presidente da República, governadores estaduais, deputados, senadores e outros cargos públicos, era a troca de favores. O coronel manda no município, nomeia, arranja empregos para seus aliados; o governador não sofre oposição na Assembléia Legislativa, assim como o Presidente que tem todas suas iniciativas aprovadas pelo Congresso Nacional. A Política dos Governadores ocorreu em três níveis: no federal, o Presidente conta com o apoio dos deputados federais sendo ocasional a oposição; na esfera estadual, o governador, representante do sistema oligárquico estadual, atua sem oposição nas assembléias legislativas; e no plano municipal, o domínio é do coronel, o mandão local.

A Comissão de Verificação

As peças para o funcionamento da "política dos governadores" foram, basicamente, a Comissão de Verificação e o coronelismo. As eleições na República Velha não eram, como hoje, garantidas por uma justiça eleitoral. A aceitação dos resultados de um pleito era feita pelo poder Legislativo, através da Comissão de Verificação. Essa comissão, formada por deputados, é que oficializava os resultados das eleições.

O presidente da República podia, portanto, através do controle que tinha sobre a Comissão de Verificação, legalizar qualquer resultado que conviesse aos seus interesses, mesmo no caso de fraudes, que, aliás, não eram raras.


Coronelismo

Coronelismo, fenômeno político existente desde o período colonial e que se caracteriza pelo “mandonismo rural”, isto é, a força política dos proprietários territoriais. O controle político dos Estados pelas oligarquias contava com a participação importante dos "coronéis" geralmente um grande latifundiário. O título era originado da antiga Guarda Nacional, sendo o coronel o mandão do município ou da região. A importância dos coronéis estava no fato de que na época das eleições eles controlavam o eleitor para votar nos candidatos indicados pelo Partido Republicano. Era o chamado voto de cabresto onde o eleitor do interior, que dependia dos coronéis, votava no nome que lhe era indicado antes das eleições. Para o eleitor o voto rendia a "estima do patrão" e a desobediência podia resultar em punição muitas vezes violenta.

Os “coronéis” dominavam a política municipal, controlando as respectivas Câmaras e tinham seus representantes nas Assembléias Estaduais e na própria Câmara Federal. Com freqüência dominaram também os governos estaduais na Primeira República, conhecida como República Velha (1889-1930), especialmente no Nordeste.

Nessa sociedade agrária, os coronéis exibiam notável poder local.Tinham em suas fazendas muitos empregados, que recebiam salários miseráveis, e fornecedores de serviços (pedreiros, carpinteiros, veterinários etc.) que dependiam da sua contratação. Para sobreviver, esses trabalhadores dependiam dos “favores” do coronel: algum dinheiro extra, auxílio para educar os filhos, socorro na hora da doença etc.

Voto de cabresto

Em troca dos “favores”, o coronel exigia, por exemplo, que as pessoas votassem nos candidatos políticos por ele indicados (prefeito, governador, e presidente da república; vereador deputado e senador). Quem negasse apoio ao candidato do coronel perdia seus “favores” e, às vezes, ficava sujeito à violência dos jagunços ou capangas que trabalhavam na grande fazenda.

Cumprindo ordens do coronel, os jagunços controlavam o voto do eleitor. O voto dado sob pressão ficou conhecido como voto de cabresto.

Além do voto de cabresto, os coronéis ainda utilizavam fraudes para vencer as eleições. Documentos falsificados para menores e analfabetos votarem, pessoas mortas inscritas como eleitores, urnas violadas, votos adulterados e outras artimanhas eram feitas no pleito eleitoral.

As oligarquias estaduais organizaram uma rede de transmissão do poder, que abrangia desde o município até o governo federal. Nessa rede, o coronelismo desempenhava importante papel, costurando alianças em sua área de influência na base da troca de favores, do clientelismo e da corrupção.

Política do café com leite

Política do Café com leite, expressão usada para designar a atividade política do período da República Velha brasileira na qual o poder central era controlado por uma aliança entre as oligarquias de São Paulo, maior produtor de café do país, e Minas Gerais, maior criador de gado leiteiro. Essa aliança conduziu à presidência da República, alternadamente, representantes paulistas e mineiros, até 1930, quando o presidente Washington Luís, um paulista, indicou outro representante paulista para sucedê-lo, dando início a uma grave crise política que culminou com a Revolução de 1930.


Governo Prudente de Morais

É o primeiro presidente civil e também o primeiro eleito pelo voto direto. Assume em 15 de novembro de 1894 e governa até o final do mandato, em 15 de novembro de 1898. Dá início à chamada República das Oligarquias ou "política do café-com-leite" e enfrenta acirrada oposição dos "florianistas", partidários do ex-presidente. Consegue derrotar a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, mas enfrenta uma nova guerra no sertão baiano: a Guerra dos Canudos, na época considerada uma rebelião monarquista. Prudente de Morais faz seu sucessor, o também paulista e cafeicultor Campos Sales.

Em 5 de novembro de 1897 o presidente sofre um atentado no cais do porto do Rio de Janeiro. Um soldado florianista, Marcelino Bispo, tenta atingi-lo, e acaba matando o ministro da Guerra, marechal Carlos Bittencourt. O incidente dá pretexto para o Congresso decretar estado de sítio. Com poderes excepcionais, Prudente de Morais prende seus opositores, fecha jornais e acaba com qualquer manifestação política. Consolida assim a presença de civis no poder federal.

Governo Campos Sales

Representante da oligarquia cafeeira paulista e destacado membro do Partido Republicano Paulista (PRP), Campos Sales assume em 15 de novembro de 1898 e governa até o fim do mandato, em 15 de novembro de 1902. Encontra as finanças públicas depauperadas: as despesas do governo são exatamente o dobro da receita e a inflação é galopante – situação agravada pela queda dos preços do café no mercado internacional no início do século XX. Tenta combater a inflação e estabelece a primeira moratória da história da República.

Governo Rodrigues Alves

Conservador e ex-monarquista, Rodrigues Alves derrota Quintino Bocaiúva, um republicano histórico, nas eleições de 1902. Assume dia 15 de novembro e governa até o final do mandato, em 1906. Dá continuidade à política de valorização do café. Propõe-se a reurbanizar e sanear o Rio de Janeiro. Conduzidas de forma autoritária e sem o esclarecimento da opinião pública, essas campanhas provocam uma grande rebelião popular, a chamada Revolta do Mosquito ou da Vacina – argumento para uma tentativa de golpe militar. Durante seu governo, eclode também a chamada Questão do Acre, área de litígio entre o Brasil e a Bolívia.

Governo Afonso Pena

O mineiro Afonso Pena é o candidato das elites paulistas em aliança com José Gomes Pinheiro Machado, senador gaúcho que articula as bancadas dos pequenos Estados. Assume a Presidência em 15 de novembro de 1906 e morre antes de concluir o mandato, em 14 de junho de 1909. A base da aliança que o leva ao poder é a política de valorização do café. Em seu governo, é criada a Comissão do Café do Estado de São Paulo com o objetivo de controlar estoques e negociar preços. Ampliam-se as comunicações no país. Em 1907, a Amazônia é ligada por telégrafo ao Rio de Janeiro, graças ao trabalho desenvolvido pelo marechal Cândido Rondon. Em 1908 é aprovada a lei do serviço militar obrigatório.

Governo Nilo Peçanha

Vice-presidente na gestão de Afonso Pena, assume a Presidência em 14 de junho de 1909, após a morte do titular. Governa até 15 de novembro de 1910. Seu curto governo é ocupado por grandes disputas de poder entre as oligarquias mineira e paulista – a Campanha Civilista –, que, em alguns casos, chegam a enfrentamentos armados. A acelerada dizimação de tribos indígenas leva à criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 20 de julho de 1910, sob a direção do marechal Cândido Rondon.

Campanha Civilista

A disputa pela Presidência da República abre uma brecha na aliança entre as oligarquias paulista e mineira. O ministro da Fazenda do governo Afonso Pena, Davi Campista, é indicado pelos paulistas para a sucessão de Nilo Peçanha. A maioria do Partido Republicano Mineiro, no entanto, com a adesão da oligarquia gaúcha, escolhe como candidato o marechal Hermes da Fonseca, ministro da Guerra. Os paulistas desistem da candidatura de Campista, aliam-se aos coronéis baianos e lançam Rui Barbosa para a Presidência. Começa assim a Campanha Civilista: "O mais inteligente dos brasileiros", slogan da campanha dos paulistas, em oposição a um candidato militar. A maior parcela do eleitorado – Minas, Rio Grande do Sul e parte de São Paulo – é controlada por Hermes da Fonseca. Os civilistas tentam conseguir apoio popular, sem resultado, e perdem as eleições.

Governo Hermes da Fonseca

Assume a Presidência em 15 de novembro de 1910 e governa até o final do mandato, em 1914. Gaúcho, num cenário político dominado por paulistas e mineiros, o marechal Hermes da Fonseca distancia-se um pouco da política "café-com-leite". Dá início à chamada "política salvacionista", que recupera a importância direta dos militares na política: apóia intervenções militares nos governos estaduais. Seu objetivo é reduzir o domínio das oligarquias e moralizar a política. Na prática, porém, os militares apenas participam do jogo de poder local: aliam-se às facções oligárquicas que estão na oposição e as colocam no poder, em substituição às oligarquias situacionistas. Seu governo é marcado por revoltas militares, como a Revolta da Chibata, e por graves conflitos sociais, como a Guerra do Contestado e o Conflito de Juazeiro, encabeçado pelo Padre Cícero.

Governo Venceslau Brás

Venceslau Brás assume a Presidência em 15 de novembro de 1914 e governa até o fim do mandato, em 1918. Seu governo é marcado por grande agitação política interna e externa. A Primeira Guerra Mundial convulsiona a Europa, explode a primeira grande revolução socialista na Rússia e, no Brasil, o movimento operário surge como uma força organizada. O Código Civil Brasileiro é promulgado em 1916. No terreno da saúde pública, a gripe espanhola atinge a população de forma violenta. Em 1918, só em São Paulo, morrem 8 mil pessoas em apenas quatro dias. Rodrigues Alves, o presidente da República recém-eleito, é uma das vítimas da gripe. Na economia, dá continuidade à política de valorização do café. A guerra provoca queda das exportações e Venceslau Brás manda queimar 3 milhões de sacas de café, em junho de 1917, para evitar a baixa dos preços.

Governo Delfim Moreira

Eleito vice-presidente em 1º de março de 1918 na chapa encabeçada por Rodrigues Alves, toma posse como interino, em 15 de novembro, por causa do impedimento do presidente, contaminado pelo vírus da gripe espanhola. Com a morte de Rodrigues Alves em janeiro de 1919, assume a Presidência até a eleição de um novo presidente, em 28 de julho do mesmo ano. Em seu curto governo envia uma delegação para a Conferência de Paz em Versalhes e enfrenta greves operárias em Porto Alegre, Recife, Salvador, Curitiba e Niterói.

Governo Epitácio Pessoa

Assume a Presidência em 28 de julho de 1919 e governa até 15 de novembro de 1922. Seu governo é marcado por graves conflitos sociais e políticos que já antecipam a crise da Primeira República. Em outubro de 1919 enfrenta amplo movimento grevista em São Paulo. A polícia fecha o jornal operário A Plebe e expulsa do país seus redatores e mais cem militantes operários, todos imigrantes. Em 1929, decreta intervenção federal na Bahia devido aos choques entre os coronéis locais e políticos de oposição. Tropas federais ocupam Recife para conter conflitos entre as oligarquias durante eleições de 1922. Nomeia o historiador Pandiá Calógeras, um civil, para ocupar o Ministério da Guerra. Os militares se rebelam e, em julho de 1922, Epitácio Pessoa fecha o Clube Militar do Rio de Janeiro. Seu ato provoca o protesto de oficiais jovens e inaugura a participação dos tenentes na política do país.

Governo Artur Bernardes

Presidente da República entre 1922 e 1926, Artur Bernardes governa sob estado de sítio, interrompido apenas entre dezembro de 1923 e julho de 1924, como defesa contra o Tenentismo. Os conflitos sociais e políticos se intensificam. Em janeiro de 1923 explode uma rebelião no Rio Grande do Sul que contrapõe as oligarquias da região. No ano seguinte os tenentes rebelam-se em São Paulo e começa a Coluna Prestes, no Rio Grande do Sul. No plano social, o governo Artur Bernardes inaugura algumas vantagens trabalhistas, como as férias anuais obrigatórias, de 15 dias (lei 4.982), para empregados do comércio, indústrias e bancos, instituída em dezembro de 1925.

Governo Washington Luís

Washington Luís assume em 15 de novembro de 1926 e é deposto pela Revolução de 30. Governa num período em que as divisões internas das antigas oligarquias e a crise econômica de 1929 levam ao fim da Primeira República. A cisão da oligarquia paulista em liberais e republicanos conservadores consolida-se em 1926: uma dissidência do antigo PRP funda o Partido Democrático, de tendência liberal, com o apoio do jornal O Estado de S. Paulo. No mesmo ano, Getúlio Vargas, deputado federal pelo Rio Grande do Sul, é nomeado ministro da Fazenda e dá início à sua rápida ascensão ao poder. O mandato de Washington Luís também é marcado pela repressão aos movimentos populares e à crescente organização dos trabalhadores. Em 1927, promulga a chamada Lei Celerada, que permite a repressão a atividades políticas e sindicais. Em 1º de maio de 1929 é fundada a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT).

Rebeliões da Primeira República

Motins militares, rebeliões armadas, guerras civis e levantes populares são constantes em toda a Primeira República. Na fase de consolidação do novo regime explodem motins e levantes populares em vários pontos do país. A oposição congrega desde liberais radicais, que exigem maior democratização do Estado, até monarquistas – presentes na Revolta da Armada e na Revolução Federalista. Consolidado o regime, as rebeliões surgem das disputas entre as oligarquias regionais pelo controle do poder. Há levantes de setores populares marginalizados e fanatizados, como na Guerra dos Canudos e na do Contestado, ou, ainda, contra a violação de direitos civis e humanos, como a Revolta da Vacina. Nos anos 20, o movimento tenentista põe em cheque a própria estrutura do poder montada pelas oligarquias.

Revolta da Armada

A cúpula da Marinha rebela-se em 6 de setembro de 1893 e exige a deposição de Floriano Peixoto. A revolta é liderada pelo contra-almirante Custódio José de Melo e tem o apoio do almirante monarquista Luís Felipe Saldanha da Gama. Em 9 de fevereiro de 1894 as tropas rebeldes desembarcam em Niterói e tentam cercar a Capital. São derrotadas pelas forças legalistas. Saldanha da Gama e mais 525 revoltosos buscam asilo nos navios portugueses Mindelo e Afonso de Albuquerque, atracados na baía de Guanabara. O incidente provoca o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Portugal, reatadas apenas em 16 de março de 1895, já no governo de Prudente de Morais.

Revolução federalista

Em 15 de dezembro de 1893, durante o governo de Floriano Peixoto, eclode uma guerra civil no Rio Grande do Sul. É provocada pelo autoritarismo e excesso de centralização do presidente do Estado, Júlio de Castilhos, um republicano histórico que tem o apoio de Floriano e governa com mão-de-ferro. Os aliados de Castilhos são chamados de "pica-paus" ou "chimangos", herdeiros políticos dos liberais moderados, como o senador Pinheiro Machado que, desde o Império, comanda a política no Rio Grande do Sul. A oposição, os maragatos, é formada pelos federalistas adeptos do sistema parlamentar. São liderados por Gaspar da Silveira Martins, um ex-monarquista, por Gumercindo Saraiva e pelo general João Nunes da Silva Tavares. Os revoltosos têm o apoio da Marinha, rebelada contra Floriano e o movimento tem nítido caráter antigovernista. Os enfrentamentos armados duram dois anos. Em 10 de julho de 1895, no governo de Prudente de Morais, é feito um acordo de paz: o governo central garante o poder a Júlio de Castilhos e o Congresso anistia os participantes do movimento revolucionário.

Guerra de Canudos

Em 1893, no final do governo Floriano Peixoto, surge no sertão da Bahia um movimento messiânico, na época considerado monarquista, que se transforma em uma guerra civil. É liderado por um beato, figura comum no sertão nordestino na segunda metade do século XVIII. Os beatos aparecem em torno das várias casas de caridade fundadas pelo padre José Maria Ibiapina e administradas por ordens leigas. Antônio Vicente Mendes Maciel, o beato Antônio Conselheiro, começa a formar seu grupo de adeptos na casa de caridade de Bom Conselho, no sertão de Pernambuco. Mais tarde, funda a cidade de Belo Monte, no Arraial de Canudos, palco de um dos conflitos sociais mais sangrentos da Primeira República.

À margem do rio Vaza-barris, no sertão baiano, o Arraial de Canudos reúne quase 30 mil habitantes. Os romeiros plantam e criam rebanhos para consumo próprio e comércio com as cidades vizinhas. A comunidade prospera e começa a inquietar os grandes proprietários rurais da região e a Igreja. Para se defender, os fiéis de Antônio Conselheiro organizam-se em grupos armados. Entre novembro de 1896 e março de 1897, tropas federais fazem três investidas contra o arraial e são derrotadas. O fracasso assusta o governo e uma nova expedição é organizada em meados de 1897 com 8 mil soldados, algumas metralhadoras e dois canhões, sob o comando do general Artur Oscar Andrade Guimarães. Os combates começam em 25 de junho de 1897 e prolongam-se até 1º de outubro. As tropas do governo ocupam o povoado e matam Antônio Conselheiro. A luta continua até 5 de outubro, quando morrem os quatro últimos combatentes.

Revolta da Vacina

As políticas de saneamento e de reforma urbana promovidas no governo de Rodrigues Alves e conduzidas com violência revoltam a população pobre do Rio de Janeiro. Cortiços e casas populares são derrubados para permitir o alargamento das ruas e a construção de avenidas. A população é expulsa de suas casas e os aluguéis sobem absurdamente. A campanha de saneamento também é violenta: as casas da população pobre são invadidas e vasculhadas, os utensílios em condições precárias são inutilizados. A revolta explode em 9 de outubro de 1904, quando é aprovada a lei que torna a vacinação obrigatória. Repartições públicas são depredadas, lojas saqueadas e bondes incendiados. A população levanta barricadas em diversas ruas do Rio. A oposição procura usar a revolta para derrubar o governo: dia 13 de outubro a Escola Militar rebela-se. A reação do governo é imediata. Controla a rebelião popular e, no dia 16, forças legalistas ocupam a Escola Militar.

Revolta da Chibata

Em 22 de novembro de 1910, no início do governo Hermes da Fonseca, estoura a Revolta da Chibata no Rio de Janeiro. O estopim é o castigo de 250 chibatadas imposto ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes. Os couraçados São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Deodoro, ancorados na baía da Guanabara, se amotinam sob o comando do marinheiro João Cândido. O comandante do navio Minas Gerais, Batista Neves, e outros oficiais são mortos. Os revoltosos apontam os canhões dos navios para o Palácio do Catete, sede do governo, e fazem suas exigências: fim dos castigos corporais na Marinha e melhor alimentação. Ameaçado, o governo aceita as reivindicações dos marinheiros. Rui Barbosa, senador da República, apresenta no Congresso um projeto com esses pontos e mais a anistia para os revoltosos, desde que estes deponham as armas. Os marinheiros cumprem sua parte. O governo, no entanto, volta atrás e manda prender João Cândido e seus companheiros. Dois anos depois, eles são julgados e absolvidos.

Guerra do Contestado

Revolta de camponeses do planalto catarinense, a Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, chega a envolver cerca de 50 mil pessoas. A região do Contestado, rica em erva-mate e madeira, é uma área de litígio entre os Estados do Paraná e Santa Catarina. Tal como no Nordeste brasileiro, desenvolve-se ali um fanatismo religioso alimentado pelos "monges", os beatos locais. Os conflitos começam quando duas empresas norte-americanas, a Brazil Railway, construtora de estradas de ferro, e a Southern Brazil Lumber & Colonization, exploradora de madeira, se instalam na região, trazem para o Contestado uma mão-de-obra marginal e barata e começam a expulsar os posseiros e a especular com a terra. Em 1912 o "monge" José Maria torna-se uma liderança na região. Seus seguidores são romeiros de diversas localidades, a maioria expulsa de suas terras.

José Maria e seus seguidores instalam-se primeiro em Curitibanos, Santa Catarina. O monge prega o fim da República, chamando-a de "lei do diabo". São expulsos e vão deslocando-se pelo interior de Santa Catarina e Paraná, em combates constantes com as tropas do governo. José Maria morre em 1913. Os rebeldes montam uma nova cidade santa – Santa Maria –, palco da guerra. Em setembro de 1914, sob comando do general Setembrino de Carvalho, 7 mil soldados armados com modernos equipamentos militares, inclusive aviões, marcham para a região. Santa Maria cai em 3 de março de 1915 e a resistência só é aniquilada no ano seguinte. Em outubro de 1916 os Estados envolvidos fazem um acordo, fundam na região o município de Concórdia e o Contestado é reintegrado à ordem republicana.

Conflito de Juazeiro

Padre Cícero Romão Batista, líder religioso venerado por milhares de camponeses do sertão do Cariri, é o pivô desse conflito. Aliado dos coronéis cearenses, é eleito prefeito de Juazeiro em 1911. Organiza, então, o Pacto dos Coronéis: 17 chefes políticos da região fazem uma aliança para garantir a permanência da família Acioli no poder estadual. O presidente da República, Hermes da Fonseca, reage e nomeia o coronel Franco Rabelo para dirigir o Estado. A Assembléia Legislativa cearense não aceita a indicação e elege Floro Bartolomeu, mentor político do padre Cícero, para o governo. Os dois armam os sertanejos para garantir a decisão dos deputados. Hermes da Fonseca indica o general Setembrino de Carvalho como interventor do Ceará e força a renúncia do padre. Excomungado pela Igreja no final dos anos 20, padre Cícero permanece como eminência parda da política cearense por mais de uma década e até hoje é considerado um santo pelos sertanejos.

Movimentos tenentistas

O chamado Tenentismo nasce em 1922 entre a jovem oficialidade das Forças Armadas – capitães e tenentes – e estende-se até 1934. Tem a adesão de militares de patente superior e de civis das classes médias urbanas, insatisfeitos com um sistema que privilegia apenas as oligarquias estaduais, principalmente a do café. Propõe maior centralização do Estado, moralização dos costumes políticos e voto secreto. Os chamados tenentes não procuram incorporar as massas populares ao seu movimento. Realizam ações militares diretas, como o levante dos 18 do Forte de Copacabana, a Revolução Paulista de 1924 e a Coluna Prestes. Com a Revolução de 30, a maioria dos tenentes adere ao liberalismo político e uma minoria ingressa no Partido Comunista do Brasil (PCB). Em 1934 alguns líderes incorporam-se à Ação Integralista Brasileira e outros à Aliança Nacional Libertadora (ANL).

*Os 18 do Forte – Em julho de 1922, o presidente Epitácio Pessoa nomeia um civil, Pandiá Calógeras, para o Ministério da Guerra. A decisão provoca protestos dos militares. Epitácio fecha o Clube Militar e prende seu presidente. Na madrugada de 5 de julho há uma rebelião de jovens oficiais: sob o comando do capitão Euclides da Fonseca, 17 oficiais tomam o Forte de Copacabana. Enfrentam forte resistência das forças legalistas. O combate continua na rua e os oficiais dissidentes ganham o apoio de um grupo civil. A luta é desigual e termina com a morte de praticamente todos os revoltosos. Sobrevivem apenas os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Como resultado, é decretado estado de sítio no país, mantido durante quase todo o governo Epitácio Pessoa.

*Rebelião Paulista de 1924 – Em 5 de julho de 1924, a capital paulista é tomada por militares rebeldes chefiados pelos generais Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa e pelos tenentes Joaquim e Juarez Távora e Eduardo Gomes. Os revoltosos forçam a fuga do presidente do Estado e ocupam a cidade por 22 dias. Exigem a derrubada do presidente da República Artur Bernardes, eleição de uma Assembléia Constituinte e voto secreto. Tropas federais bombardeiam São Paulo e forçam a retirada dos rebeldes. No final de julho, eles seguem em direção ao Rio Grande do Sul, para se juntar ao movimento militar que começa a ser organizado pelo líder tenentista Luís Carlos Prestes.

*Coluna Prestes – Movimento militar desencadeado em outubro de 1924, no Rio Grande do Sul, liderado por Luís Carlos Prestes, do Batalhão de Engenharia de Santo Ângelo. No início são 900 rebeldes e parte deles é contida pelo governo federal. Uma Coluna consegue fugir ao cerco governista e ruma para São Paulo. Em abril de 1925 unem-se às tropas rebeldes paulistas derrotadas no ano anterior. Luís Carlos Prestes adota a idéia de uma guerra de movimento contra o governo, procurando desgastá-lo. Ocupam posições e cidades para, em seguida, abandoná-las. Mantêm, assim, a idéia de invencibilidade. Os rebeldes pregam reformas sociais e econômicas e repudiam qualquer acordo com as oligarquias.

*A rota da Coluna – A Coluna Prestes reúne cerca de 1.500 homens, dura 29 meses e percorrem mais de 25 mil km. Sai do Rio Grande do Sul, vai para São Paulo, entra no Paraguai e volta ao país. Atravessa Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Em fevereiro de 1927, com metade de seus componentes dizimados pela cólera e sem condições materiais de continuar, embrenha-se pela Bolívia e Paraguai. Mais tarde, Prestes aproxima-se do marxismo e transforma-se no principal líder comunista do país.

Política externa

Passado o período de reconhecimento da República, o Brasil enfrenta vários litígios de fronteira. O mais grave é a disputa pelo Acre com a Bolívia. Com sua economia centrada em produtos agrícolas de exportação, o país depende do mercado externo e sua política internacional tende a alinhar-se com a de seus principais compradores. Durante a Primeira Guerra Mundial alinha-se com os Estados Unidos e é o único país da América do Sul a participar do conflito.

Conflitos de fronteira

Os principais conflitos de fronteiras ocorrem no governo de Prudente de Morais. Desde o Império, o Brasil disputa com a Argentina o território das Missões, hoje integrado ao Rio Grande do Sul. Em 1895, o litígio é submetido ao presidente Cleveland, dos EUA, que dá parecer favorável ao Brasil. Em 1896, Brasil e Inglaterra entram em litígio pela posse da ilha de Trindade, no litoral do Espírito Santo, ocupada pelos ingleses em 1890. A arbitragem é feita por Portugal e o Brasil ganha a disputa. Em 1895, os franceses ocupam o Amapá e tentam anexá-lo. A questão é julgada pelo governo suíço, que dá a posse do território ao Brasil, em 1º de dezembro de 1900.

A questão do Acre

A exploração e prosperidade do comércio da borracha levam muitos brasileiros, principalmente nordestinos, à região do Acre, área que pertence à Bolívia desde 1867. Os brasileiros recusam-se a obedecer as autoridades bolivianas, criam um território independente e exigem sua anexação ao Brasil. Em 14 de julho de 1899, com apoio dos seringalistas e do governo do Amazonas, Luís Galvez Rodrigues de Arias proclama a República do Acre. Enfrenta as próprias forças armadas brasileiras, que ajudam os bolivianos a recuperar a região. Em 1901 a Bolívia arrenda o Acre ao The Bolivian Sindicate of New York City in North America.

Em 6 de agosto de 1902, no final do governo de Campos Sales, os brasileiros instalados no Acre se rebelam sob o comando de José Plácido de Castro: as forças bolivianas são expulsas em 24 de janeiro de 1903 e Castro é aclamado governador do Estado Independente do Acre. Em 17 de novembro de 1903, já no governo Rodrigues Alves, Brasil e Bolívia assinam o Tratado de Petrópolis: o Brasil compra a região por 2 milhões de libras esterlinas, compromete-se a construir a estrada de ferro Madeira-Mamoré e a indenizar o Bolivian Syndicate com 110 mil libras esterlinas. No ano seguinte o Acre é incorporado ao Brasil como território federal.

Presença na 1ª Guerra

O Brasil permanece neutro na Primeira Guerra Mundial até 1917. Os Estados Unidos pressionam o governo brasileiro para entrar no conflito e ameaçam suspender as importações do país. Em outubro de 1917, durante o governo de Venceslau Brás, submarinos alemães atacam navios brasileiros na costa de Santa Catarina. O episódio deflagra no país uma campanha pela participação na guerra comandada por Rui Barbosa. O governo brasileiro declara estado de beligerância contra a Alemanha e envia uma unidade médica e aviadores para cooperar com os ingleses no patrulhamento do Atlântico Sul. O Brasil é a única nação sul-americana a participar do conflito.

Economia na Primeira República

Durante a Primeira República, a economia brasileira permanece centrada na produção cafeeira, mas avança o processo de modernização e diversificação das atividades econômicas. No final do século XIX, os engenhos nordestinos modernizam-se com a instalação de usinas mecanizadas. No sul do país, as pequenas propriedades de colonização estrangeira aumentam sua participação no mercado interno e externo, com núcleos econômicos exportadores de charque e erva-mate. Na região Amazônica intensifica-se a exploração da borracha, valorizada pela nascente indústria automobilística. A indústria brasileira também cresce com capitais vindos da cafeicultura ou estrangeiros, e expandem-se os organismos de crédito. No início do século, empresas estrangeiras instaladas no país, como a anglo-canadense Light & Power e a norte-americana Bond and Share, ampliam os serviços urbanos de água, luz e transportes.

Política econômica

A valorização do café, a emissão de moedas e a inflação são as questões centrais da política econômica da Primeira República. A escassez de moeda, um problema que surge com a abolição da escravatura e com a imigração, torna-se aguda com o crescimento do trabalho assalariado no campo e na cidade. Em janeiro de 1890, Rui Barbosa, ministro da Fazenda do governo provisório de Deodoro da Fonseca, tenta resolver o problema adotando uma política emissionista, a primeira do país, chamada de encilhamento. Mais tarde, no governo de Campos Sales, a superprodução do café dá início à política de desvalorização da moeda nacional, num processo de socialização das perdas dos cafeicultores.

*Encilhamento – A política monetária de Rui Barbosa fica conhecida como encilhamento, uma alusão ao lugar do hipódromo onde são feitas as apostas nos cavalos. O país é dividido em quatro zonas – Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul – e um banco emissor é instalado em cada uma. Seu objetivo é atender às novas necessidades financeiras, expandir o crédito e estimular a criação de novas empresas nessas regiões. O resultado, porém, é desastroso. A emissão de moedas sem controle acelera a inflação, que chega aos 115%. Proliferam também as atividades especulativas: empresas fantasmas com grandes planos irrealizáveis supervalorizam suas ações na Bolsa de Valores em uma orgia especulativa que faz surgir grandes fortunas da noite para o dia.

*Desvalorização da moeda – No final do século XIX, a alta do preço do café no mercado internacional estimula a expansão da lavoura no país. O resultado é uma superprodução e, em conseqüência, a queda dos preços nos mercados consumidores. Em 1893 uma saca de 60 quilos vale 4,09 libras-ouro. Seis anos depois, em 1899, o preço cai para 1,48 libra-ouro. O governo intervém e desvaloriza seguidamente a moeda brasileira: embora o café renda menos em moeda estrangeira, esta pode comprar mais moeda nacional, garantindo os ingressos dos grandes produtores. O restante da nação, porém, precisa pagar mais pelas importações, há um aumento geral nos preços internos e no custo de vida.

*Dívida externa – Com a desvalorização da moeda, o governo fica sem condições de pagar os juros da dívida externa e é obrigado a contrair novos empréstimos para honrar os anteriores. O governo Campos Sales decreta a primeira moratória da dívida externa, o funding loan: os banqueiros avalizam um novo empréstimo de 10 milhões de libras, dão um prazo de 13 anos para o Brasil começar a saldar o grosso de suas dívidas e de 3 anos para pagar os juros devidos. Como garantia aos credores, o governo hipoteca a Central do Brasil e o serviço de água do Rio de Janeiro. Assume também uma política de deflação: corta despesas públicas, interrompe obras, demite funcionários, restringe o crédito e aumenta impostos.

*O café era o produto rei – O café brasileiro dominou o mercado mundial e os maiores consumidores eram os Estados Unidos e a Inglaterra. Essa situação estimulou os cafeicultores a expandirem as plantações e tinham a seu favor a abundância de terra e a mão-de-obra barata.

Devido ao grande volume na produção de café, houve, uma crise de superprodução e conseqüente queda de seu preço. Isso levou os cafeicultores assinarem com o governo, em 1906, o Convênio de Taubaté. Por esse acordo, o governo se comprometia a comprar o excedente da produção para estocar e esperar melhores preços no mercado. O preço do café voltou a subir e os altos lucros estimularam os cafeicultores a continuar investindo no café.

A longo prazo, os efeitos dessa política são desastrosos: a dívida externa e a inflação crescem ainda mais e a manutenção artificial dos preços estimula a produção nos países concorrentes do Brasil.

Diversificação das exportações

Em seus melhores momentos, o café representa 70% do total das exportações do país, mas outros produtos agrícolas ganham importância na pauta de exportações a partir do final do século XIX. Os principais são a borracha, nativa da Amazônia, e o cacau, plantado na Bahia. A explosão das vendas desses produtos promove um surto de progresso nessas regiões.

*Apogeu da borracha – Os preços do látex extraído das seringueiras da Amazônia (Hevea brasilienses) explodem com a invenção do pneumático e a expansão da indústria automobilística nos Estados Unidos. A produção brasileira cresce rapidamente e, em 1907, a borracha já é responsável por 23% do valor das exportações brasileiras. O recorde ocorre em 1912, quando são exportadas 42 mil toneladas de borracha. A partir de 1910, no entanto, holandeses e ingleses desenvolvem plantações planejadas e com grande produtividade na Indonésia, Ceilão e Malásia. Em 1919 a borracha asiática já inunda o mercado internacional: das 423 mil toneladas comercializadas, apenas 34 mil toneladas são brasileiras. A produção da Amazônia definha e toda a região entra em decadência.

*Cultivo do cacau – No final do século XIX a demanda européia e norte-americana pelo cacau torna seu plantio lucrativo. O cultivo desenvolve-se na região de Ilhéus, no sul da Bahia, onde o solo e o clima são ideais, há terras virgens em abundância e mão-de-obra barata. A produção atinge seu pico em 1900, quando o Brasil vende 13 mil toneladas de cacau e firma-se como o maior exportador mundial. Nos anos seguintes, os ingleses instalados na Costa do Ouro, África, passam a dominar o mercado.

Industrialização

A riqueza acumulada com o café dinamiza o mercado consumidor e estimula o desenvolvimento industrial. Em 1910 o Brasil possui cerca de 3.500 indústrias. Dez anos mais tarde já são 13 mil estabelecimentos industriais. Destes, 5.936 surgem entre 1915 e 1919, em conseqüência das dificuldades de importação durante a Segunda Guerra e da política de incentivo à industrialização dos governos republicanos. Em 1924, o país produz 99% dos sapatos consumidos internamente, 90% dos móveis e 86% dos têxteis. A indústria de alimentação é a que mais cresce nas primeiras décadas da República e chega a representar 40% dos estabelecimentos industriais do país.

No início do século XX o capital estrangeiro amplia sua presença no Brasil, principalmente o norte-americano. A indústria da carne é dominada pelos frigoríficos Wilson, Armour, Swift e Anglo; os vagões ferroviários são feitos pela fábrica norte-americana Pullman e os automóveis que circulam no país são da Ford ou da General Motors. Na siderurgia, os franceses e belgas tomam a dianteira com a Companhia Belgo-Mineira. Dos 14 bancos existentes em 1910, sete são estrangeiros.

Crise de 1929

A quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, tem reflexos desastrosos sobre a economia brasileira. Os preços internacionais do café despencam e os créditos para o país são cortados. O governo fica sem condições de manter a política de valorização do café e a situação é agravada pela produção recorde do ano: 30 milhões de sacas. Inúmeros fazendeiros vão à ruína e multiplicam-se as falências no comércio e na indústria. O governo faz crescentes emissões de moeda, política que agrava ainda mais a crise do país e enfraquece a hegemonia das burguesias paulista e mineira.

Sociedade na Primeira República

No final do Império e Primeira República, a sociedade brasileira fica mais diversificada. Além da elite dominante, representada pela burguesia rural e urbana, as classes médias aparecem com força no cenário político. Surge também um proletariado urbano influenciado pelas tradições políticas anarquistas e socialistas trazidas pelos imigrantes europeus.

*Classes sociais – A burguesia é formada pelos representantes da lavoura tradicional e ex-escravocrata, como os do Vale do Paraíba; pelos cafeicultores modernos que empregam trabalho assalariado, como os do oeste de São Paulo; por banqueiros e grandes comerciantes ligados à exportação e à importação, e pelos grandes e pequenos industriais. As classes médias urbanas incluem os imigrantes que se dedicam ao pequeno comércio e ao artesanato; os militares, os profissionais liberais e os altos funcionários públicos. O proletariado inclui funcionários públicos do baixo escalão, trabalhadores assalariados rurais e urbanos, e uma grande maioria de ex-escravos desempregados ou que trabalham como biscateiros.

*Presença do imigrante – Entre 1889 e 1928 entram no país 3.523.591 imigrantes. Mais de um terço são italianos, seguidos pelos portugueses, espanhóis, alemães e japoneses. A maior parte vai para a lavoura do café. Muitos, porém, de origem urbana, abandonam o campo e dedicam-se ao comércio ou à indústria, como assalariados ou donos de seus próprios negócios.

*Movimento operário Em uma sociedade que acabara de sair da escravidão, a nascente classe operária enfrenta condições de trabalho adversas. Os salários são muito baixos, não existe legislação trabalhista e os sindicatos recém-formados não são reconhecidos. Os trabalhadoresnão contam com aviso prévio em casos de demissão, não têm direito a férias, a aposentadoria ou a qualquer tipo de seguro contra acidentes. A jornada de trabalho diária chega a 15 horas. A greve é encarada como crime e caso de polícia. Em 1889 há 54 mil operários no país, localizados principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em 1920 eles já são 275.512, a maioria imigrantes italianos e espanhóis, responsáveis pela difusão das idéias anarquistas e socialistas no país.

*Anarquismo – O anarquismo chega ao Brasil com os imigrantes europeus e, durante boa parte da Primeira República, é a ideologia predominante no movimento operário. Os anarquistas defendem a organização sindical autônoma para todas as categorias profissionais como forma de os operários reunirem forças para negociar com os patrões. Eles se opõem radicalmente ao Estado, à Igreja e à propriedade privada e pregam a completa extinção dessas instituições. Também são contrários a qualquer atuação político-partidária e aí reside sua principal diferença com os socialistas e comunistas. A influência anarquista sobre o movimento operário brasileiro diminui quando o Estado começa a criar mecanismos legais de proteção ao trabalhador.

*Primeiras organizações – Sem mecanismos formais de participação política, a classe operária começa a se organizar para ampliar seus direitos trabalhistas. No final do século XIX surgem as primeiras ligas operárias que, mais tarde, transformam-se em sindicatos. Em 1890 é fundado o Partido Operário e, em 1902, o Partido Socialista Brasileiro e o jornal operário Avanti. A primeira associação de caráter nacional é a Confederação Operária, fundada em 1908. Dois anos mais tarde a Confederação realiza o primeiro Congresso Operário no país. Entre 1908 e 1909 e de 1913 a 1915 a Confederação Operária edita o jornal A Voz do Trabalhador. No dia 1º de maio de 1929 é fundada a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT).

*Greve Geral de 1917 – O ano de 1917 é marcado por uma série de pequenas greves que culminam com uma greve geral, realizada em São Paulo, entre os dias 12 e 15 de julho. Participam 45 mil trabalhadores e é a maior paralisação operária realizada no país até 1930. Exigem um reajuste salarial de 20% e forçam o governo paulista a atender a algumas de suas reivindicações: fiscalização dos preços no varejo, liberdade para os operários presos e não punição aos grevistas. O acordo é feito por meio de um comitê de conciliação integrado por jornalistas da grande imprensa da época. Greves por melhores salários e garantias trabalhistas proliferam durante toda a década de 20.

*Conquistas operárias – Em 1918 a Câmara dos Deputados cria a Comissão de Legislação Social com o objetivo de propor leis de proteção aos trabalhadores. Em 24 de dezembro de 1925 entra em vigor a lei 4.982 que institui 15 dias de férias anuais para trabalhadores do comércio, da indústria e dos bancos.

*Fundação do PCB – Em 1922 é formado o Partido Comunista do Brasil (PCB), uma influência direta da Revolução Socialista Soviética de 1917. Nos dois anos iniciais, as idéias anarquistas são preponderantes entre seus militantes. O partido só é aceito na 3ª Internacional – organização internacional dos comunistas – em 1923, com a expulsão dos anarquistas. Essa filiação dá pretexto para o governo brasileiro perseguir os comunistas: a sede do partido é invadida e destruída e, em 1924, o governo decreta sua ilegalidade.

*Bloco Operário-camponês – Os militantes comunistas, os anarquistas, os socialistas e ativistas independentes fundam o Bloco Operário-camponês (BOC), uma frente política de atuação pública. O BOC defende bandeiras como o voto secreto, redução do custo de vida, anistia para presos políticos e o combate às oligarquias e ao imperialismo. Nas eleições de 1928 elege alguns deputados e vereadores e, em 1930, lança candidato próprio à Presidência: o marmorista e vereador Minervino de Oliveira. Seu desempenho eleitoral é inexpressivo.

Cultura na Primeira República

Obras literárias inspiradas na realidade brasileira, como as de Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato, surgem nos primeiros anos da República. Mas é a partir da Primeira Guerra Mundial que a produção cultural do país adquire maior pujança e originalidade. Na Europa, o pós-guerra é acompanhado por um movimento de renovação artística. Surge uma nova estética e as chamadas "vanguardas" ganham espaço na literatura, na música e nas artes plásticas. Os artistas brasileiros, principalmente os mais jovens, também são tocados pelo espírito renovador. Acompanham o que acontece fora do país mas querem produzir uma arte original, oposta aos padrões europeus – tendência que desemboca na Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em fevereiro de 1922.

Modernismo brasileiro

Em 1917 a pintora Anita Malfatti promove em São Pauloa primeira exposição de arte moderna do país. Sua pintura provoca verdadeiro escândalo e choca a intelectualidade da época. Monteiro Lobato, por exemplo, escritor e crítico literário respeitado, critica a exposição perguntando se a obra da artista é mistificação ou manifestação de paranóia. No mesmo ano, Oswald de Andrade escreve o romance Memórias sentimentais de João Miramar, só publicado em 1924. Ambos estarão entre os fundadores do modernismo, movimento que revela uma geração de novos artistas. Nas artes plásticas, destacam-se Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Ismael Néri e Cândido Portinari. Na escultura, Vitor Brecheret. Na música, Villa-Lobos e, na literatura, Mário de Andrade e Manuel Bandeira.

*Literatura modernista – A produção modernista inova na forma, na linguagem e na temática escolhida. Os poetas e prosadores deixam de "macaquear a sintaxe lusíada", como afirma Manuel Bandeira, e procuram se expressar como brasileiros. Retomam os temas do indianismo, mas renegam todas as idealizações românticas. É assim com Macunaíma, "o herói sem nenhum caráter" de Mário de Andrade. No movimento da Antropofagia lançado por Oswald de Andrade, o escritor propõe a deglutição de todas as influências estrangeiras para que se possa criar uma arte verdadeiramente brasileira.

Crise na Primeira República

A superprodução cafeeira e a política de valorização do café levam a uma crise econômica. A queda da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, acentua a crise. Surgem brechas nos acordos políticos entre as oligarquias que controlam o Estado desde o início da República. Nas eleições de 1930 os paulistas desafiam a tradicional política do café-com-leite. Decidem permanecer no controle do governo central, quando a vez seria dos mineiros. O presidente Washington Luís, um paulista, indica outro paulista, Júlio Prestes, como candidato à sua sucessão.

*Aliança Liberal – Minas Gerais passa para a oposição e alia-se ao Rio Grande do Sul e à Paraíba. Os três Estados formam a Aliança Liberal que, além das elites agrárias, também aglutina militares e setores das classes médias urbanas. O gaúcho Getúlio Vargas é escolhido para concorrer à Presidência, tendo como vice o paraibano João Pessoa. A campanha eleitoral mobiliza todo o país. Júlio Prestes é eleito presidente em 1º de março de 1930, mas não chega a assumir o cargo. Em outubro, estoura a Revolução de 1930, que leva Getúlio Vargas ao poder.

Revolução de 1930

João Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, é assassinado em 26 de julho de 1930. O crime precipita a Revolução. No dia 3 de outubro, o movimento estoura em Porto Alegre, sob a liderança civil de Getúlio Vargas. O comando militar fica com o coronel Góis Monteiro, o mesmo que em 1922 e 1924 lutara contra o Tenentismo. Os revolucionários dominam rapidamente o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e o Nordeste. Os legalistas tentam organizar a resistência em São Paulo, Bahia, Pará e Rio de Janeiro, sem resultados. Na madrugada de 24 de outubro os chefes militares rebeldes intimam Washington Luís a deixar a Presidência e o poder é assumido por uma junta militar. Dez dias depois, em 3 de novembro de 1930, a junta transfere o poder para Vargas.

3 comentários:

ShevChenko_PK disse...

muito bom valeu obg

Each has merits that Rachel (: disse...

EXCELENTE BLOG! Parabéns.

Unknown disse...

Professor, obrigado pelo artigo sobre a Velha Republica e pelo Blog. Faço considerações sobre o Ciclo da Borracha. Se o Ciclo alcança sua maior produção em 1912 não era para apenas em dois anos ter quebradeira. Foi a borracha da Asia ou o Governo brasileira que impediu durante a I Guerra a exportação? Estranho também é a valorizção do café que nunca foi igual com relação a borracha. Depois da derrocada, o capital financeiro daqui de Manaus se mandou pra SP, não teria sido uma manobra pra tirar o capital daqui e aí surge a "lenda da Asia"?. Se puder me dê um retorno, obrigado. Marçal